quinta-feira, 9 de julho de 2020

Falou e disse...

"Não há que se falar em democracia – na ideia de democracia com uma ampla participação popular nas decisões políticas, nos rumos de um país, de uma comunidade – se não há igualdade racial.

A desigualdade racial sempre foi e será um constrangimento a qualquer projeto verdadeiro de democracia que vá além da mera formalidade. Quando há uma desigualdade racial gritante, que se manifesta na desigualdade econômica que atinge as pessoas negras, no tratamento institucional, na violência policial, no encarceramento em massa, na ausência de representatividade política e social, tudo isso vai gerando fissuras no discurso ideológico que diz que vivemos em democracia".

Afirmações feitas pelo professor, jurista e filósofo do direito Silvio ALMEIDA, publicadas em entrevista ao jornal Nexo (Não dá para falar de democracia sem falar da questão racial), em 01/06/2020, disponível aqui.

PS: Por mais que iniciativas individuais sejam necessárias na luta contra a discriminação e o preconceito raciais, é preciso compreender que o racismo é um fenômeno estruturante de nossas sociedades, cuja complexidade exige ações de outra magnitude para ser suprimido definitivamente. A esse respeito, vale a pena ouvir o que diz o próprio Silvio Almeida no vídeo abaixo, explicando o que é racismo estrutural (particularmente esclarecedor a partir do terceiro minuto de exibição).

quinta-feira, 2 de julho de 2020

O julgamento de Zé Bebelo em Grande sertão: veredas (III)


"Valentões assalariados ou camaradas em armas, a jagunçagem, 'estado de lei' em oposição à lei do Governo e do Estado, se rege por seu próprio código de honra e se organiza segundo normas próprias, ditadas pelas necessidades de sobrevivência do grupo, e segundo uma espécie de acordo tácito entre seus membros. Caracteriza-a forte senso de hierarquia, que determina que aos chefes cabe ditar as ordens e aos subordinados, cumpri-las".

Sandra Guardini T. Vasconcelos - Homens provisórios. Coronelismo e jagunçagem em Grande sertão: veredas

"Olhe: jagunço se rege por um modo encoberto, muito custoso de eu poder explicar ao senhor. Assim - sendo uma sabedoria sutil, mas mesmo sem juízo nenhum falável; o quando no meio deles se trança um ajuste calado e certo, com semêlho, mal comparando, com o governo de bando de bichos - caititú, boi, boiada, exemplo."

Riobaldo, no Grande sertão: veredas (João Guimarães Rosa)


 
Comecei esta série de postagens com a intenção de demonstrar como o julgamento de Zé Bebelo é uma ocorrência inusitada - não obstante, crucial - dentro de Grande sertão: veredas.  Num território impregnado de violência e arbitrariedade, os personagens (eles próprios abusivos e brutais) colocaram em suspensão sua hostilidade e emularam um dispositivo da justiça formal.

Na primeira postagem, o "réu" foi apresentado e ressaltou-se a sua raposice, isto é, a sua astúcia. No segundo texto da série, procurei reforçar junto ao(à) eventual leitor(a) que é de jagunços (ou seja, de bandidos) que estamos tratando (muito embora, graças ao prodigioso poder da ficção literária, consigamos nos sentir próximos deles, humanamente falando). A respeito desse ponto levantado na postagem anterior, considero bem acertada a análise ¹ da professora Sandra Guardini T. Vasconcelos (FFLCH/USP), ao observar que

"Encobertas pela beleza da linguagem e pelo lirismo e dramaticidade do texto, a violência e a brutalidade que pautam as ações e práticas dos jagunços em Grande sertão: veredas parecem ter ocupado uma espécie de segundo plano nas leituras críticas do romance. Com raras exceções - Walnice Nogueira Galvão, em As formas do falso, é a mais notável delas -, poucos foram os leitores de João Guimarães Rosa que se detiveram na questão do coronelismo e jagunçagem no romance"

Hoje, finalmente, trataremos do julgamento propriamente dito.

Desde a captura do chefe rival até o acatamento do veredito imposto por Joca Ramiro, são cerca de 30 páginas. Num lugar chamado É-Já (ah, a obra de Guimarães Rosa e seus topônimos...), Riobaldo e outros jagunços, "sub-comandados" por Hermógenes e (principalmente) Sô Candelário, guardavam o local, presumindo que por ali passaria um grupo de inimigos, liderados por Zé Bebelo - o que acaba acontecendo.

Acuados num amontoado de pedras e em número reduzidíssimo após o tiroteio, Zé Bebelo e seus sequazes seriam facilmente exterminados.

É quando vem à mente de Riobaldo um estratagema ²:

"Digo ao senhor: eu gostava de Zé Bebelo. Redigo - que eu menos atirava do que pensava. Como era possível, assim, com minha ajuda, a morte dele? Um homem daquela qualidade, o corpo dele, a ideia dele, tudo o que eu sabia e conhecia. Nessas coisas eu pensei. Sempre - Zé Bebelo - a gente tinha que pensar. Um homem, coisa fraca em si, macia mesmo, aos pulos de vida e morte, no meio das duras pedras. Senti, em minha goela. Aquela culpa eu carregava? Arresto gritei: - 'Joca Ramiro quer esse homem vivo! Joca Ramiro quer este homem vivo! Joca Ramiro faz questão!...' A que nem não sei como tive o repente de isso dizer - falso, verdadeiro, inventado... 
Firme gritei, repeti".
O ardil dá certo. O líder inimigo é levado vivo à presença de Joca Ramiro, que acabava de chegar com o restante do bando. Riobaldo temia que sua manobra desse errado e Zé Bebelo padecesse torturas. Diante do grande chefe, demonstrando mesmo ser um sujeito estúrdio, Zé Bebelo exige julgamento. E é atendido. Observemos esta passagem:

"Tinha sido aquilo: Joca Ramiro chegando, real, em seu alto cavalo branco, e defrontando Zé Bebelo a pé, rasgado e sujo, sem chapéu nenhum, com as mãos amarradas atrás, e seguro por dois homens. Mas mesmo assim, Zé Bebelo empinou o queixo, inteirou de olhar aquele, cima abaixo. Daí disse: 
- 'Dê respeito, chefe. O senhor está diante de mim, o grande cavaleiro, mas eu sou seu igual. Dê respeito!' 
- 'O senhor se acalme. O senhor está preso...' - Joca Ramiro respondeu, sem levantar a voz. 
Mas, com surpresa de todos, Zé Bebelo também mudou de toada, para debicar, com um engraçado atrevimento: 
- 'Preso? Ah, preso... Estou, pois sei que estou. Mas, então, o que o senhor vê não é o que o senhor vê, compadre: é o que o senhor vai ver...' 
- 'Vejo um homem valente, preso...' - aí o que disse Joca Ramiro, disse com consideração. 
- Isso. Certo. Se estou preso... é outra coisa...' 
- 'O que, mano velho?' 
- '... É, é o mundo à revelia!...' - isso foi o fecho do que Zé Bebelo falou. E todos que ouviram deram risadas".

Esta sentença - "É, é o mundo à revelia!..." - é bastante realçada por estudiosos do Grande sertão: veredas. Como eu a interpreto? A expressão à revelia, claro, faz parte do jargão jurídico: quando  um réu, intimado, não comparece à audiência, torna-se revel (ou rebelde) e o tribunal, portanto, pode tomar decisões à revelia daquele. Mas há também um sentido bem mineiro para a expressão: quando algo estava bagunçado, fora de ordem, virado do avesso, alguns de nós, antigamente, diziam que esse algo estava à revelia. Zé Bebelo atribuiu a si a missão de acabar com a jagunçagem (usando, para isso, jagunços!); supunha estar do lado correto, inclusive legalmente. Como poderia aceitar estar preso por aqueles que se colocavam à margem da lei? Isso seria, para ele, fora da ordem normal das coisas! Como se ele próprio não estivesse também à margem da lei... O mundo à revelia é o mundo fora de ordem, onde quem comete crimes prende e julga aquele que o combate. Mas aquele que o combate também está cometendo crimes...

O "réu" é levado então para a Sempre-Verde, propriedade de um aliado (um coronel da localidade). No imenso eirado da fazenda, todos se reuniram. No centro, ficaram Zé Bebelo e Joca Ramiro, tendo a seu lado os "sub-comandantes": Sô Candelário, João Goanhá, Titão Passos, Hermógenes e Ricardão. Circundando os maiorais, o restante da jagunçada. É de se notar que num texto em que pouquíssimos diálogos aparecem - as exceções mais destacadas são as conversas de Riobaldo e Diadorim -, o julgamento permite "ouvir" outras vozes além do narrador.

Joca Ramiro - o "juiz" - pede aos "sub-comandantes" que apresentem suas "alegações". Da parte da acusação, falam Hermógenes e Ricardão; pela defesa, Titão Passos, com intervenções de Sô Candelário e João Goanhá. Hermógenes declara "que se devia de amarrar este cujo, feito porco". Sangrá-lo. Ou atravessá-lo no chão e passar com os cavalos por cima. Zé Bebelo reage de forma escarnecedora a esse e outros rompantes, deixando Hermógenes furioso, disposto a matar o "réu" ali mesmo, naquela hora. É quando Joca Ramiro, evitando o confronto, mostra também ser astuto: " - 'Mas ele [Zé Bebelo] não falou o nome-da-mãe, amigo...' ". Ricardão faz uma acusação mais voltada, digamos, ao mérito da querela. Pede a condenação e execução do "réu": "a misericórdia duma boa bala, de mete-bucha, e a arte está acabada e acertada". A sua exposição - lembrando das baixas provocadas pelo inimigo e do compromisso do bando de Joca Ramiro com coronéis da região - produz grande efeito, inclusive sobre Riobaldo. A fala é então concedida a Titão Passos:

" - 'Ao que aprecio também, Chefe, a distinção minha desta ocasião, de dar meu voto. Não estou contra a razão de companheiro nenhum, nem por contestar. Mas eu cá sei de toda consciência que tenho, a responsabilidade. Sei que estou como debaixo de juramento; sei porque de jurado já servi, uma vez, no júri da Januária... Sem querer ofender ninguém - vou afiançando. O que eu acho é que é o seguinte: que este homem não tem crime constável. Pode ter crime para o Governo, para delegado e juiz-de-direito, para tenente de soldados. Mas a gente é sertanejos, ou não é sertanejos? Ele quis guerrear, veio - achou guerreiros! Nós não somos gente de guerra? Agora ele escopou e perdeu, está aqui, debaixo de julgamento. A bem, se, na hora, a quente a gente tivesse falado fogo nele, e matado, aí estava certo, estava feito. Mas o refrêgo de tudo já se passou. Então, isto aqui é matadouro ou talho?... Ah, eu, não. Matar, não. Suas licenças...' ".
Essa fala condensa, de certa maneira, tudo o quis discutir nesta série de postagens. Por um momento, a ferocidade daqueles sujeitos foi suspensa para produzir algo civilizado e que não fazia parte de seus usos e costumes: um julgamento. Passado o "refrêgo" da batalha, matar por matar pareceria errado, uma vez que o réu não cometeu "crime constável". Na alegação de Titão Passos também vemos que a lei, naquele sertão, não é determinada por nenhuma autoridade governamental ou representante do Estado. Há um regimento muito próprio desses guerreiros. E só este é obedecido por eles.

Caso o(a) eventual leitor(a) já tenha lido o romance, vai se lembrar que Riobaldo também teve direito a voz no julgamento, argumentando que absolver e libertar o réu traria honra a quem o fizesse.

Zé Bebelo acaba absolvido. Joca Ramiro decreta seu banimento de Minas e da Bahia. Diadorim, feliz, pensava que a guerra havia terminado. Porém, o resultado do julgamento desagradou alguns e acontece a traição que leva à nova conflagração armada, o grande conflito que marca toda a narrativa...

Por ser a obra que é, Grande sertão: veredas permite leituras das mais variadas: uma bonita e trágica história de amor, um enorme trabalho de pesquisa linguística, uma "representação alegórica da história brasileira que revela o funcionamento do sistema real de poder no Brasil", de acordo com Willi Bolle - e tantas outras. A leitura que costumo fazer é a seguinte: um magnífico tratamento literário para episódios de violência, com múltiplas causas e justificações, que tem no julgamento de Zé Bebelo o seu mais significativo momento de contraste.

__________
¹ VASCONCELOS, Sandra Guardini T. Homens provisórios. Coronelismo e jagunçagem em Grande sertão: veredas. SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 5, n. 10, p. 321-333, 1º sem. 2002. Disponível em: <http://periodicos.pucminas.br/index.php/scripta/article/view/12410>.  Acesso em: 20/06/2020. A autora também aponta que os jagunços rosianos, ainda que guardem semelhanças com o tipo ideal do jagunço, têm suas distinções:


"Nem capangas, como os que se associavam a um chefe de parentela ou a um chefe político, nem cangaceiros, como os que percorreram as caatingas áridas do polígono das secas, os jagunços de Grande sertão: veredas são representados como homens livres que optaram pelo modo de vida provisório e nômade da jagunçagem pelos mais variados motivos. Não recebem soldo, como os primeiros, mas são parte integrante do esquema político que impera no sertão e coloca em choque diferentes grupos e facções. são independentes como os segundos, de quem imitam a organização do bando e certas práticas cotidianas, fruto da vida nômade que abraçam. Recriados a partir de dados da realidade, figuram, portanto, no romance como uma mistura que, combinando traços de um e outro tipo, resulta num tipo compósito que retém caraterísticas dos dois".

² ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

BG de Hoje

Já perdi a conta de quantas vezes assisti a esse vídeo no Youtube: Thinkin' About Your Body, interpretada por BOBBY McFERRIN

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O julgamento de Zé Bebelo em Grande sertão: veredas (II)


Ao responder a pergunta O que pode a literatura? ¹, o historiador, filósofo e crítico literário Tzvetan Todorov afirmou que, assim "como a filosofia e as ciências humanas, a literatura é pensamento e conhecimento do mundo psíquico e social em que vivemos. A realidade que a literatura aspira compreender é, simplesmente (mas, ao mesmo tempo, nada é assim tão complexo), a experiência humana". Nós, os leitores, ao abrirmos uma obra literária, sabemos que estamos diante de um relato ou de um conjunto de versos resultante de um esforço imaginativo; ainda assim, quantas e quantas vezes um texto inventado não foi diretamente ao encontro de nossa reflexão e de nossas emoções, como se revelasse algo que já havíamos sentido e pensado, mas que até então não havíamos encontrado verbalmente expresso de tal forma?

A ficção literária, entretanto, tem ainda outra imensa virtude: a capacidade de nos predispor para a compreensão e aceitação da alteridade. Todorov observa que,

"Num estudo recente [2001], o filósofo americano Richard Rorty propôs caracterizar diversamente a contribuição da literatura para a nossa compreensão do mundo. Ele recusa o uso de termos como 'verdade' ou 'conhecimento' para descrever essa contribuição, afirmando que a literatura faz menos remediar nossa ignorância do que nos curar de nosso 'egotismo', termo entendido como uma ilusão de autossuficiência. A leitura de romances, segundo ele, tem menos a ver com a leitura de obras científicas, filosóficas ou políticas do que com outro tipo bem distinto de experiência: a do encontro com outros indivíduos. Conhecer novas personagens é como encontrar novas pessoas, com a diferença de que podemos descobri-las interiormente de imediato, pois cada ação tem o ponto de vista do seu autor. Quanto menos essas personagens se parecem conosco, mais elas ampliam nosso horizonte, enriquecendo assim nosso universo. Essa amplitude anterior (semelhante sob certos aspectos àquela que nos proporciona a pintura figurativa) não se formula com o auxílio de proposições abstratas, e é por isso que temos tanta dificuldade em descrevê-la; ela representa, antes, a inclusão na nossa consciência de novas maneiras de ser, ao lado daquelas que possuímos. Essa aprendizagem não muda o conteúdo do nosso espírito, mas sim o próprio espírito de quem recebe esse conteúdo; muda mais o aparelho perceptivo do que as coisas percebidas. O que o romance nos dá não é um novo saber, mas uma nova capacidade de comunicação com seres diferentes de nós; nesse sentido, eles participam mais da moral do que da ciência".

Com essas considerações em mente, voltemos a falar do Grande sertão: veredas, obra que estamos discutindo desde a postagem anterior.

O tipo ideal ³ predominantemente retratado no romance é o jagunço. Os personagens de destaque (com poucas exceções, como Otacília e Nhorinhá) estão nessa categoria, inclusive o narrador-protagonista (muito embora, em vários momentos da narrativa, Riobaldo questione o seu pertencimento à jagunçaria).

Ora, e o que são esses indivíduos? Guarda-costas e pistoleiros a serviço dos coronéis do meio rural ou bandoleiros de estrada. Numa palavra: criminosos.

Se a boa ficção literária não nos permitisse transcender as interpretações moralistas taxativas (nos facultando "encontrar outras pessoas", através dos personagens que "ampliam nosso horizonte", sobretudo os que não se parecem conosco), como absorveríamos o longo e intrincado monólogo de Riobaldo - que matou, estuprou, extorquiu, roubou? Penso então ser este o momento propício para mencionar duas passagens que aprecio muito no Grande sertão: veredas.

Na primeira delas, Riobaldo conversava com um camarada de armas, Jõe Bexiguento, e começa a matutar:

"Pecados, vagância de pecados. Mas, a gente estava com Deus? Jagunço podia? Jagunço - criatura para crimes, impondo o sofrer no quieto arruado dos outros, matando e roupilhando. Que podia? Esmo disso, disso, queri, por pura toleima; que sensata resposta podia me assentar o Jõe, broeiro peludo do Riachão do Jequitinhonha? Que podia? A gente, nós, assim jagunços, se estava em permissão de fé para esperar de Deus perdão de proteção? Perguntei, quente. 
- 'Uai?! Nós vive...' - foi o respondido que ele me deu. 
Mas eu não quis aquilo. Não aceitei. Questionei com ele, duvidando, rejeitando. Porque eu estava sem sono, sem sede, sem fome, sem querer nenhum, sem paciência de estimar um bom companheiro. Nem o ouro do corpo eu não quisesse, aquela hora não merecia: brancura rosada de uma moça, depois do antes da lua-de-mel. Discuti alto. Um que estava com sua rede ali próximo, decerto acordou com meu vozeio, e xingou xíu. Baixei, mas fui ponteando opostos. Que isso foi o que sempre me invocou, o senhor sabe: eu careço de que o bom seja bom e o rúim ruím, que dum lado esteja o preto e do outro o branco, que o feio fique bem apartado do bonito e a alegria longe da tristeza! Quero os todos pastos demarcados... Como é que posso com este mundo? A vida é ingrata no macio de si; mas transtraz a esperança mesmo do meio do fel do desespero. Ao que, este mundo é muito misturado..."

"Uai?! Nós vive...".
É como se Jõe Bexiguento dissesse: "Nós também somos seres humanos" ou, para usar uma expressão que talvez agradasse a uma pessoa bastante religiosa (como era Guimarães Rosa), "Nós também somos filhos de Deus". De fato, "este mundo é muito misturado" e querer olhá-lo de forma puramente maniqueísta, com "todos os pastos demarcados", talvez não seja a melhor maneira de tentar lidar com ele (o que nos remete à inquietude de Riobaldo, especulando constantemente sobre a existência ou não do Diabo).

Na segunda passagem, o bando, neste momento sob a chefia de Zé Bebelo, arranchara-se durante vários dias num local chamado a Coruja. Alguns dos jagunços estavam doentes. Além disso, Zé Bebelo parecia não ter certeza do que fazer. Riobaldo conversa com companheiros mais próximos. É quando um tal de Sidurino sugere que o que eles deveriam fazer mesmo era promover um ataque qualquer a "alguma vila sertaneja dessas, e se pandegar, depois vadiando...". Atenção para o excerto a seguir:

"[...] Ao assaz confirmamos, todos estávamos de acordo com o sistema. Aprovei, também. Mas, mal acabei de pronunciar, eu despertei em mim um estar de susto, entendi uma dúvida, de arpêjo, e o que me picou foi uma cobra bibra. Aqueles, ali, eram com efeito os amigos bondosos, se ajudando uns aos outros com sinceridade nos obséquios e arriscadas garantias, mesmo não refugando a sacrifícios para socorros. Mas, no fato, por alguma ordem política, de se dar fogo contra o desamparo de um arraial, de outra gente, gente como nós, com madrinhas e mães - eles achavam questão natural, que podiam ir salientemente cumprir, por obediência saudável e regra de se espreguiçar bem. O horror que me deu - o senhor me entende? Eu tinha medo de homem humano. 
A verdade dessa menção, num instante eu achei e completei: e quantas outras doideiras assim haviam de estar regendo o costume da vida da gente, e eu não era capaz de acertar com elas todas, de uma vez! Aí, para mim - que não tenho rebuço em declarar isto ao senhor - parecia que era só eu quem tinha responsabilidade séria neste mundo; confiança eu mais não depositava, em ninguém. Ah, o que eu agradecia a Deus era ter me emprestado essas vantagens, de ser atirador, por isso me respeitavam. Mas eu ficava imaginando: se fosse eu tivesse tido sina outra, sendo só um coitado morador, em povoado qualquer, sujeito à instância dessa jagunçada? A ver, então, aqueles que agorinha eram meus companheiros, podiam chegar lá, façanhosos, avançar em mim, cometer ruindades. Então? Mas, se isso sendo assim possível, como era pois que agora eles podiam estar meus amigos?! O senhor releve o tanto dizer, mas assim foi que eu pensei, e pensei ligeiro. Ah, eu só queria era ter nascido em cidades, feito o senhor, para poder ser instruído e inteligente! E tudo conto, como está dito. Não gosto de me esquecer de coisa nenhuma. Esquecer, para mim, é quase igual a perder dinheiro".
Muitos tendem a considerar humanos apenas os nossos sentimentos e gestos tidos como bons. A passagem acima, entretanto, nos lembra que ser humano é também "cometer ruindades", sendo para alguns, como os jagunços, "questão natural", desobrigada de arrazoados éticos ou morais. Tudo se torna ainda mais grave num território fora da lei, como o sertão "onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal", lembrando um dos trechos mais famosos do livro de Rosa.

Mas, mesmo nesse lugar de despotismo e violência, um arremedo de ação legal, urdido e conduzido por facínoras, se deu...

Termino esta série de postagens na próxima semana.
__________
¹ TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. 4 ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2012.

² Emprego aqui, de maneira não rígida, o conceito sociológico de tipo ideal, ou seja, não se trata de um reflexo da realidade, mas um modelo que reúne traços essenciais do fenômeno/ente que se quer representar. É bom lembrar, contudo, que vários dos jagunços de Rosa escapam à simplificação inerente ao conceito de tipo ideal.

³  ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

BG de Hoje

Tenho muitas lembranças de infância associadas a dois discos do grupo pernambucano QUINTETO VIOLADO: Berra-Boi (1973) e Folguedo (1975). Passados tantos anos, não sei ao certo quem os comprara, se minha mãe ou minha irmã mais velha. Só sei que esses discos ficaram bem gravados na minha memória musical. No primeiro álbum, encontra-se a belíssima canção Vaquejada.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

O julgamento de Zé Bebelo em Grande sertão: veredas (I)


[Postagem atualizada em 04/07/2020]

Não sou diferente de outros apaixonados por Literatura que costumam, periodicamente, reler os mesmos livros.

A náusea, de Sartre; Angústia, de Graciliano Ramos; Lavoura arcaica, de Raduan Nassar; O Senhor das Moscas, de W. Golding; Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso; Admirável mundo novo, de Huxley; Brejo das Almas e Sentimento do mundo, ambos de Drummond; O deserto dos tártaros, de D. Buzzati; A educação pela pedra, de João Cabral de Melo Neto; Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski; Macunaíma, de Mario de Andrade; A vida: modo de usar, de Georges Perec... Essas são algumas das obras de arte que volto a procurar sempre, por uma razão ou outra. 

Assim também é com Sagarana e Grande sertão:veredas, ambos de Guimarães Rosa. Embora goste muito mais do primeiro, foi o segundo que decidi reler nesses dias de distanciamento social.

Grande sertão:veredas é daqueles títulos cujo prestígio é reconhecido por bastante gente, mas não muitos querem se dar ao trabalho de lê-los. Ulisses, de Joyce (largado por este blogueiro antes da vigésima página), ou O processo, de Kafka, estão nessa categoria  - e outras centenas de exemplos semelhantes poderiam ser facilmente aduzidos.

No caso do livro de Rosa, a pesquisadora e professora Marli Fantini ¹ observa que

"desde seu início, o romance (o próprio pacto ficcional já o enuncia) gera a desconfiança de que estamos sendo provocados por insuspeitados protocolos discursivos a nos ameaçar com uma estética que corremos o risco de não compreender. É o desafio de um novo começo, obrigando-nos a reformular valores éticos, paradigmas estéticos e indagações filosóficas".

Mas, se estiver suficientemente disposto a encarar esse desafio, "a particularíssima dicção rosiana" acaba capturando o leitor e este vai se tornando, progressivamente, mais "aclimatado" ao (e mais enfeitiçado pelo) texto.

Sabemos que falar desse autor é, sobretudo, falar da dimensão linguística de sua atividade. Segundo Fantini,  "o árduo trabalho de carpintaria para o fabrico artesanal da linguagem constitui uma das fortes tônicas da escrita rosiana". Hoje e nas próximas semanas, porém, dada a feição deste blog ², vou me deter principalmente em aspectos e elementos do enredo de Grande sertão: veredas. E um dos momentos mais marcantes do romance, cujas implicações plasmam outros tantos momentos importantes dentro da trama, é o julgamento de Zé Bebelo.

O personagem em questão é assim apresentado:

"Zé Bebelo - ah. Se o senhor não conheceu esse homem, deixou de certificar que qualidade de cabeça de gente a natureza dá, raro de vez em quando. Aquele queria saber tudo, dispor de tudo, poder tudo, tudo alterar. Não esbarrava quieto. Seguro já nasceu assim, zureta, arvoado, criatura de confusão. Trepava de ser o mais honesto de todos, ou o mais danado, no tremeluz, conforme as quantas. Soava no que falava, artes que falava, diferente na autoridade, mas com uma autoridade muito veloz. [...] 
No regular, Zé Bebelo pescava, caçava, dansava as dansas, exortava a gente, indagava de cada coisa, laçava rês ou topava à vara, entendia dos cavalos, tocava violão, assoviava musical; só não praticava de buzo nem baralho - declarando ter receios, por atreito demais a vício e riscos de jogo. Sem menos, se entusiasmava com qual-me-quer, o que houvesse; choveu, louvava a chuva; trapo de minuto depois, prezava o sol. Gostava, com despropósito, de dar conselhos. Considerava o progresso de todos - como se mais esse todo Brasil, territórios - e falava, horas, horas". ³

Sujeito "imediatamente estúrdio", de acordo com Riobaldo, na primeira vez em que se conheceram: "nervoso, magro, um pouco mais para baixo do que o tamanho mediano, e com braços que pareciam demais de compridos, de tanto que podiam gesticular". Zé Bebelo é comparado à raposa - animal associado à esperteza no folclore - em pelo menos duas passagens do romance. Assumidamente, tinha ambição de entrar na política institucional/profissional: daí seu apodo - o Deputado. Suspeitava-se que fosse financiado pelo Governo, ainda mais quando se lançou na missão de "acabar com a jagunçagem".

O astuto personagem não tinha a imponência dos outros chefes, como Medeiro Vaz ou Joca Ramiro, mas foi aquele que mais exerceu influência sobre Riobaldo, até quando o narrador se tornou chefe ele mesmo, após afrontar o próprio Zé Bebelo, passando a ser o Urutú-Branco - e advinha quem lhe tinha dado a alcunha?

Os eventos narrados em Grande sertão:veredas, se pensarmos no tempo cronológico/histórico, deram-se entre a última década do século XIX e as primeiras do século XX, período que marca a instauração de uma titubeante república no Brasil. Se a época testemunhou algum lampejo de modernização em alguns centros urbanos, o interior do país parecia pertencer a outra era, com a maioria da população vivendo isoladamente, sem qualquer assistência e supervisão do Estado. Por isso, além de ilustrar a miséria do ambiente, a despeito da beleza encontrada ocasionalmente na natureza, o sertão descrito através da ficção por Guimarães Rosa é um território sem lei. Ou melhor dizendo, a lei é aquela imposta por potentados locais, grandes proprietários de terra e mandachuvas sanguinários.

Portanto, a ocorrência de um julgamento em meio a tanta ferocidade, desmando e arbitrariedade não poderia deixar de ser algo sui generis, extravagante e inusitado.

Aliás, como era o réu, Zé Bebelo.

Continuo a discussão na próxima postagem.

__________
¹ FANTINI, Marli. Guimarães Rosa: fronteiras, margens, passagens. 2 ed, Cotia, SP: Ateliê Editorial; São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2008

² Como já escrevi noutras postagens, aqui, no Besta Quadrada, não se faz crítica literária no sentido rigoroso da expressão; o blogueiro não tem a formação requerida e nem os recursos adequados para exercer tal atividade. O que faço neste espaço é apenas comunicar e compartilhar impressões de leitura com um(a) outro(a), a quem chamo de eventual leitor(a). Por esse motivo, aprofundar-me na discussão da complexidade da língua literária elaborada por João Guimarães Rosa iria além, bem além, dos contornos estabelecidos para este blog.

³ ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006

BG de Hoje

Sempre que o adjetivo eclético aparece em alguma resenha cultural, costumo torcer o nariz. Acho meio preguiçoso dizer que algo é eclético; não é uma caracterização muito esclarecedora. Mas no caso do grupo carioca EL EFECTO, o qualificativo faz muito sentido (tanto que é empregado até no site oficial da banda). Apesar de estar na estrada há quase duas décadas, só ouvi esses artistas pela primeira vez no ano passado, o que demonstra a dificuldade que a música independente tem para chegar a um público mais amplo. Neste BG, aquela que talvez seja a mais conhecida canção do grupo:  O encontro de Lampião com Eike Batista.

sexta-feira, 5 de junho de 2020

Falou e disse...

"Se eu gritasse ninguém poderia fazer mais nada por mim; enquanto, se eu nunca revelar a minha carência, ninguém se assustará comigo e me ajudarão sem saber; mas só enquanto eu não assustar ninguém por ter saído dos regulamentos. Mas se souberem, assustam-se, nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Se eu der o grito de alarme de estar viva, em mudez e dureza me arrastarão pois arrastam os que saem para fora do mundo possível, o ser excepcional é arrastado, o ser gritante".*

* LISPECTOR, Clarice. A paixão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 62-63

sexta-feira, 29 de maio de 2020

Não vejo saída


[Postagem atualizada em 07/06/2020]

Você tem o hábito de utilizar um objeto (smartphone, notebook, ou mesmo uma peça de vestuário) até que ele esteja realmente gasto, sem mais condições de uso, evitando comprar outro similar, novo em folha, assim que arruma uma grana? Parou de consumir ou pelo menos consome menos carne em razão dos danos ambientais decorrentes da criação de animais para abate, além da crueldade inerente a esse ato? Recicla o seu lixo doméstico? Você procura andar a pé ou usar o transporte coletivo para ajudar a diminuir a poluição resultante do uso massivo dos meios de transporte particulares movidos a combustível fóssil? Nas eleições, você costuma levar em conta as propostas ecológicas apresentadas por seus(suas) candidatos(as) - e se praticamente nenhuma é apresentada, você se preocupa e toma alguma atitude? Faz parte ou tem interesse em participar de alguma organização voltada para a proteção do meio ambiente e para a promoção do consumo responsável?

Se a sua resposta para a maioria dessas perguntas é não, infelizmente somos parecidos (e, no meu caso, receio que o fato de eu andar a pé e usar o transporte coletivo tem mais a ver com a falta de dinheiro para comprar e manter um automóvel do que qualquer outra coisa ¹).

Ainda assim, mesmo não fazendo porra nenhuma pela saúde da Terra, é preciso muita, muita velhacaria, burrice ou um estado mental de negação patológico para não reconhecer que o planeta está fodido, ambientalmente falando (bem, também acho que está fodido, social e economicamente falando, mas como pretendo focar em determinadas questões hoje, deixarei esse reparo para outra oportunidade).

Há poucos dias, terminei a leitura do (essencial) livro A história das coisas ², elaborado pela norte-americana Annie Leonard (com o auxílio da escritora Ariane Conrad). A publicação faz parte do projeto The Story Of Stuff, que, por sua vez, é um desdobramento do famoso vídeo de mesmo nome (pode ser encontrado no site do projeto, mas há versões legendadas e até dubladas em português disponíveis no Youtube). Apesar de todos os problemas e do cenário alarmante, o livro é esperançoso. Todavia, este blogueiro, pessimista crônico como já deve saber o(a) eventual leitor(a), saiu da leitura ainda mais
convicto da calamidade atual e futura.

A história das coisas, basicamente, descreve os cinco estágios da economia - extração, produção, distribuição, consumo e descarte -, salientando os danos e impactos (na natureza, na sociedade e na saúde pública) decorrentes do processo de obtenção de materiais e fabricação de objetos. Ao seu conhecimento de pesquisadora e cientista ambiental, Annie Leonard adicionou a experiência e os relatos de situações vividas nos muitos anos de ativismo dentro de entidades como o Greenpeace e a Gaia.

Comecei a postagem com perguntas relacionadas a condutas pessoais. Muito embora transformações no comportamento individual sejam bem-vindas, o buraco é muito mais embaixo quando se trata da problemática ecológica planetária. Como escreve a autora no epílogo de seu livro:

"Para viver dentro dos limites do planeta, a mudança precisa ser grande. Ela exige que governo, bancos, sindicatos, mídia, escolas, corporações abracem a causa. Não basta seguir livros com 'dez coisas fáceis que você pode fazer para salvar o planeta'. Michael Maniates, professor de ciência política e ciência ambiental do Allegheny College e especialista em assuntos de consumo, aponta as falhas na abordagem das 'dez coisas fáceis': (1) nossa maior fonte de poder como indivíduos está em nosso papel de consumidores; (2) por natureza, nós, humanos, não estamos dispostos a fazer nada que não seja cômodo; e (3) a mudança só acontecerá se convencermos cada pessoa no planeta a se unir a nós. 
Sejamos realistas. Não é possível chegar a 100% de acordo com quase 7 bilhões de pessoas em nenhum assunto, e nossos sistemas ecológicos estão sofrendo tamanha sobrecarga que simplesmente não dispomos de tempo para tentar. No lugar de uma variedade paralisante de opções de estilo de vida 'verde', precisamos de oportunidades significativas para fazer grandes escolhas, por exemplo, políticas. Num editorial de 2007 no Washington Post, Maniates lamentou: 
A dura verdade é esta: se somarmos as medidas fáceis, econômicas e ecoefientes que todos deveríamos abraçar, conseguiríamos, no máximo, uma redução no crescimento do dano ambiental. Ser obcecado por reciclagem e instalar algumas lâmpadas especiais não basta. Precisamos promover uma virada radical em nossos sistemas energéticos, de transportes e agrícolas, em vez de fazer ajustes tecnológicos marginais, e isso implica mudanças e custos que nossos líderes atuais parecem temerosos em discutir".

Havia escrito que A história das coisas, a despeito do seu pesado tom de alerta, tem um lado esperançoso. O trecho citado acima, porém, denota o contrário. De onde vem então a esperança de Annie Leonard? No mesmo epílogo, a ambientalista cita alguns poucos dados de pesquisas de opinião realizadas entre norte-americanos, favoráveis a certas mudanças ecologicamente desejáveis e alude a certos "sinais" indicativos de novas atitudes entre seus conterrâneos (notoriamente, os consumidores mais perdulários da Terra, cujos hábitos de consumo vêm sendo "exportados" para o restante do mundo nas últimas décadas).

Não sei se isso é suficiente para termos alento.

Não vejo saída para a catástrofe ambiental em que estamos metidos. Por quê?

Pensemos, por exemplo, no uso da água, recurso essencial para aquilo que Leonard chama de "sistema de extrair-produzir-descartar" . Além disso - e peço perdão por dizer tal obviedade -, a água  é substância vital para a sobrevivência dos seres humanos.

Embora mais da metade do planeta seja coberta por água, sabemos que apenas 2,5% desta é potencialmente potável (para falar a verdade, só 1% de toda a água doce é acessível diretamente para nosso uso, pois a outra parte da água potencialmente potável está nas calotas polares ou em aquíferos muito profundos dentro do subsolo). Annie Leonard nos lembra que

"Cerca de um terço da população mundial vive em países que enfrentam crises de água. Uma em cada seis pessoas não tem acesso à água potável. Diariamente, milhares de pessoas - a maioria, crianças - morrem de doenças que poderiam ser evitadas, contraídas em razão da falta de acesso à água limpa. Na Ásia, onde a água sempre foi considerada recurso abundante, a quantidade disponível para cada pessoa diminuiu entre 40% e 60% entre 1955 e 1990. Seu uso excessivo, aliado a secas, contaminação, problemas climáticos, desvio para uso industrial ou agrícola e desigualdade no acesso, contribui para a escassez do líquido. Especialistas preveem que, em 2025, três quartos da população do planeta irão sofrer com a falta de água. E à medida que a água se torna cada vez mais escassa, surgem conflitos em torno do seu uso e da forma que o regulariza. Muitas pessoas - eu, inclusive - temem que o crescente interesse da iniciativa privada que administra sistemas de abastecimento à base de lucro seja incompatível com o direito coletivo à água e com a administração hídrica sustentável".
O controle do abastecimento de água na mão de empresas privadas faz cada vez mais parte da realidade em vários lugares do mundo (no Brasil, inclusive) e o discurso privatista não dá sinais de enfraquecimento. Quando o bicho da escassez pegar, em que essas empresas pensarão primeiro: no ganho dos acionistas ou no interesse público?

Companhias estão secando determinadas regiões (veja o caso da Coca-Cola em Itabirito/MG), isso quando a sua atividade por si só não transforma o precioso recurso em nada mais do que rejeito, como é o caso das mineradoras e suas imensas barragens.

O esgoto residencial e o resíduo da produção industrial vão direto para os rios em trocentos lugares. Gasta-se uma quantidade impressionante de água para produzir papel - desperdiçado em embalagens que, tão logo são rasgadas, vão direto para o lixo. O cultivo do algodão (parte de nossas roupas cada vez mais descartáveis) "requer 970 litros de água" para uma única camiseta. Há, porém, um (ab)uso da água que me tira do sério particularmente:

"Vocês sabiam que nos Estados Unidos gastam-se anualmente mais de 20 bilhões de dólares com gramados?" - pergunta a autora de A história das coisas -. "Em média passamos 25 horas por ano cortando grama, muitas vezes com cortadores poderosos que consomem 3 bilhões de litros de gasolina. Cerca de 750 litros de água por pessoa são utilizados para molhar a grama todos os dias na época de plantio e germinação. Em algumas comunidades, o número corresponde a mais da metade da água usada na residência! Nos Estados Unidos, os gramados representam o maior cultivo irrigado - uma área maior do que a reservada às plantações de milho. Se os americanos substituíssem a grama por plantas nativas que precisam de menos regas e permitem que mais chuva penetre no solo, ao invés de correr para os sistemas de esgoto, reduziriam drasticamente o uso da água em suas casas".
Pensemos agora numa ação vista geralmente como positiva, a reciclagem.

"Grande parte do lixo recolhido para reciclagem nos Estados Unidos é exportada para o exterior, especialmente Ásia, onde as leis trabalhistas e de segurança ambiental são mais frouxas. Rastreei dejetos plásticos, baterias de carros usadas, e-lixo e diversos componentes do lixo municipal americano enviados a Bangladesh, Índia, China, Indonésia e outros lugares do mundo. Eu me infiltrei em instalações (sob vários disfarces!) para dar uma olhada no que acontece com nosso lixo no exterior. As péssimas condições de trabalho que testemunhei não são o que indivíduos conscientes dos Estados Unidos tinham em mente quando, diligentemente, retornaram às fábricas sua baterias de carro usadas"
Por que não vejo saída para a catástrofe ambiental? Porque não acredito que o modo de produção dominante há séculos - o capitalismo - será superado, sequer refreado, mesmo que esteja nos encaminhando para a devastação. A própria Annie Leonard, apesar de viver nos EUA - onde qualquer crítica ao capitalismo é considerada quase um crime de lesa-pátria -, tem clareza de que esse modo de produção é prejudicial à natureza (e, por extensão, prejudicial a nós, que somos dependentes desta):

"Para muitos, o objetivo de nossa economia é aumentar o PIB, ou seja, crescer. Mas, apesar dos avanços científicos e tecnológicos, há mais gente faminta do que nunca: metade da população mundial vive com menos de 2,50 dólares por dia. A fé de nossa sociedade no crescimento econômico repousa na suposição de que sua continuidade é tão possível quanto benéfica. Mas nenhum dos dois pressupostos é verdadeiro. Primeiro porque, devido aos limites do planeta, o crescimento econômico infinito é impossível. Ultrapassado o patamar em que as necessidades humanas básicas são atendidas, ele tampouco se revelou uma estratégia para aumentar o bem-estar. Registramos hoje nas grandes metrópoles um alto nível de estresse, depressão, ansiedade e solidão 
Essa crítica ao crescimento econômico atinge muitos aspectos do capitalismo atual. Eu disse a palavra: 'capitalismo'. É o Sistema-Econômico-Que-Não-Pode-Ser-Mencionado. Quando escrevi o roteiro do vídeo A história das coisas, minha intenção era descrever o que vi em meus anos na trilha do lixo. Certamente não me sentei para ler sobre as falhas desse sistema econômico. Por isso fui pega de surpresa quando alguns comentaristas o consideraram uma 'crítica ecológica ao capitalismo' ou 'anticapitalista'. Isso me inspirou a voltar atrás e tirar a poeira de meus velhos livros de economia. E percebi que os comentários tinham fundamento: uma boa olhada em como fazemos, usamos e descartamos Coisas revela as sérias distorções geradas dentro desse sistema. Não há escapatória: da forma como está sendo conduzido, o capitalismo simplesmente não é sustentável".

Acontece que algumas soluções para ao menos mitigar os problemas - desde as mais simples, como diminuir as jornadas de trabalho e aumentar os dias de descanso dos empregados (sem reduzir salários) ou as mais complexas, como fazer com que as empresas paguem por todos os custos externalizados ³ dos produtos (mesmo que os preços fiquem mais altos para os consumidores finais) e mudar por completo a matriz energética, com o abandono do petróleo e do carvão - nunca serão adotadas, porque o modo de produção capitalista, visto por muitos como uma espécie de religião cujos dogmas não podem ser questionados, está impregnado de um jeito tal em nossas mentes e em nossas relações sociais que buscar suplantá-lo ou ao menos modificá-lo é tarefa fadada ao fracasso.

Em 2016, entre as 100 instituições que mais arrecadaram dinheiro, 69 eram corporações e apenas 31 eram países. Pergunto: dá pra ser otimista sabendo que o poder público é cada dia mais sobrepujado pelo capital privado que, em última instância, só tem compromisso com os dividendos de seus seus detentores?
__________
¹ Hoje em dia, contudo, isso não é verdade. Sinceramente, acho que os carros representam um dos maiores problemas das cidades, para além da questão ecológica (qualquer dia escrevo sobre isso aqui). Por isso acredito que mesmo se tivesse grana para manter um automóvel não o faria.

² LEONARD, Annie. A história das coisas: da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos. Rio de Janeiro: Zahar, 2011 [Tradução de Heloisa Mourão; revisão técnica de André Piani Besserman Vianna]

³ De acordo com Annie Leonard,

"O preço nas etiquetas tem pouquíssimo a ver com os custos envolvidos na produção das Coisas. Seguramente, alguns dos custos diretos, como os relativos a mão de obra e matéria-prima, estão incluídos no preço, mas esses são inexpressivos se comparados aos custos ocultos externalizados, como a poluição da água potável, o impacto na saúde dos trabalhadores e das comunidades vizinhas às fábricas e as mudanças no clima global. Quem paga por isso? Às vezes são os cidadãos da região, que nesse caso, têm que comprar água engarrafada, uma vez que sua torneira está contaminada. Ou os operários, que pagam do próprio bolso por tratamento de saúde. Ou as futuras gerações, que não contarão com florestas para, por exemplo, regular o ciclo das águas. Já que esses custos são pagos por pessoas e organismos externos às empresas responsáveis por gerá-los, são chamados de custos externalizados".

BG de Hoje

Não vou mentir: acho o TAME IMPALA meio chato. Mas gosto muito dessa faixa, Desire Be Desire Go.

sábado, 16 de maio de 2020

Onde cabe a poesia?


O livro A poesia e a crítica, reunião de alguns ensaios produzidos nas últimas duas décadas pelo poeta e filósofo Antonio Cicero, foi lançado em 2017, pela Companhia das Letras. Só pude comprá-lo no ano passado e o li pela primeira vez há poucos meses.

Encontros e desencontros com a contracultura - o primeiro dos textos do livro - não é propriamente um ensaio, mas um depoimento. Para além de refletir sobre o fenômeno da contracultura, o autor narra parte de sua trajetória e de suas escolhas na condição de estudante universitário de Filosofia, fornecendo ao leitor importantes informações sobre sua formação intelectual. Tendo partido para estudar em Londres após o golpe militar de 1964, Cicero fala também da influência exercida por Caetano Veloso (com quem pôde conviver durante algum tempo na capital inglesa, onde o artista baiano se exilara).

Em Poesia e preguiça, o ensaísta vale-se de T. S. Eliot, Baudelaire e Paul Valéry (entre outros) para defender a importância da preguiça na feitura dos poemas, isto é, "a ênfase na preguiça significa simplesmente que a gestação do poema tem um sentido completamente diferente do que tem o trabalho utilitário cotidiano". Esse texto também discute a relação da produção/recepção de poesia com o tempo, tópico retomado ao longo da publicação em pelo menos dois outros escritos. Voltarei ao tema mais adiante.

Defendendo o conceito de cânone poético/literário no ensaio que dá nome ao livro de que estamos falando, Antonio Cicero acredita que é preciso haver uma seleção de textos/autores(as), construída ao longo do tempo pelos críticos. Estes, por sua vez, seriam "todos aqueles que explicitam e defendem publicamente os seus juízos estéticos no que diz respeito à poesia", um conjunto de indivíduos, portanto, não restrito aos críticos profissionais. Essa seleção de textos/autores(as) tem como função principal balizar e orientar tanto a formação de poetas quanto qualificar os leitores de poesia. Nesse ensaio, o autor desanca o teórico da literatura britânico Terry Eagleton (estudioso sobre o qual já falei positivamente, aliás, aqui no blog).

Provavelmente mais conhecido do grande público por seu trabalho como compositor (letrista), Cicero aborda uma recorrente questão em Sobre as letras de canções: seriam estas poemas ou não? Neste ensaio, pode-se encontrar uma discussão mais ampliada do assunto, frequentemente tratado pelo autor, como em uma de suas antigas colunas publicadas quinzenalmente na Folha de S. Paulo. Essa coluna, a propósito, pode ser encontrada no blog do artista (Acontecimentos, um dos recomendados da casa). Já falamos do tema, há bastante tempo, aqui no blog.

Em O verso, um dos textos mais curtos, encontramos mais uma vez um importante esclarecimento feito anteriormente por Antonio Cicero: prosa não se opõe à poesia, mas sim ao verso, um dos maiores recursos poéticos (senão o maior). 

Os seis ensaios que se seguem a O verso analisam o trabalho de diversos poetas: Armando Freitas Filho, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa e Friedrich Hölderlin (o escrito dedicado ao último é o mais extenso ensaio de todo o livro).

A poesia e a crítica encerra-se, curiosamente, com a breve apreciação de um texto em prosa: no caso, A montanha mágica, de Thomas Mann (disponível também aqui; a propósito, já falamos dessa mesma obra aqui, aqui e aqui). Como havia explicado na apresentação de seu livro, o poeta e filósofo concede ao romance do escritor alemão um papel importante em sua formação geral.

Gostaria agora de voltar a dois ensaios sobre os quais ainda não falei.

Havia escrito, parágrafos acima, que a relação da produção/recepção da poesia com o tempo é um tópico presente em mais de um texto dentro do livro.

Verificando que, no mundo contemporâneo, é difícil para a imensa maioria apreciar a leitura de poesia - pois nos encontramos "sob o domínio quase absoluto da apreensão instrumental do ser", quando não se consegue perceber o valor das coisas por elas mesmas (tudo é sempre um meio para se alcançar outra coisa) -, Antonio Cicero escreve no ensaio A poesia entre o silêncio e a prosa do mundo:

"Nessas circunstâncias, não admira que o dinheiro - o meio por excelência, pois é o meio dos meios - seja o que há de mais importante. O que seria apenas um meio torna-se o verdadeiro fim. Ora, num mundo assim, em que, para o senso comum  'tempo é dinheiro', parece irracional que se faça um investimento de tempo sem nenhuma garantia de que se venha a obter, num prazo determinado, qualquer compensação ou retorno. Consequentemente, poucos se permitem mergulhar no poema, isto é, pensar nele, com ele, através dele, pondo à disposição dele, pelo tempo que se faça necessário, o livre jogo de todas as faculdades que esse pensamento integral requeira".

Para o ensaísta, a poesia escrita para ser lida (diferentemente da poesia escrita para ser ouvida, isto é, a que está presente nas letras de muitas canções) dificilmente pode ser fruída sem que se dedique a ela concentração e tempo: "Para fruir um poema, é preciso nele imergir. E como tal imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar nesse mundo".

E acrescenta:

"Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje. Afinal, a temporalidade acelerada corresponde à apreensão instrumental do ser. Assim, é bom que a poesia, longe de se ajustar a ela, relativize-a, uma vez que nos dá acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana. [...]"

Por sua vez, na análise de um dos poemas mais marcantes de nossa Literatura - Sobre A flor e a náusea, de Drummond -, ele afirma:

"Ora, uma das ambições da poesia é exatamente desautomatizar a linguagem, a percepção do mundo e o pensamento, de modo a nos permitir apreender linguagem, mundo e pensamento como se fosse pela primeira vez. Não se trata de um consolo, mas do transporte para outra dimensão do tempo, para outra dimensão da existência, inteiramente distinta daquela que é regida pelo princípio do desempenho, da utilidade, da instrumentalidade, do valor de troca [...]".

Para compreendermos ainda melhor o que nos diz Antonio Cicero, convido o(a) eventual leitor(a) a lermos juntos um dos meus poemas prediletos: Plena pausa, de Paulo Leminski  ¹:

PLENA PAUSA

     Lugar onde se faz
o que já foi feito,
    branco da página,
soma de todos os textos,
    foi-se o tempo
quando, escrevendo,
    era preciso
uma folha isenta.

    Nenhuma página
jamais foi limpa.
    Mesmo a mais Saara,
ártica, significa.
    Nunca houve isso,
uma página em branco.
    No fundo, todas gritam,
pálidas de tanto.


Confesso que não atentei para seu sentido mais profundo, nas primeiras vezes em que li este poema, muito tempo atrás. Apenas achei bonitas as combinações de palavras. Também fiquei fascinado pelo último verso - pálidas de tanto (voltaremos a este, daqui a pouco).

Mas qual seria esse sentido profundo? Acredito que Leminski está tratando, poeticamente, de algo que afeta (e às vezes aflige) os escritores: o peso representado por todas as obras já escritas, sobretudo aquelas que compõem o que consideramos os textos mais significativos já produzidos (o cânone, para recuperar um conceito discutido por Antonio Cicero num de seus ensaios).

"Lugar onde se faz/o que já foi feito". Muitos poetas talvez fiquem intimidados ou mesmo paralisados diante de uma página em branco ao se lembrarem de que aquilo que tencionam escrever provavelmente nada terá de original, pois já foi experimentado e realizado antes por outro poeta, inclusive, com maior beleza (isso, naturalmente, vale para romancistas, contistas, etc.). Por isso a página vazia, não-escrita, representa a tradição literária que antecede o poeta: "branco da página/soma de todos os textos". NOTA: perceba o jogo feito por Leminski. A página é branca: ainda assim, soma todos os textos da tradição literária, do mesmo modo que o branco soma todas as cores (pelo menos quando estamos falando do espectro luminoso).

Porém, não é preciso ficar intimidado nem paralisado. Os artistas, se talentosos, saberão usar essa tradição a seu favor: dialogando com ela ou até subvertendo-a: "foi-se o tempo/quando escrevendo,/era preciso/ uma folha isenta".

Os textos predecessores existem, são um fato. Por isso "Nenhuma página/jamais foi limpa". E "No fundo todas gritam". Gritam o quê? Justamente toda a arte que foi registrada antes delas, noutras páginas. E estão "pálidas de tanto". É admirável como a simples troca de espanto (evitando um pavoroso lugar-comum) por tanto cria um efeito de sentido tão poderoso. O tanto refere-se, acredito eu, à tradição literária que virtualmente paira sobre a página em branco.

E assim o título do poema - Plena pausa - fica mais claro. A página em branco, que dentro de um livro pode representar uma pausa, está também plena, isto é, cheia de toda a arte da escrita que a circunda de forma latente.

Como se vê, os bons poemas, para serem apreciados e compreendidos em plenitude, demandam de nós dedicação e tempo (mesmo um poema de apenas 16 versos, como esse de Leminski, que acabamos de analisar). Mas quem está disposto a isso?

Vivemos num mundo que a todo momento martela em nossas cabeças: "NÃO PERCA TEMPO!", "SEJA RÁPIDO!", "PRODUZA!" - como se isso estivesse fazendo nossa vida melhor, como se estivéssemos tornando este mundo um lugar melhor...

É por isso que, pelo menos no meu caso, vou sempre deixar um espaço onde a poesia caiba em minha vida, pois desejo ter "acesso a esse outro modo de apreensão do ser e do tempo - o estético - que enriquece imensamente à vida humana", como bem disse Antonio Cicero.
__________
¹ LEMINSKI, Paulo. Melhores poemas de Paulo Leminski. 6 ed. São Paulo: Global, 2002. [Seleção de Fred Góes e Álvaro Martins] (Coleção Melhores Poemas)

. . . . . . .

ALDIR BLANC (1946 - 2020)

Ao pensar nas letras de canções como poemas (e, sem dúvida, muitas delas certamente o são), é preciso lembrar de Aldir Blanc, falecido recentemente. Num país que produziu e produz tantos ótimos letristas-poetas (Chico Buarque, Antonio Cicero, Cazuza, Gilberto Gil, Arnaldo Antunes, Fernando Brant, Caetano Veloso, Emicida, Vinícius de Moraes, Chico César...), Blanc foi um dos maiores. O(a) eventual leitor(a) encontrará menções ao principal parceiro de João Bosco em algumas postagens deste blog. Uma de suas letras-poemas de que mais gosto é também uma das mais simples que ele escreveu:

LATIN LOVER

Nos dissemos
que o começo é sempre,
sempre inesquecível.
E, no entanto, meu amor, que coisa incrível,
esqueci nosso começo inesquecível.
Mas me lembro
de uma noite.
Sua mãe tinha saído.
Me falaste de um sinal adquirido
numa queda de patins em Paquetá:
Mostra... doeu?... ainda dói?...
A voz mais rouca,
e os beijos,
cometas percorrendo o céu da boca...
As lembranças
acompanham até o fim um
latin lover,
que hoje morre,
sem revólver,
sem ciúmes,
sem remédio.

De tédio.

. . . . . . .

BG de Hoje

Não é difícil encontrar por aí muita gente que tem profunda antipatia pelo comediante e apresentador norte-americano JIMMY FALLON. "Suas risadas geralmente são falsas"; "Ele é meio alienado politicamente"; "Às vezes, quer chamar mais atenção para si do que para o(a) convidado(a)" - essas e outras críticas costumam ser dirigidas ao ex-integrante do longevo humorístico Saturday Night Live. Admito que não são observações descabidas. Entretanto, não tenho vergonha nenhuma de dizer que gosto muito do trabalho dele - sobretudo a infantilidade da maioria dos quadros do programa, outra crítica recorrente - e não me canso de assistir trechos de seu talk show disponibilizados no Youtube. Como o vídeo abaixo, por exemplo. Com a participação do lendário grupo de hip hop THE ROOTS (atualmente, a banda que divide o palco com Fallon na sua atração de TV), o comediante (que também é músico) promoveu uma versão formidável do hit Don't Stand So Close To Me (THE POLICE), junto com STING. O uso de alguns "instrumentos musicais" inusitados não é novidade para esses caras dentro do programa e, dado o isolamento social decorrente da pandemia de COVID-19, ficou mais do que adequado.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Falou e disse...


"Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):

A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz 
um formato de pássaro". 
[...] *


* BARROS, Manoel de. As lições de R. Q. In: _________. Livro sobre nada. 7 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 67

quinta-feira, 23 de abril de 2020

"Uma interminável derrota"


"Nossos concidadãos não eram mais culpados que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo ainda era possível para eles, o que pressuponha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste que suprime o futuro, os deslocamentos e as discussões? Julgavam-se livres e jamais alguém será livre enquanto houver flagelos".


Do narrador de A peste (Albert Camus)

 
Nesses dias de enfrentamento/prevenção da pandemia global de COVID-19, encontrei em pelo menos cinco diferentes textos publicados na imprensa nas últimas semanas (uns mais bem escritos do que outros) menções ao célebre romance A peste, de Albert Camus.

Achei propício relê-lo, então.

A história imaginada se passa na cidade de Oran, situada na costa argelina. Uma cidade, aliás, não muito diferente de milhares mundo afora, onde o principal é "ganhar dinheiro" - pessoas trabalham de manhã à noite para "optarem, em seguida, por perder nas cartas, no café e em tagarelices o tempo que lhes resta para viverem"  ¹.

Ratos moribundos começam a surgir dentro das casas e nas ruas. Com o passar dos dias, o número de roedores mortos aumenta consideravelmente, até estabilizar-se e - sem qualquer explicação - começar a decair em seguida. A certa altura, os repulsivos animais deixam de ser vistos.

É quando irrompem, entre os habitantes de Oran, os sintomas de uma grave doença, altamente letal, trazendo grande preocupação para o médico Bernard Rieux, a figura central da narrativa.

Apesar de ser a crônica de um surto epidemiológico e todos os infortúnios decorrentes de tal conjuntura, A peste, lançado em 1947, é um livro otimista, em última análise. Vale lembrar que no "plano" estabelecido para sua obra, Camus situa-o entre os textos que expressam o positivo (antes, o escritor já havia trabalhado a negação, por exemplo, n'O estrangeiro e n'O mito de Sísifo e pretendia, numa terceira fase, dedicar-se à temática do amor, mas tudo foi interrompido em 1960, quando faleceu num acidente de automóvel). É famosa aquela passagem nos últimos parágrafos do romance: "[...] há nos homens mais coisas a admirar que coisas a desprezar".

Texto do pós-guerra, A peste pode ser lido alegoricamente - em carta destinada ao então jovem crítico literário Roland Barthes, Camus deixa isso bem claro ao afirmar que o romance "tem como conteúdo evidente a luta europeia contra o nazismo" e que trechos do livro foram antecipados em boletins de combate publicados para os grupos da Resistência. Está aí outra razão para relê-lo: com a ascensão e chegada ao poder, nos últimos anos, do pensamento político desumanizante (no Brasil e noutros lugares do planeta), talvez aprendêssemos alguma coisa com a tenacidade e a integridade de Rieux e Tarrou.

Por falar nesses dois personagens, gostaria de destacar duas passagens de A peste, em especial.

A primeira se encontra no sétimo capítulo, da segunda parte (no total, o romance se divide em cinco partes), momento em que o flagelo já havia se tornado "um problema comum a todos nós". Jean Tarrou, morador não muito antigo de Oran - de cuja vida passada pouco se conhecia -, solicita uma conversa com o médico, que liderava as ações de combate à doença. Tarrou faz uma proposta: organizar grupos voluntários para auxiliar no que fosse possível. A proposta é aceita, dada a grande necessidade de ajuda. Mas Rieux adverte ao proponente que esse trabalho pode ser mortal. O outro dá a entender que não se importa com isso. Os dois personagens continuam a conversa. É quando Tarrou pergunta:

" - Por que o senhor mesmo demonstra tanta dedicação, já que não acredita em Deus? Sua resposta talvez me ajude a responder [a pergunta feita anteriormente pelo médico, se Tarrou havia pensado bem em todos os riscos que estaria correndo com o seu trabalho voluntário]".

A resposta de Rieux não vem de imediato. Ele reflete sobre o objetivo de sua profissão, sobre os fatores que o encaminharam para ela. Até chegar a uma conclusão (pelo menos parcial). Peço a atenção do(a) eventual leitor(a) para o excerto abaixo:

"- Afinal... - continuou o médico, e voltou a hesitar, olhando para Tarrou com atenção. - É uma coisa que um homem como o senhor consegue compreender, não é verdade? Já que a ordem do mundo é regulada pela morte, talvez convenha a Deus que não acreditemos nele e que lutemos com todas as nossas forças contra a morte, sem erguer os olhos para o céu, onde ele se cala. 
- Sim - concordou Tarrou -, compreendo. Mas as suas vitórias serão sempre efêmeras, mais nada. 
O semblante de Rieux pareceu anuviar-se. 
- Sempre, bem sei. Não é uma razão para deixar de lutar. 
- Não, não é uma razão. Mas imagino então o que esta peste significa para o senhor 
- Sim - tornou Rieux. - Uma interminável derrota
Tarrou fixou um momento o médico. Depois levantou-se e caminhou pesadamente para a porta. Rieux seguiu-o. Alcançava-o já quando Tarrou, que parecia olhar para os pés, lhe perguntou: 
- Quem lhe ensinou tudo isso , doutor? 
A reposta veio imediatamente: 
- A miséria"
A segunda passagem está no capítulo seguinte, logo após o narrador relatar que "as formações [voluntárias, capitaneadas por Tarrou] ajudaram os nossos concidadãos a penetrar mais na peste e persuadiram-nos, em parte, de que uma vez que a doença existia, deviam fazer o necessário para lutar contra ela. Porque a peste se tornava assim o dever de alguns, ela surgiu como era, isto é, o problema de todos". Fala-se de combate a uma moléstia, mas, se lembrarmos da dimensão alegórica da narrativa, poder-se-ia estar falando de um regime iníquo, como o nazismo.

Então surge esse lindíssimo trecho (peço de novo a atenção do(a) eventual leitor(a)):
"Está certo. Mas não se cumprimenta um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Talvez o felicitemos por ter escolhido essa bela profissão. Digamos, pois, que era louvável que Tarrou e outros tivessem escolhido demonstrar que dois e dois são quatro e não o contrário, mas digamos também que esta boa vontade lhes era comum com a do professor, com a de todos que têm o coração igual ao do professor e que, para honra do homem, são mais numerosos do que se pensa ou pelo menos é essa a convicção do narrador. Aliás, este compreende muto bem a objeção que lhe poderia ser feita, ou seja, que esses homens arriscavam a vida. Mas chega sempre uma hora na história em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe muito bem disso. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera esse raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro".
Para Rieux - assim como para Tarrou -, não importa que as vitórias sejam efêmeras. O valor da vida está na luta, ainda que ao fim e ao cabo tudo, tudo se converta numa "interminável derrota". Olhando para a existência como um todo, nunca se deve esquecer que "o bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, espera pacientemente nos quartos, nos porões, nos baús, nos lenços e na papelada". Se um mal passa, outro irá sucedê-lo. Não tenhamos ilusão. Nunca se conseguirá uma vitória definitiva sobre o absurdo (para usar uma palavra cara ao pensamento camusiano) que é o próprio fato de vivermos num mundo tal como este em que estamos imersos.

Tudo isso, porém (como dissera Rieux acima), não é razão para deixar de lutar. Ainda mais quando se tem que alertar e convencer muitas mentes obtusas da gravidade de determinadas situações e eventos - que são óbvios para nós, mas essas mentes se negam ou são incapazes de reconhecer que "dois e dois são quatro". E que ao saber disso, é preciso fazer algo a respeito.

Mesmo para um pessimista crônico como eu, a leitura de A peste nunca é um exercício infecundo.

Em breve, comentarei aqui no blog o livro A poesia e a crítica, do Antonio Cicero.
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¹ CAMUS, Albert. A peste.17 ed. Rio de Janeiro: Record, 2007 [Tradução de Valerie Rumjanek]

BG de Hoje

BAIANASYSTEM, um dos melhores acontecimentos na música popular brasileira dos últimos anos. Ponto. Duas cidades é minha música preferida entre as gravadas pela banda até agora (na apresentação abaixo, eles emendaram outra no finalzinho, também muito boa, Bola de Cristal)

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Lembrando Rubem Fonseca



Ontem, 15 de abril, morreu Rubem Fonseca.

Posicionamentos políticos à parte, o escritor nascido em Minas (Juiz de Fora), mas radicado a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, deve ser reconhecido com um dos nomes mais importantes da ficção literária brasileira na segunda metade do século passado.

Apesar de ser um autor com quem tenho certa familiaridade, só possuo um livro dele em minha modesta biblioteca pessoal: A grande arte. E - não sei dizer por que - escrevi apenas quatro textos no blog mencionando algumas de suas criações.

De todo modo, sugiro ao(à) eventual leitor(a), caso tenha interesse, dar uma conferida nessas postagens, disponíveis aqui,  aqui,  aqui e  aqui.

Também sugiro a leitura de Rubem Fonseca, 1925-2020, publicado pelo Bráulio Tavares no seu blog Mundo Fantasmo (um dos recomendados aqui da casa).


[Atualização em 19/04/2020] Tentando arrumar meus livros nas estantes, acabei descobrindo que tenho outro titulo de Fonseca na minha coleção: O caso Morel. Mas não gosto muito desse romance (talvez por isso não tenha me lembrado dele inicialmente).