quinta-feira, 30 de março de 2023

Sobre proibições, alterações de livros e a ilusão do bom senso

Um das consequências mais aflitivas de meu prolongado estado de depressão é a perda de ânimo e entusiasmo para atividades que, para mim, eram vitais.

De uns tempos pra cá, tenho lido cada vez menos textos literários. Já perdi a conta dos livros dos quais desisti após percorrer umas poucas dezenas de páginas. 

Não tem a ver com a qualidade dos escritos. É que, nalguns dias, a aridez em mim machuca muito; noutros, sou tomado por uma raiva difícil de dissipar. Como ler literatura nessas condições?

Falta apetite, a curiosidade se foi. Não há concentração. Uma sensação de cansaço imensa.

Não peço nada de mais. Queria apenas minha regularidade de volta. 

Porque ler obras literárias também é não sucumbir de vez - antes da morte propriamente dita - nestas sociedades de merda em que vivemos.

Olho para o que vem acontecendo nos últimos anos nos EUA. Um dos efeitos da chamada guerra cultural, a proibição da aquisição e circulação de determinados livros em escolas e bibliotecas em estados como Texas, Pensilvânia e Flórida, almejada por associações e grupos ultraconservadores e legitimada por políticos e governantes locais, demonstra que o emburrecimento tornou-se um elemento essencial da paisagem política de nossos dias, junto com o fanatismo. Não se trata só de preconceito e intolerância, o que já seria terrível. Trata-se do orgulho da própria ignorância (ignorância aqui como sinônimo de incivilidade). Quase todos os títulos proibidos por esses indivíduos são considerados "afrontas aos valores" deles ou são tidos por eles como "divisivos". Isso inclui publicações mais recentes, não tão conhecidas, apresentando personagens LGBTQIA+, com temática de gênero ou racial (espantei-me quando soube que o afetuoso Hair Love, feito para crianças, está entre os proscritos), mas livros já consagrados pela crítica, como Lord of the Flies (O senhor das moscas) e The Handmaid's Tale (O conto da aia), vivem em risco permanente em alguns distritos.

Por outro lado, certas ações presumivelmente progressistas no setor das publicações literárias também têm me deixado de cabelo em pé. Falo, claro, das alterações/modificações (ou atualizações, como já li em alguns artigos) realizadas pelas editoras em obras de escritores já falecidos, como Roald Dahl, Ian Fleming, Agatha Christie e Monteiro Lobato, para citar um brasileiro (cuja revisão está sendo dirigida pela bisneta do escritor, Cleo). A justificativa mais comum apresentada é que certas palavras e caracterizações usadas por esses autores em seus textos ofendem determinados gupos/tipos de pessoas, não se coadunando com a sensibilidade de hoje em dia. Não tenho dúvida de que Fleming e Christie tinham uma visão eurocêntrica, preconceituosa em relação a outros povos e etnias; estou convicto de que Lobato era racista; e Dahl tinha gosto pelo insulto. Há trechos problemáticos e tóxicos (para usar um adjetivo da moda) no que escreveram esses artistas? Certamente. Mas será o melhor caminho alterar o que escreveram? Os leitores e os mediadores de leitura seriam assim tão incautos a ponto de necessitar desse "resguardo"? Não seria melhor discutirmos (e até polemizarmos com) o conteúdo desses textos à luz do zeitgeist atual ao invés de "corrigi-los"? Ou, caso não seja possível, simplesmente afirmar a repulsa pelo texto (ou por partes deste) e escolher outro(a) escritor(a), mais do agrado do(a) leitor(a), sem necessidade de dar uma "maquiada" na coisa? Oponho-me a esse programa de sanitização da arte, de assepsia da escrita literária. Não é obrigação de um texto literário - nem de qualquer obra de arte -  acomodar-se às suscetibilidades do público, por mais que aquele texto nos fira de alguma forma (falo de escritos artisticamente genuínos, pois, sabemos, pode-se disfarçar o discurso de ódio sob a aparência de um texto literário). Felizmente, alguns editores se recusam a fazer tais alterações.

Ainda sobre o ponto levantado acima, creio haver também uma motivação puramente capitalista. Seria, obviamente, danoso para a imagem de determinados produtos associá-los ao racismo, à gordofobia ou ao capacitismo, por exemplo. Não devemos nos esquecer que Fleming criou o agente 007; algumas histórias de Christie ainda têm apelo junto ao público (como é o caso das recentes adaptações cinematográficas de Assassinato no Expresso do Oriente e Morte sobre o Nilo). Lobato idealizou O Sítio do Picapau Amarelo, marca que está estampada em várias mercadorias Brasil afora; e Dahl, autor de Matilda e A fantástica fábrica de chocolate, tem um alcance planetário junto ao público infantil (eu, por exemplo, adoro seu livro Os pestes). Como seria possível vender tudo isso com a pecha de CANCELADO carimbada em cima?

Talvez não tivéssemos de lidar com a proibição e nem a alteração de livros se houvesse mais bom senso entre as pessoas...

A frase idiota que acabei de escrever - já sabia que era idiota no momento em que a digitava - é na verdade uma espicaçada no(a) eventual leitor(a) e em mim mesmo. 

Tirando os assumidamente inconsequentes e os indivíduos diagnosticados com sérios problemas mentais, as pessoas, no geral, costumam achar que são bastante sensatas. Porém, sempre me lembro de uma frase (pra variar) certeira de Millôr Fernandes ¹ : "A melhor maneira de demonstrar que você é um homem de extraordinário bom senso é não acreditar nisso".

Você sabe: nós, humanos, não costumamos lidar bem com as divergências. Por isso, temos a tendência de reconhecer como pessoas razoáveis, como pessoas com quem se pode entrar em acordo, apenas aquelas que compartilham ideias e crenças parecidas com as que já tínhamos. Assim, tendemos a achar que falta bom senso aos outros, mas não a nós. Além disso, tanto a proibição dos livros quanto as alterações dos textos originais partem de supostas boas intenções - e sabemos que o inferno está apinhado delas.

Claro, há os líderes e políticos de extrema direita que usam a proibição dos livros para empurrar sua agenda fascista, mas muitas outras pessoas que defendem esse procedimento nem são tão reacionárias assim: acreditam piamente que estão "protegendo as criancinhas". Entre os que defendem as atualizações dos textos de determinados autores, há aqueles que acreditam que é possível construir um mundo melhor corrigindo expressões desagradáveis em filmes e livros publicados há décadas e à revelia de seus autores (que já estão mortos).  

Em setembro de 2010, fiz uma postagem sobre um artigo do sociólogo/filósofo polonês Zygmunt Bauman, que discutia uma questão que vai e volta sempre: os livros estariam condenados a desaparecer diante de tantas tecnologias de comunicação/informação/entretenimento disponíveis na atualidade ²? A última frase daquele artigo me parece bem apropriada para o tema que discuti acima: "Para tornar os livros mais adaptados à sociedade em que vivemos, estejamos vigilantes para evitar que a sociedade se torne inadaptada aos livros".

A leitura em geral - mas, em particular, a leitura literária - depende, para ser fecunda, de imersão e de abertura. Imersão para aprofundar-se nos sentidos dos versos ou no enredo, nos personagens, nos conceitos e valores que subjazem uma história contada. Abertura para aceitar a diversidade de perspectivas e a diversidade de formas de se colocar no mundo (e expressar isso por meio de palavras em poemas e narrativas ficcionais).

Infelizmente, tudo o que nossas sociedades atuais fazem é desfavorecer a imersão e obstruir a abertura.

. . . . . . .

Não tem a ver com a discussão de hoje, mas tenho que tocar no assunto porque a repugnância tomou conta de mim. No úiltimo domingo, fiquei estarrecido ao ver pela TV as imagens de um sujeito, torcedor do Internacional de Porto Alegre, com uma criança pequena no colo (não devia ter mais do que cinco anos de idade), entrar em campo para agredir jogadores do time do Caxias (que havia acabado de eliminar o Internacional numa disputa de pênaltis, válida pela semifinal do Campeonato Gaúcho).

A cena é repugnante em vários aspectos: a agressão por motivo completamente fútil; a exposição da criança ao risco de sofrer violência; a covardia de usar uma menininha como escudo (pois essa era a real intenção do sujeito, não tenho dúvida).

Como de praxe, no Brasil, nada aconteceu. O sujeito foi embora para casa depois do jogo, sem sofrer consequências (talvez seja banido do estádio futuramente, mas e daí?). O clube, Internacional, não terá nenhum prejuízo ou punição rigorosa (talvez uns jogos sem torcida e fica por isso mesmo). A imprensa, que vive de alimentar rivalidades bobas, infantis, e trata simples eventos esportivos como "batalhas épicas", simula a indignação de sempre e, assim que a poeira baixar, volta tudo a ser como antes.

OK, eu odeio futebol e pode ser por isso também que estou tomado de exasperação. Penso, contudo, que aquela cena torpe no domingo, ao final daquele jogo, é uma das mais eloquentes representações dessa desgraça chamada Brasil.

____________

¹ FERNANDES, Millôr. Millôr definitivo: a bíblia do caos. Porto Alegre: L& PM, 2002

² BAUMAN, Zygmunt. O livro no diálogo global entre culturas. In: PORTELLA, Eduardo (Org.). Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: UNESCO/Moderna, 2003. p. 15-33.


BG de Hoje

É muito comum que o frontman de uma banda acabe atraindo toda a atenção para si e ofusque os outros membros, sobretudo se for um cantor excepcional. Sem dúvida, é o caso do grupo ucraniano JINJER e sua vocalista - neste caso, uma frontwoman - Tatiana Shmailyuk. No entanto, nunca deixo de notar como são precisos e tecnicamente apurados os outros três integrantes. Isso pode ser visto em várias canções da banda, como Teacher, Teacher ou Perennial, mas é particularmente perceptível na faixa mais conhecida deles, a belíssima Pisces, que tem alguns dos versos mais bonitos que já vi numa composição de metal:

"Pisces swimming through the river
All their life against the stream
Searching for a hook to catch on
And see their sun beam

Then suffocate in painful tortures
On cutting tables of callous men
Under a knife of handsome butchers emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away
Emeralds are ripped away"

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Intenções frustradas

Esta é a quingentésima vez que largo uma postagem neste Besta Quadrada.

O(a) eventual leitor(a) talvez não imagine, mas deu trabalho chegar até aqui, mesmo que os textos publicados sejam desiguais - tanto em extensão/tamanho, quanto na pretensão de soarem profundos, pois, em sua grande maioria, são bem ordinários. A essa altura do campeonato, porém, não me importo mais.

Neste Besta Quadrada há muitas citações. Não tive embaraço algum para admitir isso há mais de 10 anos. Faz parte do programa do blog. Afinal, quando o idealizei (e também os outros dois que o precederam), havia duas intenções. Uma delas era compartilhar minhas impressões de leitura sobre determinados escritos: romances, poemas, contos, ensaios, tratados, reportagens, etc. (da outra intenção, tratarei mais adiante). As citações, em várias oportunidades, também serviram como substrato para que eu pudesse escrever sobre temas e assuntos que me afetam de alguma forma. Noutras vezes - refiro-me às postagens identificadas com o título Falou e disse... -, a citação vem pura (isto é, não circundada por observações minhas). Tal acontece porque, como a expressão já denota, concordo ou endosso inteiramente a declaração ou o excerto reproduzidos. Das 500 postagens, cerca de 10% estão sob esse título.

A propósito de percentuais, pouco mais de 12% das publicações do Besta Quadrada ocuparam-se de poemas. Quase 17% abordaram romances. Por sua vez, em 8% delas, o conto foi um dos temas centrais. Esses números mostram que escrevo muito mais sobre prosa do que sobre poesia. Não se trata de uma preferência; apenas sinto que sou menos desastrado ao interpretar narrativas e, portanto, procuro evitar o risco da análise de versos.

Nestas 500 postagens, os ensaístas/críticos mais mencionados foram o argentino (radicado no Canadá) Alberto Manguel e o italiano Umberto Eco. O prosador mais referido foi Guimarães Rosa e o poeta, Carlos Drummond de Andrade (seguido de perto por José Paulo Paes). Por aí se vê que o leque de autores lidos por este blogueiro é bem mixuruca, tão preso está ele a escritores canônicos. Os dois livros mais referenciados foram 50 contos, de Machado de Assis (lançado pela Companhia das Letras, em 2007, cuja seleção ficou a cargo de John Gledson) e Contos reunidos, de Rubem Fonseca (lançado também pela Companhia das Letras, em 1994). No campo da filosofia, a mais discutida foi Hannah Arendt (seguida de perto por Jean-Paul Sartre) e no jornalismo, Eliane Brum. Como também gosto de escrever sobre música pop, o cantor/compositor mais comentado foi Caetano Veloso e as duas bandas mais presentes (sobretudo na seção BG de Hoje) foram o Alice In Chains e o Black Sabbath.

Ninguém lê este blog: a fórmula eventual leitor(a), que emprego frequentemente (usei-a nesta postagem, diga-se), não passa de um bordão textual. Entretanto, por duas vezes, senti um certo orgulhozinho pelo que publiquei. A primeira foi há uns oito anos, quando escrevi uma série de três textos sobre Carolina Maria de Jesus e seu livro Quarto de despejo (parte I, parte II e parte III). Na época, eu mantinha um perfil no Twitter e acrescentava, na minha timeline, links das postagens do Besta Quadrada sempre que havia uma atualização. A professora universitária, blogueira e ativista feminista Lola Aronovich retuítou, não sei por que razão (talvez por causa de alguma hashtag que usei), e a série conseguiu bom número de visualizações, gerando até alguns comentários na plataforma. A segunda vez foi quando escrevi sobre o livro O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub, e o próprio autor colocou um link da minha postagem num tweet em seu perfil. NOTA: Evadi-me das mídias sociais porque julguei que estavam piorando minha saúde mental. Contudo, é curioso notar que, graças a uma delas, meu blog conseguiu despertar algum interesse pelo menos duas vezes.

Se um de meus objetivos, há mais ou menos 17 anos, ao entrar na então chamada blogosfera, foi compartilhar impressões de leitura, a outra intenção era encontrar interlocutores com interesses parecidos com os meus. Sendo franco e direto: eu queria fugir da solidão. Nesse sentido, obtive um certo retorno com o Ração das Letras e o Sinistras Bibliotecas - endereços que antecederam o Besta Quadrada (falei um pouco disso aqui). As mídias sociais, todavia, eclodiram como fenômeno global mais ou menos na mesma época, canibalizando as outras formas de interação na internet. Além disso, a escalada das mensagens apatetadas, desrespeitosas ou hostis, bem como as propagandas indesejadas e a profusão de comunicados maliciosos nas seções de comentários dos blogs fizeram muita gente boa desistir de seus diários online (ou simplesmente levaram alguns blogueiros a não mais disponibilizar espaço para comentários, como foi o meu caso).

 

Sigo, porém.

Ainda sinto satisfação em escrever sobre coisas que li. Às vezes, também, fico contente com o texto resultante (como, por exemplo, na série que fiz sobre A condição humana, de Arendt ou noutra, mais recente, quando discuti um episódio importante do Grande sertão:veredas).

Chegando a 500 postagens - e após mais de uma década e meia escrevendo em blogs -, posso dizer que ainda não atingi o ponto de saturação. Parei por um tempo e retornei. Há muito esforço meu aqui. Pareceria uma autotraição não prosseguir.


BG de Hoje

Neste cover de Higher Ground (do gênio STEVIE WONDER), a rapper australiana A.GIRL mandou bem demais. Porém, queria destacar as duas "citações" feitas durante a execução da canção: a) o fraseado da guitarra remete à famosa versão dessa mesma faixa gravada pelo Red Hot Chili Peppers no final dos anos 1980; b) no encerramento da performance, menção a outro hit de Wonder: Master Blaster.

domingo, 15 de janeiro de 2023

Cada dia mais doente de Brasil

A expressão "doente de Brasil", pelo que se sabe, apareceu em julho de 2019, cunhada pelo psiquiatra Fernando Tenório. A postagem no Facebook em que o médico usou o termo viralizou, inspirando, por exemplo, uma coluna da jornalista e escritora Eliane Brum, publicada na (extinta) edição brasileira do jornal El País em agosto daquele mesmo ano. Brum relatou como a chegada de Bolsonaro ao poder há quatro anos, associada aos nossos graves problemas sociais (como o desemprego ou a precariedade das ocupações que segmentos de trabalhadores conseguem encontrar), afetou negativamente a saúde mental de parte da população. "País que ultrapassou a possibilidade das metáforas, a toxicidade do Brasil abrange todas as acepções", escreve ela.

O autora aponta que esse adoecimento tem a ver também com "a destruição da palavra como mediadora" - não custa lembrar que o (agora) ex-presidente é um mentiroso em série e seus apoiadores usam e abusam do expediente das notícias falsas e das teorias conspiratórias. O sujeito não está mais à frente do poder executivo federal, mas as ações ultrajantes de muitos de seus sequazes (e daqueles que o usaram como títere, ou seja, membros das famigeradas forças armadas brasileiras) poluíram de vez o espaço público. "É preciso dizer: não vai ficar mais fácil. Não estamos mais lutando pela democracia. Estamos lutando pela civilização", lê-se ao final da coluna.

Partindo da mesma expressão, a revista piauí publicou em novembro de 2019 a matéria Doentes de Brasil: conversas sobre traumas políticos. A repórter Julia Sena acompanhou seções de uma roda de conversa organizada pelas psicólogas Simone Villas Bôas e Marcela Lima no Rio de Janeiro. Villas Bôas afirma que o termo "diz respeito a todos que se sentem prejudicados pela atual configuração social e política" e Lima acrescenta que "o discurso de ódio do bolsonarismo fere a subjetividade daqueles que não compactuam dele. Quem apoia esse discurso já está adoecido".

Talvez o(a) eventual leitor(a) esteja se perguntando: "Pra que falar disso agora? A eleição já passou e um novo presidente assumiu. Não é hora de seguir em frente?". Não dá pra fazer isso. Há um golpismo latente, com forte penetração entre os militares e forças de segurança (polícia federal e polícias estaduais). Há muitos indivíduos fanatizados e agressivos, membros de uma seita, cujos exemplos mais em evidência foram os "patriotas" acampados em frente a quartéis e aqueles que depredaram o plenário do STF, o Palácio do Planalto e o Congresso no dia 8 de janeiro. É esse caldo de cultura, junto com outras marcas da nossa política e da nossa sociedade, que me fazem também um doente de Brasil.

Entre as marcas que mencionei acima, uma das mais perversas é o racismo estrutural, que leva a situações como a que Hislla Ramalho discute em seu texto publicado dias atrás no Portal Geledés. Pela forte concordância com seu teor, vou reproduzi-lo aqui na íntegra. NOTA: É óbvio que havia pardos e pretos entre os bolsonaristas que vandalizaram as sedes dos Três Poderes, mas basta observar as imagens daquele dia para constatar que a grande maioria era branca (ou assim percebida, levando-se em conta o peculiar colorismo brasileiro).


A Branquitude pode tudo? Uma breve reflexão sobre a consolidação do nazifascismo no Brasil,
por Hislla Ramalho


O atentado contra a democracia, contra o resultado das urnas (2 e 31 de outubro de 2022), realizado no dia 08 de janeiro de 2023 em Brasília por terroristas, mostra ao Brasil e ao mundo que não se pode compactuar ou se calar diante da construção fascista-nazista que vinha/vem ocorrendo contra o Estado Democrático de Direito há pelo menos 5 anos. Depois do impeachment em 2016, já podíamos ouvir expressões e xingamentos contra os três poderes. Esses discursos tomaram força nas redes e na mídia, à medida que um governo antidemocrático estava no poder, inflando ataques visando enfraquecer as bases democráticas e, consequentemente, agir contra a Constituição Cidadã de 1988.

Considerei o dia 08 de janeiro de 2023 um dia de consolidação, de ápice; um dia de ver explicitamente a manifestação física do fascismo no Brasil. Entre quebra de patrimônio, quebra dos prédios representantes dos três poderes, palavras de ordem contra o presidente e outros agentes públicos, os terroristas foram escoltados, acompanhados, para fazer tais violações pelo próprio poder de força do Estado brasileiro – a polícia. Ao ver as terríveis cenas, duas perguntas me ocorreram: e se fossem pessoas negras que estivessem ali? A branquitude nazifascista pode fazer tudo?

A primeira questão me traz à memória os vários casos acontecidos que envolvem esta força abusando de seu poder e matando o povo preto, seja por “confundir” uma sombrinha com um fuzil ou por suspeitar que um cantor seja um bandido, dentre vários outros casos que sabemos; há um genocídio negro no Brasil,
 instaurado por necropolíticas, epistemicídios, prisões em massa, chacinas e assassinatos da população negra. Sueli Carneiro também denunciou utilizando dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Evaldos, Genivaldos, Rodrigos, Adalbertos, Kathlens, Ágathas etc. Sendo assim, é gritante a diferença do tratamento dado pela polícia à branquitude nazifascista e à população negra. Nós morremos por muito menos, por menos, por nada, por existir.

Se fossem pessoas negras, indígenas, estudantes, professores, dentre outras e outros que estivessem ali e não fazendo metade do que foi feito - diga-se depredado, violado neste dia (08/01/2022) -, a punição, o tratamento, seriam outros; teríamos bombas de gás lacrimogênio, surras de cassetetes, balas de borracha ou pior, dentre outras formas de “contenção”. Diante do infeliz acontecido e da rápida discussão aqui feita a pergunta sobre a branquitude nazifascista entra em evidência. Eles podem fazer tudo?

A questão surge como uma maneira de chamar atenção para quais serão as providências tomadas daqui em diante, como será tratado judicialmente cada indivíduo terrorista que agiu de má fé contra o Estado Democrático de Direto. Se dentro de determinada situação pessoas negras não têm direto a um tribunal ou corte por serem executadas e julgadas no instante do acontecimento, a branquitude tem essa garantia, e pelo menos judicialmente aguardamos as punições cabíveis.



BG de Hoje 

Distopia, um dos mais recentes singles do PLANET HEMP, foi lançado ano passado, quebrando um jejum de mais de duas décadas da banda, em matéria de canções novas. Com participação do CRIOLO, a faixa não desagrada antigos fãs (como este blogueiro).

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A quem interessar possa


Sinto-me bastante esgotado.

Às preocupações pessoais com dívidas junto a bancos e aos problemas de saúde (inclusive mental: não consigo viabilizar o tratamento correto de minha depressão, diagnosticada em maio) vem se somar agora, após observar os resultados e desdobramentos do processo eleitoral (ainda em curso)*, a consolidação de uma crença (que gostaria de não ter): o Brasil é uma grande desgraça.

Não há, no momento, qualquer disposição para atualizar o blog.

Espero voltar ainda este ano.

* Seja quem for o presidente eleito em 30/10, o ultraconservadorismo hipócrita triunfou. Gente como Damares Alves (PQP!!!) e Nikolas Ferreira entrou para o Congresso! O pânico moral, tática usada por pessoas como eles, fortificou-se tremendamente como estratégia a ser empregada no debate público de agora em diante (alguns aliados e apoiadores da chapa Lula-Alckmin já se valem do mesmo expediente - que tristeza!). Além disso, o orgulho de ser burro e reacionário - um sentimento típico do bolsonarismo - não se dissipará, mesmo que o pulha perca a eleição. Esse sentimento contaminou a sociedade brasileira. E do ponto de vista puramente administrativo, Lula (caso eleito e empossado) estará contra a parede o tempo todo, se não contar com uma boa dose de sorte em relação à economia internacional.

sábado, 24 de setembro de 2022

A escolha nunca foi difícil. Os problemas são outros


[Postagem atualizada em 03/12/2022]

No dia oito de outubro de 2018, publicou-se uma das peças mais infames dos últimos anos dentro do  jornalismo corporativo brasileiro. Falo do editorial intitulado Uma escolha muito difícil, no qual o Estadão tratava das duas candidaturas que disputavam o segundo turno da eleição presidencial naquele ano: Fernando Haddad (pelo PT, Partido dos Trabalhadores) e Jair Bolsonaro (então no extinto PSL, Partido Social Liberal). O texto em questão alegava que o "esquerdista", "o preposto de um presidiário" não se diferenciava do "truculento apologista da ditadura militar".

O antipetismo tosco do centenário jornal dos Mesquita não seria motivo de espanto. A torpeza do editorial, contudo, decorre da leviandade de um veículo de imprensa com a notabilidade que (ainda) tem O Estado de S. Paulo em equiparar o que, naquele momento histórico, não poderia ser equiparado. Aquele editorial escancarou a pequenez dos conglomerados de mídia brasileiros e foi a cereja do bolo no discurso da "polarização" e dos "dois lados da mesma moeda".

Antes de prosseguir, preciso deixar claras certas coisas.

Como está expresso no esboço biográfico apresentado neste blog, identifico-me com o ideário político da esquerda. É desta perspectiva, portanto, que observo e critico o quadro atual. A partir de 2006, minha preferência partidária passou a ser o PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), mas, desde quando me tornei eleitor (1989), nunca tive qualquer relutância para votar em candidatos do partido do ex-presidente Lula (e no próprio) quando julguei necessário. Isso não significa que seja cego e assuma uma postura de negação em relação às malversações, atos ilícitos e outros erros cometidos por membros do PT ou por pessoas ligadas a este (voltarei ao assunto mais adiante). Sinceramente, gostaria que nas duas últimas décadas tivessem surgido grandes lideranças nacionais identificadas com os mais pobres para que houvesse alternativas a Lula. Como isso não aconteceu, o ex-presidente permanece sendo o nome mais viável eleitoralmente no campo progressista e popular.

Pois bem. Quando se diz, de forma quase automática, que a sociedade brasileira "polarizou-se", que a eleição está "polarizada", o tom adotado é um misto de consternação e lamúria. Dissequemos isso. 

A metáfora dos polos é mesmo a mais adequada para descrever o que está acontecendo? Há de fato uma disputa de extremos? 

Quando a vitória de Bolsonaro em 2018 tornou-se factível, pouquíssimos articulistas dos conglomerados de mídia brasileiros tiveram coragem de usar o termo extrema direita para descrever o que aquela candidatura representava. O cabeça da chapa já havia defendido guerra civil e armamento da população em geral; celebrava a ditadura de 1964; homenageava milicianos e exaltou um notório torturador; esgoelou, dentro da Câmara dos Deputados, que não estupraria uma parlamentar porque ela não "merecia" (por ser "feia", segundo o sujeito). Muitos de seus correligionários e seguidores assinavam embaixo de demonstrações como essas, exaltavam as mesmíssimas coisas. E isso tudo foi normalizado! (Hoje, felizmente, até comentaristas da ensaboada GloboNews perderam o receio de empregar a expressão extrema direita em referência a essa turma). 

Cabe perguntar de forma honesta: Lula e o PT - hoje, os adversários mais em evidência do bolsonarismo - representam a extrema esquerda? Por acaso defendem ações violentas e se pronunciam publicamente de forma tão incivilizada quanto o ex-capitão e sua turma? Ou, pensando no eterno pavor da perda de privilégios dos endinheirados do país, propõem uma ruptura profunda dentro da ordem socioeconômica vigente?

A resposta honesta tem que ser não.

Desde aquela Carta ao povo brasileiro divulgada em 2002 (cujo objetivo era acalmar a burguesia), o Partido dos Trabalhadores foi cada vez mais se encaminhando para o centro. Antes (e depois) de chegar ao Palácio do Planalto, o PT governou estados (Rio Grande do Sul, Acre, Bahia, Minas Gerais, Sergipe, Rio Grande do Norte); esteve à frente de prefeituras de capitais (Porto Alegre, Belo Horizonte, São Paulo, Aracaju); elegeu grande número de parlamentares. Diga-me com sinceridade: cadê o extremismo desse partido que já foi há tanto tempo assimilado pelo establishment? O PT de 2022 guarda pouquíssimas semelhanças com o PT de 1980 (para minha tristeza, aliás). É preciso ser franco: Lula tornou-se um pragmático conciliador (vide Geraldo Alckmin como seu vice; não me surpreenderia se o ex-metalúrgico se aproximasse de pessoas que atuaram no golpe contra Dilma Rousseff) e sua agremiação nada tem de radical (quando esteve à frente do governo federal, foi um doce com os detentores da grana grossa). Existem, de fato, lados facilmente discerníveis na atual disputa político-eleitoral brasileira. O termo "polarização", porém, no contexto dessa disputa específica, me parece desacertado. Vivendo num país tão desigual como o Brasil, é natural que haja profundas divergências entre os atores políticos. Desejar que as democracias (ainda mais no feroz capitalismo atual) sejam um terreno harmônico que deve evitar os conflitos não é nada realista. Há diversos interesses e grupos em disputa dentro da sociedade. Daí a existência de partidos. E é de se esperar que essas partes, dentro do debate público e do jogo eleitoral, tentem apregoar que são melhores (ou, pelo menos, mais aceitáveis) do que as outras.

O que o extremismo representado por Bolsonaro faz (embora o fenômeno tenha surgido antes de 2018) é sugerir e até incentivar a destruição do adversário, exterminando a divergência, algo inadmissível em qualquer democracia razoavelmente sadia.

As queixas em torno da "polarização" me enervam em particular porque muitas vezes estão baseadas na estranha crença que haveria mesmo um grupo de indivíduos ou uma corrente política com significativa densidade eleitoral que representasse um "meio-termo" razoável e confiável, para além das diferenças de classe, capaz de apaziguar os conflitos. É enervante também porque o que se convencionou chamar de centro ou de moderado  no meio político profissional do Brasil costuma ser apenas uma direita não tão rude e intolerante (e repare, eventual leitor(a), que a grande mídia nacional nunca elenca o PT - um partido já há muito assimilado pelo establishment do país, escrevi acima - como uma organização de centro-esquerda).

Para encerrar esse ponto, em boa parte das democracias mundo afora, as eleições para o executivo acabam se resumindo a uma escolha entre apenas duas candidaturas competitivas. Foi assim inclusive no Brasil, em passado bem recente. Reitero: o termo polarização, como forma de descrever o cenário eleitoral do momento no país, não é muito acertado (sobretudo por servir como meio de evitar reconhecer o quanto há de inerentemente antagônico nas sociedades capitalistas).

Entre as duas candidaturas que têm condições reais de vencer a disputa, uma coloca em risco a imatura e já tão combalida democracia brasileira. A outra, não. Uma candidatura representa o atual governo, que fez o Brasil voltar ao mapa da fome. A outra indica ter maior entendimento do papel do poder público para mitigar os efeitos da desigualdade social.

Lá no segundo turno de 2018, não se tratava de uma escolha difícil. E agora, em 2022, também não. A caquistocracia de Bolsonaro (para usar o termo empregado pelo jornalista José Roberto de Toledo no ótimo podcast Foro de Teresina) não pode continuar. Lula é aquele que mais tem chance de nos livrar dela.

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Quais critérios sigo para escolher candidatos(as) nas eleições para o legislativo e o executivo?

Obviamente, em primeiro lugar, há o alinhamento ideológico: sempre voto na esquerda ou na centro-esquerda.

A seguir, tento priorizar a escolha de pessoas pertencentes a segmentos com baixa representação na política profissional-institucional. Quando se olha para o Congresso Nacional, por exemplo, vemos que é composto majoritariamente por homens, brancos, que estão ali para representar interesses de grandes empresários, banqueiros ou grandes ruralistas, além de membros de organizações religiosas (principalmente neopentecostais). Minhas escolhas, portanto, priorizarão mulheres, negros ou indígenas, indivíduos não vinculados à elite econômica e que tenham compromisso com a laicidade do Estado.


Para deputada estadual, votarei mais uma vez em Andréia de Jesus. Já o tinha feito em 2018, quando ela concorreu pelo PSOL (hoje está no PT). Considero fundamental sua reeleição, não só por seu importante trabalho na área de direitos humanos, mas como forma de se contrapor à violência política que se acirrou no país nos últimos anos, uma vez que Andréia de Jesus é alvo de ameaças de morte e agressões pela internet com cunho racista.




Para deputada federal, votarei em Iza Lourença. Atualmente vereadora aqui em Belo Horizonte, a candidata do PSOL tenta seguir trajetória parecida com de Áurea Carolina (a quem dei meu voto em 2018, mas que, infelizmente, desistiu de concorrer à reeleição em 2022, por problemas de saúde). As chances de Iza não são grandes; tomara que surpreenda.




Para senadora e governadora, votarei em Sara Azevedo e Lorene Figueiredo, respectivamente. Ambas do PSOL, ambas defensoras do ensino público. Pelo que tudo indica, no entanto, lamentavelmente aqui em Minas, os eleitos para esses cargos serão dois caudatários do bolsonarismo.

Para presidente - como deve estar claro -, voto em Lula.

Quando uma tal opção é declarada, imediatamente segue-se a cantilena: "E a corrupção comandada pelo partido dele? Ele roubou, foi até parar na cadeia!" 

Acreditar que a política profissional ficará livre da corrupção desde que se escolham as pessoas moralmente certas é meio ingênuo. Ora, seja na Suécia, em Gana, no México ou na Nova Zelândia, aproveitadores sempre vão conseguir ocupar cargos públicos. Governos e parlamentos lidam com vultosos recursos financeiros e têm imenso poder de interferência - como poderiam deixar de atrair picaretas de diferentes origens? Mesmo que se escolham as pessoas moralmente certas (caso isso seja possível), a corrupção não vai ser expurgada de uma vez por todas. Não é algo que possa ser evitado com moralismo barato apenas. Algumas nações conseguem resolver casos de corrupção melhor do que outras porque, geralmente, têm instrumentos de fiscalização, investigação e controle mais eficazes. Mas isso não significa que subornos, desvios e fraudes nunca mais acontecerão. Houve corrupção em governos do PT? Certamente. Assim como houve em outros governos, com outros partidos à frente, antes e depois. O ponto é que se tornou conveniente, dentro do embate político (inclusive para além da disputa eleitoral), transformar Lula e seu partido num bode expiatório (quantas e quantas vezes já não ouvi e li na mídia que o Mensalão ou o Petrolão foram os maiores esquemas de corrupção da história do Brasil...). Quanto à prisão do ex-presidente, creio que a essa altura qualquer pessoa de bom senso concordará sobre o caráter farsesco de todo o processo acusatório e de condenação. Quero deixar claro que a probidade de ocupantes de cargos públicos não é algo desimportante e é necessário enfrentar a corrupção. No entanto, há muito mais coisas a serem consideradas dentro do pesado jogo da política concreta do que apenas moralismos de conveniência.

Agora que essa questão foi tirada do caminho, retomemos o fluxo da postagem.

O petista é favorito. Há possibilidade (pequena) de que consiga vencer já no dia dois de outubro. Caso esse favoritismo se confirme, no primeiro ou no segundo turno, Lula, é óbvio, dificilmente terá vida fácil, ainda que consiga controlar a inflação, evitar mais perdas nos salários dos trabalhadores ou não depender do Centrão (algo praticamente impossível). Após o desastre da caquistocracia de extrema direita, o (possível) governo Lula-Alckmin, receio eu, seria de conserto e acomodação (e, portanto, sem ímpeto para mudanças mais progressistas e ousadas).

Há ainda um último ponto a ser destacado. O mandato de Bolsonaro tem servido para tornar mais evidentes alguns dos inúmeros impasses brasileiros, alguns deles entranhados na história do país. Um (possível) novo governo Lula não dará conta de resolvê-los. Para ser franco, não sei se um dia serão sanados.

Áreas do espaço urbano dominadas pela criminalidade; deterioração da qualidade dos empregos, com alto índice de informalidade; falta de investimento adequado em ciência e tecnologia (a esse respeito, recomendo a leitura do artigo Basta de tentativas de 'ciencídio', assinado por três pro-reitores da USP). Poderia continuar arrolando vários outros problemas, mas vou usar como exemplo agora apenas a questão agrária.

Creio não ser falso dizer que a concentração de terra no Brasil é perversa desde o período colonial. Até hoje figurões da monocultura ou da criação de gado infringem leis a torto e a direito e dificilmente são punidos. É assustador ver como o agronegócio de escala industrial - e seu uso indiscriminado de agrotóxicos, seu papel no desmatamento e na violência contra camponeses, indígenas e ambientalistas - seja caracterizado com o fofinho adjetivo pop pelo maior grupo de mídia do país (o mesmo grupo que, junto como outros veículos da grande imprensa, trata o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra quase como uma organização criminosa). O baronato do agronegócio adora se exibir como o grande esteio da nação (recomendo muito a leitura de excelente matéria da revista piauí derrubando vários mitos envolvendo o agronegócio) ou como o setor que alimenta o Brasil, mas cerca de  70% da comida que consumimos vêm da agricultura familiar.

Um (possível) governo Lula, infelizmente, não conseguirá enfrentar o poderio dos latifundiários (para ser franco, nem sei se terá vontade política suficiente para fazê-lo).

Mas a eleição de Lula pode, quem sabe, abrir oportunidade para que mais à frente outra conjuntura se forme e, preservada a continuidade democrática, seja possível no futuro diminuir a ação de oligarcas deste e de outros setores do Brasil.

Não é muito, mas é o que se tem por agora.


[Atualização em 26/09/2022]: Escrevi o texto acima não levando em conta a disposição golpista e autoritária de vários integrantes das Forças Armadas e das polícias espalhadas pelo país. Os eleitores brasileiros não têm garantia alguma de que esses indivíduos não vão conduzir uma insurreição armada, secundados por milhares de civis que têm seus próprios arsenais (graças às aquisições facilitadas nos últimos três anos), caso a derrota eleitoral do atual presidente - a quem apoiam - se confirme. O risco de uma insurgência urdida por fardados ou por particulares com tesão em fuzis e pistolas não é desdenhável.

[Atualização em 03/10/2022]: Passado o primeiro turno, ficou evidente que os institutos de pesquisa eleitoral erraram bisonhamente em seus levantamentos, abalando a credibilidade dessas empresas. O bolsonarismo e a direita neofascista brasileira mostraram uma força assustadora. O Senado em 2023 terá a volta de um fundamentalista evangélico e a estreia de outra, da mesma estirpe (ou até mais fanática), além do astronauta de meia tigela e do ex-juiz parcial que foi um dos responsáveis diretos pela barafunda político-institucional em que nos encontramos hoje. Na Câmara Federal, o parlamentar mais votado (para minha vergonha, aqui de Minas) é um garoto mimado cuja única expertise é "mitar" nas mídias sociais; o segundo deputado mais votado no Rio de Janeiro é o cara que esteve à frente do Ministério da Saúde durante o período em que a pasta foi ainda mais incompetente no combate à pandemia da COVID-19... Não me serve de alento saber que Andréia de Jesus foi reeleita para a Assembleia Legislativa daqui e que o PSOL mineiro conseguiu levar uma mulher indígena para o Congresso (Célia Xakriabá): o saldo desta eleição, infelizmente, é o pior possível, sobretudo porque as chances de Bolsonaro continuar na Presidência da República agora são enormes.


BG de Hoje

Às vezes fico perplexo com certas argumentações defendendo o "caminho do meio" ou a importância de manter a "neutralidade". Em muitos casos, essas argumentações são burras, covardes ou inescrupulosas. Há questões éticas que não se pode ignorar e deve-se escolher um lado. Estou longe de ser um indivíduo virtuoso: por exemplo, como carne (e acho que será assim até a minha morte), mesmo consciente da crueldade inerente à criação de animais para abate, e não sou tão humanista e tolerante quanto tento me mostrar. Ainda assim, tenho orgulho de defender determinadas pautas. Essas reflexões vêm a mim sempre que ouço a bela letra de CARLOS RENNÓ na composição Manifestação (música de Xuxa Levy, Russo Passapusso e Rincon Sapiência).

Rennó também escreveu a letra do "Hino" ao Inominável (música de Chico Brown e Pedro Luís), "homenageando" o atual ocupante da Presidência da República (que, espero, esteja fora do poder em 2023).

domingo, 28 de agosto de 2022

Absortos na vida


Momento num café, de Manuel Bandeira, é um de meus poemas prediletos. Foi reproduzido aqui no blog anteriormente, há quase dez anos.

É uma composição descritiva. 

Na pequena cena, alguns fregueses de um café tiram seus chapéus (o texto foi publicado na década de 1930, quando o chapéu era um acessório quase obrigatório) como sinal de respeito a um cortejo fúnebre que passa. Um dos homens, entretanto, não o faz "maquinalmente", escreve Bandeira, mas sim por meio de um "gesto largo e demorado/olhando o esquife longamente", porque ele sabia que "a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/que a vida é traição/e saudava a matéria que passava/liberta para sempre da alma extinta".

Se o(a) eventual leitor(a) já leu outras postagens deste Besta Quadrada certamente notou que é exatamente assim que vejo a vida - uma agitação feroz e sem finalidade. Entretanto, é dos outros fregueses do café que gostaria de falar hoje.

Por que tiraram o chapéu maquinalmente, ou seja, de forma desatenta, apenas seguindo as convenções e a etiqueta social da época? 

Porque "estavam todos voltados para a vida/absortos na vida/confiantes na vida".

Os absortos na vida são numerosos. Creio que são a maioria dos seres humanos. 

Acredito que diversas passagens de A náusea referem-se justamente a indivíduos assim. Explicarei.

Primeiro romance de Jean-Paul Sartre, publicado originalmente em 1938, A náusea (livro que tenho lido desde o final da adolescência e sobre o qual já falei em postagem de set/2014) lança mão de um velho estratagema literário: o do relato encontrado "em meio a outros registros" e transformado em publicação por certos "editores". No caso, o diário de um historiador e pesquisador chamado Antoine Roquentin, escrito quando este esmiuçava a vida de um nobre menos aquilatado, envolvido com atos de espionagem, morto na segunda década do século XIX.

Boa parte do que está no diário é resultado de observações feitas por Roquentin quando se encontrava dentro de cafés na cidade fictícia de Boeville (inspirada provavelmente numa cidade francesa real, Le Havre). É um homem solitário. "Nunca falo com ninguém; não recebo nada, não dou nada", anota ele ¹.  O que procura em estabelecimentos justamente desse tipo?

Tentar se proteger.

"As coisas não vão bem!" - registra Roquentin em certo dia - "Não vão bem de modo algum: estou com ela, com a sujeira, com a Náusea. E dessa vez é diferente: me veio num café. Até agora os cafés eram meu único refúgio, porque estão cheios de gente e são bem iluminados: já não haverá nem isso; quando me sentir encurralado em meu quarto, já não saberei aonde ir".

Porém, estar entre outras pessoas não significa necessariamente ligar-se a essas mesmas pessoas: "Estou só em meio a essas vozes alegres e sensatas. Todos esses sujeitos passam o tempo se explicando, reconhecendo com satisfação que têm as mesmas opiniões. Deus meu, que importância dão a pensar todos juntos as mesmas coisas!"

É duro (e nauseante) dar-se conta do quanto há de contingente e arbitrário na existência, divisando todas as implicações dessa constatação. Para livrar-se do peso, para não ter que encarar continuamente o insuportável absurdo, entra-se em tavernas, bares ou cafés - "bem perto das pessoas", mas "na superfície da solidão" -, pois a aparência de algo que faça sentido ou tenha propósito no existir depende da proximidade dos outros.

Note-se, entretanto, que bem poucos sentem essa náusea (ou, melhor dizendo, bem poucos falam a respeito dela, exteriorizam-na). A maioria dos indivíduos é de absortos na vida, com os quais Roquentin (e, se posso dizer, também este blogueiro) mal consegue relacionar-se:

"Como me sinto longe deles [...]. Parece-me que pertenço a uma outra espécie. Eles estão saindo dos escritórios, depois de seu dia de trabalho, olham para as casas e para as praças com ar satisfeito, pensam que essa é a sua cidade, uma 'bela urbe burguesa'. Não têm medo, sentem-se em casa. Nunca viram senão a água domada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas quando se aperta o interruptor, as árvores mestiças, bastardas, sustentadas por espeques. Eles comprovam, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismos, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem todos na mesma velocidade, o jardim público é fechado todos os dias às dezesseis horas no inverno e às dezoito horas no verão, o chumbo funde a 335°, o último bonde sai da prefeitura às vinte e três e cinco. Eles são sossegados, um pouco taciturnos, pensam no Amanhã, isto é, simplesmente um novo hoje; as cidades dispõem apenas de um único dia que retorna igualzinho todas as manhãs. Só o enfeitam um pouco aos domingos. Que imbecis! Repugna-me pensar que vou rever seus rostos espessos e tranquilos. Eles legislam, escrevem romances populistas, casam-se, cometem a extrema tolice de fazer filhos".

___________

¹ SARTRE, Jean-Paul. A náusea. 12 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. [Tradução de Rita Braga]. Todas as citações do texto de Sartre incluídas nesta postagem foram extraídas da edição referenciada.


BG de Hoje

Procuro não ser nostálgico. Odeio a frase "no meu tempo é que era bom". Existe um apego por certas canções brasileiras dos anos 1980 - época da explosão comercial do rock nacional - que eu acho insuportável. Não consigo ouvir muitas faixas daquela época justamente por causa dessa nostalgia chata. Uma das exceções é Até quando esperar, um petardo da PLEBE RUDE que sempre me pego escutando, atento e com prazer. Se a pergunta "Com tanta riqueza por aí/onde é que está/cadê sua fração?" fazia todo sentido há quase 40 anos, o que dizer agora, com a indecente concentração de renda testemunhada nos dias atuais?


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

Falou e disse...

 "Uma mulher pode - pasmem! - não desejar nenhum filho. Ou pode se achar imatura demais para ser mãe naquele momento de sua vida, mas planejar ter filhos mais tarde. Ou, o que tantas vezes ocorre, saber que a pobreza não lhe permite alimentar e cuidar bem dos filhos que já teve, por isso não saberia o que fazer com mais um. O machão carola que condena o aborto com frequência é o mesmo que abandonou mulher e filhos e desaparece para não ter que conceder a pensão prevista em lei.

A única conclusão possível depois dessas considerações [feitas pela autora nos parágrafos anteriores do texto do qual foi extraída esta citação] é a de que a criminalização do aborto reproduz, ainda que para muitos de forma inconsciente, antiquíssimos preconceitos contra a liberdade sexual da mulher. A falsa defesa dos 'direitos do embrião' e as acusações às mulheres que recorrem ao aborto não é o último, mas um dos mais hipócritas refúgios dos canalhas". *

* KEHL, Maria Rita. Hipocrisia. A Terra é redonda (website). Artigo publicado em 13/07/2022. Disponível em <https://aterraeredonda.com.br/hipocrisia/> . Acesso em: 18/07/2022

quinta-feira, 7 de julho de 2022

Não me leve a mal, mas vou torcer pelo herói


                      

A melhor maneira de definir um herói ou uma heroína, penso eu, é observar seu(s) mais significativo(s) feito(s). Com o perdão pela tautologia, um herói ou uma heroína caracterizam-se essencialmente como realizadores de um ou mais atos heroicos. Se estivermos de acordo nesse ponto, devemos nos perguntar então: o que confere heroicidade a um ato?

Creio que a maioria das pessoas dirá que um ato heroico deve denotar bravura, coragem. Uma ação dessa natureza também carrega um forte componente moral: sua finalidade é ajudar ou salvar outra(s) pessoa(s), ficando o bem-estar ou a segurança do agente em segundo plano. NOTA: Algo que me enerva profundamente é o exagero retórico típico de muitas pessoas (entre elas, jornalistas) chamando de herói um atleta que, sei lá, fez X pontos numa partida ou marcou um gol na decisão de um campeonato. É o mesmo exagero retórico que fala em time de guerreiros. Diabos me carreguem! É esporte! Não é questão de vida ou morte - ou, pelo menos, não deveria ser.

Meu intuito, ao destacar o ato e não o indivíduo que o executa, é afirmar a grande improbabilidade de alguém ser herói full time. Como se sabe, a palavra herói vem da Antiguidade e na mitologia greco-romana designava alguns semideuses, ou seja, criaturas com capacidades extraordinárias, únicas, acima do que um simples humano - um "mero mortal" - pode fazer. Essas habilidades, em geral, diziam respeito à destreza em combate ou à força física. Com o passar do tempo, o conceito de herói incorporou sentidos relacionados ao caráter dos sujeitos assim nomeados: além de corajosos e bons de briga, supostamente honrados e decentes. Ora, que homem ou mulher normal consegue ser tudo isso integralmente, em todas as fases de sua vida?

Essas questões voltaram à minha mente semanas atrás, quando reli (pela enésima vez) A hora e vez de Augusto Matraga, narrativa que fecha o Sagarana, um dos meus livros de cabeceira. De cafajeste a redentor, o protagonista dessa novela de Guimarães Rosa é, em minha opinião, a grande figura  heroica da literatura brasileira. Relembremos como se dá a transformação do personagem.

"Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato" ¹, segundo a esposa Dionóra - que foge dele para viver com outro -, Nhô Augusto é um mandachuva de roça em franca e rápida decadência. Após mais um de seus rompantes, um coronel adversário aproveita a oportunidade para ir à forra. Nhô Augusto é espancado, marcado a ferro. Tentando fugir dos capangas que queriam matá-lo, salta em uma ribanceira profunda. Gravemente ferido, quase morto, é resgatado e cuidado por um casal de pobres e velhos lavradores, Quitéria e Serapião. Aconselhado por um padre, desiste dos planos de vingança, envergonha-se do passado vil e violento  e passa a demostrar uma fé poderosa: "- Eu vou p'ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal... E a minha vez há de chegar... P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!..."

Mudando-se pra outro lugarejo mais distante acompanhado pelos campônios que o salvaram, fugindo da vida antiga, o personagem converte-se num trabalhador braçal incansável, "meio doido e meio santo", abstêmio e reservado. Contudo, passados alguns anos, "pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela". Por coincidência - ou por um lance do destino -, chega ao vilarejo justamente nessa época uma quadrilha de jagunços liderados pelo "homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem".

O povoado se assusta, mas Nhô Augusto é pura euforia. Faz questão de receber todo o bando em seu pedacinho de terra, oferecendo o que de melhor conseguiu arrecadar na vizinhança. O líder da jagunçada aprova o bom tratamento dado a seus homens; já havia simpatizado com o anfitrião antes, só de tê-lo visto caminhando na estradinha. No dia seguinte, preparando-se para partir, Joãozinho Bem-Bem diz: " - Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha...". Convida-o para integrar o "seu povo". Nhô Augusto resiste à tentação, porém. 

Tempos depois, decide ir-se embora, vagar pelo sertão, sentindo-se menos opresso pelos hábitos severos que adotara na "nova vida". Viajando montado num jumento, acaba reencontrando Joãozinho Bem-Bem e sua hoste, dentro  da casa de um fazendeiro aliado do bandido, no arraial do Rala-Coco, próximo àquele de onde o protagonista dessa história fugira. 

Chegamos ao clímax de A hora e vez de Augusto Matraga.

O chefe dos jagunços - seguindo "regras" da jagunçagem - precisa vingar a morte de um de seus sequazes, baleado "à traição" por um habitante do arraial, em fuga a essa altura. Para tanto, irá matar um dos filhos de um velho sertanejo (irmãos do rapaz em fuga) e permitir que os outros bandoleiros estuprem as filhas dele. O velho, chorando ajoelhado, implora piedade. Joãozinho Bem-Bem nega. Desamparado, mas dessa vez com fúria, o lavrador vocifera:

"- Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus p'ra ajudar a minha fraqueza no ferro da tua força maldita!..."

Nhô Augusto estava no mesmo recinto, sentado num selim velho, presenciando toda a cena, de posse das armas do recém-assassinado jagunço, que lhe foram oferecidas pelo próprio Joãozinho Bem-Bem, num segundo convite para que ele se juntasse ao bando.

Após um momento de silêncio, fala:

"- Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!"

O narrador prossegue:

"Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral".
O que se segue é uma luta sangrenta entre Nhô Augusto e alguns jagunços, culminando num duelo final, à ponta de faca e no meio da rua, entre o protagonista e o líder dos facínoras. Joãozinho Bem-Bem é morto, mas Nhô Augusto - agora Augusto Matraga ² - também morrerá, em razão dos muitos ferimentos. Enquanto tentava achar um padre para acudir, o povo do Rala-Coco dizia: "Foi Deus que mandou esse homem do jumento, por mór de salvar as famílias da gente!..."

O antropólogo Roberto DaMatta, num ensaio ³ em que classifica o personagem de Guimarães Rosa como um renunciador (alguém que representa uma "saída da 'ordem'", isto é, alguém que se livra das amarras e da fixidez das hierarquias sociais), observou que, mesmo havendo identificações entre este e Joãozinho Bem-Bem (sujeitos violentos e discricionários em suas ações, próximos do poder no Brasil rural representado na obra do escritor mineiro), a intervenção de Nhô Augusto (convertido em Augusto Matraga, ao salvar a família do velho sertanejo) "o transforma em representante do Bem, em oposição ao representante do Mal". Não há nada de simplismo maniqueísta em tal afirmação. Parágrafos acima, escrevi sobre a improbabilidade de alguém ser herói o tempo todo e preferi enfatizar o(s) ato(s) e não o indivíduo que o(s) praticou. Pessoas têm falhas e vícios, o que contrasta com a noção mais corriqueira do que seja um herói. Por isso, a ação é fundamental, determinante, mesmo em se tratando de um ser ficcional.

Nhô Augusto foi um rematado patife em grande parte de sua vida. Quando chegou a hora derradeira, entretanto, realizou um ato heroico admirável. Praticou o bem diante de um mal presente e imediato.

Penso, por exemplo, em outras figuras heroicas - dessa vez, pinçadas no mundo real: o pastor norte-americano Martin Luther King Jr, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, o jornalista australiano Julian Assange. Ainda que sejam pessoas humanamente imperfeitas, praticaram atos que demandavam grande coragem, visando ajudar outras pessoas (e todos os três colocaram suas próprias vidas em risco, sendo que o primeiro foi assassinado).
 
Mas há quem busque também pelo herói impecável.
 
. . . . . . . 
 
O episódio inicial da primeira temporada da série Reacher (disponível na Amazon Prime, estrelada pelo ator Alan Ritchson) não perde tempo com firulas. De cara, o espectador já tem um perfil completo do protagonista, não importando se não tenha lido nenhum dos livros de Lee Child (criador do personagem) ou assistido aos dois filmes em que Tom Cruise o interpretou antes. Neste episódio, nas primeiras cenas em que aparece, intimida - sem dizer uma única palavra ou fazer qualquer gesto - um sujeito que xingava e ameaçava de agressão a companheira.

Jack Reacher é um cara bonito, alto, forte, bom de briga e muito sagaz (vários dos leitores de Child elogiaram a escolha do ator que o interpreta pois se encaixaria na descrição contida nos livros). Faz tudo o que se espera do personagem central neste tipo de produto de entretenimento: investiga e desvenda um grande esquema criminoso, mata os caras maus, defende pessoas em perigo. Há uma cena no quinto episódio que acho muito prazerosa de assistir. Ao ver que o carro de uma mulher com quem estava envolvido (uma policial) foi pichado com a palavra "whore", ele vai tirar satisfações com o filho mimado do ricaço da cidadezinha onde estava. Poucas vezes vi um tapa na cara tão bem dado.

A atração da Amazon Prime não se preocupa em fugir dos clichês; o herói ali retratado também não tem nada de inovador ou surpreendente - e quem já viu (num filme ou seriado) um ex-militar dos EUA, hétero e branco, salvando o dia, já viu todos. Ainda assim, considero um programa de TV muito bom (não que eu dê muita bola para isso, mas o agregador de resenhas Rotten Tomatoes registra 90% de opiniões favoráveis a Reacher). Será que nós (falo dos espectadores saturados com os produtos televisivos norte-americanos) viramos um público tão pouco exigente?
 
Minha resposta será simples - talvez até simplória. Paciência; é o que tem pra hoje.
 
Grande parte (talvez a maioria) das iniquidades do mundo não é e não será punida. Fraudadores e sonegadores continuam ganhando muito dinheiro com falcatruas; bilionários continuam explorando pessoas; políticos e agentes públicos continuam prevaricando. Bullies seguem oprimindo; predadores sexuais seguem atacando; racistas seguem propagando ódio; assassinos seguem espalhando terror. Acho risíveis afirmações de que há mais pessoas boas do que pessoas más no planeta ou o otimismo de intelectuais como Steven Pinker. Atos perversos costumam provocar danos de grande alcance e longa duração, mesmo que vivamos no "melhor dos mundos possíveis".

É aí que entra a ficção.

É satisfatório e recompensador ver ou ler - pelo menos na ficção - que o cara mau levou o que merecia.

Cheguei a um ponto em que me contento com pouco. Por isso, sempre torço para os heróis em narrativas inventadas.

___________

¹ ROSA, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. In: _________. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (p. 363-413). Todas as citações do texto de Rosa presentes nesta postagem foram retiradas dessa edição.

² Importante mencionar que, no texto, João Guimarães Rosa não explica o que significa a alcunha Matraga, nem como ela foi adicionada à figura de Augusto Esteves.

³ DaMATTA, Roberto. Augusto Matraga e a hora da renúncia. In: __________. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 303-334

BG de Hoje

Como alguns outros grupos de heavy metal, o AVENGED SEVENFOLD foi abrandando sua música ao longo dos mais de 20 anos de existência da banda (não vejo nada de errado nisso, diga-se de passagem). A desaceleração nos instrumentos é nítida, bem como a aproximação com o rock pesado mais tradicional. Um exemplo disso é a canção que dá título a um dos últimos trabalhos de estúdio do grupo, lançado há quase dez anos. A sonoridade e a temática de Hail To The King quase derrapam na breguice de alguns representantes dessa vertente musical (penso, por exemplo, no burlesco Manowar), mas, ao cabo, é uma faixa que se ouve com satisfação.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Sentir a luxúria única de não ter já esperanças


Não tem jeito. Vou cair no exercício fácil de falar de textos bastante conhecidos. Fazer o quê? Nestas últimas semanas, tão pesadas para mim, busco refúgio em escritores que já li tantas vezes.

Fernando Pessoa, por exemplo. Em especial, poemas do heterônimo Álvaro de Campos.

Comecemos por Adiamento ¹:

 
"Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir..."

Um intérprete bem obtuso do poema tomaria o eu lírico (ou eu poético, se assim desejarem) como um procrastinador um tanto cínico. 

Falando nisso, o(a) eventual leitor(a) já reparou que a procrastinação é vista como um dos grandes pecados contemporâneos? Pelo menos é o que diz esta numerosa galera do palavrório motivacional - gurus de autoajuda, coaches e quejandos -, sempre com livros, cursos, palestras ou vídeos do tipo "sete dicas" para reprogramar seu "mindset", desbloquear o poder da mente e tornar-se um exemplo de produtividade.

Produtividade. Conceitozinho maroto...

Claro, ninguém gosta de se sentir improdutivo, penso eu. Mas o que de fato significa ser produtivo, sobretudo quando lembramos que, na ordem capitalista vigente, a imensa maioria das pessoas neste mundo só consegue obter algum dinheiro (necessário para sua subsistência) vendendo (a preço nada justo) sua força de trabalho em ocupações que elas não escolheriam se tivessem opções menos ruins? Nesse caso, em última instância, ser um exemplo de produtividade está beneficiando a quem exatamente? Sem falar que o discurso da produtividade quase sempre vai ao encontro da exploração econômica que nos está conduzindo ao colapso ambiental. 

Essas questões, entretanto, são assuntos para outro chopp. 

O que seria o adiamento na composição acima? Creio que um dos sentidos possíveis está diretamente ligado a este trecho:

"Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã..."

Embora o vocábulo não apareça em nenhum verso, a noção de desesperança - melhor dizendo, a recusa em se ter esperança - é importante para que consigamos apreender esse sentido.

Há um evidente escárnio: preparar-se amanhã para conquistar o mundo no dia seguinte equivale, no fim das contas, a não se preparar. 

Para que preparar-se, afinal? Não compensa, não vale a pena; a vida não passa de um logro. E toma-lhe mais um pouco de ironia amarga  - "depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser". Se não há esperança, não há motivo para planos. Adie-se tudo, pois, indefinidamente.

Ora, o mundo, imenso, é ainda por cima "opaco" e "alheio", como se lê noutro poema, o celebérrimo Tabacaria (o mundo é também hostil, acrescentaria eu). Para aqueles de nós que falharam em tudo, não é difícil às vezes olhar ao redor e sentir que se perdeu a "irmandade com as coisas":

"Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isso me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo".

Esses versos sempre me lembram A náusea, de Sartre (livro que, em breve, será novamente assunto aqui no blog).

Planos, projetos... Quanta inutilidade! Como está escrito em Pecado original,"somos todos quem nos supusemos/A nossa realidade é o que não conseguimos nunca" (assim é pelo menos para alguns de nós).

Porém, o pretexto para esta postagem veio especificamente de um poema sem nome de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, do qual gosto bastante. Reproduzo-o abaixo, na íntegra:

"Estou cansado, é claro.
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
 
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para alguma coisa".

Sorrir em meio ao cansaço (não se está, obviamente, falando de fadiga física) pode soar como um contrassenso à primeira vista. Entretanto, com o passar do tempo e para quem o vivencia, o desconsolo se torna um sentimento familiar, natural, que o "entendimento retrospectivo" consegue examinar, talvez não propriamente de maneira prazerosa, mas com um pequeno e insólito interesse ("que afinal a cabeça sempre serve para alguma coisa"). Quando deixamos de nutrir ilusões, quando nos vemos completamente sem esperanças, a sensação é mesmo quase luxuriante (parece desarrazoado dizer isso, mas não é mentira). 

Pessoalmente, porém, se pudesse experimentar, preferiria outras luxúrias.

 

Na próxima postagem, falarei de uma novela de Guimarães Rosa e de uma série de TV.

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¹ Todos os textos citados nesta postagem estão em Poemas de Álvaro de Campos: obra poética IV (Editora L&PM, 2006)


Homenagem


Dias atrás a oposta Sheilla Castro decidiu encerrar a carreira como atleta profissional de voleibol indoor. Trata-se de um dos maiores nomes desse esporte, no país e no mundo (há quem diga que foi a melhor jogadora brasileira de todos os tempos). Iniciou sua trajetória no Mackenzie, mas foi no Minas Tênis, outro clube aqui de Belo Horizonte, que ela despontou em 2001. Lembro-me bem desse período. Hoje Sheilla faz parte da comissão técnica do time feminino do Minas. Embora discorde de alguns de seus posicionamentos, como fã de vôlei, sempre tive grande admiração por ela. Vai ser difícil aparecer outra com tanto talento. Quem também está deixando de competir profissionalmente é a central Walewska Oliveira, duas vezes medalhista olímpica (bronze em Sydney/2000 e ouro em Pequim/2008), sinônimo de elegância dentro e fora da quadra.

BG de Hoje

Estou cada vez mais obcecado com a discografia do cantor e compositor canadense Dallas Green (que adota o nome artístico CITY and COLOUR). Das melhores "descobertas" recentes que fiz. Tenho ouvido (quase de forma ininterrupta) os cinco álbuns gravados por ele até agora. As melodias e arranjos maravilhosamente simples, a voz e - não menos importante - as letras cheias de melancolia: combinação cujo resultado é música bem acima da média. Nos últimos dias, às vezes me pego cantarolando estes versos do refrão de Two Coins: "I've always been dark/with light somewhere in the distance". Não é incomum que as apresentações do City and Colour não tenham mais que o artista e seu violão (como no vídeo abaixo). Sugiro, entretanto, ao(à) eventual leitor(a) que procure ouvir essa mesma canção acompanhada de outros músicos, como está no disco The Hurry and The Harm, lançado em 2013. Ficou linda.