sexta-feira, 22 de março de 2013

O Eu na era digital: qual o futuro da vida privada? (II)



"Sem abandonar o fértil terreno da intimidade, porém, as tiranias atuais esquecem os pudores para ultrapassar aqueles muros que antes protegiam o âmbito privado. Estende-se, assim, a colcha de retalhos de confissões multimídia, costurada com uma multidão de pequenos falatórios e imagens cotidianas, até cobrir todos os recantos do antigo âmbito público. E é provável que chegue até mesmo a asfixiá-lo sob seu peso tão uniforme como pertinaz".

Paula Sibilia - O show do eu

 
Em O show do eu: a intimidade como espetáculo* (e isso é importante) é possível perceber que a autora não coloca o leitor-alvo de seu livro (e, provavelmente, nem ela própria) fora de toda a gigantesca onda de hipertrofia e exposição do eu testemunhadas cotidianamente. De um modo ou de outro, todos nós, conectados à Internet e usuários da rede mundial de computadores, participamos desse show, variando, contudo, o grau de comprometimento e intensidade  com que cada indivíduo se apresenta. Portanto, posar de mocinho nessa história - ou seja, apenas invectivar tuíteiros contumazes e maníacos pelo Facebook, sem, no entanto, reconhecer-se como uma das peças da engrenagem que faz funcionar o que já foi chamado de web 2.0 - é falso moralismo.

É preciso salientar também que o livro foi publicado em 2008. Como a era digital é caracterizada por rápidas mudanças, há apenas cinco anos o cenário das redes socias era bem diferente do atual (o Orkut, por exemplo, era popularíssimo). A autora também dá muita atenção aos blogs (que, hoje em dia, foram jogados pra escanteio). Como pretendo, numa outra oportunidade, analisar os blogs sob a ótica dos gêneros textuais, deixarei as observações da antropóloga argentina sobre esse tema para mais adiante.

Reclama-se (inclusive este blogueiro) da invasão da vida privada (e íntima) a espaços considerados públicos. Paula Sibilia nos lembra, todavia, que as noções de privacidade e intimidade têm uma história recente, consolidando-se nos séculos XVIII e XIX, nas sociedades urbanas e industriais, graças aos modelos de família e de habitação burgueses. Essas condições proporcionaram o aparecimento de uma propensão, por parte das pessoas, a desabafar, a produzir confissões (muitas vezes registradas em diários, não destinados à leitura de terceiros). O que vemos na atualidade? Com a facilidade de acesso às ferramentas de publicação de texto e imagem na web, qualquer um pode expor sua vida privada para quem quiser ver (e até para quem não quiser). Se aceitarmos a Internet como espaço público, não é difícil imaginar que tal exposição, quando beira a inconsequência e a falta de limites, incomode muita gente (inclusive este blogueiro), mas parece não  constranger boa parte dos usuários da rede, principalmente os mais jovens. Sibilia escreve:

"Independente da quantidade de leitores ou espectadores que de fato consigam recrutar, os adeptos dos novos recursos da Web 2.0 costumam pensar que seu presunçoso eu tem o direito de possuir uma audiência, e a ela se dirigem como autores, narradores e protagonistas de tantos relatos, fotos e vídeos com tom intimista. Nos Estados Unidos, por exemplo [mas não acho que seja muito diferente no Brasil], calcula-se que mais da metade dos jovens publicam seus dados biográficos e imagens na internet, sem nenhuma inquietude com relação à defesa da própria privacidade - e nem a de seus amigos, inimigos, parentes e colegas que também costumam habitar suas confissões audiovisuais. Assim, em um aparente retorno aos modos de vida nas zonas rurais e pequenos vilarejos prévios à urbanização do Ocidente, nesta intimista aldeia global do século XXI é impossível preservar os segredos. Mas aqui o anonimato tampouco parece desejável; ao contrário, inclusive, pois neste quadro, a mera possibilidade de passar despercebido pode se converter no pior dos pesadelos".

A autora também aponta para a maneira ambivalente como se olha para a privacidade na era digital:

"Entretanto, o mesmo termo [privacidade] parece envolver pelo menos duas questões bastante diferentes. Por um lado, protegem-se cuidadosamente certos dados pessoais - especialmente bancários, financeiros e comerciais - contra possíveis invasões da privacidade. Por outro lado, promove-se uma verdadeira evasão da privacidade em campos que outrora concerniam à intimidade pessoal. É neste último sentido que Jonathan Franzen clamava por uma defesa do espaço público, pois a intimidade se evadiu do espaço privado e passou a invadir aquela esfera que outrora se considerava pública". **

O que experimentamos hoje no mundo internético-globalizado parece não ter conexão com antecedentes históricos facilmente localizáveis. Como observa a autora de O show do eu, " [...] as tendências de exibição da intimidade que proliferam hoje em dia - não apenas na internet, mas em todos os meios de comunicação e também na mais modesta espetacularização diária da vida cotidiana - não evidenciam uma mera invasão da antiga privacidade, mas um fenômeno completamente novo".

Volto na próxima terça-feira, ainda falando do livro de Paula Sibilia.

* SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008

** A propósto, Jonathan Franzen escreveu um artigo sensacional chamado Amor sem pudor (disponível aqui), já mencionado no blog, em Todos têm a vidinha deles (1), no qual critica o uso compulsivo dos celulares e diz não estar disposto a ser "arrastado em sua imaginação para o mundo pegajoso da vida doméstica de algum ser humano próximo"

BG de Hoje

O SONIC YOUTH nunca foi uma banda radiofônica. Isso tem um lado bom, mas também um lado ruim porque muita gente boa que gosta de rock ainda não conhece o som do grupo nova-iorquino. Notabilizada pelos ruídos que incorpora às canções (e que, às vezes, devo dizer, transformam a música numa chatice), a banda faz jus ao rótulo de alternativa. No vídeo, uma das minhas preferidas, Mary-Christ