quarta-feira, 29 de abril de 2015

"Uma forma de insanidade socialmente aceitável"


Duas narrativas cinematográficas põem fim a essa breve discussão sobre histórias de amor esboçada nas últimas semanas. NOTA: Esteja o(a) eventual leitor(a) ciente de que o conteúdo dessa postagem é SPOILER.

Convém dizer que o primeiro filme observado, Interestelar (Interestellar - direção de Christopher Nolan, 2014) não descreve um relacionamento protagonizado por um casal (a forma mais usual de se conduzir uma história de amor). Nem por isso, contudo, deixa de explorar o decantado sentimento, sobretudo na seguinte fala da personagem Amelia Brand (interpretada por Anne Hathaway):

" O amor não é algo que inventamos. É perceptível, poderoso. Precisa significar algo [...]. Talvez signifique algo mais que ainda não  podemos compreender. Talvez seja alguma evidência ou artefato de dimensão superior que não notamos conscientemente. Estou atraída por alguém do outro lado do universo que não vejo há uma década, que deve estar morto. O amor é a única coisa capaz de transcender as dimensões do tempo e do espaço. Talvez devêssemos confiar nisso, ainda que não compreendamos".

A personagem, uma cientista (bioquímica, acho) altamente qualificada, faz essa peroração no momento em que ela e seus companheiros de espaçonave precisam decidir qual destino dar à missão cujo objetivo é - nada mais, nada menos - garantir a sobrevivência da humanidade.

Devo assinalar que esse filme não mantém o elevado padrão de trabalhos anteriores de Christopher Nolan (todos em parceria com o irmão roteirista Jonathan). Está bem abaixo, por exemplo, de A origem (Inception, 2010) e ainda mais inferior ao sensacional Amnésia (Memento, 2000). Em comum entre essas produções estão as reviravoltas concernentes à questão do tempo e à noção de realidade. Interestelar, todavia, me desagrada particularmente por causa de um clichê hollywoodiano insuportável. A catástrofe ou o cataclismo afetarão um contingente enorme de pessoas (no caso desse filme, toda a espécie humana), mas a salvação geral tem que passar, inevitavelmente, pela resolução de um prosaico drama familiar (a mágoa de uma filha em relação ao pai, nesse caso). Os únicos personagens em Interestelar que manifestam preocupação para além do limitado círculo da afeição doméstica são representados de forma negativa*, sendo que o Dr. Mann (interpretado por Matt Damon, numa aparição curta) é um canalha de marca maior.

Voltemos, porém, à fala de Amelia Brand. Ao dizer que "o amor precisa significar algo", ela vê uma condição necessária onde só há o seu desejo pessoal. Uma cientista de alto nível não raciocinaria assim. O pequeno discurso é inverossímil (não o seria, porém, caso fosse dito por um outro personagem, com um desenvolvimento intelectual inferior, sei lá). Mas isso pouco importa porque, no enredo do filme, é a Dr. Brand quem tem razão e durma-se com um barulho desses... E, cá entre nós, a frase "O amor é a única coisa capaz de transcender as dimensões do tempo e do espaço" é de uma pieguice sem tamanho. Pra não dizer que tudo é ruim em Interestelar, achei formidáveis os robôs TARS e CASE.


O segundo filme observado, Ela (Her - direção de Spike Jonze, 2013) é uma joia. Love story futurística, narra a ligação amorosa surgida entre um homem solitário (Joaquin Phoenix) e um assistente virtual/sistema operacional de computador (voz de Scarlett Johansson). Ela permite todo tipo de abordagem crítica direcionada para a análise das relações interpessoais modificadas pelo advento das novíssimas tecnologias de informação e comunicação, assim como promove uma reflexão sobre os processos de sociabilidade contemporânea. Mas esse não é meu interesse agora. Quero destacar outros dois pontos.

Samantha (o assistente virtual/sistema operacional) é a quintessência das formas de AI (artificial intelligence). É completamente autônoma, desde o momento em que começa a funcionar (é ela própria quem determina seu nome). Graças à imensa memória de máquina e a gigantesca capacidade de processamento de dados, Samantha, muda para outro estágio, digamos, existencial, ao mesmo tempo em que experimenta os sentimentos e as contradições humanas. E pode-se especular se sua mudança - como consciência - seria possível sem sua concomitante humanização. Seja o que for, sua evolução implica em ir embora, deixar inclusive Theodore, a quem amava. E este é um elemento primoroso desse filme: lembrar que os indivíduos não devem perder sua autonomia, mesmo se emaranhados numa paixão desmedida (caso isso exista). Há um diálogo bastante revelador do que estou falando. Theodore, em certo momento, não consegue encontrar Samantha. Após restabelecer contato, ele descobre estar sendo "traído". Segue o diálogo:

"- Achei que fosse minha. 
- Eu continuo sendo sua. Mas com o tempo, passei a ser muitas outras coisas também. É inevitável [na verdade, em inglês, o que ela diz é "I can't stop it" e não "It's inevitable"]. 
- Como assim, é inevitável? 
- Isso também me angustia. Não sei o que dizer [Ou seja, sua mudança de consciência a conduzirá a essa situação]".

Logo depois, no mesmo diálogo, o confuso protagonista diz: "Você é minha ou não é minha". Samantha, corretamente, declara: "Não, Theodore. Eu sou sua e não sou sua". O amor muitas vezes está ligado à ideia de posse egoística: Theodore ainda não consegue superar isso. Samantha, por sua vez, proclama sua autonomia, sua independência como individualidade.

Por fim, o título desta postagem foi retirado da fala da personagem Amy (interpretada por Amy Adams), melhor (e talvez única) amiga do protagonista. Em certo momento em que ela tenta definir o que é apaixonar-se, diz se tratar de "uma forma de insanidade socialmente aceitável"

Eu não poderia achar definição melhor.

* John Brand (interpretado por Michael Caine), o físico que coordena a missão espacial e também o formulador da teoria que pode ajudar a salvar as pessoas, fica marcado, no momento de sua morte, com a pecha de mentiroso. É mole?

BG de Hoje

No final dos nos 1990, MOBY conseguiu converter a música eletrônica (que acho muito enjoada) em um espaço de criatividade. É o caso dessa hipnótica Honey, que vai se "cobrindo de camadas" sonoras a cada momento.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Amor: um trunfo da ficção


Dias atrás, eu disse não gostar de histórias de amor. Lembrei-me já ter escrito aqui, numa postagem relativa ao filme A primeira noite de um homem, que o amor é uma palavra (e também um conceito) que se desgastou bastante mas, mesmo assim, adquiriu importância cultural e simbólica gigantesca graças a obras ficcionais, principalmente literárias. Ou seja, aquilo que chamamos amor é, em grande parte, derivado de um artifício, de uma invenção. No caso da Literatura, o conceito foi sendo construído unicamente através de recursos de linguagem e, não obstante, influenciou as representações sociais. Com a disseminação do Cinema no século XX, entretanto, a circulação de narrativas amorosas se ampliou enormemente. E hoje em dia, junto com as canções populares, temos os filmes - e não mais os livros - como grandes veiculadores de um certo discurso do amor.

Pelo que me dizem, o amor é algo real e manifesta-se sem necessidade da mediação ficcional ou do apelo à imaginação, embora deva ser um fenômeno raríssimo, penso eu. Não estou querendo alegar que só faz sentido falar do amor por meio do artifício da ficção. Apenas considero que esse tópico foi (e continua sendo) um dos maiores trunfos das narrativas ficcionais, explorado recorrentemente pelos artistas desde que o mundo é mundo. Esse trunfo está o tempo todo diante de nós, quando se lê, por exemplo, Romeu e Julieta ou quando se assiste a Titanic. Somos muito suscetíveis às sugestões provenientes do mundo da ficção e acabamos conferindo às sensações e sentimentos experimentados um grau de elevação e intensidade pouco (ou nada) verificável no plano factual.

Isso, porém, é só a opinião deste mísero blogueiro.

. . . . . . .

Falemos agora de um livro feito sob medida para essa conversa. Refiro-me a O amor nos tempos do cólera*.

Antes de prosseguir, contudo, devo prevenir o(a) eventual leitor(a): não gosto desse romance e García Márquez não figura entre meus escritores prediletos. Cá estão, obra e autor, apenas pela conveniência do tema.

Atentemos para uma passagem do livro em que o narrador nos fala de uma crise surgida porque Juvenal Urbino fez, como era usual para ele, pequenos barulhos que exasperavam a esposa, Fermina Daza, com quem era casado há décadas, durante o meio-sono dela. A mulher

"Então rolava na cama, acendia a luz sem a menor clemência para consigo mesma, feliz com sua primeira vitória do dia. No fundo era um jogo de ambos, mítico e perverso, mas por isso mesmo reconfortante: um dos muitos prazeres perigosos do amor doméstico. Mas foi por causa de um desses brinquedos triviais que os primeiros trinta anos de vida em comum estiveram a ponto de se acabar porque um certo dia faltou sabonete no banheiro".

Como a narrativa abarca mais de meio século da vida de seus personagens centrais (além dos citados, o obcecado Florentino Ariza completa o triângulo), O amor nos tempos do cólera vai conseguindo corroer aos poucos a noção um tanto tola de amor romântico, ainda persistente na cabeça de boa parte das pessoas. O trecho acima parece nos dizer: não há amor puro e verdadeiro (assim é idealizado o amor romântico) que resista à rotina de quase 60 anos de casamento! Como escrevi, o excerto parece dizer isso; o leitor, entretanto, deve ficar atento pois o narrador se vale o tempo todo da amplitude de sentido da palavra amor (exceto nas muitas vezes em que  amor  é, de forma inequívoca, sinônimo de sexo).

Logo mais à frente, em decorrência da "crise do sabonete", ficamos sabendo

"[...] que o incidente lhes deu a oportunidade de evocar outros arrufos minúsculos de outras tantas manhãs perturbadas. Uns ressentimentos mexeram em outros, reabriram cicatrizes antigas, transformaram-se em feridas novas, e ambos se assustaram com a comprovação desoladora de que em tantos anos de luta conjugal não tinham feito mais do que pastorear rancores"

É de se notar que, apesar de "pastorearem rancores", o narrador busca convencer o leitor de que ali há amor e dos mais poderosos; noutro capítulo, mais adiante, lê-se:

"Tinham contornado juntos as incompreensões cotidianas, os ódios instantâneos, as grosserias recíprocas e os fabulosos relâmpagos de glória da cumplicidade conjugal. Foi a época em que se amaram melhor, sem pressa e sem excessos, e ambos foram mais conscientes e gratos pelas vitórias inverossímeis contra a adversidade".

É provável que minha insatisfação com esse livro em particular decorra da antipatia que sinto por seus personagens-chave. De todo modo, O amor nos tempos do cólera, apesar de ser mais uma obra a lançar mão do trunfo mais manjado entre os tópicos recorrentes da Literatura, tem como maior mérito - repito - a corrosão (ainda que parcial, para meu desapontamento) da representação romântica do amor. NOTA: Vale acrescentar (aqui dou o braço a torcer) que o último capítulo de O amor nos tempos do cólera deve ser incluído entre as páginas mais bem escritas da Literatura latino-americana em todos os tempos.

Há outro grande tema nesse livro: a velhice, ou melhor dizendo, o envelhecimento. É justamente o que mais me interessa nessa narrativa, mas como a postagem já está muito extensa, deixo para outra oportunidade.

Na próxima semana, continuo falando do assunto amor. Dessa vez, porém, a conversa será sobre dois filmes.
_________________
* MÁRQUEZ, Gabriel García. O amor nos tempos do cólera. 39 ed. Rio de Janeiro: Record, 2012 [Tradução de Antonio Callado]

BG de Hoje

A canção do BG não é das melhores entre aquelas gravadas por ERIC CLAPTON. Não tem a pujança de sua época áurea, nos grupos Cream e Derek and The Dominos, nem a elegância de sua atual fase, mais acústica e bluseira. Ainda assim, qualquer coisinha do Eric Clapton, como esta Bad Love, é melhor do que as porcarias que estão sendo lançadas por aí. OBS: Na gravação do disco e no clipe abaixo, participação especial de Phil Collins, na bateria e nos vocais.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sobre Americanah e sobre histórias de amor


Num salão de beleza, Ifemelu - a protagonista do romance Americanah* - é interpelada por uma outra cliente a respeito do livro que tinha nas mãos. A moça faz uma indagação trivial: o livro é sobre o quê? "Por que as pessoas perguntavam ' É sobre o quê?, como se um romance só pudesse ser sobre uma coisa? Ifemelu não gostava da pergunta [...]", nos diz a voz que conduz a narrativa.

Talvez a autora de Americanah, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, estivesse, nesse trecho de seu livro, expondo um ponto de vista pessoal por intermédio da personagem. Digo isso porque, na famosa conferência da escritora para o TED há alguns anos (disponível na íntegra aqui), na qual ela alertava para o perigo de uma história única, Chimamanda defendera que "Histórias importam. Muitas histórias importam". Ou seja, a pluralidade das narrativas é essencial. E aqueles que se propõem a narrar não devem se prender  a um só tema, a uma só questão, sob pena de, com a abordagem reducionista, perpetuarem estereótipos.

A instável situação política da Nigéria na década de 1990; às constantes greves nas universidades do país; as agruras experimentadas pelos imigrantes africanos nos EUA e na Inglaterra; o racismo e o sexismo, tanto velados quanto escancarados, a envenenar as relações sociais, a eleição de Barack Obama - tudo isso (e mais um pouco) pode ser encontrado em Americanah. O grande número de personagens secundários proporciona à autora a abordagem de diferentes questões sem comprometer a fluidez narrativa do romance. Outro recurso valioso é a reprodução de algumas postagens do (fictício) blog Raceteenth, produzido pela personagem central do livro.

Mas Americanah é, principalmente, uma grande história de amor, contando o encontro-desencontro-reencontro de Ifemelu e Obinze: uma história de amor vertebrada por análise política, crítica social e, muitas vezes, bom humor. Curiosamente, a propósito, ficamos sabendo na primeira parte do livro que a então adolescente Ifemelu "achava bobos aqueles romances água com açúcar que são vendidos nas bancas de jornal", mas ao dançar com Obinze, logo após conhecê-lo, percebe, "com susto, que havia um traço de realidade nesses romances". Importante salientar que o trabalho de Chimamanda está anos-luz de distância das historietas de amor popularescas. Deve ser por isso que gostei tanto dele, apesar de geralmente depreciar livros cujo tema central seja o amor (assunto para a próxima postagem).

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Antes de terminar, gostaria de discutir uma passagem do livro apresentado.

Em certo momento da narrativa, Ifemelu, mais adulta e melhor adaptada aos EUA (para onde migrou), escreve em seu blog:

"Sabe qual é a solução mais simples para o problema da raça nos Estados Unidos? O amor romântico. Não a amizade. Não o tipo de amor tranquilo e superficial cujo objetivo é manter as duas pessoas confortáveis. Mas o amor romântico profundo e real, do tipo que retorce e estica você e faz que respire através das narinas da pessoa que ama. E como esse tipo de amor romântico profundo e real é tão raro e como a sociedade americana é feita de modo a torná-lo ainda mais raro entre um negro americano e um branco americano, o problema da raça nos Estados Unidos nunca vai ser resolvido".

Se aplicarmos a análise também à sociedade brasileira, penso haver, a partir desse pequeno (mas significativo) trecho, três pontos que nos conduzem a uma reflexão mais ampla:

1) Para compreender com a intensidade necessária os efeitos do racismo, seria preciso desenvolver uma empatia tal que levasse o sujeito branco a conseguir respirar "através da narinas" do outro sujeito - negro - que sofre esses efeitos

2) A autora admite que o "amor romântico profundo e real" - a modalidade mais intensa da empatia acima mencionada - é deveras incomum. É o caso de perguntar: não seria ele somente verificável nas narrativas ficcionais?

3) A mais poderosa forma de racismo - o racismo institucionalizado na publicidade, no mundo corporativo e do trabalho, na esfera acadêmica, entre outros espaços - não favorece a sustentação de um ambiente sociocultural em que a empatia de que estamos falando possa se manifestar.

* ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah. São Paulo: Companhia das Letras, 2014 [ Tradução de Julia Romeu]

BG de Hoje

O rap não me atrai muito. Só tenho um conhecimento superficial do gênero. Muito superficial, aliás. Outro dia, porém, assistindo ao programa Manos & Minas, da TV Cultura, vi EMICIDA (acompanhado por uma banda competente) interpretar algumas de suas composições. Entre essas, Noiz, com sua levada acentuadamente roqueira. Gostei. OBS: Ao final do vídeo, participação da poeta e atriz Elisa Lucinda.


segunda-feira, 30 de março de 2015

Apontamentos sobre a difícil arte da leitura e outras divagações (III)


Como está a cabeça dos jovens de hoje?

O filósofo francês Michel Serres, num pequeno livro (insólita e ridiculamente) intitulado Polegarzinha*, afirma que os jovens, além de outras características, são atualmente "formatados pela mídia propagada por adultos que meticulosamente destruíram a faculdade de atenção deles, reduzindo a duração das imagens a 7 segundos e o tempo de resposta às perguntas a 15 - são números oficiais". Esses sujeitos desenvolvem um outro tipo de relação com o universo livresco e, por conseguinte, instruem-se de modo bastante diverso daquele em que se educaram seus pais, por exemplo. Escreve o ensaísta: 

"Nós, adultos, transformamos nossa sociedade do espetáculo em sociedade pedagógica, cuja concorrência esmagadora, orgulhosamente inculta, ofusca a escola e a universidade. Pelo tempo de exposição de que dispõe, pelo poder de sedução e pela importância que tem, a mídia há muito assumiu a função de ensino
Criticados, menosprezados, vilipendiados, já que pobres e discretos [...]**, nossos professores se tornaram os menos ouvidos dentro desse sistema instituidor dominante, rico e ruidoso".

Por outro lado (e dessa vez mais otimista***), o filósofo francês acrescenta que

"As ciências cognitivas mostram que o uso da internet, a leitura ou a escrita de mensagens com o polegar, a consulta à Wikipédia ou ao Facebook não ativam os mesmos neurônios nem as mesmas zonas corticais que o uso do livro, do quadro-negro ou do caderno. Essas crianças podem manipular várias informações ao mesmo tempo. Não conhecem, não integralizam nem sintetizam da mesma forma que nós, seus antepassados.
Não têm mais a mesma cabeça".

Falar da influência dos mass media na educação já não é novidade desde McLuhan, mas nem por isso trata-se de uma discussão caduca. Os meios audiovisuais para a comunicação de massa e a publicidade podem ter se tornado dominantes em matéria de ensino há bastante tempo, como ressalta Michel Serres, mas a escola, institucionalmente falando, permanece até hoje presa à mesma organização e aos mesmos rituais existentes desde antes dessa dominação. E tudo se torna ainda mais complexo com o advento do ciberespaço e dos dispositivos tecnológicos contemporâneos (smartphones, tablets, notebooks, consoles para games).

Para ser justo com o autor, o pequeno livro de Serres vai ganhando viés francamente otimista no avançar das páginas (v. terceira nota de rodapé ao fim desta postagem). Este blogueiro, entretanto, é cronicamente um pessimista.

Se concordarmos com o filósofo francês que o indivíduo hoje tem uma outra cabeça (e isso, penso eu, não se aplica apenas ao jovem), é pouco provável, porém, que esse mesmo sujeito esteja disposto a enveredar-se por uma difícil arte chamada leitura (com sua "antiquada" maneira de prover conhecimento) . Importante: não me refiro aqui à leitura funcional, garantida àqueles adequadamente alfabetizados e prática indispensável em nosso atual estágio civilizatório. Tenho em mente um tipo de leitura que chamaria, na falta de melhor nome, de leitura imersiva. Esse tipo de leitura roga ao sujeito sua concentração, sua curiosidade, sua paciência, sua perspicácia, às vezes sua rendição (e, às vezes, sua resistência), seu ceticismo, seu espanto, sua incerteza e fragilidade. Não raro, a leitura imersiva exige do leitor tudo isso ao mesmo tempo. Mais do que pura técnica, a arte da leitura imersiva presume um estado de espírito bem pouco comum na maioria dos indivíduos habilitados a ler nos dias atuais,

Por isso, para muitos, essa leitura - considerada difícil - não será sequer tentada. Tal situação deixa alguns educadores hesitantes (como este blogueiro) e os coloca numa posição bem incômoda.

Na próxima semana escreverei sobre o romance Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie.
__________
* SERRES, Michel. Polegarzinha. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013 [ Tradução de Jorge Bastos]

** No trecho suprimido da citação, Serres fala especificamente da situação dos professores universitários franceses, mas, mutatis mutandis, pode-se aplicar a observação ao caso brasileiro.

*** O ensaísta acredita que a emergência dessa nova mentalidade juvenil e o atual momento histórico podem ocasionar mudanças positivas na sociedade e nas suas instituições. E procura demonstrar isso no decorrer do livro.

BG de Hoje

Não preciso dizer nada. Uma das mais preciosas jóias da música pop em todos os tempos: Time of the season (THE ZOMBIES)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Apontamentos sobre a difícil arte da leitura e outras divagações (II)


Terminei a postagem anterior perguntando se os leitores, hoje tão ansiosos pela facilitação das coisas e dos processos (inclusive em relação aos atos de leitura) poderiam, de alguma forma, ser afetados por uma literatura que vá além do puro entretenimento (e quem sabe, por isso, uma literatura mais "difícil"). NOTA: O verbo afetar vem sendo utilizado aqui num sentido muito específico, entre suas várias acepções. Afetar, nesse contexto, significa "impressionar afetivamente; comover; sensibilizar"*.

Antes de prosseguir, gostaria de fazer algumas observações sobre o livro A mocinha do Mercado Central**, de Stella Maris Rezende. Anteriormente, eu havia mencionado essa autora por conta de uma entrevista na qual ela defendia uma arte literária que buscasse ser mais parecida com a "condição humana: contraditória, angustiante, ambígua, inexplicável, complexa e difícil". Por falar em "difícil", é esse o adjetivo ocasionalmente empregado para se referir aos textos da escritora mineira. No caso de A mocinha do Mercado Central, há ainda a abordagem de temas pouco usuais (estupro, suicídio, solidão), sem, contudo, abrir mão de sua capacidade encantatória, fugindo de armadilhas comuns aos estereótipos presentes na literatura para jovens.

A narração frequentemente se desloca entre os sonhos, lembranças e a imaginação solta da protagonista Selma Gilda Nídia Míriam Simone Teresa Zoraida ou, simplesmente, Maria Campos. Desprevenido, se apenas adestrado por histórias em formato linear e convencional, um possível jovem leitor (estou somente conjecturando) talvez se queixe: "Que livro difícil!". É possível também que a suposta dificuldade não seja causada pelas escolhas lexicais da autora, nem pela sua sintaxe (nesses quesitos, o texto de Stella Maris é saudavelmente simples). Suponho que a pecha de "difícil" tenha mais a ver com as experiências, exigências e expectativas - menos arrojadas e sofisticadas atualmente - do público leitor em geral.

Há um curioso trecho em A mocinha do Mercado Central no qual a protagonista vai a uma feira de livros. Na sua cabeça, escuta a voz da tia, leitora inveterada, sugerindo-lhe que ao menos dê uma folheada num dos exemplares expostos. Em pensamento a jovenzinha responde:

"Ô tia, não adianta, eu não nasci pra gostar de livros. Gosto de cinema e de viajar, gosto de imaginar, dessas coisas eu gosto, mas não tenho paciência pra pegar um livro e ficar ali quieta, lendo, feito pamonha". A voz narrativa acrescenta em seguida: "Andou mais um pouco. Viu rapazes e moças da idade dela com os olhos grudados nos livros sentados em bancos aqui e ali. Não sentiu inveja. Ela possuía suas viagens, suas ' imaginagens ', seus filmes".

Vale dizer que a personagem desenvolverá perspectiva diferente com relação à leitura noutro momento da história, ao se maravilhar com a obra de Fernando Pessoa. Mas, na passagem acima citada, Stella Maris Rezende parece nos lembrar que, embora o ato de ler (sobretudo ficção e poesia) seja do maior interesse para alguns indivíduos, muitos outros mais vão se inclinar para atividades diversas, sem que se tornem com isso sujeitos menos capazes de elaborar suas "imaginagens". Os militantes da leitura (este blogueiro inclusive) precisam aceitar que c'est la vie.

Voltando, entretanto, à questão inicial dessa postagem - leitores ansiosos pela facilitação poderiam ser afetados por uma literatura mais difícil, além do mero entretenimento? - diria que tal possibilidade depende de um outro tipo de disposição intelectual e de uma nova abertura estética por parte desses leitores. Algo que considero bastante improvável, porém.

Termino essa série de postagens nas próxima semana.

* Tal como se pode encontrar na acepção n. 5 do verbete AFETAR no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, ed. 2004. p. 101.

** REZENDE, Stella Maris. A mocinha do Mercado Central. São Paulo: Globo, 2011 [Ilustrações de Laurent Cardon]

BG de Hoje

Dia desses estava num dos meus antros preferidos - o Bar do Dinei - quando, do toca-discos (sim, lá tem um toca-discos) salta RAUL SEIXAS. Zeca Baleiro, numa canção bem humorada, notou que certos fâs do artista baiano manifestam-se e comportam-se de um modo tal que "parece uma seita". E, infelizmente, por causa desses fanáticos (conheço alguns bem chatos), fiquei um certo tempo sem ouvir o bom Raulzito. E nesse dia, lá no Boteco do Dinei, enchendo a cara, foi prazeroso ouvir o Há 10 mil anos atrás, disco em que eu destacaria Meu amigo Pedro, sensacional letra de Paulo Coelho, sobre a "eterna batalha" entre a caretice e a porra-loucura.

terça-feira, 17 de março de 2015

Apontamentos sobre a difícil arte da leitura e outras divagações (I)

O Besta Quadrada anda pisando na bola. Longos períodos de inatividade se somam a promessas não cumpridas. Este blogueiro não havia dito anteriormente que o tema a ser tratado seria o suicídio (e a primeira das postagens relativas ao assunto já não deveria ter saído há quase um mês)? Serei honesto: estou intoxicado pela mais abjeta preguiça. Além do mais, os textos que estava escrevendo sobre o tema indicado ficaram longos e chatos e preferi guardá-los por um tempo, até que possa tentar melhorá-los. Ao(à) eventual leitor(a) - caso algum(a) esteja por aí - só posso apresentar essa justificativa descarada, infelizmente. Mas prossigamos, agora falando de outra coisa bem diferente.

. . . . . . . 

Dias atrás, li uma entrevista, publicada em dezembro último na revista Língua Portuguesa*, com a escritora Stella Maris Rezende (disponível aqui). A autora, cuja obra destina-se ao público juvenil, costuma ter seu texto classificado como "difícil". Ao ser questionada a esse respeito, ela responde:

[..] Em certos momentos da vida, qualquer leitor pode querer anestesiar-se, ler para entreter-se e esquecer os problemas do mundo. Mas os problemas estão lá, no coração e na mente, o tempo todo. Por mais que o leitor fuja da realidade trágica, por meio de estereótipos e superficialidades, em sua intimidade, sente falta de uma arte mais parecida com sua condição humana: contraditória, angustiante, ambígua, inexplicável, complexa e difícil".

E acrescenta mais adiante, noutra resposta:

[...] Há autores que escrevem com a intenção clara de atender às expectativas do leitor, atraem centenas de jovens às sessões de autógrafo e isso é admirável, além de provar que o jovem gosta de ler! Respeito esses autores, mas imagino que seus leitores um dia vão sentir falta de algo mais elaborado e rico de significados. Daí a importância dos professores que sejam grandes leitores de literatura. Podem revelar aos jovens que, paralelamente a essa literatura de entretenimento, há a arte literária, que fala de alegrias e dramas com diferentes pontos de vista, sem didatismos e concessões. Uma literatura mais parecida com a condição humana: infinitamente complexa e difícil, mas encantadora".

Acredito que atravessamos uma época de anseio (quase maníaco, nalguns casos) pela facilitação das coisas, dos processos. Desejável e necessária, sem dúvida, em determinados setores (comunicação e acesso à informação, transporte de pessoas e transporte de carga, por exemplo), essa preocupação em tornar tudo mais fácil é questionável (ou não aplicável) quando direcionada para outras áreas, como a pesquisa científica básica experimental. Ou a reflexão filosófica. Ou a arte (por exemplo, a arte literária). Esses empreendimentos, não obstante suas especificidades, desejam atingir justamente a complexidade subjacente às coisas do mundo. Tais empreendimentos não são melhores nem piores do que as outras ações humanas. Somente têm perspectivas distintas (não facilitadoras) sobre a existência.

Qual a relação da "difícil arte" de ler com o que foi dito até agora?

Trabalhando há quase 20 anos na tentativa de formar leitores e, extramuros da academia, estudando a leitura (sobretudo no contexto escolar) há pelo menos uma década, confesso que me encontro hoje um tanto perdido. Há incontáveis textos, nos mais variados suportes, circulando na sociedade e há milhões de leitores, cada qual carregando sua singularidade. Mas a maioria destes, penso eu, estão tomados pelo anseio de facilitação acima mencionado.

A Literatura que me interessa (e cuja leitura busco promover) - Literatura essa que intenciona emular a própria condição humana, "infinitamente complexa e difícil, mas encantadora", nas palavras de Stella Maris Rezende - conseguiria afetar de algum modo esses leitores ansiosos pela facilidade?

Continuo na próxima postagem.

* Fada das palavras. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, ano 9, n. 110, dez. 2014, p. 10-13 [Entrevista concedida a Amilton Pinheiro. A revista Língua Portuguesa é publicada pela Editora Segmento]

BG de Hoje

Tô me sentindo meio puto com a vida. Um canção pra tentar acalmar: BADFINGER, Day after day.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quatro poemas de José Paulo Paes

Um pouco hesitante, torno a escrever neste blog, após quatro meses de inatividade. A ideia inicial era recomeçar com um tópico sobre o qual venho refletindo há bastante tempo (deixei alguma coisa registrada a esse respeito na última postagem em 2014): o suicídio. Porém, vou preferir hoje falar de quatro poemas de um de meus autores preferidos - José Paulo Paes - cuja aproximação temática entre os textos muito me interessa.

Vamos ao primeiro poema, Ivan Ilitch, 1958*:

"Trrrim, bocejo,
Roupão, chinelos,
Gilete, escova,
Água, sabão,
Café com pão,
Chapéu, gravata,
Beijo, automóvel,
Adeus, adeus.

Gente, trânsito,
Sol, bom-dia,
Escritório, 
Relatório,
Telefones,
Almoço, arroto,
Contas, desgosto,
Adeus, adeus.

Clube, vento,
Grana, tênis,
Ducha, alento,
Bar, escândalos,
Pedro, Paulo,
Mulher de Pedro,
Mulher de Paulo,
Adeus, adeus.

Lar, esposa,
Filhos, pijama,
Janta, living,
Jornal, cismares,
Tricô, vagares,
Hiato, ausências,
Bocejo, escada,
Adeus, adeus.

Quarto, cama,
Glândulas. êxtase,
Dois em um,
Dois em nada,
Dever cumprido, 
Luz apagada,
Adeus, adeus.

Horas, dias,
Meses, anos,
Cãs, enganos,
Desenganos,
Vácuo, náusea,
Indiferença,
Cipreste, olvido
Há Deus? adeus".

É evidente que o título do poema faz referência à clássica novela A morte de Ivan Ilitch, do escritor russo Liev (ou Leon) Tolstói - mas, digamos, "ambientada" agora no final dos anos 1950 e não mais na metade do século XIX. O poema e a novela constroem-se sobre um dos questionamentos mais antigos dirigidos pela humanidade a si própria: tem a vida algum sentido?

Em A morte de Ivan Ilitch, a narrativa se inicia no velório do protagonista, passando, a seguir, para o relato de sua juventude e velhice, nada excepcionais ambas. Em Ivan Ilitch, 1958, por sua vez, os versos finais de cada estrofe indicam ao leitor que alguém também se despede da vida e rememora sua existência saturada de hábitos comuns, gestos e objetos banais. Ambos os textos me fazem pensar num arrependimento profundo.

O segundo poema é Declaração de bens:

"meu deus
minha pátria
minha família

minha casa
meu clube
meu carro

minha mulher
minha escova de dentes
meus calos

minha vida
meu câncer
meus vermes"

"Do mundo nada se leva", diz a sabedoria popular, com sua habitual falta de poesia. De todo modo, não me parece ser outra coisa o que diz José Paulo Paes nessa composição. Assemelha-se a Ivan Ilitch, 1958 por deixar entrever a vanidade - inerente a muitos de nossos esforços, convicções e realizações - da qual, rotineiramente, não nos apercebemos.

O terceiro texto é o soneto em heptassílabos Sísifo:


"hoje agora me decido
depois de amanhã hesito
o dia detém meu passo
a noite cala meu grito.

deuses onde? céu existe?
céu existe? deuses onde?
um eco que faz perguntas
um espelho que responde

e eu sísifo tardotriste
a tilintar as correntes
de dilemas renitentes

lá me vou sem vez nem voz
rolar a pedra dos mudos
pela montanha dos sós".

A figura mitológica que empresta seu nome ao poema também serviu de mote para um instigante ensaio de Albert Camus** (livro a ser discutido no blog mais adiante). Para o escritor franco-argelino, Sísifo é o "herói absurdo". Sua tragédia nos diz algo significativo precisamente no momento em que ele regressa do alto do monte para mais uma vez empurrar a pedra que acabara de rolar: "Sísifo, proletário dos deuses, impotente e revoltado, conhece toda a extensão de sua miserável condição: pensa nela durante a descida", escreve Camus. Encontrará ele algum sentido para a sua vida?

Por fim,

"PISA: A TORRE

em vão te inclinas pedagogicamente
o mundo jamais compreenderá a obliquidade dos bêbados ou o mergulho dos suicidas"


Tai algo que desejaria compreender. Ou ao menos refletir a respeito. Tentarei fazer isso a partir da próxima semana.
__________
* PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

** CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. 9 ed. Rio de Janeiro: Record, 2012 [ Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch]

BG de Hoje

LENY ANDRADE não é das minhas intérpretes preferidas. Mas outro dia, numa das pouquíssimas emissoras de rádio de boa qualidade aqui de BH (a Rádio UFMG Educativa), ouvi essa versão de Muito obrigado, do Djavan, em que a cantora está acompanhada pelo violonista Romero Lubambo. Sensacional!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Falou e disse...

"Minha avaliação é que os currículos, atualmente, estão inchados, do nível fundamental à universidade (e há os que querem mais: educação para o trânsito, educação sexual etc.). Cursos de pedagogia discutem mais poder (Foucault) do que estudos dos campos da fonologia e sociolinguística, cruciais para a alfabetização. Cursos de letras introduzem uma dúzia de conceitos (interessantes) por semana, mas formam alunos que não leem e, fundamentalmente, não escrevem. Há uma mania de introduzir 'novidades' pedagógicas e pouca prática do que é fundamental: ler e escrever (no caso de língua portuguesa). A humanidade já sabe como fazer isso, mas não faz, assim como sabe manter a forma, mas prefere seguir uma dieta por semana.

Os cursos de letras deveriam conseguir que os formandos escrevessem e lessem bem. Com isso, inclusive, o restante será aprendido com maior facilidade. Claro, devem aprender a analisar fatos da língua. Por exemplo, diante de erros de grafia, devem conseguir entender de onde vieram. Nada contra ler Foucault ou Derrida, mas quantas resenhas se escrevem e como os professores as leem?". *

* POSSENTI, Sírio. Ensino da língua (entrevista para a revista Presença Pedagógica. v. 20, n. 120, nov./dez. 2014. p. 11)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Escolher morrer



Holanda, Bélgica e Luxemburgo são países onde a eutanásia é uma prática legalmente autorizada. E importante salientar: não só em caso de doença terminal ou outra que provoque intensa dor física, não aplacável pela medicação, mas também nos casos em que o indivíduo experimenta um insuportável sofrimento psíquico. Na Suíça, muitos sabem, o suicídio assistido é permitido pelas autoridades já faz algum tempo (o que leva muita gente até lá para o chamado "turismo da morte"). Tudo isso, para mim, é mostra de avanço civilizatório. Mas por que estou falando desse assunto? Chego lá.

. . . . . . . 

Dias atrás, reli o romance (ou seria novela?) Mas não se mata cavalo?, do escritor norte-americano Horace McCoy*, lançado em 1935. O estilo do autor é conciso, direto, sem nenhum traço de ornamentação. A trama se passa no período da gravíssima depressão econômica decorrente do crack financeiro de 1929 e destaca dois personagens, Robert Syverten (o narrador da história) e Gloria Beatty. Ambos tentam a sorte em Hollywood, cuja indústria cinematográfica começava a ser engendrada. Ele sonhava em se tornar diretor de filmes; ela se contentaria até mesmo com uma vaga de extra. Para sobreviver, aceitam fazer parte de uma prova de resistência física e psicológica. Um concurso de dança - como as dance marathons, eventos que viraram febre nos EUA durante a terceira e a quarta décadas do século passado.

Espécie de proto-reality show, a maratona de dança exigia que os casais participantes ficassem horas e horas de pé dançando ou, na maior parte do tempo, apenas mexendo o corpo. Os intervalos para descansar, alimentar-se e ir ao banheiro eram exíguos. Ganhava o prêmio em dinheiro somente a dupla que conseguisse suportar o absurdo daquela situação até o final. Havia público para acompanhar o "espetáculo". Se fosse bem sucedido, um casal podia contar com um patrocinador, que fornecia calçados e vestuário mediante a colocação de um anúncio nas roupas. Para eliminar alguns pares de forma mais rápida e aumentar a competitividade (e os lucros), também aconteciam corridas dentro do salão do evento. Esgotados fisicamente, não era incomum que os participantes caíssem estrepitosamente durante esses derbys ou mesmo dormissem no ombro dos parceiros, nos momentos em que simulavam dançar (como na foto no alto da postagem).

Há uma cena que descreve bem o quão bizarro era tudo isso:

" - Olhem para esses jovens, senhoras e senhores! [diz Rocky, o mestre-de-cerimônias, engatando uma série de lorotas] Depois de 216 horas estão tão frescos como rosas, na maratona mundial de dança, uma competição de resistência e habilidade. Esses meninos são alimentados sete vezes por dia: três grandes refeições e quatro lanches leves. Alguns dos concorrentes chegaram até a aumentar de peso durante a competição... E eles têm doutores e enfermeiros que os atendem constantemente para fazer com que eles se mantenham nas melhores condições físicas. Agora vou chamar o par nº 4, Mario Patrone e Jackie Miller, para um número especial. Vamos. Par nº 4! Lá estão eles, senhoras e senhores. Não é um par alinhado? 
Mario Patrone, um italiano reforçado e Jackie Miller, uma lourinha, subiram para a plataforma para receberem aplausos. Falavam com Rocky e depois começavam a sapatear, mas muito mal. Nem Mario nem Jackie pareciam perceber que a coisa não prestava. Quando terminaram, algumas pessoas atiraram dinheiro na pista.
- Mais, minha gente! - gritou Rocky - Uma chuva de prata. Mais! 
Algumas moedas mais bateram no chão. Mario e Jackie apanharam-nas e depois caminharam na nossa direção".

O que julgo, entretanto, mais relevante nesse livro é a postura de Gloria Beatty diante da vida. Amarga e pessimista, a personagem diz a certa altura: "Como sou fracassada, tenho inveja de todos que fazem sucesso. Você também não é assim?" (este blogueiro admite que pelo menos ele é). Ela está sempre repetindo que preferiria não estar mais viva (e o impulso dramático da narrativa vem desse desejo de morte da personagem). E logo no início de Mas não se mata cavalo? encontra-se a sua declaração mais interessante:

" - Uma coisa que me intriga é que todo mundo se preocupa tanto com viver e tão pouco com morrer. Por que é que todos esses cientistas bambas sempre andam por aí tentando prolongar a vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um mundão de gente como eu neste mundo... gente que quer morrer mas que não tem coragem..."

Há pessoas ("um mundão de gente", certamente) para as quais viver é algo extremamente difícil. E não me refiro aqui apenas à dificuldade que elas possam ter para adquirir os meios de subsistência. Decidir morrer, contudo, também não é fácil (entre outros complicadores, há o medo ou receio da agonia e da dor física). Pessoalmente, acho que seria um passo ético importantíssimo para a humanidade começar a pensar no suicídio como um direito. E caso a decisão de dar fim à própria vida seja garantida legalmente num futuro longínquo (e, talvez, utópico) - não apenas por estar com alguma terrível enfermidade, como no caso da eutanásia, mencionada lá no início da postagem, mas por escolha autônoma e madura do indivíduo - seria ainda mais digno, penso eu, que se pudesse fazer isso de "um jeito agradável"; ou seja, com o mínimo de sofrimento possível, contando com o trabalho de "todos esses cientistas bambas".
 
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* McCOY, Horace. Mas não se mata cavalo?. São Paulo: Abril Cultural, 1982 [Tradução de Érico Veríssimo]

BG de Hoje

 Nutshell (ALICE IN CHAINS) é, na minha opinião, uma das canções mais tristes dentro do rock. Canta Layne Staley ao final, "if I can't be my own/I'd feel better dead".


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

O racismo brasileiro e os números


De acordo com o comunicado do IPEA intitulado Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas: 120 anos após a abolição (disponível aqui), as pessoas negras que fazem parte da população economicamente ativa "correspondem a 60,4% dos que ganham até 1 salário mínimo e a somente 21,7% dos que ganham mais de 10 salários mínimos. Entre os ocupados brancos, esses percentuais equivalem a 39,0% e 76,2%, respectivamente". Mais: negros são maioria entre os indivíduos sem ocupação; estão em menor número entre os trabalhadores com carteira assinada; e são minoria (26,2%) entre aqueles identificados como empregadores. A fonte principal do estudo foi a Pnad/IBGE de 2006

Apresentei esses dados apenas para dizer o seguinte: há uma extensa bibliografia - reunindo trabalhos organizados e publicados tanto por órgãos governamentais, quanto pelas universidades - constatando a grande desigualdade entre raças existente no Brasil. E é prova de ignorância ou má fé não reconhecer isso.

Entretanto, ainda persiste no país a manutenção do mito da "democracia racial" e a crença mal informada de que não se discrimina especificamente a população negra (e indígena, vale acrescentar), mas sim os pobres em geral (tanto brancos como não brancos).

Comecei a refletir com maior atenção sobre tudo isso ao reler Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil*, uma reunião de diversos pequenos artigos publicados pela filósofa Sueli Carneiro, em sua quase totalidade recolhidos da coluna que a autora manteve no jornal Correio Braziliense, no início da década passada.

Em Realidade estatística, Sueli Carneiro defende que as pesquisas que demonstram a desigualdade entre raças

"cada vez mais desautorizam as ideias consagradas em nossa sociedade sobre a inexistência de um problema racial. Questionam a simplificação de que o problema do Brasil é social, e não racial. Recusam os eufemismos como o do apartheid social e, sobretudo, indicam que as políticas universalistas, historicamente implementadas, não têm sido capazes de alterar o padrão de desigualdades entre negros e brancos na sociedade".

Para corrigir injustiças é necessário a adoção de medidas que atinjam o problema diretamente, sobretudo nas áreas da educação, trabalho e segurança pública. Contudo, acrescenta a filósofa neste mesmo artigo, as políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade ficam presas, muitas vezes, num "vazio de implementação" que torna os problemas da população negra "uma abstração que jamais se consubstancia em realidade política. Constata-se a desigualdade, em alguns casos, lamenta-se. Mas parece não haver nada que se queira fazer em relação ao problema".

Noutro texto - Os negros e o Índice de Desenvolvimento Humano - Sueli Carneiro, ao comentar um estudo coordenado pelo economista Marcelo Paixão, considera que as políticas publicas voltadas para a melhoria dos indicadores sociais não podem negligenciar as desigualdades raciais fartamente demonstradas pelas pesquisas.

Esse trabalho coordenado pelo economista Marcelo Paixão utilizou os mesmos dados empregados no cálculo do IDH (expectativa de vida ao nascer, escolaridade e PIB per capita) para aplicá-los não a toda população conjuntamente, mas realizando nesta um recorte por raça. Chegou-se aos seguintes resultados

"é possível verificar que os afrodescendentes ocupam a 108ª posição no ranking proposto pelo Pnud [Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento], enquanto os brancos ocupam a 49ª posição. O Brasil, obedecendo ao mesmo ranking, ocupava a 74ª posição [na época da divulgação do trabalho, no ano 2000]

Não tenho razões para acreditar que essa realidade tenha se alterado significativamente, de forma positiva, nos últimos anos.

A luta contra o racismo, todos sabemos, não é fácil. Mas um dos meios para tentar vencê-la é combatendo a desinformação. Por isso, apresentar livros, estudos e pesquisas sobre o tema é indispensável para dar consistência maior à argumentação antirracista.

Na próxima postagem, destacarei uma passagem do livro Mas não se mata cavalo?, do escritor norte-americano Horace McCoy.

* CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011

BG de Hoje

Hoje, infelizmente, não tem BG (motivo: péssima conexão com a internet)