quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Vale a pena compartilhar (1)


Sei que o assunto é batido - o horroroso nome dado ao mascote da Copa de 2014 - mas como estava aproveitando um período de férias (além do ataque de preguicite que me acometeu) deixei de  falar de um texto do Braulio Tavares* (na foto ao lado) a respeito desse tema, publicado na revista Língua Portuguesa no último mês de janeiro. Achei sensacional (melhor do que outro, também muito bom e tratando do mesmo assunto, lido no blog do Juca Kfouri, cujo autor é Álvaro Oliveira Filho  - disponível aqui). Como gostei bastante do artigo de Tavares, reproduzo-o abaixo, na íntegra.



"FULECO" É DE LASCAR
Braulio Tavares


Puxo pela memória por exemplos assim, em que pessoas, por falta de familiaridade com um idioma que estudam ou usam, produzem aberrações linguísticas ou termos sem sentido. É o caso da escolha do nome para o mascote da Copa Fifa de 2014. (Pensando bem, o conceito de mascote da Copa já é idiotice.) (Pensando melhor, de Copa também.)

Os organizadores do evento encomendaram nomes pro boneco a partir de palavras-símbolo referentes ao Brasil, à ecologia, etc. "Zuzeco" foi uma proposta - mistura de "azul" (nosso céu) e "ecologia". Chinfrin, mas vamos em frente.

Fiquei perplexo foi com outras escolhas: "amijubi". Por quê? Amizade e júbilo. Pense numa palavra-naftalina, é esta última. Em minha vida só a vi por escrito, e mesmo assim na imprensa pré-1960 e em discursos de inauguração. Nunca vi um brasileiro usar "júbilo" em conversas.

Vai ver eles pensaram o mesmo e a terceira solução - já aceita - foi "Fuleco". Por quê? Futebol e ecologia. Nada contra os dois, mas "fuleco" é de lascar. Lembra "fuleiro", "fulo", "furreca". Mistura de Fu-Manchu com Cacareco. Ainda por cima falsa: quem combina "futebol" e "ecologia" terá "futeco" - portanto, ou a intenção desde o início era outra, a de chamar o bicho de "fuleiro" mesmo, ou tudo foi apenas a pura ignorância com as derivações em português.

Não custava nada chamarem o mascote de "Tatu-bola". Primeiro, porque ele é isso mesmo. Segundo, é nome dado de bandeja pelo povo (incluindo zoólogos e dicionaristas) que sedia a Copa. O episódio, inspirador de galhofas, tem sua dose de melancolia. O mundo globalizado tem virado um grande mal-entendido entre culturas, idiomas, hábitos e crenças. Daqui a pouco não se acha no planeta um par de pessoas que interprete os mesmos fatos da mesma maneira.

Nada tenho contra palavras inventadas, mas gosto de snark e não de "Zuzeco", e gosto de "supercalifragilisticspiralidocious" e não de "Amijubi". Gosto de "nonada", "parangolé", "zazueira", "crisbeles", "riverão", "alfômega", "panamérica", "solaris", "ciberespaço", "grokkar", "robot", "grifinória", "ludopédio", "convescote", "monstruário", "baurets", "in-a-gadda-da-vida"... mas não gosto de "Fuleco".

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* TAVARES, Braulio. "Fuleco" é de lascar. Língua Portuguesa, São Paulo, ano 8, n. 87, jan. 2013, p. 17


Este blog volta a ser atualizado, talvez, depois do Carnaval.

BG de Hoje

Direto ao ponto, sem muita firula: ROLLING STONES, na maravilhosa canção Sister Morphine.