domingo, 27 de junho de 2010

Interrompendo a série para rir um pouco...


A tirinha abaixo, eu li na Folha de S. Paulo, no dia 26/06/10. Na minha opinião, sensacional.




BG de Hoje

O grupo de humoristas antes conhecido como Hermes e Renato, na minha opinião, fez uma besteira ao trocar a MTV pela Rede Record. Mas convenhamos, quase ninguém joga dinheiro fora (e se for muito dinheiro, aí então...). Por isso, entendo o fato de estarem hoje no programa sem-graça comandado pelo Marcos Mion. Ainda na MTV, eles criaram a banda MASSACRATION, que satiriza as vestimentas e os maneirismos das bandas de heavy metal típicas do final dos anos 1970 e início da década seguinte. Eu acho hilário. Confira abaixo o clipe de Evil papagali, contando a história de um psitacídio vindo direto do inferno e que tem o bizarro refrão "LÔRO, LÔRO QUER BISCOITO!".


sábado, 19 de junho de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (7)



Foi considerada espantosa, por muitos ouvintes de música pop, a declaração feita há alguns meses pelo guitarrista Jack White. Pessoalmente, não vi nada de mais. Reproduzida em vários veículos de comunicação (aqui, por exemplo), a opinião do músico fez lembrar, para alguns, a "batalha" do Metallica, anos atrás, contra o Napster. White, entre outras coisas, disse:

"Na minha cabeça continuo trabalhando como se não houvesse Internet. A ferramenta é um estorvo, é a grande inimiga da música atualmente".

Não custa lembrar que, no combate ao Napster, a banda californiana foi duramente acusada de defender os lucros gigantes da indústria fonográfica em detrimento dos interesses dos fãs - o que é parcialmente verdade. A declaração de Jack White parece estranha porque ele pertence a outra geração de artistas - mais jovem que os integrantes do Metallica -, que já estaria adaptada s "facilidades" proporcionadas pelo meio digital-virtual da música.

Mas penso que a crítica do guitarrista se refere principalmente ao turbilhão de dados e estímulos circulando a todo o tempo no ciberespaço. Tal circulação e tal quantidade de informação não são, em si, ruins; pelo contrário até. A questão, porém, é outra: como distinguir o que é essencial, relevante, em meio a este dilúvio (para usar a metáfora de Pierre Lévy)?

Creio que esta série - longa e chata, reconheço - chega a seu fim sem ter conseguido analisar, de forma sensata, o entusiasmo acrítico - muitas vezes ridiculamente infantil - em torno da virtualidade. Paciência. Também não pude discutir o "novo universal sem totalidade", tema fundamental do livro Cibercultura. Mas como, em outras oportunidades, tratarei do tema educação no contexto da era virtual, obrigatoriamente, lidarei com esse conceito.

Para encerrar, reproduzo abaixo crônica de Carlos Heitor Cony (Folha de S. Paulo, 20/05/10, p. 2), cujo teor tem tudo a ver como os argumentos aqui defendidos durante a série.

"A INTERNET E A RODA

Continuo indeciso diante do universo virtual, notadamente do tipo de comunicação instantânea e barata que a Internet nos dá. Evidente que dela me beneficio, tal como me beneficiei do computador.

Passei mais de 20 anos sem escrever ficção porque não suportava a máquina de escrever, mesmo aquelas que se diziam eletrônicas. O computador abriu um mundo para mim - se é que o meu umbigo é a coisa mais importante do universo. Pessoalmente, acho que é.

Embora me utilize da Internet diariamente, continuo achando que ela é poluidora, não no sentido ecológico, mas espiritual. Dá informações demais, excessivas, inúteis e redundantes. Mesmo a comunicação por e-mail, que aboliu o fax, o telegrama e a carta postal, transformou-se numa correspondência cultural e afetiva maciça, e nem sempre sincera, refletida e consciente.

A facilidade dos desabafos, das confissões, até mesmo da expressão dos sentimentos, protegidos por códigos secretos e relativo anonimato, cria um universo que pode ser duplamente virtual, na forma tecnológica da expressão eletrônica e no conteúdo que deságua no faz de conta da fantasia.

Não há segurança, nem moral nem material, no universo eletrônico. Ele é, sem dúvida, a ferramenta mais importante inventada pelo homem depois da roda. Mas é um instrumento, nada mais do que isso.

Como a roda, a informática está gerando uma nova civilização. É o início de nova era, além e acima do admirável mundo novo, que já está defasado. De seis em seis meses, o mundo novo se torna mais admirável e complexo, diluindo responsabilidades e anulando o indivíduo, que nada tem de admirável, mas lamentável. Como a roda, a Internet apenas nos facilita o caminho. Mas não nos aponta um destino".

BG de Hoje

Já que falei em Jack White, nada melhor do que ouvir WHITE STRIPES. A canção escolhida é meio óbvia (Seven Nation Army), mas é porque ela abre um dos meus discos prediletos: Elephant (2003). Emprestei esse álbum a um amigo, três anos atrás, que, infelizmente, até hoje não me devolveu. P., SE VOCÊ ESTÁ LENDO ESTE TEXTO, POR FAVOR, DEVOLVA O MEU CD!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (6)



Dois meses atrás, li um ótimo artigo* que vai bem ao encontro das ideias discutidas nessa série de postagens. Trata-se de Informação não é conhecimento: teorizando a economia política da virtualidade (disponível aqui), de Marcus Breen, ex-jornalista australiano e, atualmente, professor da Universidade da Carolina do Norte (EUA).

Não se vá pensar que, em razão de seus pontos de vista, Breen seja daqueles intelectuais refratários às inovações tecnológicas. Seus interesses estão centrados justamente na área de tecnologia da informação e sua relação com a indústria do entretenimento, principalmente no campo da música pop.

No texto citado, o autor faz a irônica pergunta: "[...] se as expertises digital e computacional têm a capacidade de transformar os seres humanos em seres mais humanos, mais satisfeitos, mais excitados, então por que reclamar?" Suas respostas merecem ser discutidas.

Os argumentos de Breen são construídos a partir de três premissas: 1) não é recomendável excluir a História de qualquer pensamento crítico e/ou teórico; 2) o "projeto iluminista", como ideal a ser atingido, está longe de ser visto como superado; e 3) a virtualidade que se experimenta por meio da tecnologia tem uma causalidade estrutural, por mais que os entusiastas do ciberespaço tentem escamotear esse ponto.

Durante a leitura do artigo percebe-se, logo de cara, o quanto o autor diverge dos teóricos da chamada pós-modernidade. Para ele, o pós-modernismo e seu "vanguardismo como rejeição à história" muitas vezes presta serviço (voluntário ou não?) ao irracionalismo que se nota em alguns discursos dos defensores das bem-aventuranças da era virtual-digital.

As questões levantadas por Breen originam-se dos "debates entre os defensores da nova ordem global da informação do virtual e os do velho mundo da racionalidade iluminista". O posicionamento é claro:

"[...] a fuga para a virtualidade esquivou-se do conhecimento, que foi substituído pela informação não-iluminista. É uma economia  política derivada, do, embora oposta ao, culto à informação, no qual os fatos informacionais e tecnológicos são antropomorfizados para falar por si mesmos, no qual a informação transforma-se em algo místico [...] O resultado necessário é uma economia política que critique a velocidade irracional e a desinformação da virtualidade".

O novo ambiente da era virtual gera "novas formações econômicas, sociais e culturais", mas diante de tais fatos "poucas pessoas se sentem capazes de reagir de forma confiável e crítica. Somos encorajados a não estragar a festa, desafiando a crise de comportamento modernista".

"nova ordem do mundo eletrônico" está em conveniente sintonia com o atual estágio econômico dominante:

"Não é de se admirar que velhas questões sobre justiça e valor social sejam tão difíceis de reivindicar no capitalismo contemporâneo? Seria também surpreendente que tanto esforço para a elaboração de novas políticas de tecnologia ainda não tenha se concretizado? Onde a economia representa tudo, a informação virtual serve como o meio acrítico de desarticulação das políticas sobre ela (a tecnologia). A economia da informação está, de forma bem feliz, ignorante em face da política da crítica".

É claro que, ao recuperar conceitos oriundos da visão marxista da Escola de Frankfurt, Marcus Breen pode acabar sendo menosprezado por lançar mão de um aparato teórico considerado obsoleto por muitos. Mas eu não penso assim.

Na próxima postagem, encerro esta série com uma crônica de Carlos Heitor Cony.

* BREEN, Marcus. Informação não é conhecimento: teorizando a economia política da virtualidade. Perspectivas em Ciência da Informação. Belo Horizonte, v. 6, n. 2, p. 157-171, jul./dez. 2001. Disponível em <http://portaldeperiodicos.eci.ufmg.br/index.php/pci/article/view/418/231> Acesso em 10/06/2010

sábado, 29 de maio de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (5)

"O deslumbramento das pessoas ante os triunfos do telégrafo e do telefone leva-as a esquecer com frequência o fato de que aquilo que realmente importa é o valor do que se tem a dizer e que, em comparação a isso, a velocidade ou lentidão dos meios de comunicação é uma preocupação que apenas por usurpação pôde alcançar o presente status [...]. Essa preponderância dos meios sobre os fins encontra a sua apoteose no fato de que o periférico na vida, aquilo que está fora de sua essência básica, se assenhorou do seu centro e até de nós mesmos [...]. Se considerarmos a totalidade da vida, então o controle da natureza por meio da tecnologia só é possível ao preço de nos escravizarmos a ela e de abandonarmos a espiritualidade como o alvo central da vida".

Georg Simmel (1907)


Já se discutiu aqui o conceito (mais amplo) de virtual. Nesta e nas postagens seguintes, porém, quando empregar o termo virtual ou virtualidade, estarei usando-o em sentido restrito, para me referir às redes de comunicação do ciberespaço.

E está na hora de deixar as coisas mais claras: a crítica que venho fazendo à era virtual incide particularmente sobre alguns modelos comportamentais e respectivo quadro de valores, e que os produtos típicos dessa era - celulares,  computadores pessoais, notebooks, consoles de videogame, i-qualquer-coisa, mp-qualquer-coisa, etc. -   ajudam a propagar. Tais modelos comportamentais, segundo penso, baseados na supervalorização da velocidade e da novidade per se, na  mais  irracional tecnofilia (paradoxalmente!) e no individualismo predatório, não preveem a "espiritualidade" como "o alvo central da vida". Sem pejo, admito que minha crítica é de caráter moral. E que fique claro: ela não se dirige a objetos, mas sim à apropriação que se faz destes.

Certamente parecerá estranho ao leitor habitual do blog ler a palavra espiritualidade neste espaço, uma vez que sou ateu. Mas não é o sentido místico do termo que busco: aqui, neste contexto, a palavra remete ao exercício de autocrítica, autorreflexão e aprimoramento ético, moral e intelectual que deveria ser feito, cotidianamente, por cada indivíduo, e que julgo essencial para que se viva em uma coletividade menos boçal e ordinária.

Não quero com isso assumir papel de "santo" e "cagar regras" para que os outros (e só os outros) sigam. Falo apenas de minha utopia. Frei Betto, em artigo* a ser retomado brevemente, considera que "a questão da espiritualidade não é uma questão simplesmente religiosa, é uma questão de educação da subjetividade, da interioridade". E acrescenta, como seria esperado de um católico:  "é uma questão de nos reeducarmos para a comunhão conosco mesmos, para a comunhão com a natureza, para a comunhão com o próximo e com Deus". Exceção à menção da divindade, concordo com o que afirma o escritor.

Em entrevista ao programa Roda Viva (TV Cultura), em 2001 (transcrição disponível aqui), Pierre Lévy - o filósofo com quem venho "debatendo" - justificou seu apreço pela era virtual com o seguinte argumento, entre outros:

[O fato de favorecerem o progresso das democracias] é um dos motivos pelos quais sou um grande entusiasta dessas técnicas de comunicação. Não pela proeza técnica em si, mas porque há uma relação profunda entre o progresso das formas de comunicação e o progresso da democracia, o progresso da emancipação do ser humano".

Não há dúvida de que as formas de comunicação recém-incorporadas culturalmente - através da telefonia móvel, da Internet, etc - são capitais para o combate a regimes ditatoriais por parte das populações subjugadas por estes, além de facilitar o acesso dos indivíduos a  informações, serviços e produtos antes restritos. Mas não vejo ao meu redor sinais dessa "emancipação", se tomarmos  a expressão com um significado mais amplo, relacionado à espiritualidade tal como foi definida acima.

Lévy, contudo, nos convida a analisar o atual cenário com  larga visão histórica, de forma retrospectiva e (principalmente) prospectiva: "[...] seria bom não ter o nariz colado na situação contemporânea, deixar-se levar pelos próprios fantasmas [...]". Concordo, mas meu objetivo é fazer uma alerta agora, no presente, a partir de situações que testemunho, já que não disponho da habilidade e nem dos instrumentos adequados para falar de outros tempos.

O ciberespaço nos permite visitar museus,  bastando, para isso, clicar o mouse; disponibiliza o conteúdo dos melhores jornais do mundo; nos faculta acesso a milhões de páginas de excelentes textos ficcionais. Mas prefere-se passar horas e horas fofocando no Orkut e no MSN ou atirando em inimigos feitos de uma infinidade de pixels. Isso, aliás, não deveria me surpreender. Os livros impressos, com o formato que atualmente conhecemos, apareceram há centenas de anos. Nem por isso as pessoas com quem convivo apreciam a leitura e o que ela pode proporcionar...

Talvez - e é muito provável que seja - meu modo de observar revele conservadorismo, preso a um modelo de cultura e educação, antes visto como emancipatório, e que já não faz sentido algum na era virtual. Preciso reaprender muita coisa.

A propósito, na entrevista citada, o filósofo francês observa:

"O que é aprender? É abandonar velhos reflexos, abandonar os preconceitos e penetrar em um conhecimento diferente. E isso é doloroso. É aceitar se transformar, aceitar e ir em direção à alteridade. Aprender é isso. Pensar é isso. Ir em direção de outra coisa".

Antes, porém, deixarei expostas minhas objeções e descontentamento com o que vejo a meu redor.
__________
* FREI BETTO (Carlos Alberto Libânio Christo). Crise da modernidade e espiritualidade. In: NASCIMENTO, Elimar Pinheiro do (Org.). Ética. Rio de Janeiro, Garamond, 1997

** Pierre Lévy no programa Roda Viva. Transcrição da entrevista disponível em http://www.rodaviva.fapesp.br/materia_busca/47/pierre%20l%E9vy/entrevistados/pierre_levy_2001.htm   Acesso em 19/05/2010

BG de Hoje

Se já não falei, falo agora: o grupo ALICE IN CHAINS é minha banda favorita. Numa época difícil, precisando arrumar emprego e sem moradia definida, tudo me parecia pior do que sempre foi. Até a música da época eu considerava chata e repetitiva. Um dia, contudo, liguei o rádio na Terra, extinta (e saudosa) emissora de BH que só tocava rock, e ouvi uma voz estranha e desesperada, acompanhada de um som lembrando épocas mais brilhantes da música pesada. Abaixo, versão ao vivo de It Ain't Like That, bela canção do primeiro disco do AIC e que até hoje, na minha opinião (suspeita) de fã, é subvalorizado.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (4)

"Nossas invenções costumam tornar-se bonitos brinquedos que distraem nossa atenção das coisas sérias. Elas são tão-somente meios aperfeiçoados para um fim não aperfeiçoado, um fim que já era fácil demais atingir, como estradas de ferro que levam de Boston a Nova York. Nós estamos com enorme pressa em construir um telégrafo magnético do Maine para o Texas; mas pode ser que o Maine e o Texas nada tenham de importante a comunicar [...]. É como se o objetivo principal fosse falar depressa e não falar sensatamente".

Henry Thoreau (1854)



Antes de prosseguir, quero pedir desculpas ao leitor habitual deste blog. Como você sabe (assim espero!) o Besta Quadrada é um espaço que analisa textos e comunica as impressões do blogueiro a partir  da leitura destes.

Detesto postagens que evidenciam demais as banalidades corriqueiras da vida dos blogueiros. NOTA: As redes sociais, do tipo Facebook e Orkut - das quais, inclusive, faço parte - estão aí, segundo penso, justamente para cumprir esse tipo de papel. Acredito que o leitor habitual deste blog não precisa perder seu tempo lendo bobagens sobre minha rotina, similar, suponho, às rotinas de outros zilhões de pessoas (talvez, até mesmo à sua, leitor).

Ainda que eu possa incluir ou partir de um episódio acontecido em minha vida particular para escrever, o(s) texto(s) de outro(s) autor(es) (poema, conto, romance, ensaio filosófico, relato científico, artigo jornalístico, etc.), mencionado(s) pelo blogueiro, é que será(ão) sempre o centro da postagem.

O pedido de desculpas é necessário porque, contrariando a intenção do Besta Quadrada, as próximas atualizações serão mais particulares do que o desejado. Infelizmente, dada a reduzida quantidade de leitura do blogueiro em relação ao tema ora tratado, não será possível ampliar a discussão para além de suas opiniões pessoais (talvez algum comentarista consiga robustecer o debate posteriormente). Feitos os esclarecimentos, voltemos ao livro Cibercultura *, do filósofo Pierre Lévy.

O pensador  francês se considera um otimista com o atual cenário. Mas faz uma ressalva: "meu otimismo, contudo, não promete que a Internet resolverá, em um passe de mágica, todos os problemas culturais e sociais do planeta".

Diante do que representam hoje as tecnologias de informação e comunicação, a postura a ser assumida precisa superar a polarização radical. Nem apologistas desvairados (embora, muitas vezes, o autor de Cibercultura se comporte como um), nem detratores catastrofistas. Lévy assevera:

"Não quero de forma alguma dar a impressão de que tudo o que é feito com as redes digitais seja 'bom' [...] Peço apenas que permaneçamos abertos, benevolentes, receptivos em relação à novidade. Que tentemos compreendê-la, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim reconhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural. Apenas dessa forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva humanista".

Essa postura receptiva e aberta, recomendada acima, a meu ver, está se confundindo, na mente de muitos indivíduos, com um simples deslumbramento ingênuo, apolítico e alienado, que enxerga os meios tecnológicos per se - os dispositivos, o maquinário eletrônico -  como o ápice da trajetória cultural (e existencial) humana, sem se perguntar sobre o melhor uso que se pode fazer deles.

Uma das principais hipóteses do livro de Lévy "é que a cibercultura expressa o surgimento de um novo universal, diferente das formas culturais que vieram antes dele no sentido de que ele se constrói sobre a indeterminação de um sentido global qualquer".

Desconfio de que o Mercado, com o tempo, acabará estabelecendo esse sentido, como tem estabelecido todos os outros nas nossas atuais sociedades. E as mesmas forças que sempre comandaram a circulação do dinheiro darão o rumo - megaempresas, conglomerados financeiros, etc. Não considero que as redes digitais estejam imunes ao determinismo econômico.

Mas, verdadeiramente, meu pé atrás com as ideias do livro se deve a outras razões, até porque o autor faz questão de deixar claro que "as questões econômicas e industriais, os problemas relacionados ao emprego e as questões jurídicas" estão fora de seu estudo.

Retomo na próxima postagem.
________________
* LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999

BG de Hoje

Na Santíssima Trindade do rock pesado, Deep Purple e (sobretudo) Led Zeppelin contavam com músicos extraordinários. Não era o caso do BLACK SABBATH. Mesmo assim, não existiria o heavy metal, tal como se conhece, sem o quarteto de Birmingham. Abaixo, Sympthom of the Universe, ao vivo, em Londres, com a formação clássica da banda. Naturalmente, na apresentação, não foi possível reproduzir o belo arranjo de violão final, gravado no registro em estúdio (álbum Sabotage, 1975). Uma pena, mas a canção é boa de qualquer jeito. NOTA: O grupo brasileiro Sepultura também já interpretou esta música num disco-tributo ao Sabbath.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Você conhece o e-mala?



Em entrevista dada ao jornal Financial Times, no ano de 2006, o cineasta alemão Werner Herzog fez um alerta: "a solidão humana aumentará em proporção direta ao avanço nas formas de comunicação". Concordo inteiramente.

Sinais de fumaça, cartas, telefones convencionais e celulares, correio eletrônico - todos são modos de encurtar distâncias e aproximar seres humanos ao longo da história. Utilíssimos, sem dúvida, se usados com moderação. Além disso, quem não gosta de ser lembrado por um amigo ausente? Se bem que há uma frase - extremamente irritante, aliás - que ouvimos bastante nos dias de hoje: "você anda sumido!". Parece que as pessoas se esqueceram de que nunca foi tão fácil encontrarmo-nos/ falarmo-nos/ visitarmo-nos. Basta querer. Se não o fazemos, aí já é outra história...

Mas existe um personagem, no meio dessa atual fase da "comunicação total" ainda mais irritante: trata-se do e-mala (o termo, infelizmente, não é criação minha).

O e-mala, a todo o tempo, nos envia piadinhas "ótimas" e "inéditas"; "lindas" apresentações de powerpoint; fotos "engraçadas"; vídeos "interessantes"; textos quilométricos "imperdíveis"; promoções "fantásticas"; provocações "sadias" envolvendo futebol e não para por aí... O e-mala sofre da febre do encaminhamento: mal abre um e-mail, faz questão de espalhá-lo para todos os seus contatos, sem a mínima preocupação ou cuidado de saber quais, naquela lista imensa, precisariam realmente receber aquilo.

Importante: não se trata do famigerado spam: o e-mala é "dos nossos". Pode ser qualquer um: eu, você, nossa colega de trabalho, nosso parente, aquele sujeito legal que tem um site bacana. Será que é assim tão simples excluir ou bloquear mensagens de alguém por quem temos consideração ou estima?

e-mala deseja realmente comunicar ou informar algo? Duvido. No fundo, acho que o e-mala quer apenas chamar atenção para si. Busca estar sempre presente, vicariamente, com seu envio ininterrupto de e-mails. Ele faz parte de uma nova leva de neuróticos - provavelmente a maioria de nós: os carentes da era da Internet.

Meu amigo z ninguém, com a verve que lhe é característica, mesmo reconhecendo  nos "blogues, çaites, feicibuqui, orcuti, tuíter e tantos outros meios de comunicação" algo válido, não abandona a postura crítica e denomina alguns destes, acertadamente, "piercings virtuais", nos quais as "gentes escrevem não de uma cadeira, mas de um divã". O e-mala, mesmo não sendo "autor" das mensagens que envia, quer esfregar na nossa cara (ou na nossa tela) o seu piercing...

Criamos nossos blogs ou fotologs, nossos perfis em redes de relacionamento e nossos sites pessoais, mas continuamos a ser ignorados - do mesmo modo que o somos na vida fora da Internet. Sim, caro(a) leitor(a), não se esqueça: continua existindo uma vida fora da Internet. Só que nesta há suor, mau hálito, chatice, feiúra, flatulências, semblantes de tédio ou desapontamento, quando não de puro ódio, falta de dinheiro, violência e outras tantas coisas desagradáveis que acontecem e são percebidas e sofridas frequentemente no plano não-virtual (leia-se, nossa vidinha de todo dia). E todos queremos evitar isso, não é mesmo? Desejamos um mundo olímpico, no qual seremos todos apolíneos e não teremos defeitos. Dionisíacos apenas quando bem humorados. E como somos bem-humorados e agradáveis na Internet...

Peço encarecidamente: procure diminuir o seu grau de "e-malice". Venho tentando controlar o meu, mesmo sabendo ser difícil.

Há algo preocupante nisso tudo e que, suponho, já pode ter acontecido também com você. Cheguei a apagar mensagens sérias e urgentes de amigos sem sequer lê-las e cujo conteúdo era relevante. Mas como foram enviadas num bolo de outras coisas sem importância, tiveram como fim a lixeira.

Não sou um exemplo de seriedade, longe disso até. Gosto, às vezes, de receber "e-mails de entretenimento", enviados por amigos e amigas, mas - e isso é fundamental - alguns destes procuram selecionar apenas aquilo que sabem ser de meu interesse, justamente por conviverem comigo. E melhor ainda, de vez em quando, eles têm a elegância de dirigir-se pessoalmente ao indivíduo a quem enviam os e-mails, demonstrando que o consideram mais do que apenas a sequência de caracteres numa massa de endereços, sobre a qual despejam sua carência. Sinal de respeito. Procuro fazer o mesmo sempre que posso.

Pratique a gentileza virtual. Recorde-se sempre de que o tempo das pessoas é precioso.

BG de Hoje

Bullet with butterfly wings é uma canção acachapante. O seu início, com o verso "the world is a vampire", já entrou para a história do rock. Que tal uma execução da música ao vivo, com a formação original do SMASHING PUMPKINS: Billy Corgan, James Iha, D'Arcy Wretzky e o baterista Jimmy Chamberlin? OBS: No vídeo, há primeiro uma apresentação informativa - em francês - e pouco depois é que "o pau quebra". Aproveite!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A poesia de Chico César



Dias atrás, tomávamos cerveja num boteco perto de onde moro. Dinei e eu ouvíamos Aos vivos (1995), disco que apresentou Chico César ao público brasileiro. NOTA: Entre as coisas que mais aprecio no Bar do Dinei é a boa - e variada - trilha sonora, sempre presente, desde a sua inauguração. Durante a execução do CD, reconhecíamos o compositor competente e o violonista apurado em cada uma das faixas. Chamei atenção também para a qualidade das letras do artista paraibano, sobretudo em canções como Béradêro e Dança. E, durante a nossa conversa, mencionei o livro Cantáteis: cantos elegíacos de amozade (Editora Garamond, 2007), um longo poema dividido em 141 cantos. Só fui conhecer esse trabalho do Chico César poeta no ano passado. Mas serviu para firmar minha convicção de que o autor sabe (muito) bem o que fazer com as palavras.


No posfácio, César esclarece que o livro foi escrito em 1993, "movido por esse sentimento híbrido (amozade)" e tem uma "musa paulistana", Tata Fernandes. Mas a musa, 

"mais que pessoa em si, é uma representação de um tipo de mulher de São Paulo. Urbana, letrada, combativa, independente, frequentadora dos círculos intelectuais alternativos, das rodas artísticas".

Uma mulher que tem

"suas mil e uma artes
seus livros de roland barthes
que não li, não sinto falta
seu beijo doce de flauta
seu olhar de pernilongo
sua dança rap jongo
clareiam minha câmara escura
escritora e escritura
li seus versos, tonteci
e dessa tontice caí
na doença que me cura"
(canto 8)

Mas uma mulher que pode ser várias:

"pras mulheres de que falo
dona dadá frida khalo
ciciolina anaïs 
pagu anaide beiriz
isadora christiane f.
as que me deram tabefe
minha mãe minhas irmãs
ana mae büde e as alemãs
essas e outras admiro
mas há uma que prefiro
pra ela meus rataplãs"
(canto 107)

O poema também é uma homenagem à cidade de São Paulo - megalópole menos cantada que o Rio de Janeiro, mas que deve ser tão fascinante quanto.

Chico César admite que escreveu o livro "estimulado pela existência e consistência" de textos como Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto), Os Cantos (Ezra Pound)  e A Divina Comédia (Dante Alighieri). Explica o autor:

"Sei que o fato de esses poemas existirem e pesarem decididamente na balança da literatura universal deveria me silenciar em definitivo. Mas deu-se o contrário. E cometi Cantáteis. Atribuo hoje à falta de juízo que acomete os apaixonados. Era como eu me encontrava".

Ainda que não carregue o peso das obras mencionadas, Cantáteis é uma ótima leitura.


Nem sempre o trabalho é desagradável...

Hoje, a turma de G. estava na biblioteca. Os alunos manuseavam livros, quando G. - sete anos de idade - vê a imagem da Esfinge ilustrada na capa de um deles. Admirada, exclama: "Olha, um livro do Egipslon!". Não consegui conter as gargalhadas...

BG de Hoje

Já que falei em CHICO CÉSAR, abaixo a interpretação da cantora mineira TITANE para a música Dança, de autoria do compositor paraibano. No show, ela está acompanhada de ótimos músicos aqui de Minas, como Gilvan de Oliveira e Maurício Tizumba. O próprio César participa da apresentação.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

Se você trabalha na Educação (refiro-me ao ensino FUNDAMENTAL e MÉDIO, o resto é Educação de perfumaria...), largue essa m... agora! Fuja dessa! Preserve sua dignidade e saúde!


Ontem me senti completamente humilhado e desrespeitado como ser humano e como trabalhador da educação básica PÚBLICA brasileira.

Estudantes de uma turma sobre a qual já falei aqui conseguiram fazer jorrar de mim tudo o que tenho de pior - e olha que não é pouca abjeção guardada dentro dessa carcaça a digitar este texto pestilento... Em poucas palavras: senti asco.

Dois deles, os mais insuportavelmente grosseiros e agressivos, marmanjos de 17, 18 anos - semianalfabetos - levantavam-se o tempo todo das carteiras, ofendendo-se e agredindo-se mutuamente, com o intuito canalha de chamar atenção, perturbar a atividade que estava sendo feita e, logicamente, testar minha paciência e autocontrole. O mais curioso é que um terceiro estudante, até "bem-comportado" incitava-me a "dar na cara deles". Eles não me enxergavam como uma pessoa que merecesse qualquer tipo de respeito. Quantas centenas de educadores Brasil afora não passam por isso todos os dias - e pior, continuarão a passar?

Dentro do ônibus, na volta para casa, só conseguia pensar neste poema de Mario Quintana:

COCKTAIL PARTY

Não tenho vergonha de dizer que estou triste,
Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas:
Estou triste porque vocês são burros e feios 
E não morrem nunca...
Minha alma assenta-se no cordão da calçada
E chora,
Olhando as poças barrentas que a chuva deixou.
Eu sigo adiante. Misturo-me a vocês. Acho vocês uns amores.
Na minha cara há um vasto sorriso pintado a vermelhão.
E trocamos brindes,
Acreditamos em tudo o que vem nos jornais.
Somos democratas e escravocratas.
Nossas almas? Sei lá!
Mas como são belos os filmes coloridos!
(Ainda mais os de assuntos bíblicos...)
Desce o crepúsculo
E quando a primeira estrelinha ia refletir-se em todas as poças d'água
Acenderam-se de súbito os postes de iluminação!

Cada vez tenho mais convicção de que na vida são muito poucas, pouquíssimas, as coisas que valem realmente a pena.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Responsabilidade social das empresas: isso existe?

 
 
Interrompo a série de postagens sobre "era virtual" por causa da leitura de um pequeno texto cujo teor contribuiu (e muito) para considerável aumento no meu crônico pessimismo.

Ontem, o jornal Folha de S. Paulo publicou o artigo Em defesa da Fundação Abrinq *, assinado por Jorge Broide, Miriam Debieux Rosa e Maria Ignês Bierrenbach e que foi subscrito por mais outras 27 pessoas. 

O artigo comunica o desacordo dos que subscrevem o texto com "a forma atual de governança e a equivocada visão de gestão do presidente do conselho de administração [da Fundação Abrinq], respaldadas pela maioria desse conselho". Por isso, "após inúmeras tentativas", todo o grupo discordante concluiu "que se torna inviável a nossa participação nessas instâncias [o conselho de administração e o conselho consultivo da mesma entidade ]".

Quem está lendo essa postagem pode se perguntar, com toda razão: "E daí, o que é que eu tenho com isso?" Um resposta simples e justa seria: nada. Mas a situação mencionada no artigo revela um aspecto de nossas elites econômicas e empresariais que, acredito, vale a pena ser discutido.

Antes, se me permite, uma breve rememoração pessoal.

Há exatos dez anos [então ano 2000], participei de um Curso de Formação de Mediadores de Leitura, dentro do Projeto Biblioteca Viva, da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança. Uma ocasião especial. Durante apenas uma semana, perfazendo 40 horas, professores, agentes comunitários, educadores sociais, psicoterapeutas e outros trabalhadores (nem todos eram servidores públicos) - mais ou menos 35 pessoas, no total - reuniram-se na sede da Secretaria Municipal de Educação/BH para trabalhar e pensar em torno de objetos singulares: livros infantojuvenis.

Lembro-me dos monitores: Amanda, moça paulistana, muito prestativa e de voz doce; Ilan, divertidíssimo rapaz israelense, que saiu de seu país para trabalhar com jovens infratores na famigerada Ex-FEBEM.

Sem exagero: aquele curso mudou a minha vida. Foi tão importante quanto o tempo que despendi nos bancos universitários. A partir do Biblioteca Viva, aprendi a valorizar uma atividade tão antiga e nobre, não obstante sua simplicidade: contar histórias. Tornei-me um estudioso de Literatura Infantil e Infantojuvenil. E me convenci de que, a despeito de toda a podridão existente, mesmo um pequeno esforço contra a barbárie não é fútil.

Volto ao artigo citado. Os autores destacam que os princípios da entidade, quando da sua fundação (1990), baseavam-se no "respeito à dignidade da pessoa humana, especialmente os relacionados à igualdade e à justiça". Iniciativa do empresariado - seu fundador, Oded Grajew, que também subscreve o texto, é um dos poucos empresários que admiro -, a Fundação Abrinq, ao longo dos anos, "reuniu, nos conselhos administrativo e consultivo, lideranças da sociedade civil e política, intelectuais engajados e cidadãos motivados das várias áreas de atuação na interface com a questão da criança e do adolescente".

Dos equívocos apontados pelos signatários do texto, chamo atenção para um deles: "a fundação tem-se afastado da inteligência do campo da infância e da adolescência, tanto internamente como também por sua pequena participação nos fóruns de debate e de defesa desse campo".

Admito que não acompanhei detalhadamente esse desvirtuamento da Fundação Abrinq. O que posso atestar é o uso indiscriminado do selo da entidade (que virou uma espécie de grife) em produtos e iniciativas, de qualidade no mínimo duvidosa, voltados para o público infantojuvenil . Constatei também abandono e descaracterização completa de programas como o Biblioteca Viva.
. . . . . .

Alguns poucos segmentos de nossas elites econômicas têm uma interessante característica: o sentimento de culpa para com os "desvalidos". Para amenizar seu incômodo, criam aqui e acolá pequenos espaços e iniciativas "sociais", ótimos também para melhorar a imagem institucional das empresas e/ou organizações às quais estão vinculados. Discutir redução das suas margens de lucro, ou uma sistema tributário que incida com mais rigor sobre quem pode pagar mais, ou combater privilégios de classe de que sempre desfrutaram, nem pensar. Mas acredito que isso deve acontecer em todo lugar do mundo.

A diferença é que aqui esses espaços e iniciativas "sociais" duram apenas o tempo em que a propaganda persiste: ou são abandonados ou deixam-se acabar à míngua.

Sempre ouço a expressão "responsabilidade social" para designar o compromisso das empresas com a reparação de desigualdades socioeconômicas ou com a redução de problemas gerados pela própria atividade empresarial.

Vendo o que aconteceu com a outrora promissora Fundação Abrinq, me pergunto: responsabilidade social das empresas, esse treco existe?
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* BROIDE, Jorge et al. Em defesa da Fundação Abrinq. Folha de S. Paulo, São Paulo, 28 abr. 2010, Caderno Brasil, p. 3

BG de Hoje

Owner Of A Lonely Heart, do YES, é uma das minhas músicas preferidas. Mas eu gosto mais ainda do clipe, com sua atmosfera kafkiana. 

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Jogando água no chope da virtualidade (3)

Como se empregaram anteriormente os termos virtual e digital ao longo das postagens, acho apropriado defini-los melhor. Para tanto, recorro ao já clássico livro de Pierre Lévy, Cibercultura (São Paulo: Editora 34, 1999). Segundo o filósofo francês,

"A palavra ' virtual ' pode ser entendida em ao menos três sentidos: o primeiro, técnico, ligado à informática, um segundo corrente e um terceiro filosófico. O fascínio suscitado pela ' realidade virtual ' decorre em boa parte da confusão entre esses três sentidos. Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão). No sentido filosófico, o virtual é obviamente uma dimensão muito importante da realidade. Mas no uso corrente, a palavra virtual é muitas vezes empregada para significar a irrealidade - enquanto a ' realidade ' pressupõe uma efetivação material, uma presença tangível. A expressão ' realidade virtual ' soa então como um oxímoro, um passe de mágica misterioso. Em geral acredita-se que uma coisa deva ser real ou virtual, que ela não pode, portanto, possuir as duas qualidades ao mesmo tempo. Contudo, a rigor, em filosofia o virtual não se opõe ao real mais sim ao atual: virtualidade e atualidade são apenas dois modos diferentes da realidade. Se a produção da árvore está na essência do grão, então a virtualidade da árvore é bastante real (sem que seja, ainda, atual)".

Não há, portanto, oposição entre virtual e real. A virtualidade refere-se a algo muito comum em nossa época mas que seria simplesmente inimaginável séculos ou mesmo décadas atrás: a possibilidade de suprimir obstáculos decorrentes das barreiras geográficas e do tempo, apenas com o uso de aparelhos e máquinas ao alcance da mão; algo verdadeiramente revolucionário e sem precedentes. Nossas sociedades, nossas economias, nossas manifestações artísticas, enfim, nossas culturas estão diante de um fenômeno avassalador (não à toa, usa-se a metáfora do dilúvio na introdução do livro Cibercultura)

E quanto ao digital?

Digitalização, sendo direto, é traduzir em números uma mensagem, uma informação.

Para Lévy, no geral, "não importa qual é o tipo de informação ou de mensagem: se pode ser explicitada ou medida, pode ser traduzida digitalmente". E são esses dígitos que circulam através dos circuitos eletrônicos, das redes de fibras óticas e outros meios de transmissão. E o mais importante:

"Mesmo se falamos muitas vezes de ' imaterial ' ou de ' virtual ' em relação ao digital, é preciso insistir no fato de que os processamentos em questão são sempre operações físicas elementares sobre os representantes físicos dos O e 1: apagamento, substituição, separação, ordenação, desvio para determinado endereço de gravação ou canal de transmissão".

Agora a pergunta: se a virtualidade é revolucionária e, hoje em dia, indispensável na vida de milhões de seres humanos e se os processos de digitalização favoreceram enormemente outros tantos milhões, por que desafiar/desafinar o "coro dos contentes" e jogar água no chope da virtualidade?

Tento responder a partir da próxima postagem, falando ainda do livro de Lévy.


BG de Hoje

Sem muito o que comentar, música de primeira. Compacto, com o baterista e compositor CURUMIN.