sexta-feira, 29 de maio de 2020

Não vejo saída


[Postagem atualizada em 07/06/2020]

Você tem o hábito de utilizar um objeto (smartphone, notebook, ou mesmo uma peça de vestuário) até que ele esteja realmente gasto, sem mais condições de uso, evitando comprar outro similar, novo em folha, assim que arruma uma grana? Parou de consumir ou pelo menos consome menos carne em razão dos danos ambientais decorrentes da criação de animais para abate, além da crueldade inerente a esse ato? Recicla o seu lixo doméstico? Você procura andar a pé ou usar o transporte coletivo para ajudar a diminuir a poluição resultante do uso massivo dos meios de transporte particulares movidos a combustível fóssil? Nas eleições, você costuma levar em conta as propostas ecológicas apresentadas por seus(suas) candidatos(as) - e se praticamente nenhuma é apresentada, você se preocupa e toma alguma atitude? Faz parte ou tem interesse em participar de alguma organização voltada para a proteção do meio ambiente e para a promoção do consumo responsável?

Se a sua resposta para a maioria dessas perguntas é não, infelizmente somos parecidos (e, no meu caso, receio que o fato de eu andar a pé e usar o transporte coletivo tem mais a ver com a falta de dinheiro para comprar e manter um automóvel do que qualquer outra coisa ¹).

Ainda assim, mesmo não fazendo porra nenhuma pela saúde da Terra, é preciso muita, muita velhacaria, burrice ou um estado mental de negação patológico para não reconhecer que o planeta está fodido, ambientalmente falando (bem, também acho que está fodido, social e economicamente falando, mas como pretendo focar em determinadas questões hoje, deixarei esse reparo para outra oportunidade).

Há poucos dias, terminei a leitura do (essencial) livro A história das coisas ², elaborado pela norte-americana Annie Leonard (com o auxílio da escritora Ariane Conrad). A publicação faz parte do projeto The Story Of Stuff, que, por sua vez, é um desdobramento do famoso vídeo de mesmo nome (pode ser encontrado no site do projeto, mas há versões legendadas e até dubladas em português disponíveis no Youtube). Apesar de todos os problemas e do cenário alarmante, o livro é esperançoso. Todavia, este blogueiro, pessimista crônico como já deve saber o(a) eventual leitor(a), saiu da leitura ainda mais
convicto da calamidade atual e futura.

A história das coisas, basicamente, descreve os cinco estágios da economia - extração, produção, distribuição, consumo e descarte -, salientando os danos e impactos (na natureza, na sociedade e na saúde pública) decorrentes do processo de obtenção de materiais e fabricação de objetos. Ao seu conhecimento de pesquisadora e cientista ambiental, Annie Leonard adicionou a experiência e os relatos de situações vividas nos muitos anos de ativismo dentro de entidades como o Greenpeace e a Gaia.

Comecei a postagem com perguntas relacionadas a condutas pessoais. Muito embora transformações no comportamento individual sejam bem-vindas, o buraco é muito mais embaixo quando se trata da problemática ecológica planetária. Como escreve a autora no epílogo de seu livro:

"Para viver dentro dos limites do planeta, a mudança precisa ser grande. Ela exige que governo, bancos, sindicatos, mídia, escolas, corporações abracem a causa. Não basta seguir livros com 'dez coisas fáceis que você pode fazer para salvar o planeta'. Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental do Allegheny College e especialista em assuntos de consumo, aponta as falhas na abordagem das 'dez coisas fáceis': (1) nossa maior fonte de poder como indivíduos está em nosso papel de consumidores; (2) por natureza, nós, humanos, não estamos dispostos a fazer nada que não seja cômodo; e (3) a mudança só acontecerá se convencermos cada pessoa no planeta a se unir a nós. 
Sejamos realistas. Não é possível chegar a 100% de acordo com quase 7 bilhões de pessoas em nenhum assunto, e nossos sistemas ecológicos estão sofrendo tamanha sobrecarga que simplesmente não dispomos de tempo para tentar. No lugar de uma variedade paralisante de opções de estilo de vida 'verde', precisamos de oportunidades significativas para fazer grandes escolhas, por exemplo, políticas. Num editorial de 2007 no Washington Post, Maniates lamentou: 
A dura verdade é esta: se somarmos as medidas fáceis, econômicas e ecoefientes que todos deveríamos abraçar, conseguiríamos, no máximo, uma redução no crescimento do dano ambiental. Ser obcecado por reciclagem e instalar algumas lâmpadas especiais não basta. Precisamos promover uma virada radical em nossos sistemas energéticos, de transportes e agrícolas, em vez de fazer ajustes tecnológicos marginais, e isso implica mudanças e custos que nossos líderes atuais parecem temerosos em discutir".

Havia escrito que A história das coisas, a despeito do seu pesado tom de alerta, tem um lado esperançoso. O trecho citado acima, porém, denota o contrário. De onde vem então a esperança de Annie Leonard? No mesmo epílogo, a ambientalista cita alguns poucos dados de pesquisas de opinião realizadas entre norte-americanos, favoráveis a certas mudanças ecologicamente desejáveis e alude a certos "sinais" indicativos de novas atitudes entre seus conterrâneos (notoriamente, os consumidores mais perdulários da Terra, cujos hábitos de consumo vêm sendo "exportados" para o restante do mundo nas últimas décadas).

Não sei se isso é suficiente para termos alento.

Não vejo saída para a catástrofe ambiental em que estamos metidos. Por quê?

Pensemos, por exemplo, no uso da água, recurso essencial para aquilo que Leonard chama de "sistema de extrair-produzir-descartar" . Além disso - e peço perdão por dizer tal obviedade -, a água  é substância vital para a sobrevivência dos seres humanos.

Embora mais da metade do planeta seja coberta por água, sabemos que apenas 2,5% desta é potencialmente potável (para falar a verdade, só 1% de toda a água doce é acessível diretamente para nosso uso, pois a outra parte da água potencialmente potável está nas calotas polares ou em aquíferos muito profundos dentro do subsolo). Annie Leonard nos lembra que

"Cerca de um terço da população mundial vive em países que enfrentam crises de água. Uma em cada seis pessoas não tem acesso à água potável. Diariamente, milhares de pessoas - a maioria, crianças - morrem de doenças que poderiam ser evitadas, contraídas em razão da falta de acesso à água limpa. Na Ásia, onde a água sempre foi considerada recurso abundante, a quantidade disponível para cada pessoa diminuiu entre 40% e 60% entre 1955 e 1990. Seu uso excessivo, aliado a secas, contaminação, problemas climáticos, desvio para uso industrial ou agrícola e desigualdade no acesso, contribui para a escassez do líquido. Especialistas preveem que, em 2025, três quartos da população do planeta irão sofrer com a falta de água. E à medida que a água se torna cada vez mais escassa, surgem conflitos em torno do seu uso e da forma que o regulariza. Muitas pessoas - eu, inclusive - temem que o crescente interesse da iniciativa privada que administra sistemas de abastecimento à base de lucro seja incompatível com o direito coletivo à água e com a administração hídrica sustentável".
O controle do abastecimento de água na mão de empresas privadas faz cada vez mais parte da realidade em vários lugares do mundo (no Brasil, inclusive) e o discurso privatista não dá sinais de enfraquecimento. Quando o bicho da escassez pegar, em que essas empresas pensarão primeiro: no ganho dos acionistas ou no interesse público?

Companhias estão secando determinadas regiões (veja o caso da Coca-Cola em Itabirito/MG), isso quando a sua atividade por si só não transforma o precioso recurso em nada mais do que rejeito, como é o caso das mineradoras e suas imensas barragens.

O esgoto residencial e o resíduo da produção industrial vão direto para os rios em trocentos lugares. Gasta-se uma quantidade impressionante de água para produzir papel - desperdiçado em embalagens que, tão logo são rasgadas, vão direto para o lixo. O cultivo do algodão (parte de nossas roupas cada vez mais descartáveis) "requer 970 litros de água" para uma única camiseta. Há, porém, um (ab)uso da água que me tira do sério particularmente:

"Vocês sabiam que nos Estados Unidos gastam-se anualmente mais de 20 bilhões de dólares com gramados?" - pergunta a autora de A história das coisas -. "Em média passamos 25 horas por ano cortando grama, muitas vezes com cortadores poderosos que consomem 3 bilhões de litros de gasolina. Cerca de 750 litros de água por pessoa são utilizados para molhar a grama todos os dias na época de plantio e germinação. Em algumas comunidades, o número corresponde a mais da metade da água usada na residência! Nos Estados Unidos, os gramados representam o maior cultivo irrigado - uma área maior do que a reservada às plantações de milho. Se os americanos substituíssem a grama por plantas nativas que precisam de menos regas e permitem que mais chuva penetre no solo, ao invés de correr para os sistemas de esgoto, reduziriam drasticamente o uso da água em suas casas".
Pensemos agora numa ação vista geralmente como positiva, a reciclagem.

"Grande parte do lixo recolhido para reciclagem nos Estados Unidos é exportada para o exterior, especialmente Ásia, onde as leis trabalhistas e de segurança ambiental são mais frouxas. Rastreei dejetos plásticos, baterias de carros usadas, e-lixo e diversos componentes do lixo municipal americano enviados a Bangladesh, Índia, China, Indonésia e outros lugares do mundo. Eu me infiltrei em instalações (sob vários disfarces!) para dar uma olhada no que acontece com nosso lixo no exterior. As péssimas condições de trabalho que testemunhei não são o que indivíduos conscientes dos Estados Unidos tinham em mente quando, diligentemente, retornaram às fábricas sua baterias de carro usadas"
Por que não vejo saída para a catástrofe ambiental? Porque não acredito que o modo de produção dominante há séculos - o capitalismo - será superado, sequer refreado, mesmo que esteja nos encaminhando para a devastação. A própria Annie Leonard, apesar de viver nos EUA - onde qualquer crítica ao capitalismo é considerada quase um crime de lesa-pátria -, tem clareza de que esse modo de produção é prejudicial à natureza (e, por extensão, prejudicial a nós, que somos dependentes desta):

"Para muitos, o objetivo de nossa economia é aumentar o PIB, ou seja, crescer. Mas, apesar dos avanços científicos e tecnológicos, há mais gente faminta do que nunca: metade da população mundial vive com menos de 2,50 dólares por dia. A fé de nossa sociedade no crescimento econômico repousa na suposição de que sua continuidade é tão possível quanto benéfica. Mas nenhum dos dois pressupostos é verdadeiro. Primeiro porque, devido aos limites do planeta, o crescimento econômico infinito é impossível. Ultrapassado o patamar em que as necessidades humanas básicas são atendidas, ele tampouco se revelou uma estratégia para aumentar o bem-estar. Registramos hoje nas grandes metrópoles um alto nível de estresse, depressão, ansiedade e solidão 
Essa crítica ao crescimento econômico atinge muitos aspectos do capitalismo atual. Eu disse a palavra: 'capitalismo'. É o Sistema-Econômico-Que-Não-Pode-Ser-Mencionado. Quando escrevi o roteiro do vídeo A história das coisas, minha intenção era descrever o que vi em meus anos na trilha do lixo. Certamente não me sentei para ler sobre as falhas desse sistema econômico. Por isso fui pega de surpresa quando alguns comentaristas o consideraram uma 'crítica ecológica ao capitalismo' ou 'anticapitalista'. Isso me inspirou a voltar atrás e tirar a poeira de meus velhos livros de economia. E percebi que os comentários tinham fundamento: uma boa olhada em como fazemos, usamos e descartamos Coisas revela as sérias distorções geradas dentro desse sistema. Não há escapatória: da forma como está sendo conduzido, o capitalismo simplesmente não é sustentável".

Acontece que algumas soluções para ao menos mitigar os problemas - desde as mais simples, como diminuir as jornadas de trabalho e aumentar os dias de descanso dos empregados (sem reduzir salários) ou as mais complexas, como fazer com que as empresas paguem por todos os custos externalizados ³ dos produtos (mesmo que os preços fiquem mais altos para os consumidores finais) e mudar por completo a matriz energética, com o abandono do petróleo e do carvão - nunca serão adotadas, porque o modo de produção capitalista, visto por muitos como uma espécie de religião cujos dogmas não podem ser questionados, está impregnado de um jeito tal em nossas mentes e em nossas relações sociais que buscar suplantá-lo ou ao menos modificá-lo é tarefa fadada ao fracasso.

Em 2016, entre as 100 instituições que mais arrecadaram dinheiro, 69 eram corporações e apenas 31 eram países. Pergunto: dá pra ser otimista sabendo que o poder público é cada dia mais sobrepujado pelo capital privado que, em última instância, só tem compromisso com os dividendos de seus seus detentores?
__________
¹ Hoje em dia, contudo, isso não é verdade. Sinceramente, acho que os carros representam um dos maiores problemas das cidades, para além da questão ecológica (qualquer dia escrevo sobre isso aqui). Por isso acredito que mesmo se tivesse grana para manter um automóvel não o faria.

² LEONARD, Annie. A história das coisas: da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011 [Tradução de Heloisa Mourão; revisão técnica de André Piani Besserman Vianna]

³ De acordo com Annie Leonard,

"O preço nas etiquetas tem pouquíssimo a ver com os custos envolvidos na produção das Coisas. Seguramente, alguns dos custos diretos, como os relativos a mão de obra e matéria-prima, estão incluídos no preço, mas esses são inexpressivos se comparados aos custos ocultos externalizados, como a poluição da água potável, o impacto na saúde dos trabalhadores e das comunidades vizinhas às fábricas e as mudanças no clima global. Quem paga por isso? Às vezes são os cidadãos da região, que nesse caso, têm que comprar água engarrafada, uma vez que sua torneira está contaminada. Ou os operários, que pagam do próprio bolso por tratamento de saúde. Ou as futuras gerações, que não contarão com florestas para, por exemplo, regular o ciclo das águas. Já que esses custos são pagos por pessoas e organismos externos às empresas responsáveis por gerá-los, são chamados de custos externalizados".

BG de Hoje

Não vou mentir: acho o TAME IMPALA meio chato. Mas gosto muito dessa faixa, Desire Be Desire Go.

sábado, 16 de maio de 2020

Onde cabe a poesia?


O livro A poesia e a crítica, reunião de alguns ensaios produzidos nas últimas duas décadas pelo poeta e filósofo Antonio Cicero, foi lançado em 2017, pela Companhia das Letras. Só pude comprá-lo no ano passado e o li pela primeira vez há poucos meses.

Encontros e desencontros com a contracultura - o primeiro dos textos do livro - não é propriamente um ensaio, mas um depoimento. Para além de refletir sobre o fenômeno da contracultura, o autor narra parte de sua trajetória e de suas escolhas na condição de estudante universitário de Filosofia, fornecendo ao leitor importantes informações sobre sua formação intelectual. Tendo partido para estudar em Londres após o golpe militar de 1964, Cicero fala também da influência exercida por Caetano Veloso (com quem pôde conviver durante algum tempo na capital inglesa, onde o artista baiano se exilara).

Em Poesia e preguiça, o ensaísta vale-se de T. S. Eliot, Baudelaire e Paul Valéry (entre outros) para defender a importância da preguiça na feitura dos poemas, isto é, "a ênfase na preguiça significa simplesmente que a gestação do poema tem um sentido completamente diferente do que tem o trabalho utilitário cotidiano". Esse texto também discute a relação da produção/recepção de poesia com o tempo, tópico retomado ao longo da publicação em pelo menos dois outros escritos. Voltarei ao tema mais adiante.

Defendendo o conceito de cânone poético/literário no ensaio que dá nome ao livro de que estamos falando, Antonio Cicero acredita que é preciso haver uma seleção de textos/autores(as), construída ao longo do tempo pelos críticos. Estes, por sua vez, seriam "todos aqueles que explicitam e defendem publicamente os seus juízos estéticos no que diz respeito à poesia", um conjunto de indivíduos, portanto, não restrito aos críticos profissionais. Essa seleção de textos/autores(as) tem como função principal balizar e orientar tanto a formação de poetas quanto qualificar os leitores de poesia. Nesse ensaio, o autor desanca o teórico da literatura britânico Terry Eagleton (estudioso sobre o qual já falei positivamente, aliás, aqui no blog).

Provavelmente mais conhecido do grande público por seu trabalho como compositor (letrista), Cicero aborda uma recorrente questão em Sobre as letras de canções: seriam estas poemas ou não? Neste ensaio, pode-se encontrar uma discussão mais ampliada do assunto, frequentemente tratado pelo autor, como em uma de suas antigas colunas publicadas quinzenalmente na Folha de S. Paulo. Essa coluna, a propósito, pode ser encontrada no blog do artista (Acontecimentos, um dos recomendados da casa). Já falamos do tema, há bastante tempo, aqui no blog.

Em O verso, um dos textos mais curtos, encontramos mais uma vez um importante esclarecimento feito anteriormente por Antonio Cicero: prosa não se opõe à poesia, mas sim ao verso, um dos maiores recursos poéticos (senão o maior). 

Os seis ensaios que se seguem a O verso analisam o trabalho de diversos poetas: Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Friedrich Hölderlin (o escrito dedicado ao último é o mais extenso ensaio de todo o livro).

A poesia e a crítica encerra-se, curiosamente, com a breve apreciação de um texto em prosa: no caso, A montanha mágica, de Thomas Mann (disponível também aqui; a propósito, já falamos dessa mesma obra aqui, aqui e aqui). Como havia explicado na apresentação de seu livro, o poeta e filósofo concede ao romance do escritor alemão um papel importante em sua formação geral.

Gostaria agora de voltar a dois ensaios sobre os quais ainda não falei.

Havia escrito, parágrafos acima, que a relação da produção/recepção da poesia com o tempo é um tópico presente em mais de um texto dentro do livro.

Verificando que, no mundo contemporâneo, é difícil para a imensa maioria apreciar a leitura de poesia - pois nos encontramos "sob o domínio quase absoluto da apreensão instrumental do ser", quando não se consegue perceber o valor das coisas por elas mesmas (tudo é sempre um meio para se alcançar outra coisa) -, Antonio Cicero escreve no ensaio A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo:

"Nessas circunstâncias, não admira que o dinheiro - o meio por excelência, pois é o meio dos meios - seja o que há de mais importante. O que seria apenas um meio torna-se o verdadeiro fim. Ora, num mundo assim, em que, para o senso comum  'tempo é dinheiro', parece irracional que se faça um investimento de tempo sem nenhuma garantia de que se venha a obter, num prazo determinado, qualquer compensação ou retorno. Consequentemente, poucos se permitem mergulhar no poema, isto é, pensar nele, com ele, através dele, pondo à disposição dele, pelo tempo que se faça necessário, o livre jogo de todas as faculdades que esse pensamento integral requeira".

Para o ensaísta, a poesia escrita para ser lida (diferentemente da poesia escrita para ser ouvida, isto é, a que está presente nas letras de muitas canções) dificilmente pode ser fruída sem que se dedique a ela concentração e tempo: "Para fruir um poema, é preciso nele imergir. E como tal imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar nesse mundo".

E acrescenta:

"Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje. Afinal, a temporalidade acelerada corresponde à apreensão instrumental do ser. Assim, é bom que a poesia, longe de se ajustar a ela, relativize-a, uma vez que nos dá acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana. [...]"

Por sua vez, na análise de um dos poemas mais marcantes de nossa Literatura - Sobre A flor e a náusea, de Drummond -, ele afirma:

"Ora, uma das ambições da poesia é exatamente desautomatizar a linguagem, a percepção do mundo e o pensamento, de modo a nos permitir apreender linguagem, mundo e pensamento como se fosse pela primeira vez. Não se trata de um consolo, mas do transporte para outra dimensão do tempo, para outra dimensão da existência, inteiramente distinta daquela que é regida pelo princípio do desempenho, da utilidade, da instrumentalidade, do valor de troca [...]".

Para compreendermos ainda melhor o que nos diz Antonio Cicero, convido o(a) eventual leitor(a) a lermos juntos um dos meus poemas prediletos: Plena pausa, de Paulo Leminski  ¹:

PLENA PAUSA

     Lugar onde se faz
o que já foi feito,
    branco da página,
soma de todos os textos,
    foi-se o tempo
quando, escrevendo,
    era preciso
uma folha isenta.

    Nenhuma página
jamais foi limpa.
    Mesmo a mais Saara,
ártica, significa.
    Nunca houve isso,
uma página em branco.
    No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.


Confesso que não atentei para seu sentido mais profundo, nas primeiras vezes em que li este poema, muito tempo atrás. Apenas achei bonitas as combinações de palavras. Também fiquei fascinado pelo último verso - pálidas de tanto (voltaremos a este, daqui a pouco).

Mas qual seria esse sentido profundo? Acredito que Leminski está tratando, poeticamente, de algo que afeta (e às vezes aflige) os escritores: o peso representado por todas as obras já escritas, sobretudo aquelas que compõem o que consideramos os textos mais significativos já produzidos (o cânone, para recuperar um conceito discutido por Antonio Cicero num de seus ensaios).

"Lugar onde se faz/o que já foi feito". Muitos poetas talvez fiquem intimidados ou mesmo paralisados diante de uma página em branco ao se lembrarem de que aquilo que tencionam escrever provavelmente nada terá de original, pois já foi experimentado e realizado antes por outro poeta, inclusive, com maior beleza (isso, naturalmente, vale para romancistas, contistas, etc.). Por isso a página vazia, não-escrita, representa a tradição literária que antecede o poeta: "branco da página/soma de todos os textos". NOTA: perceba o jogo feito por Leminski. A página é branca: ainda assim, soma todos os textos da tradição literária, do mesmo modo que o branco soma todas as cores (pelo menos quando estamos falando do espectro luminoso).

Porém, não é preciso ficar intimidado nem paralisado. Os artistas, se talentosos, saberão usar essa tradição a seu favor: dialogando com ela ou até subvertendo-a: "foi-se o tempo/quando escrevendo,/era preciso/ uma folha isenta".

Os textos predecessores existem, são um fato. Por isso "Nenhuma página/jamais foi limpa". E "No fundo todas gritam". Gritam o quê? Justamente toda a arte que foi registrada antes delas, noutras páginas. E estão "pálidas de tanto". É admirável como a simples troca de espanto (evitando um pavoroso lugar-comum) por tanto cria um efeito de sentido tão poderoso. O tanto refere-se, acredito eu, à tradição literária que virtualmente paira sobre a página em branco.

E assim o título do poema - Plena pausa - fica mais claro. A página em branco, que dentro de um livro pode representar uma pausa, está também plena, isto é, cheia de toda a arte da escrita que a circunda de forma latente.

Como se vê, os bons poemas, para serem apreciados e compreendidos em plenitude, demandam de nós dedicação e tempo (mesmo um poema de apenas 16 versos, como esse de Leminski, que acabamos de analisar). Mas quem está disposto a isso?

Vivemos num mundo que a todo momento martela em nossas cabeças: "NÃO PERCA TEMPO!", "SEJA RÁPIDO!", "PRODUZA!" - como se isso estivesse fazendo nossa vida melhor, como se estivéssemos tornando este mundo um lugar melhor...

É por isso que, pelo menos no meu caso, vou sempre deixar um espaço onde a poesia caiba em minha vida, pois desejo ter "acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana", como bem disse Antonio Cicero.
__________
¹ LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. 6 ed. São Paulo: Global, 2002. [Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins] (Coleção Melhores Poemas)

. . . . . . .

ALDIR BLANC (1946 - 2020)

Ao pensar nas letras de canções como poemas (e, sem dúvida, muitas delas certamente o são), é preciso lembrar de Aldir Blanc, falecido recentemente. Num país que produziu e produz tantos ótimos letristas-poetas (Chico Buarque, Antonio Cicero, Cazuza, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Fernando Brant, Caetano Veloso, Emicida, Vinícius de Moraes, Chico César...), Blanc foi um dos maiores. O(a) eventual leitor(a) encontrará menções ao principal parceiro de João Bosco em algumas postagens deste blog. Uma de suas letras-poemas de que mais gosto é também uma das mais simples que ele escreveu:

LATIN LOVER

Nos dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível.
E, no entanto, meu amor, que coisa incrível,
esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro
de uma noite.
Sua mãe tinha saído.
Me falaste de um sinal adquirido
numa queda de patins em Paquetá:
Mostra... doeu?... ainda dói?...
A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca...
As lembranças
acompanham até o fim um
latin lover,
que hoje morre,
sem revólver,
sem ciúmes,
sem remédio.

De tédio.

. . . . . . .

BG de Hoje

Não é difícil encontrar por aí muita gente que tem profunda antipatia pelo comediante e apresentador norte-americano JIMMY FALLON. "Suas risadas geralmente são falsas"; "Ele é meio alienado politicamente"; "Às vezes, quer chamar mais atenção para si do que para o(a) convidado(a)" - essas e outras críticas costumam ser dirigidas ao ex-integrante do longevo humorístico Saturday Night Live. Admito que não são observações descabidas. Entretanto, não tenho vergonha nenhuma de dizer que gosto muito do trabalho dele - sobretudo a infantilidade da maioria dos quadros do programa, outra crítica recorrente - e não me canso de assistir trechos de seu talk show disponibilizados no Youtube. Como o vídeo abaixo, por exemplo. Com a participação do lendário grupo de hip hop THE ROOTS (atualmente, a banda que divide o palco com Fallon na sua atração de TV), o comediante (que também é músico) promoveu uma versão formidável do hit Don't Stand So Close To Me (THE POLICE), junto com STING. O uso de alguns "instrumentos musicais" inusitados não é novidade para esses caras dentro do programa e, dado o isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19, ficou mais do que adequado.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Falou e disse...


"Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):

A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz 
um formato de pássaro". 
[...] *


* BARROS, Manoel de. As lições de R. Q. In: _________. Livro sobre nada. 7 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 67

quinta-feira, 23 de abril de 2020

"Uma interminável derrota"


"Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressuponha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos".


Do narrador de A peste (Albert Camus)

 
Nesses dias de enfrentamento/prevenção da pandemia global de COVID-19, encontrei em pelo menos cinco diferentes textos publicados na imprensa nas últimas semanas (uns mais bem escritos do que outros) menções ao célebre romance A peste, de Albert Camus.

Achei propício relê-lo, então.

A história imaginada se passa na cidade de Oran, situada na costa argelina. Uma cidade, aliás, não muito diferente de milhares mundo afora, onde o principal é "ganhar dinheiro" - pessoas trabalham de manhã à noite para "optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem"  ¹.

Ratos moribundos começam a surgir dentro das casas e nas ruas. Com o passar dos dias, o número de roedores mortos aumenta consideravelmente, até estabilizar-se e - sem qualquer explicação - começar a decair em seguida. A certa altura, os repulsivos animais deixam de ser vistos.

É quando irrompem, entre os habitantes de Oran, os sintomas de uma grave doença, altamente letal, trazendo grande preocupação para o médico Bernard Rieux, a figura central da narrativa.

Apesar de ser a crônica de um surto epidemiológico e todos os infortúnios decorrentes de tal conjuntura, A peste, lançado em 1947, é um livro otimista, em última análise. Vale lembrar que no "plano" estabelecido para sua obra, Camus situa-o entre os textos que expressam o positivo (antes, o escritor já havia trabalhado a negação, por exemplo, n'O estrangeiro e n'O mito de Sísifo e pretendia, numa terceira fase, dedicar-se à temática do amor, mas tudo foi interrompido em 1960, quando faleceu num acidente de automóvel). É famosa aquela passagem nos últimos parágrafos do romance: "[...] há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar".

Texto do pós-guerra, A peste pode ser lido alegoricamente - em carta destinada ao então jovem crítico literário Roland Barthes, Camus deixa isso bem claro ao afirmar que o romance "tem como conteúdo evidente a luta europeia contra o nazismo" e que trechos do livro foram antecipados em boletins de combate publicados para os grupos da Resistência. Está aí outra razão para relê-lo: com a ascensão e chegada ao poder, nos últimos anos, do pensamento político desumanizante (no Brasil e noutros lugares do planeta), talvez aprendêssemos alguma coisa com a tenacidade e a integridade de Rieux e Tarrou.

Por falar nesses dois personagens, gostaria de destacar duas passagens de A peste, em especial.

A primeira se encontra no sétimo capítulo, da segunda parte (no total, o romance se divide em cinco partes), momento em que o flagelo já havia se tornado "um problema comum a todos nós". Jean Tarrou, morador não muito antigo de Oran - de cuja vida passada pouco se conhecia -, solicita uma conversa com o médico, que liderava as ações de combate à doença. Tarrou faz uma proposta: organizar grupos voluntários para auxiliar no que fosse possível. A proposta é aceita, dada a grande necessidade de ajuda. Mas Rieux adverte ao proponente que esse trabalho pode ser mortal. O outro dá a entender que não se importa com isso. Os dois personagens continuam a conversa. É quando Tarrou pergunta:

" - Por que o senhor mesmo demonstra tanta dedicação, já que não acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude a responder [a pergunta feita anteriormente pelo médico, se Tarrou havia pensado bem em todos os riscos que estaria correndo com o seu trabalho voluntário]".

A resposta de Rieux não vem de imediato. Ele reflete sobre o objetivo de sua profissão, sobre os fatores que o encaminharam para ela. Até chegar a uma conclusão (pelo menos parcial). Peço a atenção do(a) eventual leitor(a) para o excerto abaixo:

"- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala. 
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias serão sempre efêmeras, mais nada. 
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se. 
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar. 
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor 
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou: 
- Quem lhe ensinou tudo isso , doutor? 
A reposta veio imediatamente: 
- A miséria"
A segunda passagem está no capítulo seguinte, logo após o narrador relatar que "as formações [voluntárias, capitaneadas por Tarrou] ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como era, isto é, o problema de todos". Fala-se de combate a uma moléstia, mas, se lembrarmos da dimensão alegórica da narrativa, poder-se-ia estar falando de um regime iníquo, como o nazismo.

Então surge esse lindíssimo trecho (peço de novo a atenção do(a) eventual leitor(a)):
"Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido essa bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois são quatro e não o contrário, mas digamos também que esta boa vontade lhes era comum com a do professor, com a de todos que têm o coração igual ao do professor e que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa ou pelo menos é essa a convicção do narrador. Aliás, este compreende muto bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro".
Para Rieux - assim como para Tarrou -, não importa que as vitórias sejam efêmeras. O valor da vida está na luta, ainda que ao fim e ao cabo tudo, tudo se converta numa "interminável derrota". Olhando para a existência como um todo, nunca se deve esquecer que "o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada". Se um mal passa, outro irá sucedê-lo. Não tenhamos ilusão. Nunca se conseguirá uma vitória definitiva sobre o absurdo (para usar uma palavra cara ao pensamento camusiano) que é o próprio fato de vivermos num mundo tal como este em que estamos imersos.

Tudo isso, porém (como dissera Rieux acima), não é razão para deixar de lutar. Ainda mais quando se tem que alertar e convencer muitas mentes obtusas da gravidade de determinadas situações e eventos - que são óbvios para nós, mas essas mentes se negam ou são incapazes de reconhecer que "dois e dois são quatro". E que ao saber disso, é preciso fazer algo a respeito.

Mesmo para um pessimista crônico como eu, a leitura de A peste nunca é um exercício infecundo.

Em breve, comentarei aqui no blog o livro A poesia e a crítica, do Antonio Cicero.
__________
¹ CAMUS, Albert. A peste.17 ed. Rio de Janeiro: Record, 2007 [Tradução de Valerie Rumjanek]

BG de Hoje

BAIANASYSTEM, um dos melhores acontecimentos na música popular brasileira dos últimos anos. Ponto. Duas cidades é minha música preferida entre as gravadas pela banda até agora (na apresentação abaixo, eles emendaram outra no finalzinho, também muito boa, Bola de Cristal)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Lembrando Rubem Fonseca



Ontem, 15 de abril, morreu Rubem Fonseca.

Posicionamentos políticos à parte, o escritor nascido em Minas (Juiz de Fora), mas radicado a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, deve ser reconhecido com um dos nomes mais importantes da ficção literária brasileira na segunda metade do século passado.

Apesar de ser um autor com quem tenho certa familiaridade, só possuo um livro dele em minha modesta biblioteca pessoal: A grande arte. E - não sei dizer por que - escrevi apenas quatro textos no blog mencionando algumas de suas criações.

De todo modo, sugiro ao(à) eventual leitor(a), caso tenha interesse, dar uma conferida nessas postagens, disponíveis aqui,  aqui,  aqui e  aqui.

Também sugiro a leitura de Rubem Fonseca, 1925-2020, publicado pelo Bráulio Tavares no seu blog Mundo Fantasmo (um dos recomendados aqui da casa).


[Atualização em 19/04/2020] Tentando arrumar meus livros nas estantes, acabei descobrindo que tenho outro titulo de Fonseca na minha coleção: O caso Morel. Mas não gosto muito desse romance (talvez por isso não tenha me lembrado dele inicialmente).

segunda-feira, 23 de março de 2020

Sobre esportes e idolatria



[Postagem atualizada em 25/10/2020]

Para a postagem de hoje, creio que seria bem enriquecedor verificar o que a antropologia e a psicologia têm a dizer sobre a compulsão humana para idolatrar certos indivíduos.

Ficarei devendo, porém. Vou preferir fazer um texto mais pessoal. Espero que dê certo.

Quem se depara com o molambo humano que sou dificilmente acreditaria estar diante de alguém que gosta de assistir atividades que envolvem movimentação vigorosa do corpo. Meu atual sedentarismo, dezenas de quilos a mais e preguiça colossal não combinam em nada com um apreciador de skate, vôlei, judô, basquete e tênis, entre outras modalidades (o futebol, a essa altura da vida, tornou-se quase intragável pra mim, faço questão de frisar). Mas, acredite ou não, durante um tempo considerável, eu pratiquei - de forma amadora, nem por isso menos intensa - duas das modalidades citadas. E hoje, derreado, ainda gosto de assistir competições pela TV e mesmo in loco, quando possível.

Se você já leu outros escritos neste blog deve ter notado, contudo, que o esporte raramente é tema por aqui - no geral, prefiro falar de literatura e filosofia (música pop também, porque ninguém é de ferro). E esse lado intelectual (ou, pelo menos, metido a intelectual) acaba sobrepujando os outros interesses que tenho. Ainda assim, meus dois grandes ídolos não são escritores(as), artistas ou filósofos(as). São duas esportistas: a brasileira Paula, ex-jogadora de basquete, e a romena Cristina Pirv, ex-atleta do vôlei. Falemos primeiramente da última.


Cristina Pirv foi um fenômeno na rede e no fundo de quadra. Ótima passadora, era também elogiada na defesa. No ataque, basta dizer que, nas três temporadas inteiras em que defendeu a equipe do Minas Tênis Clube, ela foi a maior pontuadora da Superliga em todas as ocasiões. Poucas vezes vi uma esportista tão carismática. Tive a alegria e o prazer de ir a muitos jogos aqui em BH dos quais ela participou. Em um deles, Pirv fez um gesto simples, do qual nunca me esquecerei.



Se me recordo bem, foi na temporada 1999/2000. A partida era entre o MRV/Minas e o Rexona - time que já teve muitos nomes (hoje conhecido como Sesc/RJ) e, naquele período, sediado em Curitiba (vale mencionar que Bernardinho é o técnico da agremiação desde o início, em 1997). O confronto foi realizado no ginásio do Colégio Pio XII, porque a quadra da equipe belo-horizontina estava em obras (transformado-se, ulteriormente, na atual Arena Minas Tênis Clube). O jogo encaminhava-se para o final, poderia ser o último ponto. Contudo, apesar da liderança no placar, a torcida ficou inexplicavelmente silenciosa. O adversário estava prestes a sacar. Foi quando a romena, com os braços abaixados, próximos ao corpo, moveu apenas os dedos das mãos para cima, como se dissesse "Pô, vamos vibrar, pessoal!". Poderia passar despercebido; afinal, não foi aquele gesto convencional de levantar os braços e gritar para as arquibancadas. Naquela época, porém, os torcedores mais apaixonados do Minas (eu sou um deles) nunca deixavam de reparar nos mínimos movimentos daquela extraordinária jogadora. Resultado: a torcida insuflou-se, ergueu a voz, e a equipe mineira fechou o set e a partida, apoteoticamente.

Na temporada 2001/2002, Cristina Pirv finalmente foi campeã da Superliga pelo MRV/Minas Tênis Clube (chegando a jogar com uma torção no tornozelo em uma das partidas finais). Foi eleita a melhor jogadora do torneio (e olha que a sensacional Virna estava em plena atividade, atuando na equipe vice-campeã). Entrou para a história do clube e passou a ser idolatrada por este blogueiro.


Com relação a Paula (já citada anteriormente aqui no blog), a idolatria é ainda maior. Começou por volta de 1986, num tempo em que havia espaço na TV aberta para outras modalidades esportivas além do famigerado futebol. Acompanhei muitas disputas do Campeonato Paulista de basquete e fiquei maravilhado com a inteligência e a classe da armadora nascida na pequena cidade de Osvaldo Cruz. O interesse pelo basquetebol - meu esporte predileto - surgiu aí. Um de meus maiores desgostos foi nunca ter tido a oportunidade de presenciar um jogo da Paula, dentro do ginásio. Entretanto, sempre fiz tudo o que pude para assistir as partidas em que estivesse atuando, tanto pelos clubes quanto na seleção brasileira. Era eletrizante!


Falando em seleção brasileira, a década de 1990 foi especialíssima. Campeã pan-americana em 1991, campeã mundial em 1994 e medalha de prata nas Olimpíadas de 1996 (além do 4º lugar no Mundial de 1998).

Em 2006, Paula entrou para o Hall da Fama do basquete feminino; em 2013, para o Hall da Fama da Federação Internacional de Basquete (FIBA). Assisti a exibições de grandes jogadoras com a bola laranja nas mãos - Teresa Edwards, Natalya Sazulskaya, Hortência, Candace Parker, Lauren Jackson, Maya Moore... -, entretanto, nenhuma delas provocou nada parecido com o alumbramento sentido toda vez que vi a eterna camisa 8 da seleção brasileira atuar.

Por que essas duas pessoas tornaram-se meus ídolos?

Antes de responder, eventual leitor(a), permita-me fazer algumas considerações.

Sempre entendi o esporte como uma forma de espetáculo (e algumas modalidades prestam-se melhor a isso do que outras). Mas não é possível compará-lo a outros tipos de apresentação - como o teatro ou o circo, por exemplo.

Num ensaio sublime, publicado há quase vinte anos no extinto caderno Mais!, da Folha de S. Paulo (disponível aqui), Hans Ulrich Gumbrecht observa que "alguns intelectuais são obcecados pela ideia de que os esportes 'representam' algo diverso do que são (o que os transforma numa espécie de performance que requer interpretação)." Isso não levaria a nada. Para o pensador alemão, o esporte pode ser visto como um dos vários "locais sociais da beleza" - para além da arte propriamente dita -, existentes nas sociedades contemporâneas. Ou seja, o esporte é também um fenômeno estético. Segundo Gumbrecht:

"A especificidade do juízo estético, segundo Kant, repousa justamente em sua capacidade de produzir consenso baseado num juízo que não tem consciência de seus próprios critérios e conceitos -o que nos conduz a mais outra expressão famosa da Terceira Crítica de Kant (a sua Estética). Trata-se de sua descrição da fruição da beleza como 'prazer livre de interesse'. 'Livre de interesse', nesse contexto, significa que, em relação a nossas situações práticas cotidianas, não temos razão (não temos fundamento, não temos 'interesse') em achar 'bonitas' ou 'feias' as coisas que desfrutamos ou rejeitamos na experiência estética. Se nos sentimos atraídos por elas, não é porque sua presença irá, por exemplo, aumentar nossa fortuna ou melhorar nossa saúde. Isso é o que Kant adverte ao chamar o prazer estético 'livre de interesse' e é isso que críticos e filósofos depois de Kant quiseram descrever quando falavam da 'autonomia' ou da 'insularidade' da arte". 
Tudo isso vale também para o esporte. Gostamos de determinado conjunto de lances esportivos ou, no caso da nossa discussão de hoje, da(s) atuação(ões) de determinado atleta, mas não sabemos exatamente quais critérios nos levaram a desenvolver esse gosto. Não sabemos justificar o porquê dessa predileção. Citei títulos e premiações obtidas por Paula e Pirv; no entanto, o prazer em vê-las jogar veio antes das conquistas ou não dependeu destas. Além do mais, nada obtive - materialmente falando - com essa idolatria. Era "livre de interesse".

Reproduzindo as palavras do ex-nadador Pablo Morales, Gumbrecht apresenta a seguinte definição: "Praticar esportes e assistir a esportes é perder-se em concentrada intensidade". 

"Perder-se" porque, no momento do jogo (ou, pelo menos, em certos momentos do jogo), esportistas e torcedores deixam de lado o mundo circundante como se apenas o jogo existisse. A "intensidade" tem a ver, claro, com os corpos que disputam espaço e realizam ações atléticas, mas tem a ver também com as reações de quem assiste. E é "concentrada" porque tudo converge para um acontecimento (ou um conjunto de acontecimentos) específico e irreproduzível. Espera-se  uma epifania, ou seja, "a aparição súbita e transitória de algo que, ao menos durante o tempo de sua aparição, tenha substância e forma simultaneamente". Atentemos para o excerto a seguir:

"Esportes coletivos produzem um tipo ainda mais complexo de epifania. Saber se os corpos podem corresponder às exigências de uma certa forma acha-se aqui fora de cogitação, porque não estão em jogo exigências formais preestabelecidas [em comparação com a ginástica artística]. O que esperamos, num estádio de futebol, por exemplo, é que o time em posse da bola avance produzindo a forma de uma bela jogada.
Tal forma, se surgir, é sempre um evento, porque nunca podemos ter certeza se acontecerá, sua emergência sendo sempre ameaçada pelos esforços defensivos do time adversário. Mas a bela jogada é também um evento no sentido de que a maioria dos espectadores jamais a viu antes e que, em muitos casos, ela de fato está sendo posta em ação desse modo pela primeira vez.
Acresça-se a isso que a forma da bela jogada é uma forma temporal, pois literalmente desaparece após surgir e jamais será posta em prática novamente do mesmo modo (nem jamais poderá captá-la uma fotografia); e é finalmente uma forma corporal, uma forma que ocupa espaço, uma forma em relação à qual os corpos dos espectadores num estádio podem posicionar a si próprios. Epifania como emergência de uma forma até então desconhecida é, sustento, uma referência máxima para o prazer que sentimos ao assistir a esportes. Todo fã é bom conhecedor do entusiasmo que nos domina quando um time avança numa sequência rítmica de passes e jogadas muitas vezes surpreendentes. 
Esse entusiasmo é um deleite espiritual combinado com prazer físico, igual a uma respiração funda ou a uma gargalhada alegre. É um entusiasmo também a que nunca podemos nos agarrar, um entusiasmo, enfim, que é diferente do alívio que sentimos quando nosso time marca um gol. Sentimo-nos bem com o mundo ‘tal qual é’ quando nosso time marca um gol, ao passo que a bela jogada é capaz de modificar o âmbito do que imaginamos possível".  

NOTA: Na sequência, o ensaísta - que é professor de Teoria da Literatura na Stanford University -escreve sobre a relação do esporte com a violência (para ele, o esporte é uma maneira mais ou menos elaborada de "encenar a violência"). Para nossos objetivos, contudo, o trecho acima é suficiente.

Apesar de usar como exemplo o futebol, a análise de Hans Ulrich Gumbrecht é aplicável também ao basquete. Lá também pode-se experimentar "o entusiasmo que nos domina quando um time avança numa sequência rítmica de passes e jogadas muitas vezes surpreendentes". Característica, aliás, do jogo de Paula, famosa por passes fora do comum e jogadas com alto grau de imprevisibilidade. Tal como um outro grande jogador de basquete, pelo qual tinha grande admiração quando jogava: Magic Johnson.

Por causa da capacidade de trazer (ou fazer parte de) tantos momentos de epifania durante o espetáculo esportivo - mais do que os outros atletas de suas respectivas modalidades - é que Paula e Cristina Pirv tornaram-se meus ídolos. E apenas a performance e o mérito esportivo importam. Por mais que possam ser, fora das quadras, pessoas admiráveis (estou apenas supondo, talvez não sejam), isso não teve relevância na constituição de minha idolatria. Nesses dois casos é assim.

Quero incluir agora em nossa discussão, todavia, um outro ex-jogador, Kobe Bryant, falecido recentemente e de uma forma que pegou de surpresa todos os fãs do esporte por ele praticado.

Confesso que não assisti a tantos jogos de Bryant quanto desejaria. Ainda assim, gostava muito de vê-lo em quadra, quando possível. Sem dúvida - na opinião de torcedores, de outros atletas e da imprensa especializada -, foi um dos grandes da história. E serei sincero: ao saber de sua morte, fiquei meio atônito por alguns minutos. Sem exagero.

Após a aposentadoria, o ex-shooting guard dos Lakers ganhou elogios por seu apoio ao basquete feminino. Ele comparecia a jogos da WNBA (sobretudo os que ocorriam em Los Angeles, com mando de campo da equipe das Sparks). Sua filha Gianna começava a demonstrar que seguiria a mesma carreira do pai e Bryant sempre fazia questão de tornar público seu apoio (infelizmente, a adolescente morreu no mesmo acidente de helicóptero que o vitimou).

Havia muitos motivos para se idolatrar Kobe Bryant.

Entretanto, como esquecer que em 2003 ele fora preso e acusado de estupro dentro de um hotel no Colorado? O jogador já estava casado e admitiu adultério, afirmando que a relação foi consensual. Os promotores não levaram o processo criminal adiante porque a mulher recusou-se a testemunhar no tribunal. Porém, é preciso lembrar que ela era apenas uma empregada do hotel, com pouco mais de 19 anos, e o acusado, embora jovem, já era tri-campeão da NBA, uma estrela consolidada, com contratos milionários. Dada a diferença de status e poder entre os dois, pode-se especular que a moça foi intimidada de alguma forma. Para tornar a história ainda mais tenebrosa, o mea culpa de Bryant praticamente confirmava o estupro (o jogador não foi punido por isso) e como o resultado do processo civil movido pela ex-funcionária do hotel foi sigiloso é bem difícil não olhar para o craque dos Lakers como um cafajeste.

Diante disso, surge a questão: dá pra admirar atletas - ou qualquer outro indivíduo que colocamos na posição de ídolo, sejam artistas, empresários(as), lideranças políticas, sei lá - sem reservas, sem nos preocuparmos com suas atitudes e posturas fora do seu campo de expertise?

Creio que às vezes sim, às vezes não. Depende de cada caso. Essa resposta, sobretudo após todo o longo texto que escrevi, nada tem de original, e talvez seja decepcionante e evasiva. Mas no caso do craque do basquetebol, não consigo olhar apenas para seus feitos em quadra e esquecer a torpeza do ato praticado naquele hotel em 2003.

Procuro sempre ser o mais racional possível. A morte de Kobe Bryant me deixou um pouco abalado pelo grande atleta que ele foi, por sua capacidade de produzir tantas epifanias em quadra e emocionar dessa maneira os fãs de basquete (um fã como eu). Meu lado mais pensante, porém, não deixa passar aquela acusação de estupro (um dos crimes mais hediondos e também um dos mais difíceis de ser levado a julgamento) e me sinto mal por ter sentido esse abalo.

Claro, ele não foi condenado por um tribunal. Todavia, isso basta?

A esse respeito, recomendo o artigo  We Can Only Process Kobe Bryant's Death by Being Honest About His Life, escrito por Evette Dione e publicado na revista Time em janeiro passado.

Na próxima postagem, falo do romance A peste, de Albert Camus.

BG de Hoje

Embora meu tipo de sonoridade predileta seja o rock norte-americano e britânico produzido nas décadas de 1960/1970, o maior referencial que tenho, em se tratando de música, está nos anos 1990, abrangendo vários gêneros e sub-gêneros. Uma das canções daquele período com a qual tenho grande identificação é No Rain, presente no álbum de estreia da banda californiana BLIND MELON, lançado em 1992. A faixa, entretanto, só ganharia o mundo em 1993, muito em virtude do seu clipe bacana, que - lembro bem - era muito exibido na antiga MTV (infelizmente, contudo, não consegui achar o vídeo no Youtube).

[Atualização em 24/04/2020] Hoje, felizmente, acabei encontrando o clipe original. 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Como são calhordas as classes médias e a alta burguesia brasileiras


O blog está bem paradão, eu sei.

Como disse antes, porém, após tanto tempo batendo ponto neste microscópico espaço internético, não tenho planos de desistir do Besta Quadrada tão cedo.

Enquanto não consigo estabelecer a rotina ideal de leituras e postagens para as atualizações almejadas, vou remediando a "paradeza" de um jeito ou de outro.

A essa altura dos acontecimentos (e dado o volume de declarações pavorosas proferidas constantemente por membros do atual governo federal), já virou notícia velha a deplorável fala do Ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre um suposto fluxo de empregadas domésticas brasileiras que conseguiriam viajar para a Disneylândia quando o câmbio estava mais favorável ao real. Matreiro, Guedes dissera que o dólar alto é "bom para todo mundo". E completou, destilando toda a sua bile preconceituosa: "Todo mundo indo para Disneylândia, empregada doméstica indo para a Disneylândia. Uma festa danada".

Devido à repercussão negativa, o "posto Ipiranga" de Bolsonaro pediu desculpas posteriormente. Contudo, é obvio, não foi muito convincente. Afinal, quem consegue acreditar que um representante de banqueiros - ainda mais um representante de banqueiros brasileiros - reconheceria a dignidade de uma empregada doméstica e a enxergaria como sujeito de direitos, inclusive o direito ao lazer (por exemplo, viajando para o exterior, caso seja possível para ela)?

Pode ser notícia velha, mas a fala de Paulo Guedes é exemplar da mentalidade típica da classe dominante brasileira - e também das classes médias nacionais, que (sabe de nada, inocente!) julgam-se mais próximas dos ricos do que de nós, pobres. Razão pela qual a exclusão e a desigualdade social dificilmente serão mitigadas neste país. Para essa gente, os pobres deveriam reconhecer o "seu lugar", para melhor servir como mão-de-obra barata (quase semi-escrava nalguns casos). Para essa elite e essas classes médias, é essencial marcar e manter bem explícitas as distinções de status socioeconômico. A esse respeito, a série Os Santos, do quadrinista e roteirista Leandro de Assis (cuja primeira tira está reproduzida lá no início da postagem) e o esquete TED Talk, do canal humorístico Porta dos Fundos, são bastante ilustrativos (veja o vídeo abaixo):



E pra quem pensa que a fala do Ministro da Economia não tem nada de mais, sugiro a leitura desta reflexão do cientista político Luis Felipe Miguel, professor e pesquisador da UnB. (NOTA: O texto foi publicado originalmente no perfil de Facebook do autor. Como, entretanto, não sou mais usuário dessa mídia social - felizmente! -, cheguei a seu conteúdo através do Diário do Centro do Mundo).


DECLARAÇÃO DE GUEDES É CHOCANTE, MAS NÃO TEM NADA DE SURPREENDENTE. 

Luis Felipe Miguel

O Brasil tem 7 milhões de trabalhadores domésticos – em geral, trabalhadoras. É mais do que qualquer outro país do mundo. E é também um emblema da nossa desigualdade social.

O trabalho doméstico, por suas próprias características, tende a ser pouco formalizado, com responsabilidades e horários definidos de maneira vaga. Isoladas entre si, as trabalhadoras têm dificuldade para se organizar em defesa de seus direitos.


A classe média vê a contratação da empregada doméstica como um dos elementos que definem sua própria posição. Nas carreiras profissionais competitivas, espera-se que as atividades domésticas estejam delegadas a outros – é quase um requisito, como percebem, com espanto, muitos estrangeiros que vêm trabalhar no Brasil.

A maior parte dessa classe média, porém, tem escassa condição de pagar um salário adequado à sua empregada doméstica. A difusão do trabalho doméstico remunerado leva a uma situação em que esse grupo, composto também quase todo por assalariados, se coloca objetivamente na condição de patrões, vendo direitos trabalhistas e garantia de condições materiais mínimas para quem trabalha como ameaças a seus interesses.

Não é à toa que a emenda constitucional que estendeu direitos aos trabalhadores domésticos foi um elemento central para produzir a revolta da classe média brasileira contra a presidente Dilma Rousseff.


Ao mesmo tempo, a empregada doméstica aparece, no discurso da nossa elite, como encarnação perfeita do “inferior” em relação a quem as distâncias sociais devem ser mantidas.


A “empregada doméstica no aeroporto” simbolizava a desordem das hierarquias que as (tímidas) políticas compensatórias do período Lula e Dilma anunciavam.


Em 2011, Delfim Netto – que foi o czar da economia durante a ditadura militar, mas que então se acomodava alegremente na posição de conselheiro dos governos petistas – observou a decadência do trabalho doméstico no Brasil com uma declaração inesquecível: “Há uma ascensão social visível. A empregada doméstica, infelizmente, não existe mais, ela desapareceu. Quem teve este animal, teve. Quem não teve, nunca mais vai ter”.

Depois, ele pediu desculpas. Mas sua frase é uma janela aberta para a mentalidade da elite brasileira – e, em particular, como ela vê a base da pirâmide social.


Delfim se referia a um momento em que, graças à expansão do emprego, muitas trabalhadoras domésticas abandonavam a atividade em favor de postos de trabalho no comércio, na indústria ou nos serviços, que podiam até não pagar mais, mas lhes garantiam maior prestígio social e relações laborais mais impessoais.


Isso mudou em seguida, com a política de ajuste anti-povo iniciada no segundo mandato de Dilma, aprofundada por Temer e levada ao paroxismo por Guedes. Desde então, o emprego doméstico, com frequência não formalizado, voltou a ganhar terreno.


A declaração de Paulo Guedes, ontem [12 de fevereiro], é chocante, mas não tem nada de surpreendente. É a marca de um governo que não tem pudor de escancarar aquilo que pensa. E de uma classe dominante que tem, como característica principal, uma absoluta alergia a qualquer forma de igualdade.


BG de Hoje

Com letras altamente politizadas, o grupo NEWEN AFROBEAT realiza uma incomum mistura musical: sons tradicionais dos povos originários do Chile com a batida que popularizou alguns artistas africanos entre o final da década de 1980 e início dos anos 2000. O resultado pode ser visto em canções como a (ótima) Come y Calla. Confira:

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Falou e disse...

"O cabelo, um dos sinais diacríticos que faz parte da diversidade do gênero humano, foi capturado pela cultura e, a partir daí, passou a receber diferentes significados e sentidos diversos. No contexto da África pré-colonial, ele era visto pelas diversas etnias como símbolo de status, de realeza e de poder. No contexto da invasão colonial e da escravidão, passa a ser visto como marca de inferioridade racial, como uma entre as muitas justificativas para se manter o racismo e o mito da inferioridade do negro.

O cabelo do negro pode ser visto como símbolo de beleza e, incoerentemente, de inferioridade racial. As tensões e os desencontros entre essas representações refletem a presença de relações sociais autoritárias, hierárquicas e conflituosas entre negros e brancos ao longo da História. Esse processo não resulta somente em introjeção do racismo e do mito da inferioridade pelo negro e pela negra. Contraditoriamente, ele os impulsiona a diferentes tipos de reação, expressos na ressignificação do cabelo crespo, transformando-o em símbolo de afirmação racial e estética". *

* GOMES, Nilma Lino. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos de identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. p. 373

terça-feira, 12 de novembro de 2019

A retórica da inconformidade


Não. Eu não desisti de escrever aqui no Besta Quadrada.

Apenas não estou conseguindo superar a letargia que vem me dominando nos últimos três anos.

Será possível vencê-la nalgum momento? Espero que sim.

Por ora, falemos de dois brevíssimos textos de Luis Fernando Veríssimo.

Não se trata de crônicas bem humoradas, como é do feitio dele, mas de reflexões (em um tom mais severo que o habitual) sobre a noção de justiça no Brasil, desenvolvidas a partir de uma frase do cáustico jornalista norte-americano H. L. Mencken  NOTA: Há, no livro em que esses textos foram publicados ¹, um artigo sensacional de Frei Betto e outro, do antropólogo Luiz Eduardo Soares, sobre os quais já tive vontade de discutir aqui no blog, mas sempre acabo adiando. Quem sabe um dia?

A frase é a seguinte: "A injustiça é relativamente fácil de aturar, é a justiça que fere".

A intenção de Veríssimo é saber se "a experiência brasileira comprovava ou desmentia o paradoxo de Mencken". E ao pensar no Brasil e "nas suas misérias reincidentes", o escritor gaúcho acaba pensando também na "escorregadia palavra 'indignação'".

Escreve ele:

"Somos bons de indignação, somos muito bons na retórica da inconformidade. O movimento abolicionista é um exemplo disto, e uma espécie de protótipo para todos os anos de retórica inútil que viriam depois. Deu belos discursos e até alguns bons poemas, o que não impediu que o Brasil fosse o último país do mundo a abolir a escravatura, ou que o trabalho escravo continuasse aqui até hoje, sob formas mais ou menos disfarçadas".

Veríssimo escreveu isso antes do advento das mídias sociais. Caso o fizesse agora, encontraria milhares de exemplos dessa indignação da-boca-pra-fora, inofensiva e inconsequente.

Sendo "uma emoção, portanto um momento passageiro, mais do que um sentimento" e apenas "uma reação, que é menos do que uma ação e bem menos do que uma convicção", a indignação manifestada por muitos brasileiros - em posts na web, nos cartazes de passeatas meio carnavalescas, nos discursos de lideranças partidárias - nunca resulta em nada mais do que palavrório.

"Sabemos como ninguém" - diz Luis Fernando Veríssimo - "verbalizar nossos problemas e as suas soluções, mas na hora de trocar a eloquência pela prática preferimos ficar no discurso, e a eloquência da acomodação, ou da capitulação, é a mesma da indignação. [...] É, sim, relativamente fácil conviver com a injustiça. No Brasil, não fazemos outra coisa há anos. E sempre pelo método mais simpático, o da desconversa".

A meu ver, é mesmo fácil aturar a injustiça por aqui. Os milhões de miseráveis enquanto bancos batem recordes consecutivos de lucro; a sonegação de impostos amplamente praticada por vários representantes do grande empresariado nacional, muitos deles beneficiados por isenções e outros incentivos fiscais, apesar dos ganhos estratosféricos; os abusos cometidos pelo poder público (sobretudo através da violência das polícias contra a população favelada e periférica, em sua maioria negra); os assassinatos e perseguições que vitimam camponeses e indígenas, levados a cabo por latifundiários e grileiros; a inacessibilidade dos mais pobres ao transporte público eficiente, aos serviços advocatícios, à assistência médica/odontológica adequada, sem opções diversificadas de lazer e de cultura; tudo isso pode provocar aqui e ali uma erupçãozinha verbal indignada, seja através de um pronunciamento no Congresso, uma coluna de jornal, um textão ou um meme no Facebook ou uma hashtag no Twitter. Mas não passa disso.

Nunca partimos, como povo, para enfrentar concretamente tantas situações e formas de injustiça, nunca partimos para a luta no real sentido da palavra (ao ver os eventos recentes ocorridos em Hong Kong e no Chile, pensei comigo mesmo: "Uma resistência e uma força reivindicatória desse tipo jamais  ocorreriam no Brasil...").

Escrevendo esta postagem, me lembrei de um artigo do Vladimir Safatle publicado no jornal El País em setembro passado.O professor de Filosofia da USP argumenta que uma das ilusões das quais precisamos nos livrar "é aquela que leva alguns a acreditar que nosso momento histórico pede mais diálogo". Para ele, em muitos casos, "é necessário dar forma à recusa clara em dialogar. Quem dialoga com pessoas que louvam torturadores e assassinos como 'heróis nacionais' não sabe qual o valor das palavras [...] Não é de diálogo que o Brasil precisa. É de ruptura".

Ou seja: chega de tanta falação (ainda que carregada de inconformidade)! Nossas desigualdades e clivagens não vão ser resolvidas na base da conversa. A indignação precisa virar ação.

Voltando à frase de H. L. Mencken, podemos também dizer que a justiça por aqui (e justiça, nesse caso mais restrito, entendida como equivalente à atuação do Poder Judiciário) não fere, a não ser aqueles e aquelas definidos por ela de antemão como alvos a serem atingidos de acordo com interesses inconfessáveis, como pudemos testemunhar no lawfare que culminou na prisão do favorito a vencer a última disputa eleitoral para presidente. Essa mesma justiça  revela uma seletividade racial e de classe abominável, que resulta, por exemplo, nos mais de 230.000 detentos provisórios que aguardam julgamento.

Veríssimo observa que

"alguém já disse que uma condição para que o estado constitucional sobreviva no Brasil é que a Constituição não seja levada muito a sério. Poderia se dizer, com a mesma sabedoria ou cinismo, que uma condição para que a justiça funcione mais ou menos no Brasil é não exigir que ela funcione melhor, mais disposta a contrariar interesses, revolucionar costumes, aplicar a retórica e dar dentes ao discurso. Ou seja, mais disposta a ferir".

Com tantos juízes e promotores julgando-se membros de uma casta superior de indivíduos, desconectados das angústias das classes populares, além de inumeráveis legisladores que combinam venalidade e obscurantismo, é provável que nunca teremos uma justiça com as características descritas acima.


E nós, posicionados no campo progressista, não vamos além da nossa retórica da inconformidade. Até o dia em que seremos totalmente espoliados pelos detentores do capital e massacrados (literalmente) pelas tropas neofascistas proliferantes.
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¹ VERÍSSIMO, Luis Fernando. O poder do nada. In: VERÍSSIMO, Luis Fernando et al. O desafio ético. Rio de Janeiro: Garamond, 2000. p. 13-30

BG de Hoje

Poucas vezes ouvi uma canção com um trabalho de guitarra tão sensacional como o de Love Spreads, da banda britânica THE STONE ROSES. Tem uma pegada bluesy, quase "ledzeppeliniana" (aliás, no disco do qual ela faz parte - Second Coming, lançado no finalzinho de 1994 -, há outra joia em matéria de guitarra, a faixa Driving South).