sábado, 15 de julho de 2017

Situando a poesia de Adélia Prado (III)


Já reli O feijão e o sonho não sei quantas vezes, desde os meus 13, 14 anos. Nas primeiras leituras, tomava inteiramente o partido de Maria Rosa e só muito mais tarde, adulto bem mais velho, consegui comover-me um pouco com a figura de Campos Lara, "aquele pobre lutador a seu modo" ¹.

Como se sabe, o despretensioso livrinho de Orígenes Lessa, publicado pela primeira vez em 1938, tem como protagonista um poeta - "um inadaptado, um incapaz para a vida prática" - que não consegue estabelecer-se como escritor. Suas outras ocupações, mal remuneradas ou precárias (mestre-escola, jornalista), não rendiam o suficiente para sustentar a família, o que ocasionava constantes desentendimentos com a esposa: "Maria Rosa não era uma inimiga. Maria Rosa era o outro lado da vida. O lado em que não daria coisa nenhuma, em que ele sempre fracassaria. O duro. O difícil. O sem cadência nem rima. O do seu permanente naufrágio. O lado onde jamais deveria ter ingressado".

Mas após trinta anos de insistência - tendo, contudo, abandonado a poesia, pois "verso não dava lucro" - Campos Lara "tornara-se o grande romancista do país. Tinha um grande nome nacional". E tanta dedicação rendeu a ele uma modestíssima sinecura: um cargo de "amanuense de uma secretaria de Estado", pelo qual recebia "pouco mais do que um empregado de escritório".

O fato é que finalmente "chegara ao clímax da sua carreira. Todas as consagrações literárias o haviam coroado. As academias o disputavam. Os jornais. As revistas". Mas à glória atingida (que não significou nenhuma recompensa financeira de monta) seguiu-se "a demolição". Acompanhemos a passagem seguinte (ajudará muito no tema principal da postagem de hoje):

"[...] Uma turba irreverente, trinta anos mais moça, procurava lugar ao sol. Feita de outros sonhos, de outras tendências, de outras inquietações. Devorada por outros problemas. Buscando o seu rumo. Procurando afirmar-se.

E na ânsia de ocupar lugar, de encher a terra, não podia tolerar os velhos ídolos. Campos Lara fizera-se um ídolo. Campos Lara tornou-se um papão. Sua voz nada significava, reboava sem eco pelas quebradas do país.

A princípio, foi apenas a incompreensão, a perda de contato. Depois foi preciso destruir.

E um dia uma voz moça, um nome desconhecido, abriu fogo. Escândalo. Revolta. Mais outra voz. E mais outra. Eram os devoradores. Era a nova geração. A que seria a seu tempo devorada.

E a palavra de ordem dos moços passou a ser a destruição de Campos Lara! Escarneciam da sua obra, zombavam do seu feitio, ridicularizavam a sua atitude, a filosofia, a forma, os cacoetes literários".

Tenho insistido, desde a primeira postagem desta série sobre Adélia Prado, que a escritora mineira é a grande poeta brasileira viva (não sou só eu, muita gente acha o mesmo - Elisa Lucinda, por exemplo). A avaliação que faço, contudo, é menos um enaltecimento (afinal, desnecessário) da obra de Prado (pois evidências de sua consagração não têm faltado) do que um modo de estabelecer um ponto referencial a partir do qual venho tentando transitar no variegado e multiforme mundo da poesia brasileira contemporânea nos últimos anos ².

E o que o "caso" de Campos Lara tem a ver com isso?

Tal como o personagem de Orígenes Lessa (mas sem passar por caminho tão acidentado), Adélia Prado virou "um nome nacional"; chegou, acredito, à condição de "ídolo". Mas terá ela se tornado uma "papona", aquele tipo de autor contra quem seus "concorrentes" - ou seja, os outros poetas - precisam abrir fogo, escarnecer "de sua obra, [zombar] do seu feitio, [ridicularizar] a sua atitude, a filosofia, a forma, os cacoetes literários"?

Antes, porém, de tentar responder esse questionamento, gostaria de falar um pouco sobre um poema de Adélia Prado - chamado Sítio ³ - do qual gosto muito.

. . . . . . .

SÍTIO

Igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus para pra beber água,
rela um no outro os chifres
e espevita seus cheiros
que eu reconheço e gosto,
a modo de um cachorro.
É minha raça, estou
em casa como no meu quarto.
Igreja é a casamata de nós.
Tudo lá fica seguro e doce,
tudo é ombro a ombro buscando a porta estreita.
Lá as coisas dilacerantes sentam-se
ao lado deste humaníssimo fato
que é fazer flores de papel
e nos admiramos como tudo é crível.
Está cheia de sinais, palavra,
cofre e chave, nave e teto aspergidos
contra vento e loucura.
Lá me guardo, lá espreito
a lâmpada que me espreita, adoro
o que me subjuga a nuca como a um boi.
Lá sou corajoso
e canto com meu lábio rachado:
glória no mais alto dos céus
a Deus que de fato é espírito
e não tem corpo, mas tem
o olho no meio de um triângulo
donde vê todas as coisas,
até os pensamentos futuros.
Lugar sagrado, eletricidade
que eu passeio sem medo.
Se eu pisar,
o amor de Deus me mata.

Sítio pertence ao livro Bagagem, o primeiro publicado pela autora. Um dos principais traços da poética de Adélia Prado, o despojamento (melhor seria falar em despojo - ou seja, a retirada de enfeites, ou de ornamentos considerados supérfluos) salta aos olhos desde a primeira sequência de versos (é possível notar também um certo eco roseano):

"Igreja é o melhor lugar.
Lá o gado de Deus para pra beber água,
rela um no outro os chifres
e espevita seus cheiros
que eu reconheço e gosto,
a modo de um cachorro".

Prestemos um pouco mais de atenção nesta outra passagem:

"Lá as coisas dilacerantes sentam-se
ao lado deste humaníssimo fato
que é fazer flores de papel
e nos admiramos como tudo é crível".

A professora e pesquisadora Rita Olivieri (a quem também citamos na postagem anterior) afirma que essa "voz poética, embora sabendo-se finita e imersa na rotina do cotidiano, anseia por transcendência". As simultâneas superposições entre o imanente e o transcendente acabam conduzindo muitos dos textos de Prado a "um modo de articulação da linguagem que favorece a aproximação entre o prosaico e o poético". A barafunda metafísica da religião e seus mitos - "as coisas dilacerantes" - convivem numa boa com o ato inteiramente mundano de "fazer flores de papel". E como observou o crítico literário (e também poeta) Augusto Massi , "os poemas de Adélia Prado alcançaram um perfeito equilíbrio entre a graça e a gravidade". 

Talvez seja importante a essa altura deixar registrado um pequeno esclarecimento. Se você que está lendo este texto (aliás, agradeço imensamente) por acaso já visitou o Besta Quadrada noutras oportunidades (agradeço mais ainda), possivelmente sabe que o blogueiro é ateu. Não seria estranho, portanto, que este dedique seu tempo à leitura de uma escritora capaz de escrever, na abertura de um outro poema seu, "Quem me socorre é Deus e toda corte celeste/com seus anjos e santos" e faz da divindade um de seus temas centrais?

Numa entrevista ao programa Roda Viva, em 2014 (disponível aqui), Adélia Prado disse algo que me auxilia nessa resposta:

"Se eu fosse ateia ou agnóstica faria poesia do mesmo jeito [...]. É um dom, uma graça, não é nenhum mérito meu. Mas eu faria outra poesia. Não é a fé que [me] faz fazer poesia. A fé é constitutiva da minha experiência humana; então, necessariamente, ela aparece na minha poesia".

Parafraseando-a, eu diria: não é a descrença (na religião, na sobrenaturalidade ou nalguma divindade) que determina meus interesses literários. O ateísmo é constitutivo da minha experiência humana; então, necessariamente, às vezes não consigo deixar de falar e escrever sobre isso. O que não me impede de apreciar a poesia de Adélia Prado.

Agora, é oportuno notar na fala da poeta reproduzida acima, o seguinte trecho: "[Fazer poesia] é um dom, uma graça, não é nenhum mérito meu". Entretanto, caso ela fosse ateia, nada disso faria sentido - pois ateus não acreditam em dom ou graça divina. O importante aqui, porém, é a declaração: "não é nenhum mérito meu".

Uai (como se diz aqui em Minas Gerais), se é assim, pra que serviria o poeta (no caso, a poeta) então?

Nossa discussão, portanto, deve agora seguir noutra direção e encaminhar-se para seu encerramento.

. . . . . . .

No poema A formalística, do livro A faca no peito (publicado em 1988), Adélia Prado escreveu:

"O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
                 que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
                    o efeito respeitoso que produz
                                 seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas".

Ao mencionar a pedra, não tenho qualquer dúvida de que o "ataque" fora dirigido a João Cabral de Melo Neto. Em diversas oportunidades, Prado defendeu a noção de inspiração num sentido não muito diferente daquele do senso comum: uma espécie de "sopro criador" - sobrenatural até - que acomete o sujeito e leva-o a escrever. Ela opõe-se ao poeta cerebral (Melo Neto não acreditava em inspiração) - pelo menos no sentido em que cerebral é empregado no poema mencionado logo acima (no cerebral, supostamente, não caberia a emoção). Como vimos anteriormente, ela acredita que a poesia deriva de um dom, uma graça. Ela não tem mérito algum na feitura dos poemas.

Entretanto, na entrevista ao programa Roda Viva citada acima, a escritora diz:

"[...] O poema vem cheio de gordura, de sangue, de tudo quanto há, eivado das coisas que aquela emoção está produzindo, mas isso não é arte ainda. É uma coisa bruta. Aí você escreve [ou seja, livra-se da "gordura" e do "sangue"].

Ora, essa "depuração", essa "limpeza" realizada pela poeta no momento da escrita é, indubitavelmente, pensada, muito provavelmente motivada por determinada intencionalidade.

É bem possível que a autora não concordasse com o que acabei de escrever. Noutra entrevista ao mesmo programa Roda Viva, desta vez em 1994 (transcrição disponível aqui), perguntou-se a Prado se ela achava que o intencional é ruim. Sua resposta:

"Em arte, sim; o intencional é na filosofia. Eu faço um ensaio, eu argumento, eu faço uma tese, maravilhoso, adoro ler ensaios. Mas é outro espaço, é outra categoria. A arte não vem da razão, ela não vem da lógica, ela vem do espírito".

Pessoalmente, acho isso pouco palatável. Claro que poesia e filosofia - para ficar no exemplo dado pela escritora - são instâncias discursivas distintas. Mas dizer que a arte provém apenas do "espírito" e não passa pela mediação do pensamento não me parece corresponder à realidade do trabalho literário. Quando uma escritora como Adélia Prado fala em tirar a "gordura" e o "sangue" com os quais os poemas, segundo ela, vêm ao mundo, outra coisa não faz do que afirmar a ação intencional, pensada (logo cerebral, a seu modo) do poeta. Certamente não com a mesma obstinação arquitetônica de João Cabral de Melo Neto, mas ainda assim... Gosto sempre de lembrar daquela passagem memorável do Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira :

"Mas ao mesmo tempo compreendi [quando tomou consciência de que seria um "poeta menor"], ainda antes de conhecer a lição de Mallarmé, que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia".

Ou seja, a inspiração - seja ela um "sopro criador", uma "graça", um forte sentimento ou uma ideia obsedante - tem lá sua relevância, mas o poeta é antes de mais nada um artista das palavras. E ao resolver combiná-las, associá-las, organizá-las de um jeito - e não de outro - o faz de forma deliberada, refletida. Do contrário, bastaria, para fazer poemas, que alguém dotado de uma espécie de mediunidade literária mantivesse contato com a poesia e psicografasse o que lhe fora ditado...

. . . . . . . 

Desnecessário dizer que, apesar da consagração e da relativa popularidade, Adélia Prado não é unanimidade. Ainda assim acho importante colocá-la no posto de a grande poeta brasileira viva.

Essa "entronização" talvez seja equivocada, artificial ou simplesmente fátua.

Acho, porém, que ela tem pelo menos uma valia: fornece um bom alvo, bem delimitado, no qual outros(as) poetas podem "abrir fogo" (lembram-se do caso do Campos Lara lá no início da postagem?). Respeitosamente, claro.

Ao atentar para atitude, as formas prediletas, os "cacoetes literários", o feitio de certos textos, a filosofia que subjaz a obra de grandes poetas (e Adélia Prado, não tenho dúvida, está entre estes) - mesmo que seja para escarnecer e zombar (como talvez façam muitos de seus "concorrentes") - é uma forma de aprendizado, até para o exercício da própria escrita. E, embora compreendendo que muitos consideram isso meio forçado e antiquado, penso que nada é melhor para prestarmos atenção na obra de grandes artistas do que colocá-los num pedestal - mesmo que venhamos a desancá-los depois.

. . . . . . .

A postagem, mais uma vez, ficou imensa. E mesmo assim deixei de abordar dois temas que havia prometido tratar hoje: o ato de ler poesia atualmente, além de enumerar algumas considerações sobre poesia contemporânea. Vai ficar para depois.

Contudo, não posso, antes do encerramento, deixar de comentar algo que me incomoda muito em Adélia Prado. Não em sua obra, mas em alguns de seus posicionamentos como figura pública que é.

Sendo tão aferradamente católica, é de se esperar que a escritora adote uma visão de mundo conservadora. Até aí, tudo bem. Porém, a meu ver, Prado, nalguns pontos, chega a ser reacionária. Basta conferir algumas de suas observações nas entrevistas que citei ao longo desta série e o(a) eventual leitor(a) verá que não estou exagerando. Ficarei apenas em três exemplos.

Na entrevista ao jornal O Globo, numa pergunta sobre aborto, a escritora diz que o princípio do "meu corpo, minhas regras" - caro ao feminismo - não passa de "uma empáfia, militância, cunha para extrair variadas vantagens".

Na sua segunda participação no Roda Viva, em 2014, afirmou que "vivíamos numa ditadura, não numa democracia",  declaração sem respaldo na realidade, mas que ia ao encontro do interesse da produção do programa, que, como se sabe, opunha-se ferozmente ao governo da ex-presidente eleita Dilma Rousseff. Não custa lembrar que a TV Cultura, responsável pelo Roda Viva, é administrada pelo governo de São Paulo, nas mãos do PSDB há décadas. O mesmo Roda Viva organizou aquela vergonhosa entrevista com Michel Temer, da qual só participaram jornalistas "brandos" com o político - para dizer o mínimo - e na qual Ricardo Noblat fez aquela patética - e já antológica - pergunta sobre como Temer conhecera a esposa, Marcela. É difícil imaginar que uma pessoa com a inteligência de Adélia Prado não soubesse que estava sendo usada para espicaçar uma adversária dos controladores da emissora em ano de eleição.

E, por fim, a poeta já afirmou que o ato criativo pertence ao masculino e que "o papel do feminino é o papel do segundo lugar, é o do segundo, é o do serviço, do anonimato mais perfeito", como se pode encontrar na sua primeira participação no Roda Viva. Confesso que tenho dificuldade para compreender isso.

Faço essas observações para lembrar (como já fiz antes aqui no blog ao escrever sobre Monteiro Lobato, Lima Barreto e Ferreira Gullar) que não se deve idealizar demais os(as) grandes artistas, mesmo aqueles(as) a quem admiramos.

__________
¹ LESSA, Orígenes. O feijão e o sonho. São Paulo: Ática, 1983

² Há poucos anos tentei encetar uma série de postagens aqui no Besta Quadrada - intitulada Poesia: questão de tudo ou nada - justamente para discutir, entre outros temas, a poesia contemporânea. Acabei não concluindo a série. Talvez retome-a um dia. Ou, a partir dos mesmos temas, opte por escrever algo diferente. Vou pensar.

³ PRADO, Adélia. Poesia reunida. São Paulo: Siciliano, 1991 (todos os poemas e excertos citados nesta postagem provieram dessa reunião da obra da poeta)

⁴ OLIVIERI, Rita. Poesia e oralidade na obra de Adélia Prado. Sitientibus, Feira de Santana, n. 13, p. 121-126, jul-dez. 1995. Disponível em <http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/13/poesia_e_oralidade_na_obra_de_adelia_prado.pdf>. Acesso em 25/06/2017

⁵ O ensaio Móbile para Adélia, de Augusto Massi, serve de posfácio para a última edição da Poesia reunida de Prado, publicada em 2015, agora pela editora Record.

⁶ BANDEIRA, Manuel. Itinerário de Pasárgada. In: ________. Seleta de Prosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 295-360

BG de Hoje

Devo admitir que nunca tinha ouvido falar em ELLEN OLÉRIA até poucos meses atrás, quando a vi no comando do (ótimo) programa Estação Plural, da TV Brasil. Soube depois que ela foi vencedora numa atração musical da Rede Globo. Fui ouvir então algumas de suas apresentações. Chapei na hora! Espetacular! Confira na faixa Testando, composição da própria artista brasiliense.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Situando a poesia de Adélia Prado (II)




Numa breve entrevista publicada um tempinho atrás no jornal O Globo (disponível aqui), quando perguntada como recebera a nova edição de sua Poesia reunida (já que a autora não ficou contente da primeira vez ¹), Adélia Prado respondeu:

"A primeira coisa que uma obra completa me lembra é: somos mortais. Um copo de plástico dura mais que a mais longa vida. Diferentemente de 1991, quando esperneei um pouco, recebo agora a edição sem estridências ², feliz e agradecida. Tem ainda um atenuante joia a meu favor, dois poemas novos. Assim escapo. Fica mais difícil me tornar veterana. Espero morrer caloura, como sempre me vejo".

A poeta pode olhar para si como caloura. Nós, entretanto, não precisamos fazer o mesmo. Desde 1975-76, quando Bagagem veio a público, Prado foi consolidando, paulatinamente, uma obra vigorosa. E embora outros(as) autores(as) me interessem mais, (o que não quer dizer que não a aprecio), considero-a, atualmente, a grande poeta viva da literatura brasileira, sobretudo por ser a mais popular -, como venho defendendo desde a postagem anterior ³.

Ainda em virtude da nova publicação da Poesia reunida, a Folha de S. Paulo produziu uma pequena matéria que apresentava outra breve entrevista com Adélia Prado (disponível aqui). Lembrou-se na matéria que, em 2000, a poeta dissera ao jornal paulistano que "toda pessoa deveria receber uma homenagem em vida", quando foi tema de um dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, acrescentando em seguida: "Poucas coisas são tão incômodas, mas nada melhor para ver o próprio tamanho".

O crítico literário, poeta e professor da USP Augusto Massi, no ensaio Móbile para Adélia (disponível aqui), afirma que

"Hoje, Adélia faz parte da paisagem literária. Sua fortuna crítica não para de crescer, quase ultrapassou uma centena de teses universitárias, ganhou os palcos e rompeu as fronteiras da língua. Encontra-se editada em inglês, italiano, espanhol, e poemas avulsos foram traduzidos para o alemão, francês, polonês e chinês".

Tais informações, mais do que a função meramente laudatória, balizam um pouco o "tamanho" da escritora.

Onde residiria a força de seus textos?

Rita Olivieri (hoje Olivieri-Godet), professora da Université de Rennes 2 e autora de uma tese de doutorado intitulada Mística e erotismo na poesia de Adélia Prado, acredita que a poeta realiza escolhas estilísticas cujo resultado é "uma linguagem que alia a simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência" . Segundo Olivieri, "Adélia Prado debruça-se sobre o vivido, transformando-o em matéria poética. Sua poesia desentranhada do quotidiano, centrada nas miudezas do dia-a-dia, extrapola os limites do seu espaço mineiro, abrindo-o para o mundo".  

Tentemos ilustrar isso tudo lendo O alfabeto no parque , um dos poemas de Adélia Prado de que mais gosto. Esse texto faz parte do livro Terra de Santa Cruz, terceiro publicado pela autora (lançado originalmente em 1981) e que, de acordo com Augusto Massi, forma a "santíssima trindade do seu modo poético", junto com os anteriores - Bagagem (1976) e O coração disparado (1978).


O ALFABETO NO PARQUE

Eu sei escrever.
Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
composição escolar narrando o belo passeio
à fazenda de vovó que nunca existiu
porque ela era pobre como Jó.
Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
quero ser feliz, isto é amarelo.
E não consigo, isto é dor.
Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
pessoas dizendo entre soluços:
'não aguento mais'.
Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções 
                                                       miraculosas.
Imagine que uma dita roda-gigante
propicia passeios e vertigens entre
luzes, música, namorados em êxtase.
Como é bom! De um lado os rapazes.
Do outro as moças, eu louca pra casar
e dormir com meu marido no quartinho
de uma casa antiga com soalho de tábua.
Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio.
Levas tudo a peito, diz minha mãe,
dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.
A mãe não sabe, cinema é como dizia o avô:
'cinema é gente passando.
Viu uma vez, viu todas'.
Com perdão da palavra, quero cair na vida.
Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde...
Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa.

Os cinco primeiros versos estão "centrados na miudeza do dia-a-dia"; descrevem ações triviais, familiares - uma maneira da poeta atrair e capturar o leitor ressabiado. Quando este chega à sexta linha - "Mas escrevo também coisas inexplicáveis" - bum! já está envolvido com o texto. Adélia Prado quase sempre confere a seus poemas uma aparência de espontaneidade: como nota Rita Olivieri, trata-se de uma "espontaneidade fabricada", graças a opção da poeta pelo "estilo simples, anti-retórico".

O nono verso exibe-nos uma faceta conhecida de seu eu-lírico (pelo menos nessa fase da autora): a recusa em ser triste. Lembremos, por exemplo, o final de poemas como Atávica ("Por prazer da tristeza eu vivo alegre") e Momento ("[...] A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser"), ambos do livro Bagagem. Ou ainda Cinzas ("O que escrevi, escrevi/porque estava alegre") e Códigos ("Quero estar cheia de dor mas não quero a tristeza"), textos, nesse caso, incluídos em O coração disparado. Entretanto, como veremos logo adiante, a partir do livro Terra de Santa Cruz, isso começa a mudar um pouco.

E chegamos a meu trecho favorito de O alfabeto no parque:

"Moro num lugar chamado globo terrestre
onde se chora mais
que o volume das águas denominadas mar,
para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.
Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
Aqui se é feliz, no meio de invenções 
                                                       miraculosas.

Nota-se, de imediato, nessa passagem, a "extrapolação do limite do espaço mineiro" e "a abertura para o mundo",  como mencionara acima Rita Olivieri: o eu-lírico percebe-se habitante de um "lugar chamado globo terrestre" e não mais apenas de Divinópolis, cidade natal de Adélia Prado e onde a artista vive até hoje. E esse lugar, o planeta como um todo, não é habitualmente o lugar da alegria: passa-se fome nele, há ódio e incontáveis lágrimas. E por falar nestas, é quase inevitável - em se tratando de uma poeta tão aferradamente católica como Prado -  não vir à mente do leitor aquela concepção cristã do mundo, do plano terreno, como um vale de lágrimas (que geralmente remete seus fiéis ao célebre Vale de Baca, do Salmo 84, ou, com mais frequência ao Evangelho de João, capítulo 16, versículo 33, quando Jesus avisa a seus seguidores que estes terão "tribulações" na terra, mas que é preciso ânimo, pois ele, Jesus, vencera o mundo).

Mas aqui também se é feliz, diz a poeta, "no meio de invenções/miraculosas". O adjetivo miraculosas, afastado da margem, é bem significativo. Invenções são coisas humanas. Mas - e não nos esqueçamos, falamos aqui de uma escritora profundamente religiosa -, não existiriam sem uma intervenção divina na ordem natural, sem um milagre.

Ao escrever que "aqui se passa fome/aqui se odeia", a poeta vai assumindo sua porção mais crítica, que desembocará em poemas de forte conteúdo político, como alguns dos que integram a seção Catequese do livro Terra de Santa Cruz. E a recusa em ser triste de que falávamos passa a ser mais difícil.

No verso 18, o eu-lírico volta a descrever trivialidades, até chegar em

"Não há como não pensar na morte,
entre tantas delícias, querer ser eterno.
Sou alegre e sou triste, meio a meio".

Como vimos anteriormente, a professora Rita Olivieri destaca que Prado exercita "uma linguagem que alia a simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência". E é isso o que o trecho acima ilustra. Entre as delícias (música e diversão no parque, casais de namorados felizes, sonhos de matrimônio), inevitável não pensar na morte. Mas - e isso é importantíssimo - a morte. aqui, não é pura negatividade: é através dela que se pode atingir a dimensão da eternidade (e, quem sabe, prolongar as delícias). A perspectiva da vida eterna é crucial aqui. Como é no poema Porfia, publicado no livro anterior:

"Inventou-se o ferro de brasa
por causa da Vida Eterna.
Senão, pra que vincar o terno,
se todo fim é madeira carcomida,
ossos tão limpos que dispensam nojo?
Pela mesma razão,
os metafísicos armam seus solilóquios,
os governantes bons governam com justiça,
o meu decote é fundo".

Da simplicidade dos acontecimentos do quotidiano à gravidade da reflexão sobre o sentido da existência.

O alfabeto no parque retoma, em seguida, a cotidianidade, narra um cena caseira, até chegar a seu belíssimo fechamento, de difícil decifração:

"Assim escrevo: tarde. Não a palavra.
A coisa".

. . . . . . . 

Acredito que o(a) eventual leitor(a), caso não tenha familiaridade com a poesia de Adélia Prado, pode pelo menos ter uma ideia das virtudes de sua escrita.

Ainda tenho muito para falar - não só sobre os poemas dessa autora (não analisei Sítio, como avisara que faria hoje na postagem anterior), mas também devo tratar de uma questão que deixei em aberto na semana passada sobre o ato de ler poesia atualmente, bem como gostaria de discutir outros aspectos da figura pública que é Adélia Prado, aspectos apenas tangenciais à sua obra, mas dos quais acho importante falar, além de fazer algumas considerações sobre poesia brasileira contemporânea.

Entretanto, como esta postagem já está quilométrica, deixarei para a semana que vem.

____________
¹ A primeira reunião da obra poética de Adélia Prado foi publicada em 1991, pela extinta editora Siciliano. Em 2015, a editora Record lançou um novo volume da Poesia reunida (para marcar os 40 anos de carreira e os 80 anos de idade da escritora), incluindo os poemas dos livros Oráculos de maio, A duração do dia e Miserere, publicados após 1991. Na época da primeira edição da Poesia reunida, Prado ficou um pouco incomodada, pois a publicação pareceu-lhe uma "homenagem póstuma". 

² Essa declaração me lembra o poema Trégua, do livro Bagagem:

"Hoje estou velha como quero ficar.
Sem nenhuma estridência.
Dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá".

³ A propósito, logo na introdução da dissertação de mestrado de Ana Lúcia Moret (Tradição e modernidade na obra de Adélia Prado), a pesquisadora, ressaltando como se deu o "ingresso" da escritora nos círculos literários brasileiros, escreve:

   "Impossível ficar indiferente a tal apresentação [feita por Carlos Drummond de Andrade, numa crônica publicada no Jornal do Brasil], sobretudo se ela parte de um poeta tão querido e respeitado. Isso talvez explique, em parte, a popularidade de Adélia Prado junto aos diversos setores da nossa sociedade - público leitor, editores, jornalistas, intelectuais. Seus leitores têm a impressão de que a escritora mineira penetra no mercado já consagrada, para o que também contribui o discurso da crítica, que sempre procurou reforçar o aspecto inovador e universalizante de sua poética".
     Ana Lúcia Moret também observou que, em 1991, Prado alcançou a marca de 100 mil exemplares de livros vendidos, "números pouco comuns para a boa poesia no mercado brasileiro". (MORET, Ana Lúcia. Tradição e modernidade na obra de Adélia Prado. 1993. Dissertação (Mestrado) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Estadual de Campinas, 1993. Disponível em <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/269889>. Acesso em: 27/06/2017.

Esse ensaio serviu como posfácio na edição da Poesia reunida de Adélia Prado publicada em 2015 pela editora Record.

OLIVIERI, Rita. Poesia e oralidade na obra de Adélia Prado. Sitientibus, Feira de Santana, n. 13, p. 121-126, jul-dez. 1995. Disponível em <http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/13/poesia_e_oralidade_na_obra_de_adelia_prado.pdf>. Acesso em 25/06/2017

Os poemas de Adélia Prado citados ou reproduzidos nesta postagem foram extraídos de sua Poesia reunida, mas no volume publicado em 1991 pela editora Siciliano.

⁷ No poema Cinzas (do livro O coração disparado), a poeta já escrevera:

"Este vale é de lágrimas.
Se disser de outra forma, mentirei."

BG de Hoje

Na postagem anterior eu falei sobre o talento poético dos letristas brasileiros. Um dos melhores, atualmente, é CARLOS RENNÓ, cujas parcerias incluem músicos como Lenine (com o qual compôs a belíssima Todas elas juntas num só ser), Chico César, Arrigo Barnabé, Gilberto Gil, Rita Lee, entre outros (vale lembrar que Rennó é autor da letra do mega-sucesso Escrito nas estrelas, gravado por Tetê Espíndola nos anos 1980). Em , um xote interpretado pela cantora paulistana MARIANA AYDAR (filha do Mário Manga, não custa mencionar, integrante do cultuado grupo Premeditando o Breque), Carlos Rennó fez parceria com Roberta Sá e Pedro Luís (que também gravou a faixa num disco solo)