quinta-feira, 28 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (IV)

Retorno ao pequeno artigo que motivou esta série de postagens - Intelectuais como catalisadores de complexidade*, de Hans Ulrich Gumbrecht.

Na atualidade, para o professor da Universidade Stanford, "o conceito e o valor da verdade se acham pluralizados e remetidos à competência dos respectivos especialistas". Portanto, dificilmente tem-se paciência para as pretensões demasiadamente abrangentes dos "técnicos do saber"**. Segundo o articulista, "fora do mundo intelectual quase ninguém parece esperar da parte dos intelectuais regras universais de comportamento ou preceitos gerais de ação". Ou seja, os intelectuais estão perdendo - se é que já não perderam - sua relevância pública e sua infuência política. Qual a finalidade então, de suas incumbências ("de hábito muito vagas", na avaliação de Gumbrecht) e de suas opiniões (que "possuem, quando muito, um caráter ornamental")? O que farão as sociedades com a "escória de seus intelectuais"?

A resposta do articulista é a seguinte:

"O problema é resolvido em termos políticos e sociais na medida em que hoje, mais do que nunca, boa parte dos intelectuais encontra seu sustento [...] nas universidades e nas instituições secundárias. Assim, a questão sobre o ' papel dos intelectuais ' virou uma questão sobre a 'imagem que os acadêmicos fazem de si mesmos  ".

De fato, excetuando os artistas identificados como tais (e que chegam a um público maior e mais diversificado), quase todos os intelectuais circulam em torno de ou estão diretamente vinculados a universidades. Para "escapar" de consequências negativas que podem advir da estranheza, desconfiança e incompreensão no modo como são vistos por outros segmentos da população, os intelectuais "refugiaram-se" dentro dos muros acadêmicos: o habitat  dos intelectuais tornou-se, precipuamente, o mundo universitário.

Cabe perguntar: qual passaria a ser a função da universidade - este "esconderijo" dos intelectuais? Hans Ulrich Gumbrecht, opinando a partir das ideias de Niklas Luhmann, considera que as universidades tornaram-se um 

"sistema social de segunda ordem [...] cuja tarefa específica, ao contrário da redução de complexidade do ambiente de todos os outros sistemas sociais, residiria precisamente na produção de complexidade. Trocando em miúdos: especialistas da práxis encontram soluções e assim reduzem a complexidade, enquanto a nova consciência da universidade e dos intelectuais poderia vir a ser produzir potenciais alternativas e modelos contrários às já institucionalizadas cosmovisões e formas da práxis ' para estocar ', por assim dizer, e orientados pelo princípio do pensamento ' contra-intuitivo ' ".

Desse modo, os intelectuais passariam a ser "catalisadores de complexidade numa cultura sempre ameaçada por estrutura demais, por organização demais, por uma falta de entropia antes que pela ausência de orientação". Esse novo papel permite o exercício do "pensamento arriscado", pois o intelectual estaria protegido das censuras dos obcecados pela práxis. Contudo, Gumbrecht amplia o conceito de intelectualidade, incluindo os cientistas "clássicos" - físicos, químicos, biólogos. "Equivaleria a uma antecipada sentença de morte se 'o intelectual do futuro' permanecesse um intelectual de perfil exclusivamente artístico e humanista", acredita o professor alemão.

"Escondidos" nas universidades, às vezes sentindo culpa (mas sem sofrer as agruras de outros profissionais atolados nos estágios menos "nobres" da educação institucionalizada...), os intelectuais seguem sua vida cercada de contradições.
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* GUMBRECHT, Hans Ulrich. Intelectuais como catalisadores de complexidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Mais! p. 18-19

** Uma das expressões, de sentido negativo, usada por Jean-Paul Sartre para referir-se aos intelectuais (v. postagem anterior)

BG de Hoje

Quem disse que o MUSE e o Radiohead em algum momento estiveram unidos por um cordão umbilical sonoro estava certo. Basta ouvir Invincible, por exemplo, pra perceber a similaridade dos "DNA's". 

terça-feira, 26 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (III)




"Digamos que ele [o intelectual] se caracteriza por não ter o mandato de ninguém e por não ter recebido seu estatuto de nenhuma autoridade. É, enquanto tal, não o produto de alguma decisão - como são os médicos, os professores, etc. enquanto agentes do poder - mas o monstruoso produto de sociedades monstruosas".

Jean-Paul Sartre - Em defesa dos intelectuais*


Duvido que Sartre se importasse com o sentimento de culpa (principalmente no sentido cristão do termo). Mesmo assim, creio que intelectuais  - não todos, é claro - costumam sentir-se culpados (Sartre diria que eles experimentam um "mal-estar"). Donde ou como surge esse sentimento?

Bem, não é habitual que intelectuais integrem o proletariado; ou já nasceram num ambiente burguês (ainda que pequeno-burguês**)  ou ascenderam a este por meio mesmo de suas atividades no campo da cultura formalizada, escolarizada. Não fazer parte do proletariado - em que predominam as atividades alienadas e alienantes - acaba sendo um privilégio. E esse privilégio é, talvez, vivenciado com culpa.

Horácio González*** considera que "[...] o intelectual vive a contradição de origem com o 'não-trabalho'. Cada um a toma de forma diferente. Alguns com remorso, outros com orgulho, alguns sem temor de [ser] 'punidos por seu aristocratismo', outros com a tentação de abandonar tudo à espreita de algum surto populista". 

Pensemos apenas nos que sentem remorso: por que o sentem? Porque suspeitam que aquilo que fazem - seja lá o que for - não pode ser considerado propriamente um trabalho...

Mas o sentimento de culpa talvez seja decorrente da maneira como o intelectual lida com as instâncias de poder.

"A força do intelectual" - escreve González - "é seu relativo distanciamento das lutas sociais diretas. Mas essa é também a fonte de sua debilidade. Se ele pode ser crível porque, ao nos falar do poder, o faz desprendido de paixões imediatas e afastado de práticas pouco enaltecedoras, isso mesmo é o que também o faz inocente, inócuo e, por vezes, até falaz. As contradições entre suas problemáticas teóricas e a realidade que diz desejar servir motivam sempre diversas respostas. Ou se expõe ao isolamento na torre de marfim [...] ou deve viver de contínuas 'autocríticas' [...]".

Tanto o isolamento quanto as repetidas autocríticas enfraquecem o intelectual e suas manifestações - no geral calcadas em valores transcendentes ou, pelo menos, não atreladas a particularismos casuístas - perante o restante da sociedade. E por não terem "mandato de ninguém", atualmente, a maioria dos intelectuais prega no deserto.

Se poucos querem ouvi-los, onde então se "entocam" esses "técnicos do saber****? Falo disso na próxima postagem, retornando ao artigo de Hans Ulrich Gumbrecht que motivou esta série de postagens.
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* SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994 [tradução de Sérgio Goes de Paula]

** As palavas proletariado e burguês  estão meio "fora de moda", mas foram aqui mencionadas porque estão em acordo com a terminologia usada por J. P. Sartre, de fortíssima inspiração marxista. O pensador francês argumenta que o intelectual deve contestar os princípios da classe dominante mas, ao mesmo tempo, este não deixa de ser "um pequeno-burguês que se liberta", sendo "todo o tempo solicitado a formar os pensamentos de sua classe".

*** GONZÁLEZ, Horácio. O que são intelectuais. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981 [Coleção Primeiros Passos]

**** A expressão é de Sartre

BG de Hoje 

Sempre fui mais adepto da crueza do que da elaboração, quando o assunto é rock. Mas se ouço algo excepcional, como o som do ARCADE FIRE, tenho que "rever meus conceitos". No vídeo versão ao vivo de My body is a cage. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tudo a ver comigo (2)



O ENTERRADO VIVO*

Carlos Drummond de Andrade

É sempre no passado aquele orgasmo
É sempre no presente aquele duplo,
É sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência.

* ANDRADE, Carlos Drummond de. José e outros. 9 ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2006 [Originalmente, este poema integrou o livro Fazendeiro do ar, publicado em 1955]

terça-feira, 19 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (II)



Ao final da postagem anterior deixei no ar as seguintes questões - por que falar em contradição? E por que falar em culpa? - na tentativa de entender melhor o que vem a ser um intelectual.

Para achar uma resposta satisfatória e dar prosseguimento à discussão, "convido" Jean-Paul Sartre, um dos últimos pensadores que lograram conferir ao intelectual uma imagem de atuação pública reconhecida.

Num de seus ensaios mais famosos* (produto de conferências realizadas em 1965), o filósofo francês parte das censuras e das críticas mais difundidas sobre os intelectuais e encontra nestas um ponto comum:

" [...]  o intelectual é alguém que se mete no que não é da sua conta  e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas, e das condutas que nelas se inspiram, em nome de uma concepção global do homem e da sociedade - concepção hoje em dia impossível, portanto abstrata e falsa, já que as sociedades de crescimento se definem pela extrema diversificação dos modos de vida, das funções sociais, dos problemas concretos".

Sartre, problematizando essa visão, busca apontar os limites e as falhas de um modelo educacional tecnicista, hegemônico na atualidade  (e cujo ponto culminante é a superespecialização em cada campo do conhecimento) : sua intenção é recuperar a importância da formação dita humanista e, desse modo, "salvar" o papel dos intelectuais nas sociedades contemporâneas.

Esse papel, contudo, está imerso em contradições. Diz o filósofo francês:
 
"Ele  [o intelectual]  é 'humanista' desde a infância: isso significa que o fizeram acreditar que todos os homens eram iguais. Ora, quando ele se vê, toma consciência de ser, em si mesmo, a prova da desigualdade das condições humanas. Ele possui um poder social que decorre de seu saber vertido a uma prática. Mas ele chegou a esse saber - filho de funcionário, de alto assalariado ou de representante das profissões liberais - enquanto herdeiro: a cultura já estava em sua família antes de ele nascer - nascer em sua família ou nascer na cultura é a mesma coisa. E, se ele se origina das classes trabalhadoras, só pôde ter sucesso pela única razão de que um sistema de seleção complexo e  jamais justo  eliminou a maior parte de seus camaradas. De qualquer maneira, ele é possuidor de um privilégio injustificado, mesmo - e, num certo sentido, sobretudo - se venceu brilhantemente todas as provas. Esse privilégio - ou monopólio do saber - está em radical contradição com o igualitarismo humanitário. Em outros termos, a ele deveria renunciar. Mas, como ele  é  esse privilégio, não pode renunciar a ele sem se abolir, o que contradiz o instinto de vida tão profundamente enraizado na maior parte dos homens".

Ao introduzir o componente classe social em sua análise, Jean-Paul Sartre nos lembra que a cultura (e, nesse contexto, pode-se entender o termo no mesmo sentido de conhecimento formalizado)  não está imune aos condicionamentos econômicos. Condicionamentos estes que geram desigualdades entre os seres humanos - das quais a própria existência dos intelectuais é prova, pois seu acesso aos bens culturais é  "jamais justo". Uma tomada de consciência dessa natureza pode gerar, no indivíduo em que esta surge, um pesado sentimento de culpa, em bom número de casos...

Que fazer, então? Continuo na próxima postagem.
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* SARTRE, Jean-Paul. Em defesa dos intelectuais. São Paulo: Ática, 1994 [tradução de Sérgio Goes de Paula]

BG de Hoje

Quando estou prestes a encerrar mais um dia de trabalho, um pouco cansado e meio desanimado (é o caso agora), penso apenas no momento em que estiver lá em casa. Chegando, vou abrir uma lata de cerveja e ouvir canções pra recuperar as forças. Uma dessas é a linda  Red Hill Mining Town,  do U2

quinta-feira, 14 de junho de 2012

O "esconderijo" dos acadêmicos ou Culpa e vida intelectual (I)



"Pro homem da rua, intelectual é uma coisa bastante longínqua, incompreensível, e, claro, meio bicha".

Millôr Fernandes - Millôr definitivo: a bíblia do caos


Estava relendo anteontem um pequeno artigo (de que gosto muito) escrito por Hans Ulrich Gumbrecht*, no qual o autor faz a seguinte pergunta:

" Mas o que podem fazer os intelectuais, que fim podem dar as sociedades à escória de seus intelectuais, se deles ninguém mais aceita a pretensão de desvendar a verdade em geral, de um lado, e, de outro, se eles perderam a chance de adquirir a competência mais específica para a verdade exigida no presente?"

Em seu texto, Gumbrecht, professor universitário nos EUA, propõe-se uma "tarefa" - definir  qual ou especular sobre a função social dos intelectuais -  "tarefa" empreendida, é bom que se diga, por diversas outras pessoas antes dele, nos meios acadêmicos e mesmo na imprensa. Na sua tentativa, nada rigorosa e nem "profunda" (ainda bem, é bom que se diga mais uma vez), ele faz observações muito interessantes. Falarei delas no fim desta série de postagens. Antes, outra pergunta, para melhor levar a discussão: o que é um intelectual?

Num livro cujo objetivo é justamente responder tal questionamento**, Horácio González, após apresentar uma tipologia com diversos representantes dessa categoria de indivíduos, sustenta que

    "[...] o intelectual é a mais frágil ação que se desenvolve na sociedade, precisamente porque não pode evitar transmitir suas contradições. E também porque desvenda a culpa de um afastamento das crenças comuns, o desejo de abolir as fontes de coerção, enquanto diz deter os instrumentos conceituais para pensar um mundo novo. Culpa, desejos e instrumentos flutuam com diferentes pesos e tons na consciência do intelectual. Fazem a consciência do intelectual".

Por que falar em contradição? E por que falar em culpa? Volto ao assunto na próxima semana, incluindo  Jean-Paul Sartre na discussão.
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* GUMBRECHT, Hans Ulrich. Intelectuais como catalisadores de complexidade. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 mai. 2001, Caderno Mais!, p.18-19

** GONZÁLEZ, Horácio. O que são intelectuais. 2 ed. São Paulo: Brasiliense, 1981 [Coleção Primeiros Passos]

BG de Hoje

Às vezes ouço certas bandas de rock e penso: por que tanta frescura para fazer aquilo que é básico? Com o QUEENS OF THE STONE AGE não tenho com que me preocupar: é "pau na máquina"! Um exemplo: escute How To Handle A Rope.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

30 anos de Blade Runner



Não me lembro bem, mas creio ter sido um de meus irmãos (faz tempo...) que me recomendou o filme Blade Runner, o caçador de androides (Blade Runner, 1982 - direção de Ridley Scott).

Assisti pela primeira vez numa distante madrugada televisiva. Acho que tinha uns 13 ou 14 anos na época. E, por isso, Blade Runner representou um aprendizado: a partir dali começava a me tornar um espectador menos ingênuo. Sem exagero, foi uma obra que contribuiu para meu amadurecimento.

O cult movie de Ridley Scott completa, em 2012, 30 anos desde sua estreia nos cinemas (aliás, eu só o assisti numa tela grande em 1989, durante retrospectiva dos 10 melhores filmes daquela década, no cine Humberto Mauro, dentro do Palácio das Artes aqui de BH). Passado esse tempo, cabe perguntar: a obra ainda tem algo a nos dizer? Penso que sim.

Uma das maneiras de se avaliar uma produção de ficção científica é tentar verificar o que se tornou (ou pode, no curto prazo, se tornar) "realidade" nas "previsões" feitas pela narrativa. Nesse quesito, Blade Runner acertou em cheio ao retratar uma megalópole (no caso, Los Angeles, no ano de 2019) apinhada de gente, com ruas sombrias e tristes, mas habitada por pessoas das mais diversas nacionalidades, numa miscelânea de idiomas e comportamentos. Isso é bem similar ao que se pode encontrar em boa parte dos centros urbanos mundo afora. Contudo, mesmo antecipando o avanço da engenharia genética, não estamos nem perto de testemunhar o aparecimento de androides tais como os que são personagens do filme.

Ontem revi o filme em DVD (versão do diretor) e constatei que as perguntas contidas em Blade Runner não deixaram de ser importantes pra mim: afinal, o que define um ser humano? O que pode justificar nosso viver (se é que este precisa de alguma justificativa)?

O policial Gaff - esplendidamente interpretado por Edward James Olmos - numa da últimas cenas do filme diz: "It's too bad she won't live. But than again, who does? [É pena que ela não viverá. Mas quem vive?]. Ele está se referindo à Rachael, androide possuidora de uma memória falsa e que também deveria ser "retirada" (ou seja, executada). Só que essa fala do personagem vai mais além e acaba por recuperar a questão - velha, mas inescapável para a humanidade -  proposta pelo filme: qual o significado (ou o sentido, como queiram) de nossa existência?

Blade Runner, nem preciso dizer, é uma das minhas obras prediletas.

BG de Hoje

A trilha sonora do filme, composta por VANGELIS, também acabou virando cult. Gosto muito do tema final.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dizer o indizível


Muitas pessoas (muitas mesmo, inclusive eu) têm imensa dificuldade para explicar (algo) ou explicar-se. Sem falar no quanto é complicado traduzir em palavras determinados sentimentos, sensações e emoções experimentadas, ao testemunhar, por exemplo, uma catástrofe ou, num outro extremo, fruindo uma obra de arte. Nesses casos, comunicar o que se pensa ou sente, numa forma que seja direta e imediatamente compreensível por outra pessoa, é tarefa das mais árduas.

Esse tema aparece, de certo modo, no romance As intermitências da morte*, de José Saramago, numa passagem que será crucial para mais uma das reviravoltas pelas quais passa a narrativa.

O narrador nos conta que o violoncelista - que não havia recebido a funesta "carta violeta" da morte e, portanto, não morrera na data estabelecida - disse, em conversa com outros colegas de ofício, que seu retrato musical (ou seja, uma composição que o pudesse descrever) seria um "brevíssimo estudo de chopin, opus vinte e cinco, número nove, em sol bemol maior". Para o violoncelista, "em cinquenta e oito segundos chopin havia dito tudo quanto se poderia dizer a respeito de uma pessoa a quem não podia ter conhecido".

Na volta para casa, após um ensaio, o músico, depois de alimentar a si e ao cão de estimação, toca o Opus 25, sem saber que a morte "em pessoa" o observava, mas toca "como se tivesse percebido a presença de um terceiro em sua casa, a quem, por motivos não explicados, deveria falar de si mesmo", sem "ter de fazer o longo discurso que até a vida mais simples necessita para dizer de si mesma algo que valha a pena".

E o que sucede à morte, ouvindo a execução musical?

"A morte, porém, que por dever de ofício tantas outras músicas havia escutado, com particular relevância para a marcha fúnebre do mesmo chopin ou para o adágio assai da terceira sinfonia de beethoven, teve pela primeira vez na sua longuíssima vida a percepção do que poderá chegar a ser uma perfeita convizinhança entre o que se diz e o modo por que se está dizendo. Importava-lhe pouco que aquele fosse o retrato musical do violoncelista, o mais provável é que as alegadas parecenças, tanto as efecctivas como as imaginadas, as tivesse ele fabricado na sua cabeça, o que à morte impressionava era ter-lhe parecido ouvir naqueles cinquenta e oito segundos de música uma transposição rítmica e melódica de toda e qualquer vida humana, corrente ou extraordinária, pela sua trágica brevidade, pela sua intensidade desesperada, e também por causa daquele acorde final que era como um ponto de suspensão deixado no ar, no vago, em qualquer parte, como se, irremediavelmente, alguma cousa tivesse ficado por dizer".

Talvez só a música - e mais nenhuma outra forma de arte - possa mesmo promover "essa convizinhança entre o que se diz e o modo por que se está dizendo". Quero, porém, destacar aqui o elogio fabuloso feito por Saramago à dimensão artística da existência. A peça musical, no livro, chega a impressionar até mesmo a morte. E a narrativa do escritor português - outra forma de arte - impressiona a nós, leitores.

* SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo. Companhia das Letras, 2005

BG de Hoje

Obviamente, o Opus 25/n.9, de FRÉDÉRIC CHOPIN (nesta execução, com a pianista ucraniana VALENTINA LISITSA)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Falou e disse...



SEM BARRA*

Enquanto a formiga
carrega comida
para o formigueiro,
a cigarra canta,
canta o dia inteiro.

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.

Mas sem a cantiga
da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga!


* PAES, José Paulo. Olha o bicho. 11 ed. São Paulo: Ática, 2005


terça-feira, 22 de maio de 2012

"Vadiagens pelos recantos do idioma"

"Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.".

Manoel de Barros, no poema O apanhador de desperdícios (do livro Memórias Inventadas*)

 
 
Ocorreu-me a lembrança de Manoel de Barros no momento em que escrevia a última postagem, discutindo matéria publicada na revista Metáfora (que mencionava, entre outras coisas, brinquedos construídos a partir de autores, obras e personagens literários). Desejo voltar ao tema do brinquedo, pois a brincadeira é um elemento constitutivo da poesia de Barros.

Numa entrevista concedida, anos atrás, à  revista Caros Amigos*, o poeta, relembrando certa conversa que manteve com Guimarães Rosa, disse: "Eu andei procurando retirar das palavras suas banalidades. Não gostava de palavra acostumada. E hoje gosto mais de brincar com as palavras do que de pensar com elas. Tenho preguiça de ser sério". Logo adiante, dando outra resposta, concorda que pratica uma "língua de brincar":

"É um dialeto infantil. Acho que passei a vida inteira brincando, porque todo mundo ri da minha poesia. Riem quando compreendem. Comecei a ler meus versos. São todos assim: quanto à razão, inclusive se você for raciocinar em cima do verso pra procurar o sentido, não acha a ideia, porque a linguagem apaga a ideia, a metáfora destrói qualquer ideia. As ideias depois, se quiserem, inventem".

Essa opção por uma "língua de brincar" pode ser melhor percebida lendo a série Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros**.

No texto que serve de prefácio ao livro, o mato-grossense escreve: "Acho que o que eu faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem". E nas Memórias inventadas, brinca, ao mesmo tempo, com a linguagem e com a noção de autobiografia.

As memórias são inventadas, ou seja, nem tudo ali (ou quase nada) é factual - o que pouco importa para a apreciação do livro. E é possível buscar nos diversos textos indícios que forneçam meios para compreender o modo de fazer poesia adotado por Manoel de Barros.

Em Delírios, o poeta nos conta ter adquirido, desde menino, o hábito de anotar frases insólitas, futuras candidatas a virarem versos: "Esses delírios irracionais da imaginação fazem mais bela a nossa linguagem". Em Soberania ele nos diz ter aprendido com Einstein que "a imaginação é mais importante do que o saber" e decidiu botar "um pouco de inocência na erudição"; seu olho "começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho". Lemos em Jubilação:

"Na faceirice as palavras me oferecem todos os seus lados. Então a gente sai a vadiar com elas por todos os cantos do idioma. Ficamos a brincar brincadeiras e brincadeiras. Porque a gente não queria informar acontecimentos. Nem contar episódios. Nem fazer histórias. A gente só gostasse de fazer de conta. De inventar as coisas que aumentassem o nada. A gente não gostasse de fazer nada que não fosse de brinquedo. Essas vadiagens pelos recantos do idioma seriam só para fazer jubilação com as palavras. Tirar delas algum motivo de alegria. Uma alegria de não informar nada de nada".

A poesia de Manoel de Barros está repleta dessas "vadiagens pelos recantos do idioma": não há intenção de "informar nada de nada". Um estraga-prazeres beeeem obtuso poderia perguntar: se assim é, qual a utilidade dessa poesia?

Ah, esse é assunto pra outra postagem...

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* Três momentos de um gênio. Caros Amigos, São Paulo, ano X, n. 117, dez. 2006, p. 29-33

** BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: as infâncias de Manoel de Barros. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008


BG de Hoje

Gosto de grupos de rock que sabem usar o humor. Até mesmo para rirem deles mesmos. Nesse quesito, o ULTRAJE A RIGOR ainda é uma das minhas referências, como neste reggae "desleixado": Mim quer tocar.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um leitor sisudo


Deixo para escrever um pouco mais sobre o livro de José Saramago (As intermitências da morte) noutra oportunidade. É que li recentemente matéria bastante curiosa na revista Metáfora e achei melhor tratar dela.

Com o título Literatura, modo de brincar*, o texto, assinado por Luiz Costa Pereira Júnior e Terciane Lopes, arrola diversos tipos de produtos - brinquedo, calendário fotográfico, camiseta, programa de computador, entre outros - inspirados em escritores, obras ou personagens literários. Os autores dão a seguinte recomendação, logo de início: "Esqueça a ideia de que ela [a Literatura] é um jogo de linguagem da cultura, para iniciados. Pois na vida de seus genuínos apreciadores, será sempre diversão - ou não será literatura".  Pereira Júnior e Terciane Lopes, apoiados em boa parte no livro Homo ludens, de Johan Huizinga, defendem que:

"A 'ludicidade' da literatura conviveu e cedeu espaço ao amadurecimento da ideia de estética - a consciência de que há uma cultura literária forjada por uma tradição de procedimentos que podem ser construídos e virtualmente negados. Essa consciência parece ter se tornado robusta o bastante para que a dimensão lúdica da literatura ficasse circunscrita e associada, na cultura literária, a um nicho: a diversão é preocupação acessória, de preferência restrita à produção pouco séria, destinada ao mercado de consumo ligeiro. Virou fato que muito da literatura prèt-à-porter, aquela que é pré-fabricada para vender e ensinada por manuais e cursinhos, ocupe um campo específico no consumo de livros (de ficção, auto-ajuda, religiosos, etc.). Mas também é verdade que parte substancial da grande literatura é resultado de uma forma de encarar a escrita muito próxima à sensação de quem participa de uma brincadeira autossuficiente".

Os autores, na conclusão da matéria, afirmam: "os trabalhos [referência aos produtos citados no segundo parágrafo] que apresentamos nessas páginas foram desenvolvidos por quem tenta entusiasmar as pessoas, instigar o interesse pela leitura insistindo no fato de que a literatura é o tratamento lúdico que damos às alternativas da imaginação que desconhecíamos".

. . . . . . . 

Por temperamento, sou um leitor sisudo. Não quer dizer que não me divirta com boa parte das obras que leio: gargalho nalgumas passagens do Macunaíma, por exemplo; fiquei fascinado com o complexo jogo proposto por Georges Perec em A vida: modo de usar (como já comentei aqui e aqui); e não resisto às brincadeiras verbais propostas por José Paulo Paes (poeta citado várias vezes no blog, inclusive aqui).

Porém,dando uma olhada nos objetos "lúdicos" e "divertidos" citados pela revista, principalmente nos Literary Greats Paper Dolls (imagem no alto da postagem), fiquei na dúvida se estes podem, de fato, "entusiasmar as pessoas" e "instigar o interesse pela leitura".

. . . . . . . 

Chega a ser um truísmo afirmar que estamos cercados, quase o tempo todo, por estímulos audiovisuais provenientes de dezenas de fontes, sobretudo dos meios de comunicação de massa. Isso sem mencionar o advento, nas últimas décadas, da World Wide Web, com seu luxo e seu lixo.  Justamente por essa "overdose" de imagens e sons, nossa atenção é constantemente dispersada. Também somos solicitados, insistentemente, a "interagir" com outras pessoas - enviando mensagens de celular, respondendo publicações nas tais redes sociais ou mesmo exercitando a velha e famigerada conversa fiada (o que me leva a perguntar: quantos atos de comunicação são necessários para nos satisfazer?).

Mas ler efetivamente um texto, penso eu, exige concentração e isolamento (além de esforço, em alguns casos), condições bastante difíceis de se atingir no cenário acima esboçado.

Quero dizer com isso que os produtos exibidos na matéria da revista Metáfora podem ser muito simpáticos (e alguns são mesmo sensacionais) mas não acredito que objetos alusivos a textos literários, por mais lúdicos que sejam, possam fazer com que as pessoas se tornem leitores mais aplicados e qualificados só por tê-los ou manuseá-los. Usar um verso de Fernando Pessoa numa camiseta ou ter um bonequinho lego de Edgar Allan Poe - falo daqueles que  por ventura comprarem tais produtos, não daqueles que os elaboraram -  é algo bem legal, além de fazer o  possuidor dessas coisas ficar "bem na foto". Agora, se essas pessoas vão efetivamente ler as obras desses autores, já não sei dizer.

* Literatura, modo de brincar. Metáfora, São Paulo, ano I, n. 7, abr. 2012, p. 26-32

BG de Hoje

Taí uma canção - Champagne Supernova - meio metida a besta, né não? Tem uma certa pretensão sinfônica que chega a incomodar muita gente... E como os integrantes do OASIS nunca primaram pela humildade, a coisa se complica ainda mais. Bem, como sou uma besta quadrada - mas um sujeito metido a besta - não me importo em nada com isso. Gosto muito da música; um belo momento da música pop.