sábado, 23 de outubro de 2021

Falou e disse...

 "A pluralidade humana, condição básica da ação e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e da distinção. Se não fossem iguais, os homens não poderiam compreender uns aos outros e os que vieram antes deles, nem fazer planos para o futuro, nem prever as necessidades daqueles que virão depois deles. Se não fossem distintos, sendo cada ser humano distinto de qualquer outro que é, foi ou será, não precisariam do discurso nem da ação para se fazerem compreender. Sinais e sons seriam suficientes para a comunicação imediata de necessidades e carências idênticas.

A distinção humana não é idêntica à alteridade - à curiosa qualidade da alteritas, comum a tudo que existe e que, por conseguinte, para a filosofia medieval, é uma das quatro características básicas e universais do Ser, transcendendo toda qualidade particular. A alteridade é, sem dúvida, aspecto importante da pluralidade, a razão pela qual todas as nossas definições são distinções, pela qual não podemos dizer o que uma coisa é sem distingui-la de outra. Em sua forma mais abstrata, a alteridade está presente somente na mera multiplicação de objetos inorgânicos, ao passo que toda vida orgânica já exibe variações e distinções, inclusive entre indivíduos da mesma espécie. Só o homem, porém, é capaz de exprimir essa distinção e distinguir-se, e só ele é capaz de comunicar a si próprio e não apenas comunicar alguma coisa - como sede, fome, afeto, hostilidade ou medo. No homem, a alteridade, que ele partilha com tudo o que existe, e a distinção, que ele partilha com tudo o que vive, tornam-se unicidade, e a pluralidade humana é a paradoxal pluralidade de seres únicos".  *

ARENDT, Hannah. A condição humana. 11 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2013. p. 219-220 [Tradução de Roberto Raposo e revisão técnica de Adriano Correia]

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Sobre a propalada "cultura do cancelamento"

[Postagem atualizada em 13/10/2021]


Penso que o chamado cancelamento às vezes mostra-se pouco razoável em virtude de excessos cometidos por uma parte dos(as) adeptos(as) da prática ¹.

Em alguns casos - friso, em alguns casos -, certas pessoas a serem canceladas não são suspeitas/acusadas de agressão física, assédio, crime sexual, crime contra a vida, não difamaram, não caluniaram, não insultaram, não mentiram, não ameaçaram outrem, não promoveram discurso de ódio. Essas pessoas também não exorbitaram no seu direito à liberdade de expressão. Em alguns casos, o que esses indivíduos fizeram foi apenas realizar um ato, dizer algo ou manifestar uma opinião que está fora de um regimento bastante peculiar, não compartilhado - mas seguido de forma estrita - pelo(a) zeloso(a) "cancelador(a)".

O resultado é que, em várias ocasiões, interdita-se o debate, mesmo entre indivíduos que compartilham visões de mundo bem próximas e que defendem compromissos éticos similares. Isso sem falar no opróbrio que pode atingir a pessoa cancelada, ainda que ela não tenha - repito - sido acusada/considerada suspeita de agressão física, assédio, crime sexual ou contra a vida, difamado, caluniado, insultado, mentido, ameaçado outrem, promovido discurso de ódio ou exorbitado no seu direito à liberdade de expressão. NOTA: Isto posto, não estou alheio à velhacaria de determinados jornalistas, políticos, influenciadores digitais e até acadêmicos que, com desonestidade intelectual (e, não raro, má-fé), contaminam o debate público apenas para vencer a disputa ideológica.

Na contemporaneidade, é magnífico que vozes até então impedidas de falar e comunidades tornadas invisíveis por opressões diversas consigam ser ouvidas e reconhecidas no espaço público (e é preciso admitir o papel das mídias sociais nesse processo). É formidável também que o trabalho organizado de ativistas consiga, às vezes, fazer com que celebridades, políticos e até grandes empresas com enorme poder sejam mais responsáveis e conscientes em suas ações e declarações ². Entretanto, a disposição para o "cancelamento", uma das resultantes desse ativismo, pode estar fazendo com que a livre troca de informações e ideias se torne mais restrita, como afirmam os signatários daquela famosa (e duramente criticada) Carta sobre justiça e debate aberto , publicada em julho de 2020 (entre os que a assinam, destaco Margaret Atwood e Salman Rushdie). "Embora esperemos isso da direita radical [a restrição da livre troca de informações e ideias], a censura também está se espalhando mais amplamente em nossa cultura: uma intolerância a pontos de vista opostos, um furor para a vergonha pública e ostracismo e a tendência de dissolver questões políticas complexas em uma certeza moral cegante", lê-se em determinado trecho.

Esse, aliás, é o aspecto que mais me deixa agastado com a propalada "cultura do cancelamento": o(a) "cancelador(a)" não duvida nem por um segundo da sua superioridade (pior, da sua infalibilidade) moral em relação a toda e qualquer pessoa que não se ajuste (nem que seja só um pouco) ao seu regimento.

Eu havia escrito e publicado um texto sobre esse tema no ano passado. Decidi excluí-lo, porém, porque não me agradou. Aí, no último domingo, dei de cara com esta excepcional crônica de Antonio Prata, publicada na Folha de S. Paulo. Tenho obrigação de reproduzi-la aqui, pois retrata bem um pouco do que penso sobre o assunto.

(Obrigado mais uma vez, Antonio Prata, um dos pouquíssimos motivos que me fizeram voltar a assinar o deplorável jornal da família Frias)


CANCELAMENTOS POSSÍVEIS
Tudo abaixo é ficção; menos, talvez, a última frase
Antonio Prata


J. foi o primeiro antropólogo a traduzir os fundamentais cânticos fúnebres da língua Baruna. Num debate entre J. e o pajé Wa’am’biipi, parte da comemoração pela demarcação das terras Baruna —vitória para a qual os trabalhos e o ativismo do antropólogo não podem ser desconsiderados—, alguém gritou da plateia: “usurpador!”. Tratava-se de M., membro da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste. Segundo M., receber os louros pela tradução de uma obra indígena e comemorar a demarcação ao lado do pajé fazia de J. a versão intelectual dos Pizarros, dos Cortéses, dos Pedro Álvares Cabrais, um “neoextrativista dos bens culturais ameríndios”.

Em alguns meses, a campanha “antitradução”, corrente segundo a qual apenas um membro de sua própria etnia, aprendendo uma língua alheia, poderia verter para ela seu idioma, levou J. de herói a facínora. J. foi afastado da faculdade. Seus artigos encomendados por publicações acadêmicas foram cancelados.

Com o caso J., M. acabou ficando bombadinho nas redes e foi filmado numa praça batendo boca com a namorada. Surgiu então uma campanha barulhenta exigindo a expulsão de M. da bancada ativista de São Joaquim D´Oeste, pois tratava-se de um “machistx em pelx dx cordeirx”. “Trata as mulheres com a mesma opressão colonialista que finge combater! Lixo humano!”.

M. e a namorada, com quem tinha feito as pazes na mesma tarde, na mesma praça, acharam que seria uma boa estratégia divulgar a foto dos dois num sex-shop, segurando uma cinta peniana, com a qual, revelariam, ela costumava penetrá-lo. Provariam, assim, o quanto M. estava, “através da desdomesticação heteronormativa colo-colonial”, engajado “na subversão dos afetos patriarcais”.

O brinquedo erótico, porém, tinha tiras de couro e suscitou a ira de ativistas veganos, que lançaram nas redes montagens de imagens do casal sobrepostas a de bois ensanguentados em matadouros, trespassados por enormes cintas penianas. Uma semana depois, toda a bancada ativista de São Joaquim D´oeste renunciou ao mandato — dando mais espaço, aliás, para a vereança ruralista, dona dos abatedouros.

Nas redes, os ruralistas chamaram M. de homossexual. M. disse que, se fosse, seria feliz, pois na Grécia clássica e em Roma, por exemplo, relações sexuais entre homens não eram nenhuma vergonha, eram motivo de orgulho.

M. certamente não estava à par das últimas polêmicas sobre o período clássico. Como era comum, àquela época, homens feitos terem relações sexuais com mancebos, Sócrates, Platão, Aristóteles, Ésquilo, Sófocles, Aristófanes e companhia não passavam de pedófilos, abusando de menores “no gozo perverso do privilégio gerontocrático”. Gregos e latinos foram cancelados.

Há quem diga que as únicas obras dignas de mérito em toda a história do pensamento são os livros da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Uma tendência mais recente, contudo, contesta Chimamanda ferozmente, por ter se mudado para os Estados Unidos e escrever em inglês, não em uma das 510 línguas atualmente faladas no país africano. “Feminista e antirracista sendo filha de professor universitário e ganhando em dólar, é fácil”, escreveu um membro do movimento #fuckfakeafrican —em seu iPhone, nos Jardins. “Mas e as mulheres que ficaram na Nigéria? As que não têm o auxílio imperialista de uma Chimamanda? O palanque etnocêntrico de um J.? O privilégio machista e especista de um M.? Todo o lobby branco dos gregos e latinos? Quem as lê? Quem as enxerga, sequer?”.

A. escrevia na Folha de S. Paulo, até que.

__________

¹ Sendo realista, contudo, não acredito que haja um número expressivo de indivíduos engajados, metódica e sistematicamente, no tal cancelamento, como se se tratasse de ações orquestradas (não me surpreenderia, porém, se isso acontecesse eventualmente). Em resumo: vejo a "ação de cancelar" mais como uma disposição do que como um procedimento calculado.

² Essa passagem me faz recordar uma postagem que publiquei aqui no Besta Quadrada em 2016, defendendo o chamado politicamente correto: Não se pode esquecer que somos seres de linguagem: discutindo o politicamente correto.

BG de Hoje

"What do they want from me?/They never told me the failure I was meant to be"
Sem mais a acrescentar.
SLIPKNOT, People = Shit

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Prosseguir? Sim... mas...


Estive relendo Angústia nos últimos dias (romance sobre o qual já escrevi aqui e aqui).

Não estava na "ordem de prioridades". Há uma pilha de volumes - lidos ou relidos parcialmente, outros nem sequer começados - que intencionava dar conta antes. Alguns, inclusive, seriam discutidos aqui no blog.

Mas senti que precisava voltar àquele livro de Graciliano Ramos mais uma vez.

Já disse anteriormente que tenho grande identificação com o personagem-narrador Luís da Silva. Tal como ele, não passo de um desiludido, rancoroso e ordinário servidor público, marcado por veleidades literárias e intelectuais.

O fechamento de Angústia expõe o que se passa na cabeça de Luís da Silva, quando este se encontra num estado de letargia, em que renitentes lembranças e memórias de outras fases de sua vida manifestam-se, quase oniricamente. Essa espécie de delírio, podemos dizer, é, aliás, a mesma da qual o personagem está se desprendendo no início do romance, saindo de um longo período de prostração - é quando nós, os leitores do romance, nos damos conta de que os principais episódios constituintes do enredo do livro já tinham acontecido quando o texto efetivamente principia.

Formando um só fluxo que preenche quase dez páginas, a divagação começa assim:

"A réstia descia a parede, viajava em cima da cama, saltava no tijolo - e era por aí que se via que o tempo passava. Mas no tempo não havia horas. O relógio da sala de jantar tinha parado. Certamente fazia semanas que eu me estirava no colchão duro, longe de tudo. Nos rumores que vinham de fora, as pancadas dos relógios da vizinhança morriam durante o dia. E o dia estava dividido em quatro partes desiguais: uma parede, uma cama estreita, alguns metros de tijolo, outra parede. Depois a escuridão cheia de pancadas, que às vezes não se podiam contar porque batiam vários relógios simultaneamente, gritos de crianças, a voz arreliada de d. Rosália, o barulho dos ratos no armário dos livros, ranger de armadores, silêncios compridos. Eu escorregava nesses silêncios como numa água pesada. Mergulhava neles, subia e descia ao fundo, voltava à superfície, tentava segurar-me a um galho. Estava um galho por cima de mim, e era-me impossível alcançá-lo. Ia mergulhar outra vez, mergulhar para sempre, fugir das bocas da treva que me queriam morder, dos braços da treva que me queriam agarrar".

E, no finalzinho, uma das frases que se lê é:

     "Eu era uma figurinha insignificante e mexia-me com cuidado para não molestar as outras".

Tenho pra mim que Luís da Silva não seria tão angustiado - e nem teria cometido o crime narrado na obra - se realmente aceitasse o fato de ser uma "figurinha insignificante". Caso aceitasse, teria êxito em "fugir das bocas" e "dos braços da treva"

Figuras como o personagem de que estamos falando (e como este blogueiro), a despeito da sua nulidade, são paradoxalmente pretensiosas. Em algum momento de suas vidas, acreditaram ser, de algum modo, inteligentes. Isso as torna particularmente nocivas ou, na melhor das hipóteses, simples covardes. De uma forma ou de outra, são incapazes de agir com grandeza, o que não quer dizer que sejam torpes o tempo inteiro. 

É como se não soubessem dar valor a nada e, portanto, são figuras inaptas para construir qualquer coisa - carreira, algum patrimônio modesto ou até mesmo relacionamentos. "[...] as minhas mãos são fracas, e nunca realizo o que imagino", diz para si mesmo, a certa altura, Luís da Silva.

Você, visitante desavisado, talvez não saiba, mas este Besta Quadrada (que nada me rende e que não tem leitores) é minha única realização. Vejo, contudo, que estou estagnado, escorregando em "silêncios compridos", como se estivesse mergulhado "numa água pesada".

Tenho que prosseguir, suponho. Afinal, é minha única realização, não é? Mas qual rumo tomar?

. . . . . . .


A estagnação também tem a ver com um outro ponto.

Semanas atrás, li a postagem inaugural do blog criado este ano por Edward Snowden, que me fez refletir muito sobre as possibilidades de debate na atual conjuntura histórica. Em Lifting The Mask, o ex-analista da CIA e da NSA observa que o controle/acesso de dados e informações pessoais de milhões de indivíduos, antes nas mãos de entidades governamentais destinadas à vigilância (e, por conseguinte, repressão), hoje é o principal capital de corporações privadas (e, por conseguinte, fonte de lucro para elas). 

E onde chegamos com isso? Escreve Snowden:

"This is the reality of the fully commercialized mainstream internet: our exposure to an indigestible mass of shortest-form opinions that are purposefully selected by algorithms to agitate us on platforms that are designed to record and memorialize our most agitated, reflexive responses. These responses are, in turn, elevated in proportion to their controversy to the attention — and prejudice — of the crowd. In the resulting zero-sum blood sport that public reputation requires, combatants are incentivized to occupy the most conventionally defensible positions, which reduces all politics to ideology and splinters the polis into squabbling tribes. The products of the irreconcilable differences this process produces are nothing more than well-divided 'audiences', made available to the influence of advertisers, and all that it cost us was the very foundation of civil society: tolerance". ¹

Afetando milhões de seres humanos, a intersubjetividade dos nossos dias é altamente influenciada pelas mídias sociais ou aplicativos de mensagens instantâneas (como o WhatsApp, por exemplo). Como está bem assinalado acima, as empresas detentoras dessas plataformas, através dos algoritmos lá presentes, têm interesse, sobretudo, em nossas manifestações "mais enervadas e por reflexo", ou seja, raivosas e irrefletidas. Gera-se assim uma segmentação - ideal para os anunciantes -, com " 'audiências' muito bem divididas", nem que para isso a ideia de tolerância tenha que ser sacrificada.

Mas Snowden tem algo a propor:

"For this reason, I'd like to do my part in encouraging a return to longer forms of thinking and writing, which provide more room for nuance and more opportunity for establishing consensus or, at the very least, respecting a diversity of perspective and, you know, science.

I want to revive the original spirit of the older, pre-commercial internet, with its bulletin boards, newsgroups, and blogs — if not in form, then in function". ²

"Formas mais longas de pensar e escrever"... Pode ser uma boa maneira de se contrapor a memes inconsequentes, fake news e outras formas de comunicação bastante velozes e curtas, porém, na mesma proporção, superficiais, mentirosas e promotoras de ódio, formas essas cada vez mais impregnadas no debate público, deixando de proporcionar "espaço para nuances" e para perspectivas menos simplistas.

Tudo dito, qual rumo dar a este Besta Quadrada, que é, entre outras coisas, minha tentativa - pretensiosa, não vou negar - de contribuir com o debate público?

É essa a pergunta que estou tentando responder nos últimos dois meses. Ainda tenho dúvidas, que talvez não sejam dirimidas nas próximas semanas. 

Por isso, enquanto reflito sobre possíveis mudanças, não haverá atualizações por aqui.

Retornarei ainda este ano, contudo.

__________

¹ [Tradução aproximada: Esta é a realidade da internet mainstream inteiramente comercializada: nossa exposição a uma massa de opiniões na sua forma mais curta, indigesta, que são propositalmente selecionadas por algoritmos para nos agitar em plataformas que são projetadas para gravar e manter vivas nossas respostas mais enervadas e dadas por reflexo. Essas respostas são, por sua vez, elevadas na proporção de sua controvérsia para a atenção - e preconceito - da multidão. No resultante esporte sangrento de soma zero que a reputação pública exige, os combatentes são incentivados a ocupar as posições mais convencionalmente defensáveis, o que reduz toda a política à ideologia e divide a pólis em tribos em disputa. Os produtos das irreconciliáveis diferenças desse processo nada mais são do que "audiências" muito bem divididas, tornadas disponíveis para a influência dos anunciantes e tudo o que nos custou foi o próprio fundamento da sociedade civil: a tolerância]

² [Tradução aproximada: Por esse motivo, eu gostaria de fazer minha parte encorajando um retorno para formas mais longas de pensar e escrever, que proporcionem mais espaço para nuances e mais oportunidade para estabelecer consensos ou, pelo menos, respeitar a diversidade de perspectiva e, sabe, ciência.

Eu quero reviver o espírito original da internet mais velha e pré-comercial, com seus quadros de boletins, grupos de notícias e blogs - se não na forma, então na função]

BG de Hoje

Estou ciente do tremendo clichê que é dizer isso, mas lá vai: no derradeiro fim - seja o Jeff Bezos, seja uma pobre mulher favelada que labuta diariamente para criar os filhos -, todos seremos carregados pela morte, "feito um pacote", como cantou BELCHIOR em Pequeno perfil de um cidadão comum, belíssima canção composta em parceria com Toquinho. Isso, porém, não é um consolo, em absoluto. Sempre achei estranha a expressão "vencer na vida", sobretudo porque, para a maioria de nós, o único papel que nos cabe é dizer "sim aos seus [nossos] senhores infalíveis".

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Falou e disse...

 

"Se não tivéssemos declarado boas as artes e inventado essa espécie de culto do não-verdadeiro: a compreensão da universal inverdade e mendacidade, que agora nos é dada pela ciência - a compreensão da ilusão e do erro como uma condição da existência que conhece e que sente -, não teria podido ser tolerada. [...] Nem sempre proibimos nosso olho de arredondar, de fingir até o fim: e então não é mais a eterna imperfeição que portamos sobre o rio do vir-a-ser - então pensamos portar uma deusa e somos orgulhosos e infantis nessa prestação de serviço. Como fenômeno estético, a existência é sempre, para nós suportável ainda, e pela arte foi-nos dado olho e mão e antes de tudo a boa consciência para, de nós próprios, podermos fazer um tal fenômeno. Temos de descansar temporariamente de nós, olhando-nos de longe e de cima e, de uma distância artística, rindo sobre nós ou chorando sobre nós: temos de descobrir o herói, assim como o parvo, que reside em nossa paixão do conhecimento, temos de alegrar-nos vez por outra com nossa tolice, para podermos continuar alegres com nossa sabedoria! E precisamente porque nós, no último fundamento, somos homens pesados e sérios e somos mais pesos do que homens, nada nos faz mais bem do que a carapuça de pícaro: nós precisamos usá-la diante de nós próprios - precisamos usar de toda arte altiva, flutuante, dançante, zombeteira, pueril e bem-aventurada, para não perdermos aquela liberdade sobre as coisas que nosso ideal exige de nós". *

 

* NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia Ciência. In: _______________. Obras incompletas. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 197-198 [Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho] (Coleção Os pensadores)

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Nem tudo precisa ser ruim o tempo todo


Um número considerável de pessoas ficou com bastante tempo livre no ano passado, decorrente da observância (mais rigorosa para alguns, mais descuidada para outros) do distanciamento social.

Uma delas era eu.
 
No trabalho, fui colocado em regime de sobreaviso, da penúltima semana de março até o último dia de agosto. Felizmente, não tive redução nem suspensão de salário, apenas não recebi o vale-refeição (fez falta, viu). 
 
Nesse ponto, tenho que admitir que estava em condição privilegiada. Todos sabemos que um sem-número de trabalhadores teve descontos pesados na remuneração, além de outra imensidão de gente que perdeu o emprego. Sem falar nos informais, impossibilitados de ganhar algum em ruas onde a circulação de pessoas já não era a mesma dos dias normais.

Nunca a proposta de uma renda básica universal pareceu tão razoável quanto nessa crise provocada pela COVID.

Falávamos, porém, do tempo livre.

Gosto de TV. E, sempre que posso, assisto sem qualquer moderação. É um passatempo relativamente barato e acessível. Além do mais, não tenho vida social (expressão menos crua que as pessoas usam para evitar dizer que não têm amigos(as) com quem sair, nem encontram parceiras(os) sexuais). Nesse aspecto, a pandemia teve pouquíssimo efeito sobre mim. Muitos não aceitaram bem ter que ficar apartados. A minha casca, entretanto, já está um bocado grossa para lamentar distanciamentos.

Embora concorde que a programação televisiva merece muito da reprovação que lhe é dirigida (sobretudo pela turma mais intelectualizada), continuo com a opinião de que a TV deve ocupar-se em oferecer apenas entretenimento. Como já escrevi aqui, não é razoável esperar que a TV tenha um papel educativo, no sentido rigoroso. Sei que isso não é aplicável a todos, mas, quando estou em busca de profundidade, leio um livro ou vou a um museu. E se intenciono ficar bem informado, sou assinante de um ótimo jornal online (Nexo) e apoio uma excelente agência de jornalismo investigativo (Agência Pública). Após um cansativo dia de trabalho, todavia, tudo que quero é o descompromisso de um blockbuster ou a agitação controlada de uma partidinha de basquete ou de vôlei.

Além disso, é injusto colocar todos os produtos de entretenimento no mesmo balaio.

Reconheço que a TV exibe muita merda (os canais abertos, principalmente, mas os pagos também têm lá o seu quinhão de lixo). O entretenimento de boa qualidade, contudo, não está tão em falta como se alardeia.

. . . . . . .

Nem de longe posso me considerar um consumidor habitual de séries. Antes de começar a assisti-las, sempre me faço a mesma pergunta: "será que estou realmente disposto a investir tempo nesse troço?". Já perdi a conta dos títulos em que empaquei, não exatamente porque não tenha gostado, mas porque me deu uma certa preguiça (por exemplo, até hoje não passei do 3º episódio da 1ª temporada de Stranger Things e - para citar uma mais recente - estaquei no meio da temporada inaugural da japonesa Alice In Borderland).

Como não costumo ter a disposição requerida para me "dedicar" a uma série, geralmente escolho o que assistir a partir do gênero. Prefiro as comédias, muito embora seja um sujeito mal-humorado. Certamente gosto de outros tipos de produção (como, por exemplo, a ótima ficção científica The Expanse, na Amazon Prime Video, ou o drama Goliath, também no mesmo serviço de streaming, e, claro, Mr. Robot, outra série dramática, minha predileta - sobre a qual já escrevi aqui -, exibida no canal Space anteriormente e hoje disponível no catálogo da Amazon ¹). No geral, porém, opto por seriados cômicos (pretendo escrever, mais para diante, uma postagem sobre isso).

E duas comédias sensacionais, cada uma a seu modo, tornaram alguns daqueles dias com fartura de tempo livre mais aprazíveis ainda. Falo de Brooklyn Nine-Nine e The Good Place.

Ambas as séries tem o dedo do talentoso roteirista e produtor Michael Schur.

Brooklyn Nine-Nine ganhou os noticiários um tempinho atrás quando os fãs se mobilizaram através das mídias sociais para tentar evitar o cancelamento do programa, que era produzido pela Fox. 
 
Funcionou. 
 
A NBC decidiu dar continuidade e mais duas temporadas foram realizadas. Este ano vai ao ar a última, com apenas 10 episódios. Na TV por assinatura, assisti algumas vezes na TBS e na TNT. Recentemente estava, no Warner. No meu período de sobreaviso pude "maratonar" com tranquilidade, pois faz parte também do catálogo da Netflix.

Por que acho a série tão boa?

Porque, sem ter que inventar moda, ela usa muito bem um dos elementos mais importantes da comédia: o ritmo. A transição de cenas é formidável. As aberturas (cold opens), às vezes, são de rolar de rir, como essa abaixo, que ficou famosa: 
 

Além disso, percebe-se o cuidado dos roteiristas com cada uma das figuras centrais (algo visto também em outro trabalho de Michael Schur que eu adoro, Parks And Recreation) e há ótimos atores. Andre Braugher (que interpreta o capitão Raymond Holt), Joe Lo Truglio (detetive Charles Boyle) e Stephanie Beatriz (detetive Rosa Diaz) são os destaques, em minha opinião. Em relação aos personagens, as que mais me divertem são a secretária Gina Linetti, uma das preferidas do público (interpretada pela comediante Chelsea Peretti), e a já citada Rosa Diaz.

Tenho certeza de que vou continuar assistindo e me divertindo com Brooklyn Nine-Nine ao longo da vida, independentemente de quantas vezes já tenha visto determinado episódio. 
 
Devo dizer, porém, que não me lembro de sentir tanto contentamento com um programa de TV quanto senti ao assistir The Good Place. 
 
Sem receio de exagerar, é das coisas mais inteligentes, engraçadas e enternecedoras que já vi.

Em 2016, o frisson em torno da atração (produzida e exibida nos EUA pela NBC) já era percebido aqui no Brasil através da web.

Quando a Netflix (detentora dos direitos de distribuição internacional do programa) incluiu a série em seu catálogo, não tive afobação nenhuma para assistir (desenvolvi esse hábito: quanto mais percebo um certo hype em torno de um filme, uma banda de música, uma série, etc., menos pressa tenho de conhecer - por isso que até hoje não comecei a ver La Casa de Papel, por exemplo, e esse também é um dos motivos por que não tenho nenhum interesse em Game Of Thrones).

No segundo mês do sobreaviso, porém, sem aperto de tempo, resolvi dar uma olhadinha descompromissada. 

Babei.

É fascinante, visualmente: cenários, figurinos, uso das cores. Os atores dão um show, com destaque para D'Arcy Carden (que interpreta Janet) e a participação de Maya Rudolph, como a impagável Juíza. Os roteiristas não se excedem nas referências à cultura pop na hora de fazer as piadas (e creio que o(a) eventual leitor(a) concorda comigo que um dos grandes males de boa parte do entretenimento contemporâneo é a profusão de gracinhas forçadas explorando a cultura pop).

Mas tem mais.
 
Por que acho a série tão boa?

Porque, sendo um grande interessado em Filosofia, nunca imaginei que este tema apareceria de forma tão destacada num seriado de TV! E que, não poucas vezes, apareceriam personagens segurando livros, lendo e falando do conteúdo desses livros! E que isso não seria chato, muito pelo contrário!

Chidi Anagonye, o professor de Filosofia Moral incumbido de tentar melhorar a si e aos outros na série (interpretado pelo ator William Jackson Harper), tem um papel fundamental em The Good Place (embora recorrentemente ouça a frase: "Everyone hates Moral Philosophy Professors"). É o meu personagem preferido, junto com Michael (Ted Danson), o demônio que acaba desejando virar um ser humano.

Embora trate de algo caro à maioria das religiões - a crença de que há vida após a morte -, a série passa ao largo da pregação religiosa. Consegue-se fazer rir a partir de concepções e experimentos filosóficos (a esse respeito, recomendo muito o 5º episódio da segunda temporada, O dilema do bonde).

Nunca imaginei que veria qualquer coisa como essa acondicionada como entretenimento.

. . . . . . .

Toda vez que me deparo com um otimista, fico tomado de perplexidade: "Como é possível ser esperançoso neste mundo de merda em que vivemos?". Toda vez que ouço alguém rir à solta, me pergunto: "Como é possível gargalhar com esse ânimo, quando se sabe que há tanta opressão e ganância por aí?". Dos muitos defeitos que tenho, um deles é raramente ser capaz de olhar a vida com positividade.
 
Criações como Brooklyn Nine-Nine e The Good Place não vão me "curar" do pessimismo crônico. Mas não nego que são um lenitivo.

Pessoas como eu precisam do humor (e também da pieguice, por que não?) de programas assim.

Tráfico de pessoas, racismo, superexploração dos recursos naturais, abuso de poder econômico, miséria e fome... A lista de desgraças existentes é imensa. Não é à toa que o cinismo hoje é visto com um comportamento "ético" aceitável. E, quando não estamos encalacrados nos expedientes de trabalho estéreis que nos restam dentro da ordem capitalista, ainda somos submetidos, nos momentos de "lazer", a produtos de entretenimento que só faltam exclamar: "Espectador, você é um idiota!" - telenovelas, programas de auditório, reality shows, overdose de mesas-redondas em torno de futebol, reprises e mais reprises de filmes ruins, etc.

De vez em quando, porém, surge algo acima da média. Algo verdadeiramente divertido, perspicaz e emocionante.

A vida é uma sucessão de infortúnios, não consigo ver de outra forma. 
 
Mas nem tudo precisa ser ruim o tempo todo.
 
. . . . . . .
 
Uma última observação:  serviços de streaming, tais como Netflix, Amazon Prime Video, Disney +, HBO Max (e outros que estão para chegar), induzem a uma fruição bem parecida com a da TV tradicional. Podem ter a comodidade da escolha do melhor horário para assistir, da possibilidade de pausa ou avanço (que não são possíveis no modelo broadcast), mas costumamos consumir as atrações desses serviços de forma bem similar ao modo como estamos habituados: comodamente sentados num sofá, graças aos aparelhos de televisão modernos com conexão de internet.

Por isso, mesmo estando no streaming, não vejo problema algum de classificar tudo isso como conteúdo televisivo.

__________
¹ Gosto tanto da série que tenho em DVD (original) as três temporadas que chegaram ao Brasil. A quarta - e última -, mesmo tendo sido exibida nos EUA há quase dois anos, ninguém sabe quando poderá ser vista por aqui. Tremenda sacanagem com os espectadores.


BG de Hoje

Por falar em criações que me fazem bem, Fortune Faded, dos RED HOT CHILI PEPPERS está entre as canções que mais me dão vontade de sair pulando e dançando. Gosto demais dessa faixa! Não posso deixar de mencionar também que uma das perguntas que determinavam se alguém é fundamentalmente mau em The Good Place era: "Você já pagou para ouvir música tocada pela banda de funk rock da Califórnia Red Hot Chili Peppers?". Eu já, tenho quatro CDs deles (e já tive dois discos em vinil). Logo, meu lugar é o inferno...

terça-feira, 27 de abril de 2021

Ler por ler


Há um quê de babaquice em dizer frequentemente a frase "Larguei as mídias sociais".

Acaba parecendo aquelas pessoas que deixaram de lado o álcool e ficam cortando a onda de quem ainda gosta de tomar uma birita.

Feita a ressalva... Larguei as mídias sociais - ou redes sociais, como queiram - há um tempinho, embora continue a encher a cara periodicamente (e não pretendo parar tão cedo).

Numa outra oportunidade talvez escreva sobre os motivos que me levaram a tomar essa decisão. 

Mencionei a circunstância porque, apesar dos vários dissabores decorrentes da condição de usuário de mídias sociais, tinha uma ou outra coisa legal ali. 

Um dia desses estava me lembrando de certos perfis dos quais era seguidor, sobretudo no Twitter. NOTA: Não é meio bobo e, de certo modo, também meio sinistro referir-se a si mesmo como seguidor de alguém ou dizer que determinado indivíduo tem seguidores? Sei lá..

Alguns desses perfis eram divertidos, me faziam pensar melhor ou transmitiam valiosos insights que não poderiam encontrar meio de expressão mais adequado do que os 140/280 caracteres permitidos: Existential Comics, Marcia Tiburi, Lola Aronovich, Trevor Noah, Xico Sá, Emicida, Aparna Nancherla, Ana Moser, Hemant Mehta, Sarah Silverman, entre outros. 

O perfil da escritora Clara Averbuck também estava entre os meus preferidos. Até então, entretanto, nunca havia lido nenhum de seus livros, apenas textos esparsos na web e suas participações no extinto site Lugar de Mulher. Isso até dias atrás, quando terminei Vida de gato (Editora Planeta, 2004) ¹, cuja personagem central (e narradora) é a jovem Camila ², que vive em São Paulo esquivando-se da senhoria a quem deve o aluguel, bebendo no bar predileto e morrendo de amor por Antônio (embora ela própria admita também que "ninguém mais morre de amor há pelo menos sessenta anos").

É também mais uma daquelas histórias a falar sobre as supostas agruras que rondam aqueles(as) que escolhem ser escritores(as).

Em determinada passagem, no final do capítulo 7, a narradora registra:

"O mundo é cheio de covardes e suas desculpas para terem fodido suas vidas, e eles tentam nos convencer de que foi necessário, que fizeram as escolhas certas em nome da comodidade e do cagaço de perder tudo. Depois, quando entopem-se de bens, quando envelhecem, quando olham para trás, se dão conta que perderam a vida. Arrependimento é o sentimento mais inútil. De nada adianta andar para frente olhando para trás, o melhor que pode acontecer é desabar em um buraco e morrer lá, choramingando que deveria ter olhado para frente e se arrepender mais e mais até morrer velho e enrugado como uma fruta seca".

Ao que parece, Camila não será um(a) desses(as) covardes, embora dois capítulos antes ela quase tenha entregado os pontos, ao fazer um balanço de sua situação:

"Talvez fosse a hora de arrumar um emprego, abandonar minha decisão terrivelmente nobre de não deixar nada me atrapalhar nem desviar minha atenção da escrita. Essa vida idiota não me deixava alternativa. Não tinha casa nem um amor. Não tinha diploma, carro ou um aparelho de som. Não tinha roupas de inverno nem pilhas no discman. Não tinha comida ou um corte de cabelo. Não tinha cheque, dinheiro nem cartão. Meu perfume tinha acabado, minhas meias estavam furadas, minhas gillettes e minha alma estavam gastas. Meu chuveiro estava queimado e se eu quisesse um banho quente, precisava aquecer a água em um balde com um aparelhinho que era ligado na tomada porque o gás também tinha acabado".

Uma das coisas que me chamavam atenção no perfil de Clara Averbuck no Twitter era a maneira como ela falava - sem rodeios - dos sufocos para ser remunerada por um trabalho feito. Pode até haver quem olhe para o ofício de escritor(a) como algo cheio de glamour, mas a realidade é que são raríssimos(as) os(as) que podem pagar seus boletos exclusivamente através de sua produção literária.

Entretanto, é num trecho do capítulo 3 que está o pretexto para esta minha postagem de hoje:

"E eu simplesmente vivo e escrevo. Não leio tudo, sabe. Só os meus queridos. Sou fiel aos meus queridos, ao meu Fante, meu Bukowski, meu Leminski. Não consigo ser uma promíscua na literatura. Talvez seja hora de procurar outros homens, fazer sexo por sexo, ler livros por ler, sem paixão, sem chorar junto, sem dormir abraçada com eles".

Dá pra dizer, com algum acerto, que ao citar os autores preferidos, é a escritora falando através da personagem. Em entrevistas que li, Averbuck costuma mencioná-los. Esses nomes também aparecem nos textos (pavorosos, diga-se de passagem) escritos por Mário Bortolotto e Marcelo Mirisola para a orelha e a contracapa da edição de Vida de gato lida na semana passada.

Não serei capaz de verificar aproximações entre a escrita desses autores e a de Clara Averbuck, pois jamais li qualquer coisa de Charles Bukowski ou de John Fante (a poesia de Paulo Leminski, por outro lado, não me é desconhecida). Além do mais, como disse acima, não convivo com a obra da escritora - Vida de gato é, até agora, o primeiro e único livro lido.

A frase "Não consigo ser uma promíscua na literatura" é muito boa. E é maravilhoso curtir apaixonadamente um texto ao qual somos devotados.

Os promíscuos na literatura, porém, são numerosos, acho eu.

A começar pelas pessoas que precisam ser "infiéis" por razões profissionais: professores de literatura, críticos, editores, (os bons) bibliotecários...

É oportuno lembrar que promíscuo também significa misturado, heterogêneo, indiscriminado. Vários interessados por literatura (como este blogueiro), a despeito de suas predileções, são bem pouco constantes em suas seleções de leitura. Leem por ler, o que talvez não chegue a ser um defeito.

Por que ler por ler?

Curiosidade? Frivolidade? Falta de critério? Um hobby meio pernóstico?

Eu preferiria dizer que é por obstinação.

Como já escrevi outras vezes aqui no blog, não era um entusiasta da literatura desde pequenininho. Minha trajetória de leitor foi muito irregular, com momentos de grande "fervor livresco" e vários outros de desinteresse e displicência. Para tentar corrigir esses vícios de formação, decidi, no início da vida adulta ler só títulos e autores considerados canônicos - o que me transformou num tremendo ignorante em relação às criações contemporâneas.

Vivo o dilema do cobertor curto: se tento agasalhar os pés - lendo principalmente clássicos e/ou obras célebres -, a cabeça fica de fora. Se cubro a cabeça - esforçando-me para me acercar das narrativas mais próximas no tempo -, deixo os pés desprotegidos.

Por causa do desnivelamento em minha formação de leitor, mencionada acima, frequentemente me ressinto do tanto que não sei em relação a importantes textos publicados há dezenas, centenas de anos. Por isso, fiz a opção de priorizar o passado, décadas atrás. Mas não posso me considerar um partidário da literatura se não tenho ao menos a noção mínima do que se tem publicado nos últimos 30-20-10 anos. Qualquer dias desses, explico isso melhor numa postagem específica.

Obstinado, então, vou conjugando o velho e o novo. 

Lendo por ler.

Mas não desdenhosamente.

__________

¹ Atualmente, o título faz parte do catálogo da Editora 7Letras

² Soube posteriormente que essa mesma personagem-narradora integra outros livros de Averbuck.

BG de Hoje

The Lady Don't Mind já esteve nesta seção há alguns anos. Tive que repeti-la. Eu adoro essa canção! O TALKING HEADS, mesmo tendo sido um grupo razoavelmente bem-sucedido, sempre foi antipatizado porque achavam-no "metido a inteligente" (pessoas geralmente têm antipatia dos inteligentes). Acho tudo legal demais: a letra meio maluca, a bateria clara e discreta de Chris Frantz... Mas gosto sobretudo das linhas de baixo tocadas com perfeição pela Tina Weymouth. Que faixa sensacional!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Falou e disse...

"Que prazer deve ter sentido Copérnico quando entendeu que o ajuste fino e as órbitas fechadas do esquema de Ptolomeu se deviam apenas ao fato de vermos o sistema solar a partir de uma Terra em movimento! Ainda falha, a teoria copernicana não se encaixava com os dados a não ser acrescentando complicadores esquisitos. E como Kepler, então, com seus dotes matemáticos, deve ter gostado de substituir a confusão copernicana pelo movimento elíptico, obedecendo às suas três leis!

Assim o mundo opera sobre nós como uma máquina pedagógica, dando momentos de satisfação como reforço positivo a nossas boas ideias. Depois de séculos, aprendemos quais são os tipos possíveis de entendimento e como podemos chegar a eles. Aprendemos a abandonar a busca de certeza, porque os entendimentos que nos deixam felizes nunca são certos. Aprendemos a fazer experimentos, sem nos preocupar com a artificialidade de nossas montagens. Desenvolvemos um senso estético que nos fornece pistas sobre as teorias que funcionarão, o que aumenta ainda mais o nosso prazer quando elas realmente funcionam. Nossos entendimentos são acumulativos. Não é algo planejado, é imprevisível, mas leva ao conhecimento confiável e nos dá alegria ao longo do caminho". *

* WEINBERG, Steven. Para explicar o mundo: a descoberta da ciência moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 317-318 [Tradução de Denise Bottmann]

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Sobre desesperança e sobre o poema Girassol, de Carlos Drummond de Andrade


[Postagem atualizada em 07/02/2021]

Não é sempre, mas a publicidade comercial e o marketing me fazem sentir uma mistura de asco e fúria. 

Sinto asco porque, nesse campo, a transigência com a trapaça é parte da essência do negócio. O uso de truques cênicos para fazer com que a comida ou a bebida pareçam mais saborosas ou mais saudáveis do que realmente são; o apregoar de qualidades ou vantagens inexistentes em determinados produtos e serviços; as letrinhas quase microscópicas na parte baixa do vídeo ou a locução acelerada no final do anúncio - essas e outras "espertezas" são estranhamente toleradas por pessoas que, normalmente, detestariam ser ludibriadas em outras áreas. 

Todavia, sinto principalmente fúria porque, entre os sustentáculos do sistema excludente e desumanizador em que vivemos, a publicidade comercial e o marketing têm papel crucial, ajudando a vender não só mercadorias, mas conceitos e crenças proveitosos para esse sistema. Noutras palavras, cumprem uma função ideológica, embora poucos publicitários e marqueteiros admitiriam isso de bom grado. 

"Compre X ou use Y e seja feliz!". Durante anos e anos, as peças publicitárias empenharam-se em associar a aquisição/desfrute de coisas com a obtenção de felicidade. "Ser feliz", contudo, é sempre algo transitório. Não que eu ache o conforto e os bens materiais secundários (não sou desses birutas que dizem: "o dinheiro não traz felicidade"), mas adquirir objetos (às vezes por compulsão ou tendo que se endividar perigosamente) não deve estar proporcionando tanta satisfação assim. É o que parece indicar o grande número de pessoas ansiosas, estressadas, tensas e aflitas a nosso redor (isso quando não somos nós que estamos ansiosos, estressados, tensos ou aflitos). Nada disso, entretanto, causa preocupação nos anunciantes e nas agências de propaganda: o que importa é levar você a consumir ou, como se tem dito ultimamente, viver a experiência através de determinada coisa (isto é, pagar por um serviço) para, desse modo, "ser feliz".

A publicidade e o marketing também conseguiram tornar mercantil a esperança. Nesses tempos de pandemia então... Já repararam em comercial de banco? Pessoas com uma xícara de café na mão, olhando pela janela; pais brincando com crianças na sala; o rosto de uma enfermeira usando máscara; um som de piano, de leve, como trilha sonora; locutor dizendo frases do tipo: "Vai passar!", "Aproveite os pequenos momentos!". A manipulação barata de emoções transmite a mensagem: o banco quer que você tenha esperança

Francamente! Durante esse período angustiante, os bancos - instituições que (entra ano, sai ano) batem recordes de lucro no Brasil - fizeram o quê? Perdoaram ou facilitaram o pagamento de pequenas dívidas de clientes de baixa renda? Aumentaram a oferta de crédito com taxas de juros reduzidas para pessoas físicas ou ofertaram linhas de crédito mais generosas para pequenos empresários/comerciantes? Ajudaram a subsidiar setores diretamente afetados pela necessidade do distanciamento social, como a cultura e as artes? Até onde sei, nada disso aconteceu. Bancos, para a maioria de nós, pobres, nada têm a ver com crença positiva no futuro. Pelo contrário, até: esses empreendimentos altamente lucrativos demitiram trabalhadores em plena pandemia.

O que é a esperança? Se o(a) eventual leitor(a) já assistiu a Matrix Reloaded provavelmente se lembrará da fala do Arquiteto no diálogo com Neo: "It's the quintessential human delusion, simultaneously the source of your greatest strength and your greatest weakness [É a ilusão humana em quintessência, simultaneamente a fonte de sua maior força e de sua maior fraqueza]". A despeito de seu ar esnobe e de ser um dos vilões do filme, o personagem deu uma definição bastante acurada. Bem antes de servir como edulcorante para o capitalismo predatório, a esperança integrou (e integra) a prédica religiosa. É uma das virtudes teologais, junto com a fé e a caridade. Esse trio de virtudes é aquele que - assim prega o catecismo católico - tem "como origem, motivo e objeto imediato o próprio Deus". Ainda de acordo com o catolicismo, elas seriam infundidas nos indivíduos com uma ajudinha do Espírito Santo (ou seja, sua procedência é sobre-humana). A função principal da esperança no esquema religioso é fazer acreditar na vida eterna após a morte no plano terreno ou fiar-se na volta do Cristo antes do Juízo Final. Como se vê, a definição do Arquiteto ("ilusão humana em quintessência") não é mesmo ruim, quando verificamos o tamanho do papel da esperança no delírio máximo vivenciado por grande parte de nossa espécie (crer na existência de divindades ou em fenômenos sobrenaturais).

O Arquiteto, porém, diz mais: fonte de maior força e de maior fraqueza. Suponho (apenas suponho) que qualquer pessoa, mesmo a mais abandonada, desvalida e deprimida, experimentou (ainda que ligeiramente) a sensação de que "as coisas podem melhorar" ou que "a ajuda vai chegar", mesmo sem ter, objetivamente, razão alguma para acreditar nisso. Muitas ações e decisões humanas - desde as mais comezinhas às mais magnânimas - vêm dessa sensação. Entretanto, em inúmeras outras ocasiões, a esperança também nos induz a comportamentos e atos nada racionais, fazendo-nos deixar de enxergar aquilo que a realidade duramente impõe, levando a resultados desastrosos.

. . . . . . . 

A jornalista e escritora Eliane Brum publicou, com intervalo de quatro anos entre um e outro, dois textos em sua coluna no jornal El País que gostaria de trazer para esta discussão.

Em defesa da desesperança saiu em dezembro de 2015, alguns meses antes da consumação do processo de impeachment de (ou, como acho mais apropriado chamar, golpe contra) Dilma Rousseff, sendo este um dos temas do artigo. A alta qualidade da escrita (como de praxe, em se tratando de Eliane Brum) não me impediu de discordar de grande parte da análise feita pela autora, tanto na época de publicação quanto hoje. Isso, porém, não é relevante agora, mas sim o que está na parte final da coluna. A jornalista anota:

"Este é um país em que se declarar sem esperança é visto como uma falha de caráter, uma traição ao coletivo e a si mesmo. Como assim, você não tem esperança? A esperança é como a felicidade na lógica capitalista: objeto de consumo que mede o sucesso de uma vida. Esperança é palavra invocada por todos os lados na atual conjuntura do Brasil. Seja de forma espontânea, seja como construção marqueteira".

E conclui:

"Talvez tenha chegado a hora de superar a esperança. Autorizar-se à desesperança ou pelo menos não linchar quem a ela se autoriza. Quero afirmar aqui que, para enfrentar o desafio de construir um projeto político para o país, a esperança não é tão importante. Acho mesmo que é supervalorizada. Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. O que vai costurar os rasgos do Brasil não é a esperança, mas a nossa capacidade de enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido.

Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético".

Que o(a) eventual leitor(a) me perdoe pela perspectiva simplista, mas, olhando para seu passado e imaginando o seu futuro, penso que o Brasil é uma nação que não tem como dar certo. Estou de acordo com Brum neste ponto: quando se pensa em projetos políticos para o país, não vale a pena dar bola para a esperança. O Brasil é uma desgraça (esse juízo é meu, não da articulista, e sim, este blogueiro tem complexo de vira-lata) ¹. O que não significa que se deva cruzar os braços por completo.

Noutra coluna, A potência da primeira geração sem esperança (junho de 2019), o contexto se amplia, porque um dos principais tópicos abordados é o da emergência climática global. A primeira geração sem esperança à qual Eliane Brum se refere é a dos jovens (representados na coluna pela ativista sueca Greta Thunberg) que será obrigada a viver "no planeta esgotado por seus pais [sobretudo pelo consumo desenfreado]". Brum observa que, "ao recusar a ideia fácil da esperança, os adolescentes [como Greta Thunberg] intuem - ou concluem - que se quiserem enfrentar a vida no planeta que virá, terão que recusar essa matriz de pensamento [a chamada 'tradição ocidental', que preteriu a ecologia e o ambientalismo por tempo demais, sempre acreditando no "progresso" e no "crescimento" econômico perpétuos] - ou não terão chance".

Ainda sobre essa geração (e principalmente sobre as pessoas dentro dela mais envolvidas com a questão ambiental), a autora escreve: 

"O que testemunhamos é uma nova forma de pensamento adaptada à nova realidade do planeta. Minha hipótese é que testemunhamos uma adaptação à emergência climática. Produzida em nível subjetivo, essa adaptação está produzindo acontecimento no planeta. Depois de cientistas e ativistas do clima berrarem sozinhos por décadas, o mundo finalmente começa a escutar que a casa está queimando porque a nova geração, esta que prescinde da esperança, é quem está dizendo".

Muitos dessa geração já não se iludem. Sabem que a Terra que receberão terá maior escassez de água potável, maior desertificação, aumento de temperatura, desequilíbrio ecológico, entre outros problemas, com todas as consequências advindas para as comunidades humanas (danos na saúde, na alimentação, na moradia, ou seja, na capacidade de sobrevivência em geral). Outros seres vivos lidam com a calamidade há mais tempo... Muitos dessa geração não esperam nada da minha, nem daquela que a precedeu; afinal, quem piorou tudo fomos nós. Não serão discursos de políticos ultrapassados e propagandas vendendo esperança que vão fazê-los ignorar tantos fatos evidenciando que estamos cada vez mais na merda. Falo apenas dos jovens conscientes. Os consumidores de desinformação travestida de jornalismo e os adeptos de teorias da conspiração são um outro assunto.

. . . . . . .

Nessa parte final, intenciono falar de uma outra desesperança - mais particular, mais pessoal

Convido o(a) eventual leitor(a) a ler junto comigo um dos meus poemas prediletos: Girassol, de Carlos Drummond de Andrade ².

Faremos isso após uma digressão. Um pouquinho mais de paciência, por gentileza.

Numa homenagem à colega Rosa Weber, o atual presidente do STF, Luiz Fux, em sessão no último mês de dezembro, leu um texto intitulado Recomeçar, cujo autor é Paulo Roberto Gaefke, mas o magistrado atribuiu-o a Drummond. Isso ficou comuníssimo com a chegada da internet: milhares de escritos circulam pela web com a autoria errada. Clarice Lispector e Luis Fernando Verissimo costumam também ser "vítimas". O sujeito encontra o texto numa busca ou vê impresso num convite de formatura, por exemplo, e pensa: "taí, achei bonito esse poema do Beltrano" (mesmo que Beltrano nada tenha a ver com aquilo, simplesmente colocaram - não se sabe por que cargas d'água - o nome dele lá) e resolve: "vou compartilhar". Não acho que é pecado. Ainda mais se tratando de poesia, algo que tem tão poucos leitores habituais. Já vi esse mesmo Recomeçar, sendo de novo atribuído a Carlos Drummond de Andrade, como página inicial num caderno que foi entregue aos trabalhadores em educação numa escola em que estive lotado. Era de se esperar que, num ambiente onde se encontram professores de Língua Portuguesa com alguma formação em Literatura, alguém desconfiasse que o texto está a anos-luz de distância da poética drummondiana e, portanto, a autoria atribuída estava errada. Ninguém, porém, notou (ou talvez nem ligasse).

Os juízes no Brasil  - e outros profissionais ligados ao Direito - costumam posar como indivíduos detentores de uma erudição assombrosa. Não é disparatado supor que um brasileiro culto (não precisa ser um especialista em poesia do século XX) tenha alguma familiaridade com a obra do poeta mineiro. Como então explicar que uma pessoa presumivelmente douta tome a composição de autoajuda rasteira de Gaefke por uma criação do autor de A rosa do povo?

Bem... Vamos ao poema de Drummond.


GIRASSOL

Aquele girassol no jardim público de Palmira.
Ias de auto para Juiz de Fora; a gasolina acabara;
havia um salão de barbeiro; um fotógrafo; uma igreja; um menino parado;
havia também (entre vários) um girassol. A moça passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.
 
Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e rezar; muitas vontades; a moça nem desconfiou...
Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos.
 
O girassol, estúpido, continuou a funcionar.


Girassol foi publicado originalmente no livro Brejo das Almas, em 1934, numa edição de apenas 200 exemplares, paga de forma cooperativa (só por curiosidade, Brejo das Almas era o nome de um município mineiro, hoje chamado Rodrigues Alves). Acho um livro importante dentro da produção de Carlos Drummond de Andrade. Sucessor de Alguma Poesia - a estreia do poeta -, é uma reunião de textos que já não precisava afirmar a todo tempo sua filiação ao Modernismo deflagrado pela Semana de 22. Os poemas reunidos ali são preparatórios para a melhor fase da carreira de Drummond.

Girassol apresenta-nos, logo de cara na primeira estrofe, uma cena, um quadro. Ou uma fotografia, se quiserem (outra curiosidade, Palmira também é um município que mudou de nome; hoje é chamado Santos Dumont, e fica na região da Zona da Mata de Minas Gerais, cuja principal cidade é Juiz de Fora). Mas é o último verso dessa primeira parte - "Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita" - que dá o tom de todo o poema. 

Vale um esclarecimento: apesar da voz poética do enunciado não estar na primeira pessoa, usarei o termo eu lírico em minha interpretação do texto, pois claramente se trata de uma espécie de solilóquio.

Pois bem. O eu lírico olhava ao redor; mas reparou especialmente num girassol que se destacava em meio a outros (por ser maior? mais amarelo?). Até que uma mulher passa. Há uma interdição da vontade - isto é: o eu lírico já não tem mais controle sobre ela. A mente então vagueia: "vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de ter muitos filhos;/vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens, de ser infeliz e rezar;/muitas vontades;"

Se os seios (e toda pulsão sexual que eles representam no poema) foram catalisadores desse vaguear do pensamento, o girassol também foi, ainda que em menor escala. O girassol é o mundo objetivo, sem muito espaço para o devaneio, é verdade ("continuou a funcionar" do jeito de sempre, mesmo após todo o périplo imaginativo anterior), mas, sem esse lastro, aquilo que se fantasia não teria qualquer chance de um dia, quem sabe, tornar-se real.

Concluo a análise notando que um grande poeta não está livre da pieguice e do mau gosto: o verso "Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos" é de doer.

Esse poema não tematiza, de modo algum, a desesperança. Por que então citá-lo nesta postagem? 

Vamos lá...

Estou com quase 50 anos. Vivi (e vivo) uma existência medíocre, parasitária, apática e cagona.

Minha vontade nunca foi particularmente forte e enfraqueceu-se mais ainda com o envelhecimento. É tão fraca que até hoje não reuni a coragem suficiente (que um dia tive) para finalmente dar fim a todo o meu mal-estar e angústia, cometendo suicídio. 

Todas as vezes em que releio Girassol, sobretudo nos últimos anos, gosto de sentir, por empréstimo, a juvenil força imaginativa de seu eu lírico, tão cheio de desejos. Porque praticamente não tenho nenhum. Nem vontades (vontade de se empanturrar ou de encher a cara não contam).

Resumindo: não sinto esperança. Não sinto esperança pelo país, um lugar que parece condenado a ser um espaço de exploração e exclusão incessantes -  é assim desde o século XVI. Não sinto esperança pelo mundo, não só pela iminente catástrofe climática, mas também pelo flagelo social a se ampliar com a concentração de renda cada vez maior na mão de alguns milhares de bilionários. Não tenho esperança em relação a mim próprio (acho que nunca tive). Mas a leitura desse poema de Drummond sempre me dá alguma alegriazinha. 

Isso deve valer alguma coisa, eu acho.

___________

¹ Como já dissera, Eliane Brum, em nenhum momento de seu artigo, tenta resumir toda a complexidade dos problemas brasileiros numa frase rudimentar como a que usei. Feito o esclarecimento, reitero a frase: o Brasil é uma desgraça! 

² ANDRADE, Carlos Drummond. Girassol. In: ____________. Sentimento do mundo. 13 ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. p. 111 [Como escrevi acima, o poema faz parte do livro Brejo das Almas, que está contido nesta edição de Sentimento do mundo aqui referenciada, junto com o Alguma poesia

BG de Hoje

Gosto de canções tristes. Uma das minhas preferidas é River Of Deceit, do MAD SEASON, um desses projetos paralelos chamados de "supergrupo", por reunir músicos provenientes de outras bandas ou com uma renomada carreira solo. No caso do Mad Season, estavam lá Mike McCready (Pearl Jam), Barret Martin (Screaming Trees), Layne Staley (Alice In Chains), além do baixista John Baker Saunders. Embora muitos digam que a letra de River Of Deceit retrate os problemas que Layne Staley tinha com o vício em drogas pesadas (como acontece com várias composições dele no Alice In Chains), acho que ela vai muito além disso: é uma canção endereçada àqueles que sentem grande dificuldade em corresponder ao que o mundo espera de nós. Além disso, são muito bonitos os arranjos vocais e de guitarra.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

"Vida sem utopia não entendo que exista"


Nunca se deve desprezar a eficácia da mistificação e do falseamento da realidade para se atingir determinados objetivos políticos. 

Pensemos, por exemplo, na tal "ameaça comunista".

Quanta iniquidade tivemos (e temos) que aturar porque parte das pessoas vive em constante temor da  "ameaça comunista"!

Houve, claro, diversas motivações para o golpe (civil-)militar de 1964, mas um dos pretextos mais usados para justificá-lo - assim como a ditadura que o seguiu - foi o de "proteger o Brasil do comunismo". Mais recentemente, estamos testemunhando a ascensão de grupos truculentos, intolerantes e obscurantistas, sendo uma das evidências dessa escalada a ultrajante administração federal atual (como se já não bastasse a maioria de congressistas antipobre, prepostos da plutocracia nacional, além de outros que parecem saídos da Idade Média), vociferando slogans como "Nossa bandeira jamais será vermelha!" ou denunciando o perigo do "marxismo cultural" (que diabo é isso?).

Haja paciência! Em que momento, do passado ou do presente, o país deu mostras cabais  - a Intentona de 1935 foi um fiasco - de que partiria, na bucha, para o comunismo? É sério: quando, em nossa história, aqueles que mandam e desmandam por aqui desde antes da instalação da República dormiram agoniados só por imaginar que sua acumulação de capital corria risco de cessar?

Entretanto, não é difícil convencer a classe média e os pobres-que-acham-que-não-são-pobres de que os comunas subversivos estão logo ali na esquina prontinhos para tomar tudo o que é seu. Protejam-se! Protejam-se! A precarização do trabalho é cada vez mais dramática, assim como a desigualdade socioeconômica, mas "para o futuro do Brasil, só a luta contra os comunistas é prioritária", escreveu no Twitter, meses atrás, o ex-astrólogo que é guru de integrantes dos grupos acima referidos.

Por que tanta paúra, minha gente?

Há alguns dias, estava refletindo sobre a canção Um comunista, de Caetano Veloso, que faz parte do disco Abraçaço, lançado em 2012.

Não é uma faixa radiofônica. É longa, se pensarmos em termos de música pop (tem mais de 8 minutos); o andamento é lento; há pouca variação melódica. Gosto dela, porém.

Abaixo, reproduzo a letra da canção:

Um mulato baiano,
Muito alto e mulato
Filho de um italiano
E de uma preta hauçá [haussá]
Foi aprendendo a ler
Olhando o mundo à volta
E prestando atenção
No que não estava à vista
Assim nasce um comunista

Um mulato baiano
Que morreu em São Paulo
Baleado por homens do poder militar
Nas feições que ganhou em solo americano
A dita guerra fria
Roma, França e Bahia

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O mulato baiano, mini-manual
Do guerrilheiro urbano que foi preso por Vargas
Depois por Magalhães
Por fim, pelos milicos
Sempre foi perseguido nas minúcias das pistas
Como são os comunistas

Não que os seus inimigos
Estivessem lutando
Contra as nações-terror
Que o comunismo urdia
Mas por vãos interesses
De poder e dinheiro
Quase sempre por menos
Quase nunca por mais

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! Os comunistas!

O baiano morreu
Eu estava no exílio
E mandei um recado:
[que]"eu que tinha morrido"
E que ele estava vivo,
Mas ninguém entendia
Vida sem utopia
Não entendo que exista
Assim fala um comunista

Porém, a raça humana
Segue trágica, sempre
Indecodificável
Tédio, horror, maravilha
Ó, mulato baiano
Samba o reverencia
Muito embora não creia
Em violência e guerrilha
Tédio, horror e maravilha

Calçadões encardidos
Multidões apodrecem
Há um abismo entre homens
E homens, o horror
Quem e como fará
Com que a terra se acenda?
E desate seus nós
Discutindo-se Clara
Iemanjá, Maria, Iara
Iansã, Catijaçara

O mulato baiano já não obedecia
Às ordens de interesse que vinham de Moscou
Era luta romântica
Era luz e era treva
Feita de maravilha, de tédio e de horror

Os comunistas guardavam sonhos
Os comunistas! os comunistas! 

Em se tratando de uma homenagem, o caráter, digamos, narrativo da canção foi mais do que acertado. 

Embora o letrista "não creia/em violência e guerrilha", Carlos Marighella  - "mini-manual do guerrilheiro urbano" - representou mais do que um combatente. Para além dos elementos biográficos citados, é esse outro valor representativo que a composição realça.

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Em agosto de 1967, na cidade de Havana, foi organizada a 1ª Conferência da OLAS (Organização Latino-Americana de Solidariedade). O Partido Comunista Brasileiro - então sem registro eleitoral, desde 1947 - decidiu não mandar representantes, mesmo tendo sido convidado. Marighella foi, contrariando o comitê central, que enviou comunicado ao seu correspondente cubano, ameaçando expulsar o ex-deputado federal baiano e desautorizando-o como porta-voz do PCB. Creio que a resposta dada por Carlos Marighella a esse comunicado é bastante útil para a discussão da postagem de hoje; vamos ler um trecho dela (foi reproduzida no essencial livro Batismo de sangue  ¹, de Frei Betto):

"É evidente que compareci [à conferência] sem pedir permissão ao Comitê Central, primeiro porque não tenho que pedir licença para praticar atos revolucionários, segundo porque não reconheço nenhuma autoridade revolucionária nesse Comitê Central para determinar o que devo e o que não devo fazer... As divergências que tenho com a Executiva, da qual já me demiti em data anterior, são as mesmas que tenho com o atual Comitê Central. Uma direção pesada como é, com pouca ou nenhuma mobilidade, corroída pela ideologia burguesa, nada pode fazer pela revolução. Eu não posso continuar pertencendo a esta espécie de Academia Brasileira de Letras, cuja única função consiste em se reunir (...). Falta ao Comitê Central a condição mais importante para a liderança marxista-leninista, que é saber conduzir e enfrentar a luta ideológica. E como não pode fazê-lo, recorre a medidas administrativas constantes, suspendendo, afastando, expulsando militantes, apreendendo documentos e proibindo a leitura de materiais dos que discordam. É o Comitê Central da censura, das reprimendas, das desautorizações, do crê ou morre. (...) Em minha condição de comunista, à qual jamais renunciarei, que não pode ser dada nem retirada pelo Comitê Central, pois o Partido Comunista e o marxismo-leninismo não têm donos e não são monopólios de ninguém, prosseguirei pelo caminho da luta armada, reafirmando minha atitude revolucionária e rompendo definitivamente com vocês".

Na época em que se deu a Conferência da OLAS, o Brasil vivenciava o autoritarismo dos generais. Diante de um regime discricionário e opressor, como se deve reagir? 

"Uma ditadura" - escrevem Lilia Schwarcz e Heloisa Starling ² - "é formada por mandantes arbitrários, oposicionistas tenazes e uma população que precisa sobreviver - parte dela atravessa em silêncio, com medo ou apenas conformada com o tempo de arbítrio". É forçoso admitir que uma contestação de massa à ditadura não aconteceu ³. A oposição encontrava-se fragmentada e dispersa. Parte daqueles e daquelas que se dispuseram a combater o regime efetivamente associaram-se em grupos como o MR-8, a VPR ou a ALN (a Ação Libertadora Nacional, criada por Marighella). "Algumas dessas organizações eram minúsculas", observam as historiadoras, "poucas tiveram força e estrutura suficientes para desafiar a ditadura, e a maioria formou-se a partir de dissidências originadas pela derrota sem resistência sofrida pelo Partido Comunista, em 1964; mas quase todas optaram pela luta armada".

Os indivíduos que partiram para a guerrilha avaliaram (com acerto, vale dizer) que a quartelada causadora da deposição de João Goulart (presidente que ocupava legitimamente o cargo e pretendia, aparentemente, colocar em prática reformas defendidas pela esquerda) não seria algo passageiro, indolor e sem maiores consequências para o futuro do país. Para essas pessoas, as únicas ações políticas aceitáveis naquele momento histórico eram as ações revolucionárias. NOTA: É irônico que uma parcela dos militares chame o golpe executado por eles de revolução: uma revolução feita para que tudo continuasse a ser com sempre foi...

A resposta de Marighella ao comitê central do PCB, como se lê, ilustra o seu rompimento com o partido, instituição que, na visão do guerrilheiro, parecia acomodada à situação, além de manter-se numa reprovável subordinação doutrinária: "o mulato baiano já não obedecia/às ordens de interesse que vinham de Moscou", como canta Veloso. Sua "luta romântica" - no sentido de se pautar por ideais e cujos principais objetivos eram irrealizáveis, pelo menos naquele momento - não conseguiu, entretanto, causar qualquer abalo no regime ditatorial. A esse respeito, Frei Betto assinalou:

"Muitos ingressavam na organização [ALN] sem nenhum preparo político, movidos pela mística revolucionária, acreditando que a luta obedeceria a um desenvolvimento linear até a vitória final [...] A prática revolucionária restringia-se quase que exclusivamente às ações armadas que, sem apoio popular, tornavam-se cada vez mais vulneráveis à ofensiva da repressão. Não se fazia trabalho político de massa, nem se sabia como incorporar os trabalhadores à luta política. A guerrilha, praticamente restrita às cidades, colocava-se como alternativa ao trabalho de base, à organização popular, como se ela fosse capaz de, por si só, deflagrar o descontentamento latente no povo, materializando-o no efetivo apoio ou participação na luta".

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Não é ocioso lembrar que críticas ao capitalismo são anteriores a Marx e seus escritos (as jornadas diárias em que os trabalhadores mal tinham tempo de se alimentar e dormir o suficiente, verificadas durante a Revolução Industrial, bem como as condições de trabalho degradantes em vários ramos da atividade econômica - com trabalho infantil generalizado, inclusive -, geravam indignação já em seu tempo). O que a obra do pensador alemão fez foi aprimorar e aperfeiçoar a crítica, conferindo maior coerência e profundidade.

Entretanto, ao pressagiar uma sociedade humana sem classes, igualitária (portanto, sem exploradores e explorados), graças ao fim da propriedade privada dos meios de produção (embora falte a explicação de como a economia funcionaria de fato numa tal sociedade), Karl Marx, involuntariamente, assumiu ares de profeta para muitos (o caráter teleológico de seu pensamento dá margem a isso) e o comunismo foi tido por eles como a garantia de que um mundo mais justo se instalaria de um modo ou de outro. Obviamente, essa garantia não existe. Estamos aqui no terreno da utopia - o que não que dizer ilusão.

Estou entre aqueles que, apesar de compreender e aceitar a categorização vigente, não circunscreve o comunismo (e, por agregação, o socialismo) ao que foi feito na antiga União Soviética, na Coreia do Norte, na China (mesmo agora, após as últimas décadas de feroz competitividade ao estilo capitalista) e em outros países mundo afora. Mas, por uma questão de honestidade, não se pode evitar falar desses lugares. 

Não tenho necessidade de arrolar aqui os crimes e atrocidades cometidos por dirigentes pertencentes a essas nações (as "nações-terror", das quais Caetano Veloso fala na canção); são fatos bastante divulgados e devem ser repudiados e não repetidos. Espero, contudo, que o(a) eventual leitor(a) já tenha notado que, muitas vezes, enfatizam-se esses aspectos maléficos para que se chegue a conclusão de que o capitalismo é, por conseguinte, a melhor coisa do mundo. Pergunto: melhor para quem, cara-pálida? Possivelmente não para os quase 40 milhões de norte-americanos abaixo da linha de pobreza (cito esse fato porque geralmente os EUA são apontados como exemplo de que o capitalismo é uma maravilha pra todos...).

Se experiências colocadas em prática na União Soviética, na Coreia do Norte, na China e em outros países revelaram-se insatisfatórias (cruéis, em muitos casos) e distantes da expectativa de justiça abrangente que prenunciavam, não se deveria abandonar de vez a ideologia socialista/comunista?

Não. Por causa, justamente, da dimensão utópica do comunismo.

Para mim, em boa parte das ocasiões não se ganha nada dizendo que algo é utópico e, portanto, não se deve gastar tempo ou esforço com aquilo. Ao pensar num outro mundo/outra sociedade/outra forma de trabalhar/outra forma de produzir, diferentes dessa perversa corrida de ratos que é a vida de quem não detém o controle do capital e os meios de produção (ou seja, a vida da imensa maioria dos indivíduos no capitalismo), pode surgir a disposição de alterar o status quo, nem que seja só um pouco, para que as coisas se tornem - quem sabe? - mais dignas para um maior número de pessoas. Será que é possível almoçar e jantar opressão, desigualdade e conformismo todos os dias sem sequer imaginar outros modos de se viver? Vida sem utopia/não entendo que exista...

Caetano Veloso canta: "os comunistas guardavam sonhos". O verbo está no passado. O que quer dizer que não guardam mais. Nesse ponto discordo um pouco do letrista. A melhor parte desses indivíduos ainda os conserva, mesmo que não sejam capazes de fazer "com que a terra se acenda" e "desate seus nós".

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¹ BETTO, frei (Carlos Alberto Libânio Christo). Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982

² SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. No fio da navalha: ditadura, oposição e resistência. In: Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 437-466

³ Existe explicação para a falta da resistência de massa à ditadura. Entre alguns dos fatores que podem ser apontados estão: a censura generalizada, ocultando informações do público sobre ilicitudes e negociatas do governo; o enfraquecimento e mesmo a extinção dos sindicatos, além de repressão pesada aos movimentos de trabalhadores; um grande contingente populacional ainda vivendo em áreas rurais (mesmo com o aumento da urbanização desde a década de 1950) e, portanto, longe dos centros de poder e incapazes, assim, de exercer qualquer tipo de pressão sobre os autocratas. Importante mencionar também que, como observam Schwarcz e Starling, "todo governo, para se sustentar, depende de alguma forma de adesão, e o 'milagre econômico' [altas taxas de crescimento do PIB entre 1968 e 1973] ajudou a fabricar uma base de consentimento junto à população [junto à classe média, diria eu, pois os operários e os demais trabalhadores de baixa renda, com salários achatados e impedidos de reivindicar melhorias, não costumavam (e não costumam) fazer parte daquilo que se convenciona chamar de "opinião púbica"]".

BG de Hoje

Não poderia ser outro: CAETANO VELOSO, Um comunista.