segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Para quando a África (2)

"A África é o berço da humanidade [...]. Estou certo de que se Adão e Eva tivessem aparecido no Texas, ouviríamos falar disso todos os dias na CNN".


Joseph Ki-Zerbo

 
Como observei na última postagem, Joseph Ki-Zerbo trata de muitos assuntos fundamentais para a compreensão mais aprofundada do continente africano, na entrevista concedida a René Holenstein*.

Porém, vou abordar apenas o problema da desvalorização e da homegeneização linguísticas.

A esse respeito, o pensador burquinense tem posição definida: "para repensar o Estado, a partir da natureza plurinacional das sociedades, seria necessário, na minha opinião, regressar à alfabetização e à escolarização nas línguas maternas africanas", ainda que reconheça ser "impensável e impossível rejeitar as línguas impostas pela colonização porque, objetivamente, elas foram integradas ao nosso patrimônio cultural, elas unem povos africanos entre si e com a comunidade internacional".

Como se vê, a proposta de educação linguística de Ki-Zerbo vai ao encontro do que pensa em termos de organização em nível de Estado para os países do contimente:

"Não se pode instalar um Estado federal, na África, com cerca de trinta línguas. Mas reduzindo o seu número a três línguas principais, geralmente pode-se abranger 80% a 90% da população. Se os custos desta estratégia são muito pesados; os ganhos são incomensuráveis".



Diversos países africanos, do ponto de vista da língua oficial, são tidos como lugares nos quais a maioria da população se expressa, supostamente, em francês, inglês ou português. Mas veja o caso do Senegal: "Oitenta por cento da população senegalesa fala uolof; no entanto, não se diz que o Senegal é uolofófono, mas francófono".

Com o objetivo de promover o modelo de alfabetização que propõe, o historiador sugere a adoção de línguas-pontes:

"O haussá, o bambará e o diulá são línguas pontes, que já existem. O diulá é falado pelo menos em oito países da África Ocidental; o haussá, pelo menos em quatro ou cinco, entre os quais a Nigéria, que constitui facilmente metade da população da África Ocidental. As pontes linguísticas entre as diferentes regiões da África Ocidental ajudariam todos esses países a constituírem-se mais rapidamente".


É uma proposta que inverte a imposição linguística que tem caracterizado a globalização. Com a palavra, Ki-Zerbo:

"As línguas também dizem respeito à cultura, aos problemas da nação, à capacidade de imaginar, à criatividade. Quando falamos numa língua que não é originalmente a nossa, exprimimo-nos de forma mecânica e mimética, salvo exceções (mas governa-se para as exceções?). Não podemos mais do que imitar. Mas quando nos exprimimos na nossa língua materna, a imaginação liberta-se [...]"

_______________

* KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África?: entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2009 [tradução de Carlos Aboim de Brito]

BG de Hoje

O Rush tocou no Brasil este ano, para a felicidade de muitos fãs. Mas em matéria de bandas vindas do Canadá, sempre fui mais BACHMAN-TURNER OVERDRIVE. Down Down tem o saudável groove adequado a todo bom rock'n'roll. OBS: Não dê atenção ao slideshow meio idiota, curta apenas a música.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Para quando a África (1)



"A revolução é o inverso do existente. É não só virar a página, mas mudar o dicionário".
Joseph Ki-Zerbo

As notícias sobre a África, nos grandes veículos de comunicação de massa brasileiros, tratam, geralmente, de dois únicos assuntos: a fauna da região (de fato, impressionante) ou o persistente estado de guerra em alguns de seus países. Durante a Copa do Mundo de Futebol deste ano, disputada na África do Sul, esperava um retrato mais ampliado do continente. Mas não foi o que vi (nem li) naquele período.

Por isso, considero fundamental a publicação de livros como este que acabei de ler: Para quando a África?*, resultado de longa entrevista feita com o historiador Joseph Ki-Zerbo. Nascido no Alto Volta (atual Burkina Fasso ou Burkina Faso), Ki-Zerbo desempenhou papel relevante nos campos educacional e político em diversos países africanos, como Senegal e Mali, entre outros. Tendo feito seus estudos na Sorbonne, o historiador foi dos primeiros, nas décadas de 1960-1970, a retomar o esforço de produzir, para as ciências sociais em geral, um conhecimento menos etnocêntrico, até então (e é necessário que se diga, ainda hoje) dominado por europeus e norte-americanos. E eis aí outro motivo para a leitura de livros como esse: dar ouvidos a intelectuais de peso fora do eixo EUA-Comunidade Europeia.

Joseph Ki-Zerbo procura compreender o atual estágio - econômico, político e cultural - africano a partir de dois eventos que marcaram, de forma profunda e negativa, a história do continente: o tráfico de escravos durante mais de 350 anos e a condição de colônia, consequência das ações imperialistas deflagradas principalmente a partir do século XIX.

Pensador assumidamente de esquerda - crítico do modelo capitalista de desenvolvimento "sugerido" a todos os países (pobres ou ricos) -, o historiador burquinense afirma que

"[...] não se globaliza inocentemente. Penso que dificilmente poderemos ter um lugar na globalização porque fomos desestruturados e deixamos de contar como seres coletivos. Se você comparar o papel da África e dos Estados Unidos, verá os dois pólos da situação na globalização: os globalizadores, que são os Estados Unidos, e os globalizados, que são os africanos. Não sei de que lado você se situa; quanto a mim, eu sei que sou um globalizado. A África, como continente, situa-se mais nesta categoria, porque é uma questão de relação de forças. É a questão de saber se somos sujeitos da história, se estamos aqui para desempenhar um papel na peça de teatro. Na realidade, não há peça onde só há atores principais. Também deve haver figurantes, isto é, como utensílios e segundas figuras para por em destaque os papéis dos protagonistas".

A desigualdade das trocas culturais entre a África e o "mundo desenvolvido"; a desvalorização e a homogeneização linguísticas; as causas das constantes guerras, o papel do Estado e das formas tradicionais de organização política para o fortalecimento das nações; a importância do conceito de identidade. Esses são alguns dos muitos temas discutidos em Para quando a África?. Retomarei parte deles na próxima postagem. Um, no entanto, considero fundamental: a defesa de uma outra ideia do que significa desenvolvimento. Escreve Ki-Zerbo:

"[...] é necessário tomar a decisão de reconhecer que é difícil classificar países pelo nível de desenvolvimento. É certo que a Ciência postula, exige mesmo a quantificação. Mas as coisas requintadas, refinadas, são realizadas em muitos países pobres do mundo. Pense na cozinha, no vestuário, no artesanato, na arte ou, ainda, na delicadeza e no refinamento das expressões de certas línguas: são coisas que tornam o homem perfeito, no plano humanista, mas que não podem ser tomadas em consideração na identificação ou na classificação do desenvolvimento".

* KI-ZERBO, Joseph. Para quando a África? : entrevista com René Holenstein. Rio de Janeiro: Pallas, 2009 [tradução de Carlos Aboim de Brito]

BG de Hoje

Esta era um banda que eu curtia muito nos anos 1990, quando era um fã xiita do rock pesado: SLAYER. Continuo escutando até hoje, mas sou agora (felizmente, acho) mais aberto a outros gêneros musicais. O nome da canção é Seasons in the abyss.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Adriana Falcão e Lia Neiva

(Adriana Falcão)

"Doze anos, oito meses e quinze dias é o tempo que se leva para dar a volta ao mundo procurando uma pessoa".
 Luna Clara & Apolo Onze - Adriana Falcão.

 
 
Outras duas excelentes obras voltadas para o público infanto-juvenil lidas recentemente foram Luna Clara & Apolo Onze* e Reis, viajantes e vampiros: aventuras ao redor do mundo**.

. . . . . .

A escritora Adriana Falcão já havia lançado, em 2001, um ótimo livro para crianças: Mania de explicação (premiado pela FNLIJ - Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil). Luna Clara & Apolo Onze, publicado logo depois, mantém o bom humor característico da autora. Mas também chamaram minha atenção neste livro as criativas alterações no tempo narrativo e as mudanças ligeiras de cena, destacando ora um, ora outro personagem (ou grupo de personagens). Aliás, a profusão destes anima e tonifica o texto. Adriana Falcão foge da linearidade pouco imaginativa que costuma afetar alguns livros escritos para crianças e adolescentes.

Luna Clara & Apolo Onze, entre outras coisas, fala do poder exercido em nossas vidas pelas coincidências (ação do acaso ou do destino, pouco importa). Nesse aspecto, é preciso atentar para o papel de certas velhinhas surgidas na narrativa (mas não vou revelar o segredo delas para não tirar o prazer do possível leitor).

Exemplos do bom humor do texto? Observe esta explicação do culto papagaio Pilhério, personagem do livro:

" - Por favor, Pilhério, o que vem a ser eufemismo?
  - É o ato de suavizar uma ideia substituindo a palavra ou expressão por outra mais agradável, mais polida.
  - Fiquei na mesma.
  - Eufemismo é em vez de se dizer que você é uma burra completa, dizer apenas que você é um pouco desprovida de inteligência, sua burra completa! - ele simplificava!"

Repare agora nesta tentativa de metaforização:

"A ponte oscilava de um lado para o outro como um pêndulo furioso, explicando melhor, como uma colher de pau batendo um bolo, explicando melhor ainda, como uma ponte frágil, feita de cordas e troncos balangando de um lado para o outro debaixo de uma tempestade".

Ou ainda as muitas "Nossas Senhoras" invocadas ao longo da história. Uma pequena mostra: Nossa Senhora do Falta Bem Pouquinho, Nossa Senhora do Preciso Urgentemente de Uma Boa Notícia, Nossa Senhora dos Amigos que Precisam da Gente, Nossa Senhora do Que é Que Eu Faço...

É para ler e curtir.

. . . . . .

Reis, viajantes e vampiros é de Lia Neiva, escritora habilidosíssima, que tem o saudável hábito de respeitar a inteligência das crianças e dos jovens para os quais escreve.

Neste livro, Neiva trata da(s) narrativa(s) por detrás das narrativas. Dizendo de outro modo: a autora relata os antecedentes históricos e o contexto cultural e geográfico relacionado a grandes obras da ficção universal, valendo-se de cinco personagens legendários: Robinson Crusoé, Rei Arthur, Drácula, o Máscara de Ferro e Simbad, O Marujo. "Conduzido pela prosa cativante e bem construída de Lia Neiva, o leitor atravessa diferentes períodos da História e da Literatura", como observa Maria Elizabeth Graça de Vasconcellos, no prefácio do livro.

Em minha opinião, entre os muitos méritos de Reis, viajantes e vampiros, destacaria dois deles: 1) o postscriptum ao final de cada capítulo, trazendo dados complementares e curiosidades relacionadas a cada uma das narrativas; 2) a maneira competente como a autora ajuda a qualificar as leituras do público jovem, uma vez que este trabalho de Lia Neiva é também um exercício de crítica literária.
 
___________
* FALCÃO, Adriana. Luna Clara & Apolo Onze. 2 ed. São Paulo: Salamandra, 2006 [ ilustrações de José Carlos Lollo]

** NEIVA, Lia. Reis, viajantes e vampiros: aventuras ao redor do mundo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008 [ilustrações de Iuri Lioi]

BG de Hoje

O Brasil tem tantas ótimas cantoras (e compositoras) que fica difícil destacar algumas delas. CÉU é uma das que mais gosto. Abaixo, Malemolência, apresentada no indispensável programa Ensaio, da TV Cultura.


terça-feira, 28 de setembro de 2010

Angela Lago e Selma Maria



Depois de um longo e tenebroso inverno, volto a escrever sobre Literatura Infantojuvenil - afinal, essa é a minha praia e parte do meu ganha-pão.

Sou suspeito para falar do trabalho de Angela Lago* - ilustradora e escritora de quem sou admirador há muito tempo - mas considero, até agora, Marginal à esquerda (Editora RHJ, 2009) o melhor livro que conheci neste ano, independentemente do gênero literário ou da categoria de publicação.

Para início de conversa, é um livro de temas fortes, em que há muita tristeza, contrariando certa imagem estereotipada da Literatura Infantojuvenil, na qual só caberiam amenidades. Fala de miséria, criminalidade, doença, mas também de esperança. A narradora, companheira de um traficante de drogas, conta a pequena-grande história do irmão caçula, cuja vida nunca mais será a mesma, graças ao contato com a Música.

O projeto gráfico é maravilhoso e, tentando reproduzir o falar das grandes periferias brasileiras, Angela Lago é precisa, exata, ampliando o impacto do que diz (levando-se em conta, aliás, o público principal ao qual o texto se destina):

"Mamãe adoeceu e largou o serviço. Zé Pita ofereceu uns duzentos, se não mais, para o Miúdo fazer um avião. Para levar uma brita. Uma pedra, crack".[...]
"E ele, Vivaldino-Miúdo, Marginal-à-esquerda, o saco, era quem buscava o remédio para a dor da mamãe. Morfina, um remédio que é droga também. E a morfina começou a acabar antes do tempo".[...]
"E os dois ainda culpavam o Miúdo. Desfaziam dele. Miúdo Vivaldino era virgem, era trouxa. Tocar violino: coisa de bicha. Um imprestável".

Faço questão de repetir: a melhor obra que li neste ano. E sobre a qual escreverei uma análise mais detida numa próxima postagem.

. . . . . .

Um pequeno tratado de brinquedos para meninos quietos (Editora Print House, 2009), reunião de poemas da arte-educadora Selma Maria, acompanhados de ilustrações de Anne Vidal, é também uma preciosidade. O título do livro lembra coisa do Manoel de Barros. Não à toa, o poeta "pantaneiro" comparece na orelha da publicação e nos diz que "as crianças quietas estão guardando os primeiros conhecimentos do mundo".

Mas é Guimarães Rosa o autor direta e indiretamente citado em todo o livro. Selma Maria realizou intenso trabalho de pesquisa nas cidades mineiras de Cordisburgo, Morro das Garças e Andrequicé. Ela nos diz que descobriu gostar "muito de brinquedo que [a] deixa quieta" e procurava meninos que tivessem esse jeito de brincar (como o Rosa menino). "E o que acabou acontecendo, sem querer na minha vida, foi que viajei lá longe, pelo sertão de Minas Gerais, para conhecer mais desses meninos. E os seus brinquedos".

Além da primeira seção de poemas do livro (Os brincares), destacaria também aquela denominada  Brinquedo-livro, na qual se encontra o poema Corpos:

"As pessoas usam o corpo para contar suas histórias.
Histórias não precisam de livros para existir.
Mas uma história pode se perder fora do livro
e ser encontrada dentro dos olhos do leitor".

Além da seção Brinquedo-terra, que tem o poema Bonecas

"Enrolando o dia e uns panos velhos numa raiz,
uma menina transforma uma mandioca
numa boneca com a cabeça cheia de minhoca".

Ótimos poemas. Ainda mais numa época em que a quietude é tão rara de se encontrar...
__________
* Conheça também o site da artista: http://www.angela-lago.com.br/

BG de Hoje

O vídeo de O que sobrou do céu, d'O RAPPA, sempre me deixa emocionado. Num país tão desigual quanto este, as decisões morais têm um peso ainda maior. Acho que essa é uma das mensagens que se tenta transmitir na história paralela que acompanha a canção.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

"[...] revolução silenciosa chamada literatura"

Em conferência* que não chegou a proferir, Lima Barreto expõe, de maneira intensamente apaixonada, qual seria, para ele, a função da Literatura (disponível aqui). Em determinado trecho, o autor menciona Crime e Castigo, de F. Dostoiévski e se pergunta: "onde está a beleza dessa estranha obra?". Como encontrar algo belo - ou apreciável - num livro que trata, principalmente, das lucubrações atormentadas de um paupérrimo e desesperado estudante, responsável pela morte brutal de duas pessoas? Responde Lima Barreto:

"[A beleza] Está na manifestação sem auxílio dos processos habituais do romance, do caráter saliente da ideia que não há lógica nem rigor de raciocínio que justifiquem, perante nossa consciência, o assassinato, nem mesmo quando é perpretado no mais ínfimo e repugnante dos nossos semelhantes e tem por destino facilitar a execução de um nobre ideal; e mais: no ressumar de toda a obra que quem o pratica embora obedecendo a generalizações aparentemente verdadeiras, executado que seja o crime, logo se sente outro - não é ele mesmo".

Mas apenas esse mote, esse tema, não seriam suficientes para construir um livro invulgar. Prossegue Barreto:

"É preciso que esse argumento se transforme em sentimento; e a arte, literatura salutar, tem o poder de fazê-lo, de transformar a ideia, o preceito, a regra em sentimento; e mais do que isso, torná-lo assimilável à memória, de incorporá-lo ao leitor, em auxílio de seus recursos próprios, em auxílio de sua técnica".

E acrescenta:

"É verificado por todos nós que, quando acabamos de ler um livro verdadeiramente artístico, convencemo-nos de que já havíamos sentido a sensação que o outro nos transmitiu e pensado no assunto".

Para o escritor carioca, a arte literária contribui para que não se esgarce de vez a tão precária solidariedade humana. Ele considera que

"Ela [a arte literária] sempre fez baixar das altas regiões das abstrações da Filosofia e das inacessíveis revelações da Fé, para torná-las sensíveis a todos, as verdades que interessavam e interessam a perfeição da nossa sociedade; ela explicou e explica a dor dos humildes aos poderosos e as angustiosas dúvidas destes, àqueles; ela faz compreender, uns aos outros, as almas dos homens dos mais desencontrados nascimentos, das mais dispersas épocas, das mais divergentes raças, ela se apieda tanto do criminoso, do vagabundo, quanto de Napoleão prisioneiro ou de Maria Antonieta subindo à guilhotina; ela, não cansada de ligar as nossas almas, umas às outras, ainda nos liga à árvore, à flor, ao cão, ao rio, ao mar e à estrela inacessível; ela nos faz compreender o Universo, a Terra, Deus e o Mistério que nos cerca, para o qual abre perspectivas infinitas de sonhos e altos desejos".

. . . . . .

O título desta postagem foi extraído de um pequeno artigo escrito pelo filósofo francês Jacques Rancière** e que analisa também Crime e Castigo.

Dostoiévski é, segundo o filósofo, um representante exemplar "dessa revolução silenciosa chamada literatura". E como se dá essa revolução?

Com Dostoiévski (tal como Balzac, Proust, Faulkner, Italo Svevo, Virginia Woolf, entre tantos outros) houve uma equivalência entre a ordem e a desordem, entre a razão e a desrazão, entre o ser ativo e o ser passivo, nessa complexidade partilhada pela humanidade e que chamamos simplesmente de vida, de acordo com Rancière. Para ele, as intrigas de Crime e Castigo (e de centenas de outras narrativas literárias) indicam

"[...] essa nova maneira de praticar a arte da escrita que se chama literatura e que se manifesta na igualdade dos episódios importantes ou ' insignificantes ', sonhados ou reais, num ritmo feito de estiramentos indefinidos ou de acelerações fulminantes".

Um personagem excepcional como Raskólnikov é movido "apenas por intensidades nômades", por "febres, impulsos e acasos", nos lembra o filósofo. Entretanto, no mundo contemporâneo, não somos todos um pouco assim?

Se há alguma função política e/ou revolucionária na Literatura - e acredito que há - esta reside na sua capacidade de concentrar, num conjunto de palavras pré-ordenadas e organizadas, altas doses de sensações, sentimentos e emoções, das quais podemos nos valer, experimentando outros modos de viver e pensar, diferentes do ordinário a que estamos acostumados.
___________
* BARRETO, Lima. O Destino da Literatura. In: _____________. Lima Barreto. 2 ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988 (seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico por Antônio Arnoni Prado) [Coleção Literatura Comentada]

** RANCIÈRE, Jacques. De um Dostoiévski a outro. Folha de S. Paulo, São Paulo, 6 mai. 2001, Caderno Mais!, p. 10-11

BG de Hoje

Acho essa versão acústica (a gravação original é da banda The Knife) simples e lindíssima: JOSÉ GONZÁLEZ, Heartbeats.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Velozes leituras



"Nos tempos cada vez mais congestionados que nos esperam, a necessidade de literatura deverá focalizar-se na máxima concentração da poesia e do pensamento".
 
Italo Calvino - Seis propostas para o próximo milênio

 
 
Nos anos 1980, Italo Calvino foi convidado a proferir as tradicionalíssimas e prestigiosas  Charles Eliot Norton Lectures,  em Harvard. Infelizmente, faleceu antes da data estipulada para o evento, deixando até mesmo de concluir a redação da última delas. Graças ao trabalho de Esther Calvino, porém, as cinco já escritas foram publicadas, inclusive no Brasil*.

O tema das conferências centrava-se em  "alguns valores literários que mereciam ser preservados" nos tempos que virão, segundo o escritor italiano.

Calvino partia do princípio de que os mil anos anteriores ao século XXI foram "o milênio do livro".  E um sinal de que essa era está no fim poderia ser encontrado na "frequência com que nos interrogamos sobre o destino da literatura e do livro na era tecnológica dita pós-industrial". Ele, contudo, não desejava fazer previsões nessa área e mostrava-se otimista: "Minha confiança no futuro da literatura consiste em saber que há coisas que só a literatura, como seus meios específicos, nos pode dar".

Já que falamos da velocidade, nas postagens anteriores, como uma das características mais marcantes desses nossos dias internéticos, vale a pena ler o que Calvino escreveu a respeito da RAPIDEZ, um "dos valores ou qualidades ou especificidades da literatura que [lhe] são particularmente caros, buscando situá-los na perspectiva do novo milênio".

Em determinado trecho de sua conferência, o autor de As Cidades Invisíveis reconhece

"[...] que a literatura jamais teria existido se uma boa parte dos seres humanos não fosse inclinada a uma forte introversão, a um descontentamento com o mundo tal como ele é, a um esquecer-se das horas e dos dias fixando o olhar sobre a imobilidade das palavras mudas".

Entretanto, anteriormente, ele já havia afirmado que "[...] numa época em que outros  media  triunfam, dotados de uma velocidade espantosa e de um raio de ação extremamente extenso, arriscando reduzir toda comunicação a uma crosta uniforme e homogênea", a arte literária, diante de tal "concorrência", precisará, de algum modo, ser também mais veloz. Para tanto, o êxito do escritor, tanto em prosa quanto na poesia, estará, de acordo com Calvino,

"[...] na facilidade da expressão verbal, que em alguns casos pode realizar-se por meio de uma fulguração repentina, mas que em regra geral implica uma paciente procura do  mot juste,  da frase em que todos os elementos são insubstituíveis, do encontro de sons e conceitos que sejam os mais eficazes e densos de significado. Estou convencido de que escrever prosa em nada difere do escrever poesia; em ambos os casos, trata-se da busca de uma expressão necessária, única, densa, concisa, memorável".

Cabe aos poetas e prosadores do novo milênio refletirem (ou não) sobre essa proposta.

Na próxima, Lima Barreto e Jacques Rancière.
__________
* CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. São Paulo: Companhia das Letras, 1990 [tradução de Ivo Barroso]

BG de Hoje

Taí uma das canções pop que não pode faltar em uma boa festa: Roam, dos B-52's. Na edição do vídeo, repare nos diferentes figurinos e penteados das adoráveis Kate Pierson e Cindy Wilson ao longo do tempo.

sábado, 11 de setembro de 2010

Milagres



"Cada leitor achou encantos com os quais assegurou a posse de uma página que, por magia, aparece como se nunca tivesse sido lida, fresca e imaculada, com todas as leituras anteriores agora incorporadas aos próprios átomos do texto. A história da leitura é, em certo sentido, a história desses encantos".
Alberto Manguel

 
 
Logo no primeiro parágrafo do conto Fatalidade*, de João Guimarães Rosa, o narrador nos apresenta uma personagem ("Meu Amigo") cujas atividades revelam curioso ecletismo ("de vasto saber e pensar, poeta, professor, ex-sargento de cavalaria e delegado de polícia"). Talvez, por causa dessa variedade de ocupações, a personagem tenha um opinião tão pouco otimista com relação ao viver em comunidade: "A vida de um ser humano, entre outros seres humanos, é impossível. O que vemos, é apenas milagre; salvo melhor raciocínio".

Cada vez mais misantropo, não me soam despropositadas essas palavras. Entretanto, é o caso de perguntar: haveria um modo de tornar a existência mais suportável dentro de um grupo social? Arriscaria dizer que sim: por meio da leitura.

No final do ano 2000, numa edição especial da revista Veja, li um lindo artigo escrito pelo ensaísta e romancista argentino (radicado no Canadá) Alberto Manguel**. Intitulado O destino da leitura na era da Web (disponível aqui), o texto exibe as "vantagens" do livro, numa época em que os meios digitais/virtuais vêm se afirmando como os principais instrumentos de comunicação interpessoal, entretenimento, armazenagem e difusão de informações para centenas de milhões de pessoas, de forma inédita na história.

 
Concentrando-se na leitura literária (o ensaio começa falando do clássico romance Robinson Crusoe, de Daniel Defoe), Manguel ressalta esta  incongruência de nossa civilização: "Pode-se viver numa sociedade baseada no livro e, ainda assim, não ler, ou viver numa em que o livro seja mero enfeite e ser, no sentido mais profundo e verdadeiro da palavra, um leitor". Para o ensaísta, apesar da imensa quantidade de material escrito que nos cerca, "não somos uma sociedade letrada". E prossegue:

"Aceitamos o livro como um dado comum, mesmo antiquado. O ato de ler, outrora considerado útil e prestigioso, quando não perigoso e subversivo, agora recebe condescendência como passatempo, lento passatempo que não tem eficiência nem contribui para o bem comum".

A rede mundial de computadores é vista, pelo escritor, de forma crítica, como um espaço sem historicidade, propícia à autoalienação e ausência de reflexão aprofundada. Mas, como afirma Manguel,

"Não é o caso de culpar a Internet por nossa falta de interesse em explorar o passado, nem pela preocupação superficial com o mundo em que vivemos. Sua virtude, com eu disse, está na rapidez e na quantidade da informação; não pode dar concentração e profundidade".

Essa função cabe aos livros.

"Estou convencido de que a leitura continua e sobreviverá, desde que persistamos em aplicar palavras ao mundo que nos cerca. Tanta coisa recebeu nome, tanta coisa continuará a receber que, com toda a nossa insensatez, não desistiremos desse pequeno milagre que nos permite um vago entendimento mútuo. Os livros talvez não alterem nosso sofrimento, talvez não nos protejam do mal, talvez não nos digam o que é bom ou belo, e, certamente, não nos resguardam do fado comum da sepultura. Mas livros nos dão a possibilidade de tais coisas, a oportunidade da mudança, a eventualidade de iluminação. Talvez não haja um livro, bem escrito como seja, que possa remover uma gota de dor da tragédia de Kosovo, mas talvez também não se ache um só livro mal escrito quanto seja, que não enseje uma epifania a seu leitor".

Do excerto acima - sem dúvida o mais belo em todo esse maravilhoso ensaio de Alberto Manguel - desejaria destacar este trecho: "não desistiremos desse pequeno milagre que nos permite um vago entendimento mútuo". E talvez seja possível compreender melhor a pergunta formulada no início da postagem.

Para tornar a vida em comum mais suportável - uma vez que os interesses, as perspectivas, as afeições individuais são tantas vezes inconciliáveis - só mesmo através desse "pequeno milagre" que às vezes ocorre quando lemos bons livros.

Na próxima, Italo Calvino.
___________
* ROSA, João Guimarães. Primeiras estórias. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008

** Este texto de A. Manguel, com tradução e título diferentes (A biblioteca de Robinson), além de alguns poucos acréscimos, também pode ser encontrado no mesmo livro que contém o artigo de Z. Bauman citado na postagem anterior: PORTELLA, Eduardo. Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003


BG de Hoje

"But my dreams/ They aren't as empty/As my conscience seems to be", canta Roger Daltrey, nesse belo poema-canção escrito por Pete Townshend: Behind Blue Eyes. No vídeo abaixo, THE WHO ao vivo.


sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Livros, leitura e sociedade



Certa vez, no extinto blog Ração das Letras, fiz referência a um artigo do sociólogo Zygmunt Bauman* a respeito do papel do livro - e tudo o que este representa em termos de conhecimento e cultura - nos nossos tempos globalizados. Reli o texto nesse "período de hibernação" e, mais uma vez, me rendo à sabedoria do pensador polonês.

O artigo é inspirado por um debate bastante frequente na atualidade: qual será o futuro do livro?

Diante dos novos recursos tecnológicos e engenhocas eletrônicas, este objeto tornar-se-á peça de museu, simplesmente obsoleto - ou pior - traste a ser lançado nas latas de lixo da história? Veremos diminuir aceleradamente o número de leitores (principalmente de Literatura) até não restar mais nenhum? Ou, ao contrário, presenciaremos um incremento sem precedentes da leitura e o livro apenas mudará de suporte, transferindo-se do papel para as telas dos PCs, Kindles, iPads e outros aparelhos?

O sociólogo, sem deixar seduzir-se pela enganosa futurologia, acredita que "não é a tecnologia da edição e da distribuição que determinará se o livro vai tecer (ou, em um mesmo ímpeto, desfazer) vínculos entre comunidades humanas, nem qual será seu lugar em nossas culturas compartilhadas ou separadas na forma e no conteúdo de nossa humanidade". Ele considera que o livro "tem sido, acima de tudo, uma narrativa relatada em perpétuo diálogo com a experiência humana", desde que chegou à forma física com a qual nos habituamos. Se queremos especular sobre o futuro desse produto de nossa cultura, é na sua relação mais profunda com a trajetória existencial da humanidade que devemos tentar encontrar mais esclarecimentos.

No último século, o mundo modificou-se consideravelmente, do ponto de vista político, econômico e social. Por isso Zygmunt Bauman pergunta: "Quais são os serviços que o livro é suscetível de prestar ao nosso tipo de sociedade?". Para responder a isso deve-se "pensar menos nas mudanças tecnológicas da produção e da distribuição do livro do que seria desejável para os profetas da revolução eletrônica; talvez convenha examinar mais de perto a natureza mutável do mundo em que vivemos, assim como as mudanças na maneira de experimentá-la".

. . . . . .

Este nosso mundo globalizado não é flor que se cheire: inseguro, instável, marcado por um apreço quase irracional pela velocidade e pela simultaneidade absolutas e por um desprezo mal dissimulado pela reflexão aprofundada e pela História.

Nos dias de hoje, convive-se com muita informação e esta é sempre fragmentada, além de esgotar-se rapidamente, logo sendo substituída por outra, mais "quente" e "atual". Segundo Bauman, "o mundo nos é oferecido como um contêiner repleto de acontecimentos para consumo imediato, sob os holofotes e de uma só vez. Em tal mundo, o sentido da vida aparece como uma série de episódios, em que cada um deve ser consumido de modo semelhante".

O livro, durante séculos, cumpriu a importante e nobre missão de tentar lançar alguma luz na turbulenta existência humana e sua força, como nos lembra Bauman, sempre residiu

"na capacidade totalmente específica de ligar a biografia à história, o privado ao público, o individual ao social, os momentos vivenciados ao sentido da vida. Este trabalho de síntese é difícil de apreender em um mundo que renunciou ao pensamento consistente e de longo prazo: sua significação (de fato seu caráter indispensável) tende a escapar dos habitantes deste mundo. Nossa atenção desloca-se depressa demais para nos permitir fazer uma pausa e refletir; donde o fato de que a demanda por textos que ofereçam tal possibilidade não cessa de diminuir".

"A prática da narrativa alimentou a experiência comum do mundo que, por sua vez, alimentou a narrativa", lemos no artigo aqui discutido. Entretanto, como vimos, parece haver um divórcio entre o que buscam os cidadãos globalizados contemporâneos e o que oferecem os livros que se negam a ser somente mercadoria. Bauman encerra afirmando que

"Os livros estão condenados a compartilhar a sorte das sociedades das quais fazem parte. Quando estivermos inquietos com o futuro dos livros, consideremos, antes de tudo, com mais atenção a sociedade e suas tendências. Para tornarmos os livros mais adaptados à sociedade em que vivemos, estejamos vigilantes para evitar que a sociedade se torne inadaptada aos livros".

Na próxima postagem, será a vez de Alberto Manguel falar sobre a importância da leitura e dos livros.
______________
* BAUMAN, Zygmunt. O livro no diálogo global entre culturas. In: PORTELLA, Eduardo (Org.). Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003. p. 15-33

BG de Hoje

Nesse "período de hibernação", passei a valorizar ainda mais o "conselho" de LUIZ MELODIA, na sua canção Congênito: "Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais".

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Pessimismo condensado

Memórias póstumas de Brás Cubas* é considerado por muitos o ponto de inflexão na obra de Machado de Assis, momento em que o escritor passa a produzir seus textos mais artisticamente elaborados. De fato, esse romance, publicado em 1881, ao menos do ponto de vista da forma, é estruturado de maneira nada usual, sobretudo se o compararmos a outras obras da ficção nacional da época. As constantes mudanças de ritmo na narrativa - perfeitas para seus capítulos curtos - fazem desse livro o palco ideal para algumas das mais célebres frases criadas por Machado de Assis. Roberto Schwarz (no livro Um mestre na periferia do capitalismo**), ressaltou que

"[...] a narrativa passa do trivial ao metafísico, ou vice-versa, do estrito ao digressivo, da palavra ao sinal (o capítulo à moda shandyana, feito de pontinhos, exclamações a interrogações), da progressão cronológica à marcha ré no tempo, do comercial ao bíblico, do épico ao intimista, do científico à charada, do neoclássico ao naturalista e ao chavão surrado etc. etc.."

O personagem Brás Cubas também é visto como um legítimo representante da parasitária oligarquia brasileira típica do século XIX. E é possível, como provaram Schwarz (no estudo acima mencionado) e outros críticos, fazer uma profunda análise sociológica a partir do romance.

Contudo, penso que Memórias póstumas... não deixa de ser por isso uma sensacional história sobre o egoísmo.

. . . . . .

Durante a leitura desse romance não é difícil constatar: Brás Cubas tem tudo para ser odiável, mas está longe de ser odioso.

A "simpatia" do narrador-personagem decorre, em grande parte, do lugar de onde provém sua narração: o pós-morte, único modo de diminuir sua hipocrisia.

O famoso último capítulo do romance consegue condensar toda a veleidade do protagonista - veleidade esta que proporciona o esquema narrativo da obra - , mas, principalmente, nos expõe seu arraigado egoísmo:

"Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade do emplastro, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de Dona Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba. Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e conseguintemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas: - Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".

A última frase - concisa, direta e impactante -, entretanto, revela ainda outro elemento: um pessimismo imenso. Porém, julgo que esse pessimismo não é do narrador - um garoto mimado na infância, bon vivant na juventude e um ocioso entediado na maturidade - e sim do próprio autor, Machado de Assis. Criador falando pela boca de sua criação. A miséria de que fala o escritor é a da espécie humana como um todo.

* ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 14 ed. São Paulo: Ática, 1990  [Série Bom Livro]

** SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. 4 ed. São Paulo. Ed. 34, 2000  [Coleção Espírito Crítico]

BG de Hoje

A canção abaixo tem, em minha opinião, o mais belo solo de guitarra elétrica do rock'n'roll. A este, só consigo encontrar parecidos, no sentido da beleza, o de Mick Ronson em Moonage Daydream, de David Bowie, ou o de Kirk Hammett em One, do Metallica. Ainda assim, acho que David Gilmour, do PINK FLOYD foi perfeito nesta: Comfortbly Numb.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

As estranhas crianças de Henry James


"Aquilo significava que os outros, os intrusos, lá estavam. Embora não fossem anjos, ' passavam ' - como se diz em francês - e, enquanto lá permaneciam, faziam-me estremecer de medo de que dirigissem às suas vítimas mais jovens alguma mensagem ainda mais infernal ou uma imagem mais vívida ainda do que as que haviam julgado suficientes para mim".
A outra volta do parafuso - Henry James

No mês passado, na última edição da revista Conhecimento Prático: Literatura, publicou-se pequena matéria* analisando a famosa novela A outra volta do parafuso**, do escritor norte-americano (naturalizado inglês) Henry James, a partir da conceituação formulada pelo crítico literário Tzvetan Todorov sobre a Literatura Fantástica. Decidi, então, ler o texto de James e comunicar aqui minhas impressões. Antes, contudo, breve esclarecimento.

Em sua tipologia das narrativas dessa linhagem, Todorov, a partir do "estado" do leitor em relação aos fatos narrados, faz a seguinte distinção: existiria o fantástico estranho, em que se busca para estes fatos uma explicação baseada na plausibilidade racional; o fantástico maravilhoso, no qual há pleno domínio do sobrenatural sobre os acontecimentos; e o fantástico puro, cujos textos "mantém a ambiguidade até o fim, o que quer dizer também: além. Fechando o livro, a ambiguidade permanecerá". Tal é o caso de A outra volta do parafuso, de acordo com o crítico.

. . . . . .

Uma jovem e inexperiente preceptora torna-se responsável pela educação e cuidados de duas crianças ricas. Desloca-se para uma velha casa (alguém aí pensou em "mal-assombrada"?), na qual um "elemento inominado e inabordável" acaba tomando conta da vida das personagens. A recomendação de H. P. Lovecraft (citado na matéria acima mencionada)  é fundamental para melhor apreciar a novela: "[...] devemos julgar o conto fantástico não tanto em relação às intenções do autor e os mecanismos da intriga, mas em função da intensidade emocional que ele provoca". E, sem dúvida, a tensão e a sensação de desconforto nos seguem do início ao fim da narrativa.

Em A outra volta do parafuso, o primeiro narrador, ao atribuir a um terceiro (no caso, uma narradora) a "verdadeira" autoria do relato - feito em primeira pessoa - lança mão de um expediente comum da ficção para aumentar a verosimilhança do que é contado. E como esse recurso funciona admiravelmente para criar a atmosfera propícia de suspense e terror! Sim, estamos aqui no campo do mais puro terror, ainda que não haja nenhum episódio de violência corporal em toda a história. Menciono essa circunstância, porque, graças ao cinema industrial mais vulgar, terror tornou-se, para muita gente, sinônimo apenas da ação brutal de serial killers e outros psicopatas.

Para a difícil tarefa de obter "uma outra volta do parafuso da virtude humana comum", a protagonista da trama se vê diante de crianças cuja "beleza quase sobre-humana" e a "doçura absolutamente anormal" compõem um insólito "jogo, uma coisa estudada, uma fraude!". A presença de crianças, aliás - vistos geralmente como símbolos da inocência e da incorruptibilidade - só faz aumentar a sensação de terror.

Nesse aspecto, a propósito, a novela de Henry James me lembra narrativas cinematográficas nas quais as crianças tem papel fundamental para a história, como é o caso dos ótimos filmes O sexto sentido ( The sixth sense - direção de M. Night Shyamalan, 1999) e, principalmente, Os outros (The others - direção de Alejandro Amenábar, 2001)

Um modo extraordinário de olhar para esses pequenos seres.

* FERREIRA, Letícia. O parafuso a mais de Henry James. Conhecimento Prático: Literatura, São Paulo, n.30, jul. 2010, p. 38-41 [Editora Escala Educacional)

** JAMES, Henry. A outra volta do parafuso. In: ____________. Lady Barberina; A outra volta do parafuso. São Paulo: Abril Cultural, 1980  [tradução de Brenno Silveira]

BG de Hoje

Por enquanto, na seção, só bandas da época áurea do gênero (1965 - 1985). Abaixo, versão ao vivo de Good Golly, Miss Molly, com o vibrante CREEDENCE CLEARWATER REVIVAL.