quarta-feira, 22 de março de 2017

Um novo enfoque sobre a história do Brasil


Não é comum que eu saia logo lendo um livro que acabei de comprar. O habitual é que ele fique sobre uma pilha, junto com outros, ou aguardando na estante por alguns meses (alguns anos até, dependendo do caso). Não é que eu não queira lê-lo (se assim fosse, qual motivo para comprá-lo?); é simplesmente porque, em geral, já estava envolvido com outro(s) livro(s) antes da nova aquisição.

Brasil: uma biografia (Editora Companhia das Letras, 2015) foi, contudo, um destes a "furar a fila" na ordem de leituras do blogueiro. Comprei-o há algumas semanas, mas soube da publicação no ano passado e logo me interessei, sobretudo porque foi elaborado por duas intelectuais a quem respeito muito: as historiadoras Heloisa Murgel Starling, também cientista política e professora aqui, na UFMG, e Lilia Moritz Schwarcz, também antropóloga e professora na USP. De Starling, conhecia o trabalho Lembranças do Brasil: teoria, política, história e ficção em Grande Sertão:Veredas, através do qual consegui alcançar outro entendimento da obra de Guimarães Rosa, indo além do literário. De Schwarcz, já li A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à independência do Brasil (em colaboração com Paulo César de Azevedo e Angela Marques da Costa), excelente para se compreender o papel histórico que uma biblioteca pode desempenhar ¹, além do divertido D. João Carioca, em parceria com o cartunista Spacca. Aprecio muito também sua coluna no jornal Nexo.

Heloisa e Lilia propõem, em Brasil: uma biografia,

"uma história que ambiciona ser mestiça como de muitas maneiras são os brasileiros: apresenta respostas múltiplas e por vezes ambivalentes sobre o país; não se apoia em datas e eventos selecionados pela tradição; seu traçado não se pretende apenas objetivo ou nitidamente evolutivo, uma vez que carrega um tempo híbrido capaz de agenciar diversas formas de memória",

Ainda na Introdução de seu livro, as autoras ressaltam que a principal questão a permear a narrativa será "a nossa difícil e tortuosa construção da cidadania", questão esta diretamente ligada à escravidão e seus desdobramentos. Vamos pensar, por exemplo, no caso da abolição por meio da Lei Áurea. Apesar de acabar (pelo menos do ponto de vista jurídico) com uma das mais odiosas formas de exploração/opressão já existentes, "atos como esse, não poucas vezes, vinham seguidos de reveses políticos e sociais, os quais começavam a desenhar um projeto de cidadania inconclusa, uma república de valores falhados [...]". Mas as consequências do escravismo não param por aí. Segundo Schwarcz e Starling "uma determinação cultural profunda" insere-se em nosso itinerário como nação: a violência.

"Como se fosse um verdadeiro nó nacional, a violência está encravada na mais remota história do Brasil, país cuja vida social foi marcada pela escravidão. Fruto da nossa herança escravocrata, a trama dessa violência é comum a toda a sociedade, se espalhou pelo território nacional e foi assim naturalizada. Se a escravidão ficou no passado, sua história continua a se escrever no presente. A experiência de violência e dor se repõe, resiste e se dispersa na trajetória do Brasil moderno, estilhaçada em milhares de modalidades de manifestação".

É como se a república que nascera após o período escravocrata tivesse gerado cidadãos de primeira classe e cidadãos de segunda (às vezes, terceira ou quarta) classe. Como observam as historiadoras, "[...] não há como esquecer também os tantos processos de exclusão social. Eles se expressam nos acessos ainda diferentes a ganhos estruturais no lazer, no emprego, na saúde e nas taxas de nascimento, ou mesmo nas intimidações e batidas cotidianas da polícia, mestra nesse tipo de linguagem da cor".

Brasil: uma biografia também problematiza a ideia de que o país é a terra da harmonia, da concórdia. Recuperando o pensamento de Sérgio Buarque de Holanda, Schwarcz e Starling afirmam que

"o país foi sempre marcado pela precedência dos afetos e do imediatismo emocional sobre a rigorosa impessoalidade dos princípios que organizam usualmente a vida dos cidadãos nas mais diversas nações. 'Daremos ao mundo o homem cordial', dizia Holanda, não como forma de celebração, antes lamentando a nossa difícil entrada na modernidade e refletindo criticamente sobre ela. Do latim 'cor, cordis' deriva-se 'cordial', palavra que pertence ao plano semântico vinculado a 'coração' e ao suposto de que, no Brasil, tudo passa pela esfera da intimidade (aqui, até os santos são chamados no diminutivo), num impressionante descompromisso com a ideia de bem público e numa clara aversão às esferas de poder. O pior é que mesmo Holanda foi reprovado pela ideologia do senso comum. Sua noção de 'cordial', na visão popular, tem sido castigada pelo juízo invertido. Foi reafirmada como um libelo das nossa relações cordiais, sim, mas cordiais no sentido de harmoniosas, sempre receptivas e contrárias à violência, em vez de ser entendida a partir de seu sentido crítico - a nossa dificuldade de acionar as instâncias públicas". 

Isso, claro, vai ao encontro de uma certa representação de país que muitos aqui gostam de cultivar, apesar de não se verificar empiricamente: aquela imagem de "um país avesso ao radicalismo e parceiro do espírito pacífico, por mais que inúmeras rebeliões, revoltas e manifestações invadam nossa história de ponta a ponta. Somos e não somos, sendo a ambiguidade mais produtiva do que um punhado de imagens oficiais congeladas".

O livo é composto de 18 capítulos e convida o leitor - citando Hannah Arendt - a aprender a "treinar a imaginação para sair em visita", um modo de se evitar que o texto fique preso a uma perspectiva linear simplificadora.


"Longe da imagem do país pacífico e cordato, ou da alentada democracia racial, a história que aqui se vai contar descreve as vicissitudes dessa nação que, sendo profundamente misturada, acomodou junto - e ao mesmo tempo - uma hierarquia rígida, condicionada por valores partilhados internamente, como um idioma social. Visto desse ângulo, e conforme provocava Tom Jobim, o país 'não é pra principiantes' e precisa mesmo de uma boa tradução".

Já avancei pelos dois primeiros capítulos. Mas é o tipo de livro que lerei bem aos pouquinhos. Claro, junto com outros que já estava lendo.

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¹ Este trecho de A longa viagem da biblioteca dos reis demostra bem o que estou dizendo: "Esse local labiríntico é, entretanto, e acima de tudo, uma instituição, onde se desenham desígnios intelectuais, realizam-se políticas de conservação, elaboram-se modelos de recolha de textos e de imagens. Mais do que um edifício com prateleiras, uma biblioteca representa uma coleção de seu projeto. Afinal, qualquer acervo não só traz embutida uma concepção implícita de cultura e saber, como desempenha diferentes funções, dependendo da sociedade em que se insere.
     Nesse sentido, as bibliotecas do Ocidente, além de cumprir um importante papel na história do pensamento, apontaram limites da tradição, evidenciaram a organização de escolas e revelaram divisões internas e conflitos. Talvez por isso mesmo tenham se convertido, muitas vezes, em instrumentos de poder. Quer por meio da influência espiritual da Igreja, quer em nome da força temporal do rei, dos príncipes, da aristocracia, da nação ou da República, o fato é que as bibliotecas se transformaram, facilmente, em moeda de prestígio e geram concorrência entre aqueles que detêm seu controle".


BG de Hoje

O talentosíssimo cantor e compositor belo-horizontino PEDRO MORAIS, com O amanhã