quinta-feira, 16 de março de 2017

Lygia Bojunga: há 45 anos "fabricando tijolos" e maravilhando leitores (II)


 "No dia em que optei por literatura eu me prometi que ia escrever do meu jeito e não mais do jeito-que-tem-que-dar-audiência".


Lygia Bojunga - Pra você que me lê (incluído como posfácio numa das edições do livro O Meu Amigo Pintor)

Prosseguindo com nossas observações acerca da obra de Lygia Bojunga, retomemos os dois pontos que deixamos em aberto na postagem anterior:

1) Comecemos nos perguntando o que pode ter levado a autora, na entrevista mencionada no texto da semana passada, a dizer que só a partir de seu terceiro ou quarto livro sua escrita começa a ser literatura? Talvez não o fosse antes, nos livros intencionalmente escritos para criança? Essas perguntas remetem-me a um depoimento - lindo, lindo - feito pelo falecido Bartolomeu Campos Queirós e publicado no final dos anos 1990 ¹.

O autor de Indez e Ler, escrever e fazer conta de cabeça começa falando de sua infância, de seus primeiros contatos com o texto impresso e das suas motivações para escrever: "Percebi que só há dois lugares para se falar da gente. Na literatura ou no divã do analista. De outra maneira vira fofoca". A certa altura, Queirós - geralmente identificado como escritor de literatura infantojuvenil - afirma:

"Não escrevo 'para' crianças. Minha limitação é maior que o mundo e não possuo a ousadia - ou coragem -, ao chegar em casa, de puxar a cadeira e dizer: 'Vou escrever mais uma história para as criancinhas'. [...] Se meu texto é eleito pela criança, sinto-me realizado pelo que há de honesto na infância [...] A arte, e no caso a literatura, é para criar desequilíbrio, buscar outro prumo, e não botar pano quente em inquietações mornas. Daí eu não estar interessado em escrever aquilo que as crianças querem. Isso não acrescentaria nada em termos de intuição poética. Espantam-me as pessoas capazes de traçar cânones, normas, ensinando como construir um texto para os pequenos - muito diálogo, muita ação, frases curtas, sem esquecer do humor. Nada de tristezas. Se sabem tanto como deve ser o livro, desconhecem o processo de criação literária. Deviam escrever e não ficar perdendo tempo em dar ideias. É muito sacrifício".

Junto com o desabafo direcionado a determinados editores e estudiosos do assunto, Bartolomeu Campos Queirós nega ter em mente um "leitor-criança-ideal" quando cria. Outros autores, cujos livros costumam ser colocados na prateleira da literatura infantil, fazem o mesmo - penso, por exemplo, em Ricardo Azevedo. E, claro, também em Lygia Bojunga. Então, por que diabos gostamos de contrariar os escritores pespegando o carimbo "LITERATURA INFANTIL (OU JUVENIL)" no que fazem?

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Existe ou não existe essa coisa chamada literatura infanto-juvenil? Não acho uma pergunta tola; muita gente, entendida no assunto, argumenta que não há razão para, a priori, delimitar que A foi feito para criança (ou adolescente) e B não.  Pessoalmente, defendo a existência desse domínio literário. Acredito que, na maioria dos casos, os autores e autoras estabelecem, de antemão, o destinatário imaginado de seu texto. As escolhas de vocabulário, a organização sintática dos períodos, a extensão da narrativa e até mesmo a temática (algumas vezes) revelam que a narrativa (ou poema, peça teatral, etc.) visava um receptor menos "treinado" que o adulto. A criança - e mesmo o adolescente - são, em relação ao idioma, usuários em construção. Suas performances linguísticas - falando, escrevendo ou lendo - demonstram esse processo. Quem escreve profissionalmente não desconhece isso.

Tenho para mim, porém, que alguns escritores e escritoras talvez ressintam-se um pouco quando se diz que seu trabalho é literatura infanto-juvenil - como se o adjetivo infanto-juvenil fosse depreciativo. Talvez julguem uma área sem prestígio já que a universidade e grande parte da crítica literária não se voltam muito para a produção que tem a criança e o jovem como destinatários principais.

Por ser um setor relativamente mais rentável e aparentemente - sabemos que não é - mais "fácil" para se produzir, os livros infantis e juvenis tornaram-se um filão no qual muitos oportunistas, escritores e escritoras sem talento algum, tentam se dar bem. Em meio a centenas e centenas de lançamentos anuais, às vezes é difícil destacar o que realmente vale ser lido. Nesse aspecto, as unidades de educação básica poderiam desempenhar um importante papel como agências de incremento da leitura, indicando a seus estudantes - e explorando em seu dia-a-dia - as obras mais significativas. Entretanto, o que tenho testemunhado é uma subordinação dessas instituições aos ditames do mercado - como já acontece na política, cultura e noutras esferas da sociedade. Vejo nas bibliotecas escolares exemplares e mais exemplares do Diário de um banana, livros-que-viraram-blockbusters-hollywoodianos (e vice-versa), frivolidades de Thalita Rebouças e outras nulidades tão ou mais comercialmente apelativas.

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2) Desde de 1972 - portanto há 45 anos - Lygia Bojunga tem construído uma obra extraordinária, classifiquemo-la como infanto-juvenil ou não, pouco importa agora. O que importa é que esse conjunto de textos precisa ser celebrado - e, principalmente, lido, lido, lido... Afinal, poucos escritores brasileiros foram tão reconhecidos, inclusive através de premiações. Bojunga, acho, é a autora mais laureada em seu segmento (contando também as vezes em que foi "altamente recomendável") pela FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil -; venceu três vezes o Jabuti e, em 1982 - não esqueçamos -, recebeu a medalha Hans Christian Andersen, considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil (foi a primeira latino-americana a ganhá-la e, até hoje, só outra representante brasileira mereceu-a: Ana Maria Machado, premiada em 2000).

Por falar nessa medalha, na ocasião do recebimento do prêmio, Lygia escreveu um pequeno - porém, sublime - texto, intitulado Livro - a troca, traduzido e divulgado em mais de 60 países. Nele a escritora fala sobre sua relação com o objeto-livro, desde a infância, na condição de leitora, até o momento presente, quando, depois de "pegar intimidade com as palavras", converte-se em escritora.

Os livros deram a ela "casa e comida". Aqueles objetos ajudavam-na a brincar de construtora:

"livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado.

E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro".

Com o passar do tempo e a imaginação alimentada pelos livros, vem a decisão "de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra – em algum lugar – uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar".

O desejo de escrever e o ofício de escritora são temas muito presentes na obra de Lygia Bojunga. Lembremos, por exemplo, que, em A bolsa amarela, uma das vontades da menina Raquel - a que permanece com ela -  é a de ser escritora. Lembremos também do conto A troca e a tarefa (que, de algum modo, me faz recordar um conto de outra Lygia, a Fagundes Telles, chamado Verde lagarto amarelo), em que o trabalho da personagem roça o terreno do sobrenatural: "Cada um tem uma tarefa na vida. A tua é escrever 27 livros. Na hora em que botar o ponto final no vigésimo sétimo livro, a tua tarefa vai estar acabada e a tua vida vai terminar" ². Isso sem falar nos títulos Livro - um encontro, Fazendo Ana Paz e Paisagem, que compõem a chamada trilogia do livro.

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No ano em que completa 85 anos de idade e 45 anos de carreira literária, tinha ainda tanto a escrever com o objetivo de homenagear essa grande escritora! Falar sobre o modo como os artistas são representados em seus livros, sobre sua consciência de que o escritor profissional deve e merece ser valorizado (leia-se remunerado) adequadamente pelo seu trabalho, sobre algumas peculiaridades estilísticas que dão a seu texto uma feição tão cativante, sobre o quanto a fase cinzenta de sua literatura deveria ser mais conhecida pelo público familiarizado apenas com a fase luminosa, sobre o quanto gosto do livro Tchau....

Combinamos o seguinte: cada um desses pontos será retomado ao longo deste ano. Prometo.

Ah, recomendo uma visita ao site da escritora: http://www.casalygiabojunga.com.br/pt/index.html

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¹ QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. Menino temporão. In: PAULINO, Graça (Org.). O jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Dimensão, 1997. p. 41-43

² BOJUNGA, Lygia. A troca e a tarefa. In: ______. Tchau. 19 ed. Rio de Janeiro: Casa Lygia Bojunga, 2009. p. 87-112


BG de Hoje

Pra que discutir com madame, maravilhosa composição de Janet de Almeida e Haroldo Barbosa, foi interpretada por muita gente: Luiz Melodia, Elza Soares, Diogo Nogueira, Teresa Cristina... A gravação mais conhecida, certamente, é a de João Gilberto. Não sou fã do cantor e violonista baiano (OK, podem me apedrejar), por isso opto pela versão de sua conterrânea, ROSA PASSOS.