quinta-feira, 7 de julho de 2022

Não me leve a mal, mas vou torcer pelo herói


                      

A melhor maneira de definir um herói ou uma heroína, penso eu, é observar seu(s) mais significativo(s) feito(s). Com o perdão pela tautologia, um herói ou uma heroína caracterizam-se essencialmente como realizadores de um ou mais atos heroicos. Se estivermos de acordo nesse ponto, devemos nos perguntar então: o que confere heroicidade a um ato?

Creio que a maioria das pessoas dirá que um ato heroico deve denotar bravura, coragem. Uma ação dessa natureza também carrega um forte componente moral: sua finalidade é ajudar ou salvar outra(s) pessoa(s), ficando o bem-estar ou a segurança do agente em segundo plano. NOTA: Algo que me enerva profundamente é o exagero retórico típico de muitas pessoas (entre elas, jornalistas) chamando de herói um atleta que, sei lá, fez X pontos numa partida ou marcou um gol na decisão de um campeonato. É o mesmo exagero retórico que fala em time de guerreiros. Diabos me carreguem! É esporte! Não é questão de vida ou morte - ou, pelo menos, não deveria ser.

Meu intuito, ao destacar o ato e não o indivíduo que o executa, é afirmar a grande improbabilidade de alguém ser herói full time. Como se sabe, a palavra herói vem da Antiguidade e na mitologia greco-romana designava alguns semideuses, ou seja, criaturas com capacidades extraordinárias, únicas, acima do que um simples humano - um "mero mortal" - pode fazer. Essas habilidades, em geral, diziam respeito à destreza em combate ou à força física. Com o passar do tempo, o conceito de herói incorporou sentidos relacionados ao caráter dos sujeitos assim nomeados: além de corajosos e bons de briga, supostamente honrados e decentes. Ora, que homem ou mulher normal consegue ser tudo isso integralmente, em todas as fases de sua vida?

Essas questões voltaram à minha mente semanas atrás, quando reli (pela enésima vez) A hora e vez de Augusto Matraga, narrativa que fecha o Sagarana, um dos meus livros de cabeceira. De cafajeste a redentor, o protagonista dessa novela de Guimarães Rosa é, em minha opinião, a grande figura  heroica da literatura brasileira. Relembremos como se dá a transformação do personagem.

"Duro, doido e sem detença, como um bicho grande do mato" ¹, segundo a esposa Dionóra - que foge dele para viver com outro -, Nhô Augusto é um mandachuva de roça em franca e rápida decadência. Após mais um de seus rompantes, um coronel adversário aproveita a oportunidade para ir à forra. Nhô Augusto é espancado, marcado a ferro. Tentando fugir dos capangas que queriam matá-lo, salta em uma ribanceira profunda. Gravemente ferido, quase morto, é resgatado e cuidado por um casal de pobres e velhos lavradores, Quitéria e Serapião. Aconselhado por um padre, desiste dos planos de vingança, envergonha-se do passado vil e violento  e passa a demostrar uma fé poderosa: "- Eu vou p'ra o céu, e vou mesmo, por bem ou por mal... E a minha vez há de chegar... P'ra o céu eu vou, nem que seja a porrete!..."

Mudando-se pra outro lugarejo mais distante acompanhado pelos campônios que o salvaram, fugindo da vida antiga, o personagem converte-se num trabalhador braçal incansável, "meio doido e meio santo", abstêmio e reservado. Contudo, passados alguns anos, "pouco a pouco, devagarinho, imperceptível, alguma cousa pegou a querer voltar para ele, a crescer-lhe do fundo para fora, sorrateira como a chegada do tempo das águas, que vinha vindo paralela". Por coincidência - ou por um lance do destino -, chega ao vilarejo justamente nessa época uma quadrilha de jagunços liderados pelo "homem mais afamado dos dois sertões do rio: célebre do Jequitinhonha à Serra das Araras, da beira do Jequitaí à barra do Verde Grande, do Rio Gavião até nos Montes Claros, de Carinhanha até Paracatu; maior do que Antônio Dó ou Indalécio; o arranca-toco, o treme-terra, o come-brasa, o pega-à-unha, o fecha-treta, o tira-prosa, o parte-ferro, o rompe-racha, o rompe-e-arrasa: Seu Joãozinho Bem-Bem".

O povoado se assusta, mas Nhô Augusto é pura euforia. Faz questão de receber todo o bando em seu pedacinho de terra, oferecendo o que de melhor conseguiu arrecadar na vizinhança. O líder da jagunçada aprova o bom tratamento dado a seus homens; já havia simpatizado com o anfitrião antes, só de tê-lo visto caminhando na estradinha. No dia seguinte, preparando-se para partir, Joãozinho Bem-Bem diz: " - Mano velho, o senhor gosta de brigar, e entende. Está se vendo que não viveu sempre aqui nesta grota, capinando roça e cortando lenha...". Convida-o para integrar o "seu povo". Nhô Augusto resiste à tentação, porém. 

Tempos depois, decide ir-se embora, vagar pelo sertão, sentindo-se menos opresso pelos hábitos severos que adotara na "nova vida". Viajando montado num jumento, acaba reencontrando Joãozinho Bem-Bem e sua hoste, dentro  da casa de um fazendeiro aliado do bandido, no arraial do Rala-Coco, próximo àquele de onde o protagonista dessa história fugira. 

Chegamos ao clímax de A hora e vez de Augusto Matraga.

O chefe dos jagunços - seguindo "regras" da jagunçagem - precisa vingar a morte de um de seus sequazes, baleado "à traição" por um habitante do arraial, em fuga a essa altura. Para tanto, irá matar um dos filhos de um velho sertanejo (irmãos do rapaz em fuga) e permitir que os outros bandoleiros estuprem as filhas dele. O velho, chorando ajoelhado, implora piedade. Joãozinho Bem-Bem nega. Desamparado, mas dessa vez com fúria, o lavrador vocifera:

"- Pois então, satanás, eu chamo a força de Deus p'ra ajudar a minha fraqueza no ferro da tua força maldita!..."

Nhô Augusto estava no mesmo recinto, sentado num selim velho, presenciando toda a cena, de posse das armas do recém-assassinado jagunço, que lhe foram oferecidas pelo próprio Joãozinho Bem-Bem, num segundo convite para que ele se juntasse ao bando.

Após um momento de silêncio, fala:

"- Não faz isso, meu amigo seu Joãozinho Bem-Bem, que o desgraçado do velho está pedindo em nome de Nosso Senhor e da Virgem Maria! E o que vocês estão querendo fazer em casa dele é coisa que nem Deus não manda e nem o diabo não faz!"

O narrador prossegue:

"Nhô Augusto tinha falado; e a sua mão esquerda acariciava a lâmina da lapiana, enquanto a direita pousava, despreocupada, no pescoço da carabina. Dera tom calmo às palavras, mas puxava forte respiração soprosa, que quase o levantava do selim e o punha no assento outra vez. Os olhos cresciam, todo ele crescia, como um touro que acha os vaqueiros excessivamente abundantes e cisma de ficar sozinho no meio do curral".
O que se segue é uma luta sangrenta entre Nhô Augusto e alguns jagunços, culminando num duelo final, à ponta de faca e no meio da rua, entre o protagonista e o líder dos facínoras. Joãozinho Bem-Bem é morto, mas Nhô Augusto - agora Augusto Matraga ² - também morrerá, em razão dos muitos ferimentos. Enquanto tentava achar um padre para acudir, o povo do Rala-Coco dizia: "Foi Deus que mandou esse homem do jumento, por mór de salvar as famílias da gente!..."

O antropólogo Roberto DaMatta, num ensaio ³ em que classifica o personagem de Guimarães Rosa como um renunciador (alguém que representa uma "saída da 'ordem'", isto é, alguém que se livra das amarras e da fixidez das hierarquias sociais), observou que, mesmo havendo identificações entre este e Joãozinho Bem-Bem (sujeitos violentos e discricionários em suas ações, próximos do poder no Brasil rural representado na obra do escritor mineiro), a intervenção de Nhô Augusto (convertido em Augusto Matraga, ao salvar a família do velho sertanejo) "o transforma em representante do Bem, em oposição ao representante do Mal". Não há nada de simplismo maniqueísta em tal afirmação. Parágrafos acima, escrevi sobre a improbabilidade de alguém ser herói o tempo todo e preferi enfatizar o(s) ato(s) e não o indivíduo que o(s) praticou. Pessoas têm falhas e vícios, o que contrasta com a noção mais corriqueira do que seja um herói. Por isso, a ação é fundamental, determinante, mesmo em se tratando de um ser ficcional.

Nhô Augusto foi um rematado patife em grande parte de sua vida. Quando chegou a hora derradeira, entretanto, realizou um ato heroico admirável. Praticou o bem diante de um mal presente e imediato.

Penso, por exemplo, em outras figuras heroicas - dessa vez, pinçadas no mundo real: o pastor norte-americano Martin Luther King Jr, a ativista paquistanesa Malala Yousafzai, o jornalista australiano Julian Assange. Ainda que sejam pessoas humanamente imperfeitas, praticaram atos que demandavam grande coragem, visando ajudar outras pessoas (e todos os três colocaram suas próprias vidas em risco, sendo que o primeiro foi assassinado).
 
Mas há quem busque também pelo herói impecável.
 
. . . . . . . 
 
O episódio inicial da primeira temporada da série Reacher (disponível na Amazon Prime, estrelada pelo ator Alan Ritchson) não perde tempo com firulas. De cara, o espectador já tem um perfil completo do protagonista, não importando se não tenha lido nenhum dos livros de Lee Child (criador do personagem) ou assistido aos dois filmes em que Tom Cruise o interpretou antes. Neste episódio, nas primeiras cenas em que aparece, intimida - sem dizer uma única palavra ou fazer qualquer gesto - um sujeito que xingava e ameaçava de agressão a companheira.

Jack Reacher é um cara bonito, alto, forte, bom de briga e muito sagaz (vários dos leitores de Child elogiaram a escolha do ator que o interpreta pois se encaixaria na descrição contida nos livros). Faz tudo o que se espera do personagem central neste tipo de produto de entretenimento: investiga e desvenda um grande esquema criminoso, mata os caras maus, defende pessoas em perigo. Há uma cena no quinto episódio que acho muito prazerosa de assistir. Ao ver que o carro de uma mulher com quem estava envolvido (uma policial) foi pichado com a palavra "whore", ele vai tirar satisfações com o filho mimado do ricaço da cidadezinha onde estava. Poucas vezes vi um tapa na cara tão bem dado.

A atração da Amazon Prime não se preocupa em fugir dos clichês; o herói ali retratado também não tem nada de inovador ou surpreendente - e quem já viu (num filme ou seriado) um ex-militar dos EUA, hétero e branco, salvando o dia, já viu todos. Ainda assim, considero um programa de TV muito bom (não que eu dê muita bola para isso, mas o agregador de resenhas Rotten Tomatoes registra 90% de opiniões favoráveis a Reacher). Será que nós (falo dos espectadores saturados com os produtos televisivos norte-americanos) viramos um público tão pouco exigente?
 
Minha resposta será simples - talvez até simplória. Paciência; é o que tem pra hoje.
 
Grande parte (talvez a maioria) das iniquidades do mundo não é e não será punida. Fraudadores e sonegadores continuam ganhando muito dinheiro com falcatruas; bilionários continuam explorando pessoas; políticos e agentes públicos continuam prevaricando. Bullies seguem oprimindo; predadores sexuais seguem atacando; racistas seguem propagando ódio; assassinos seguem espalhando terror. Acho risíveis afirmações de que há mais pessoas boas do que pessoas más no planeta ou o otimismo de intelectuais como Steven Pinker. Atos perversos costumam provocar danos de grande alcance e longa duração, mesmo que vivamos no "melhor dos mundos possíveis".

É aí que entra a ficção.

É satisfatório e recompensador ver ou ler - pelo menos na ficção - que o cara mau levou o que merecia.

Cheguei a um ponto em que me contento com pouco. Por isso, sempre torço para os heróis em narrativas inventadas.

___________

¹ ROSA, João Guimarães. A hora e vez de Augusto Matraga. In: _________. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001 (p. 363-413). Todas as citações do texto de Rosa presentes nesta postagem foram retiradas dessa edição.

² Importante mencionar que, no texto, João Guimarães Rosa não explica o que significa a alcunha Matraga, nem como ela foi adicionada à figura de Augusto Esteves.

³ DaMATTA, Roberto. Augusto Matraga e a hora da renúncia. In: __________. Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro. 6 ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. p. 303-334

BG de Hoje

Como alguns outros grupos de heavy metal, o AVENGED SEVENFOLD foi abrandando sua música ao longo dos mais de 20 anos de existência da banda (não vejo nada de errado nisso, diga-se de passagem). A desaceleração nos instrumentos é nítida, bem como a aproximação com o rock pesado mais tradicional. Um exemplo disso é a canção que dá título a um dos últimos trabalhos de estúdio do grupo, lançado há quase dez anos. A sonoridade e a temática de Hail To The King quase derrapam na breguice de alguns representantes dessa vertente musical (penso, por exemplo, no burlesco Manowar), mas, ao cabo, é uma faixa que se ouve com satisfação.


quarta-feira, 4 de maio de 2022

Sentir a luxúria única de não ter já esperanças


Não tem jeito. Vou cair no exercício fácil de falar de textos bastante conhecidos. Fazer o quê? Nestas últimas semanas, tão pesadas para mim, busco refúgio em escritores que já li tantas vezes.

Fernando Pessoa, por exemplo. Em especial, poemas do heterônimo Álvaro de Campos.

Comecemos por Adiamento ¹:

 
"Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjectividade objectiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro, 
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir..."

Um intérprete bem obtuso do poema tomaria o eu lírico (ou eu poético, se assim desejarem) como um procrastinador um tanto cínico. 

Falando nisso, o(a) eventual leitor(a) já reparou que a procrastinação é vista como um dos grandes pecados contemporâneos? Pelo menos é o que diz esta numerosa galera do palavrório motivacional - gurus de autoajuda, coaches e quejandos -, sempre com livros, cursos, palestras ou vídeos do tipo "sete dicas" para reprogramar seu "mindset", desbloquear o poder da mente e tornar-se um exemplo de produtividade.

Produtividade. Conceitozinho maroto...

Claro, ninguém gosta de se sentir improdutivo, penso eu. Mas o que de fato significa ser produtivo, sobretudo quando lembramos que, na ordem capitalista vigente, a imensa maioria das pessoas neste mundo só consegue obter algum dinheiro (necessário para sua subsistência) vendendo (a preço nada justo) sua força de trabalho em ocupações que elas não escolheriam se tivessem opções menos ruins? Nesse caso, em última instância, ser um exemplo de produtividade está beneficiando a quem exatamente? Sem falar que o discurso da produtividade quase sempre vai ao encontro da exploração econômica que nos está conduzindo ao colapso ambiental. 

Essas questões, entretanto, são assuntos para outro chopp. 

O que seria o adiamento na composição acima? Creio que um dos sentidos possíveis está diretamente ligado a este trecho:

"Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã..."

Embora o vocábulo não apareça em nenhum verso, a noção de desesperança - melhor dizendo, a recusa em se ter esperança - é importante para que consigamos apreender esse sentido.

Há um evidente escárnio: preparar-se amanhã para conquistar o mundo no dia seguinte equivale, no fim das contas, a não se preparar. 

Para que preparar-se, afinal? Não compensa, não vale a pena; a vida não passa de um logro. E toma-lhe mais um pouco de ironia amarga  - "depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser". Se não há esperança, não há motivo para planos. Adie-se tudo, pois, indefinidamente.

Ora, o mundo, imenso, é ainda por cima "opaco" e "alheio", como se lê noutro poema, o celebérrimo Tabacaria (o mundo é também hostil, acrescentaria eu). Para aqueles de nós que falharam em tudo, não é difícil às vezes olhar ao redor e sentir que se perdeu a "irmandade com as coisas":

"Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 
Vejo os cães que também existem, 
E tudo isso me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo".

Esses versos sempre me lembram A náusea, de Sartre (livro que, em breve, será novamente assunto aqui no blog).

Planos, projetos... Quanta inutilidade! Como está escrito em Pecado original,"somos todos quem nos supusemos/A nossa realidade é o que não conseguimos nunca" (assim é pelo menos para alguns de nós).

Porém, o pretexto para esta postagem veio especificamente de um poema sem nome de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, do qual gosto bastante. Reproduzo-o abaixo, na íntegra:

"Estou cansado, é claro.
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto -
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
 
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para alguma coisa".

Sorrir em meio ao cansaço (não se está, obviamente, falando de fadiga física) pode soar como um contrassenso à primeira vista. Entretanto, com o passar do tempo e para quem o vivencia, o desconsolo se torna um sentimento familiar, natural, que o "entendimento retrospectivo" consegue examinar, talvez não propriamente de maneira prazerosa, mas com um pequeno e insólito interesse ("que afinal a cabeça sempre serve para alguma coisa"). Quando deixamos de nutrir ilusões, quando nos vemos completamente sem esperanças, a sensação é mesmo quase luxuriante (parece desarrazoado dizer isso, mas não é mentira). 

Pessoalmente, porém, se pudesse experimentar, preferiria outras luxúrias.

 

Na próxima postagem, falarei de uma novela de Guimarães Rosa e de uma série de TV.

___________

¹ Todos os textos citados nesta postagem estão em Poemas de Álvaro de Campos: obra poética IV (Editora L&PM, 2006)


Homenagem


Dias atrás a oposta Sheilla Castro decidiu encerrar a carreira como atleta profissional de voleibol indoor. Trata-se de um dos maiores nomes desse esporte, no país e no mundo (há quem diga que foi a melhor jogadora brasileira de todos os tempos). Iniciou sua trajetória no Mackenzie, mas foi no Minas Tênis, outro clube aqui de Belo Horizonte, que ela despontou em 2001. Lembro-me bem desse período. Hoje Sheilla faz parte da comissão técnica do time feminino do Minas. Embora discorde de alguns de seus posicionamentos, como fã de vôlei, sempre tive grande admiração por ela. Vai ser difícil aparecer outra com tanto talento. Quem também está deixando de competir profissionalmente é a central Walewska Oliveira, duas vezes medalhista olímpica (bronze em Sydney/2000 e ouro em Pequim/2008), sinônimo de elegância dentro e fora da quadra.

BG de Hoje

Estou cada vez mais obcecado com a discografia do cantor e compositor canadense Dallas Green (que adota o nome artístico CITY and COLOUR). Das melhores "descobertas" recentes que fiz. Tenho ouvido (quase de forma ininterrupta) os cinco álbuns gravados por ele até agora. As melodias e arranjos maravilhosamente simples, a voz e - não menos importante - as letras cheias de melancolia: combinação cujo resultado é música bem acima da média. Nos últimos dias, às vezes me pego cantarolando estes versos do refrão de Two Coins: "I've always been dark/with light somewhere in the distance". Não é incomum que as apresentações do City and Colour não tenham mais que o artista e seu violão (como no vídeo abaixo). Sugiro, entretanto, ao(à) eventual leitor(a) que procure ouvir essa mesma canção acompanhada de outros músicos, como está no disco The Hurry and The Harm, lançado em 2013. Ficou linda.


quarta-feira, 27 de abril de 2022

Falou e disse...


"As próximas gerações e já esta geração são gerações de base matemática, mesmo que não tenham formação. Somos regidos por números e fórmulas. Nossa realidade é forjada pela matemática. Mas precisamos mais do que nunca entender o solo social em que a matemática se dá. Então as ciências humanas e sociais têm que se distanciar da matemática para entender efetivamente o que está se passando. Estamos num momento de crise das ciências sociais porque o momento áureo foi um momento de produção de ideias no século 19, na passagem da filosofia para a sociologia, economia, antropologia. As ciências que se fragmentaram, mas o que elas efetivamente produzem são ideias. E nós estamos numa crise de produção de ideias". *

 

* Resposta do professor, pesquisador, sociólogo, jornalista e escritor Muniz SODRÉ quando perguntado se num mundo regido por algoritmos, vale a pena estudar as ciências humanas ou deveríamos nos focar em matemática e outras ciências exatas. A declaração faz parte de uma entrevista publicada na edição de março/2022 da revista Educação (Na época dos algoritmos, escola só faz sentido com vínculo e paixão, diz Muniz Sodré, disponível aqui).

quinta-feira, 24 de março de 2022

"A vida é muito curta..." Tá falando sério?



Outro dia estava me lembrando daquele filme Cova Rasa, lançado em 1994.

Posso dizer que foi o primeiro trabalho do diretor britânico Danny Boyle a chamar atenção, antes de Trainspotting.

Um trio de roommates tem um método um pouco cruel (mas nem por isso menos interessante) para escolher quem pode ser o novo morador do apartamento em que residem. Os interessados são submetidos a uma espécie de entrevista com perguntas absurdas e incômodas. Ocasionalmente, inclui-se algum tipo de zombaria física. O trio se regala. Dá a eles uma sensação de superioridade. Ver-se-á no decorrer do filme, entretanto, que não eram tão espertos nem tão legais quanto se achavam.
 
De todo modo, acabo sendo favorável ao sistema de seleção de Alex, Juliet e David (os personagens centrais do filme) porque parte do princípio de que seria insuportável dividir a mesma moradia com indivíduos não compatíveis, ainda que paguem em dia e sejam pessoas cordatas.

Também uso um método (nada cruel) para não ter que me engajar em conversas com gente aporrinhante. Há anos, conservo o hábito de beber sozinho. Nos bares, contudo, sempre aparece alguém que gosta de puxar papo. Respondo com os "pois é" e os "é mesmo?" de praxe, benditas expressões para fingir interesse quando não há interesse algum no que o outro está dizendo. Se a falação não dá sinais de desfecho, vejo-me obrigado a  tentar conduzir a "conversa" para um tema que me agrada: música pop ¹. E dou um jeito de saber a opinião do(a) interlocutor(a) sobre os Beatles. Não que eu seja um beatlemaníaco, longe disso: "os quatro de Liverpool" não estão nem entre as minhas 30 bandas preferidas. Mas é preciso admitir o pioneirismo e a inventividade desses caras e como eles (junto com George Martin, claro) ajudaram a moldar muito do que se entende por música pop até hoje.

Se a pessoa fala que não gosta dos Beatles - ou pior, não gosta de música pop -, sei que não devo perder meu tempo e trato logo de ir embora. Ou troco de lugar dentro do botequim. Reconheço que estou incorrendo no lugar-comum do "o mundo se divide entre pessoas X e pessoas Y", mas aquele que não faz distinções desse tipo atire a primeira pedra (e ao usar esse lance da primeira pedra, mostro que adoro os lugares-comuns)

No último sábado, enquanto lavava roupa, ouvia uma coletânea dos Fab Four. Ao chegar numa das canções de que mais gosto - We Can Work It Out - encasquetei com os versos "Life is very short, and there's no time/for fussing and fighting, my friend". Já escutei essa faixa inúmeras vezes, por que só agora o (leve) desconforto?

Acho que tudo começou há algumas semanas, quando assisti o anúncio de um creme dental metido a besta. Como já escrevi aqui e em outras postagens, a publicidade e o discurso publicitário em geral me provocam uma grande ojeriza. "A vida é muito curta para cerveja quente, para café frio, para não celebrar, para sorvete derretido, para 'sem gelo, por favor' ", lê-se durante o comercial. No arremate, "a vida é muito curta para (ter) dentes sensíveis". Comecei a pensar em várias frases babosas que já ouvi ou li com essa mesma introdução: "a vida é muito curta para amar em silêncio"; "a vida é muito curta para permanecer magoado com alguém pelo resto da vida"; "a vida é muito curta para ficar se remoendo e reclamando de tudo"; "life is too short for regrets"; "life is too short to wait". E por aí vai...

Pra início de conversa, não me parece acurado presumir que a vida - assim, sem maiores particularizações e contextualizações - seja curta. 
 
Estaria de pleno acordo se se dissesse que a vida é frágil, instável e cercada de incalculáveis vulnerabilidades por todos os lados.

Mas o que diabos significa dizer que a vida é curta?

15 a 28 dias - esse é o tempo médio de vida de uma mosca. Na minha opinião, é uma vida curtíssima. Jimi Hendrix morreu algumas semanas antes de completar 28 anos. Viveu pouco? Estou certo de que teve uma existência imensamente mais proveitosa do que a minha, sendo eu quase um cinquentenário.
 
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Ninguém nega que a expectativa de vida dos seres humanos ampliou-se ao longo da história, em razão de avanços na medicina, na fabricação de remédios e vacinas, na alimentação, no saneamento e na produção de itens de higienização, etc. (embora, ainda hoje, milhões planeta afora não tenham acesso a vários desses benefícios). Além disso, mesmo que quadrilhas de criminosos brutais não tenham deixado de existir, foi graças ao aperfeiçoamento das leis e da aplicação da justiça (embora cheia de falhas), bem como à monopolização legítima do uso da força física pelo Estado, que um grande número de indivíduos pode escapar da morte decorrente de ataques de hordas itinerantes de facínoras, como era comum na Antiguidade, no medievo e até mesmo no início da era moderna ².
 
Muito mais pessoas hoje têm chance de alcançar 70, 80, 90 anos de idade.

Caramba, isso não é suficiente!?
 
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Matutemos um pouco nas hiperbólicas ideias de imortalidade e eternidade, abordadas há tempos pelas mitologias, pela arte e pelas religiões, ansiadas por tanta gente no passado e no presente.

Quando se olha mais a fundo e de forma realmente honesta, existir para sempre - ou nunca morrer - não seria, como se costuma pensar, verdadeiramente aprazível. Quer estejamos falando de um ponto de vista biológico/físico, quer falemos de um ponto de vista "incorpóreo"/sobrenatural, o ser humano que fosse/se tornasse eterno ou imortal experimentaria nalgum momento, penso eu, uma saciedade ou uma saturação diante da existência que o levaria até desejar sua própria dissipação. 

Os dois episódios finais de The Good Place (já escrevi sobre a série aqui) ilustram o que quero dizer - se o(a) eventual leitor(a) tem interesse em assistir, lamento o spoiler. 
 
Na chegada ao Lugar Bom, Chidi e Eleonor constataram que a ausência da perspectiva da morte transformou os que estavam naquele ambiente supostamente perfeito em "zumbis de felicidade". Decidiram então criar um portal: quem já estivesse satisfeito (ou cansado) de viver para sempre bastava passar por ele e sua existência acabaria. Dos personagens centrais, o mais descerebrado, Jason Mendoza, é o primeiro a desistir da eternidade (decorridos alguns Jeremy Bearimy) e resolve fazer a travessia.

E nem precisamos conjecturar um quimérico "paraíso" no "outro mundo". Bem aqui, neste abjeto planetinha Terra, conseguimos encontrar, até entre aqueles indivíduos beneficiados com uma imensidão de privilégios, rodeados por comodidades e luxos (estou falando, claro, dos ricaços), vários a sentir uma falta de apetência para viver, provocada, em geral, pelo tédio de obter (quase) tudo o que queriam. 

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Falemos agora dos que não são privilegiados, não têm vida cômoda, nem luxuosa (a maioria da população mundial, diga-se de passagem).
 
Imaginemos uma pessoa. Chamemo-la Joana. 
 
Pois bem. Joana nasceu em uma família pobre, numa área rural, sem muitas oportunidades educacionais. Começou a trabalhar cedo. Adolescente, foi para uma cidade maior, tornando-se empregada doméstica, profissão que manteve por 20 anos. Depois virou operária na indústria, realizando a mesma tarefa repetitiva por outras duas décadas. Poderia tentar se manter com o que receberia como aposentada, mas não conseguiria evitar os apertos financeiros. Quase sexagenária, volta a ser empregada doméstica. Quando fez 63, morreu de uma doença cardiovascular. Não descrevi aqui as dificuldades que Joana teve que enfrentar no decorrer de sua existência: mãe solo com dois filhos, sem direitos trabalhistas e com horários escorchantes no tempo de doméstica, pagando aluguel, dependendo do péssimo transporte coletivo, sem boas opções de lazer e cultura, sem contar com redes de proteção social, etc. Não obstante, ela talvez tenha sido feliz. Este, entretanto, não é meu ponto. Minha questão é: essa vida difícil foi curta? Será que Joana - na improvável hipótese de que tenha sido feliz - desejaria o prolongamento dessa mesmíssima vida por mais, sei lá, outros 63 anos? Acho que não...  
 
Vou abrir o jogo: acredito que 99,9% das coisas desse mundo (o termo aqui não se refere apenas a objetos) estão relacionadas a dinheiro - seu bom ou mau uso, sua boa ou má distribuição. Entre os bilhões de indivíduos que não têm grana e são obrigados a vender sua força de trabalho em ocupações árduas, desgastantes, repetitivas ou frustrantes apenas para sobreviver, acredito que bem poucos gostariam de ter sua vida prolongada dentro dessas mesmas condições.
 
No ótimo filme A qualquer custo (Hell Or High Water - direção de David Mackenzie, 2016), quando finalmente Toby (Chris Pine) e Marcus (Jeff Bridges, impecável no papel de velho policial sabichão) se encontram, o primeiro diz:

"I've been poor my whole life. So were my parents, their before them. It's like a disease passing from generation to generation, becomes a sickness, that's what it is. Infects every person you know, but not my boys. Not anymore. This is theirs now". [Eu fui pobre a minha vida inteira. Assim como meus pais e os deles antes. É como uma enfermidade passando de geração para geração, vira uma doença, isso é o que é. Infecta cada pessoa que você conhece, mas não meus meninos. Não mais. Isso é deles agora].

Ele se refere à fazendola semiabandonada que pertencia à falecida mãe. Os filhos dele vão herdá-la, mas agora não mais um campo estéril, com algumas vacas esquálidas, e sim uma área de exploração de petróleo. O imóvel, por causa de dívidas, seria tomado pelo banco. A solução para o problema arranjada por Toby e seu desajustado e violento irmão, Tanner, foi roubar agências da própria instituição financeira que se apropriaria do terreno. Não tenho dúvida de que está aí um dos motivos por que esse faroeste ambientado nos EUA pós-2008 (ou seja, pós-crise da bolha imobiliária) agradou parte do público: torcemos para os ladrões pois eles representam uma vingança contra os malditos bancos.

Como escreveu Eduardo Galeano (já citado aqui), "Dívidas: isto é o que tem quem nada tem; e uma patinha presa nessa ratoeira há de ter qualquer pessoa ou país que pertença a este mundo". Este blogueiro encontra-se no mesmo barco furado. Não me lembro qual foi a última vez que estive com as contas em dia. Mas, claro, como martelam em nossa cabeça os adoradores do deus Mercado (o que inclui, além dos controladores do capital grosso, uma grande parte dos publicitários e dos políticos, segmentos da mídia/entretenimento e, mais recentemente, coaches e digital influencers), a culpa é exclusivamente minha, pois não tenho "educação financeira". O sistema que explora até a nossa alma não tem nada a ver com isso...

Cheios de dívidas e no limite da saúde física e mental, muitos assalariados de baixa renda, trabalhadores informais e precários, gente que vive de biscate, aqueles e aquelas que não podem atender a determinados caprichos (fazer "uma viagem de descoberta interior" ou escolher "trabalhar com aquilo que gosta", já que a vida é curta, né?), gente que não pode ter o luxo de ligar o foda-se, essas pessoas talvez não estejam interessadas em estender seu tempo de existência, pois não há alternativas a não ser continuar na corrida de ratos - a esse propósito, recomendo vivamente o curta de animação Happiness, de Steve Cutts (a imagem no alto desta postagem foi extraída dele).
 
. . . . . . . .

 
Há muitos filmes na minha cabeça hoje. 
 

Entendo perfeitamente a atitude da personagem de Charlize Theron em A estrada (The Road - direção de John Hillcoat, 2009). Por que continuar existindo naquele mundo calamitoso, horrível e ainda cultivar a ilusão de criar uma família? É como ela diz antes de decidir partir para dentro da escuridão pavorosa, hedionda: "Eu não quero apenas sobreviver". Naquele cenário de barbárie e privação extremas - e o filme, a meu ver, acertou ao ser mais desolador ainda do que o excelente livro de Cormac McCarthy -, a melhor alternativa é morrer. Ainda assim, seu companheiro persistirá junto com o filho pequeno. 
 
Por que, fico me perguntando. Por quê?

Discordando da opinião da maioria (opinião que talvez seja resultado da inculcação religiosa), considero suicidar-se um dos gestos mais corajosos que alguém pode executar. Provavelmente por isso ainda não fiz uma segunda tentativa: não tenho a bravura necessária. Provavelmente também resta em mim aquele nocivo "amor gorduroso da vida", característica do Falstaff de Shakespeare, segundo o belíssimo poema de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa.

Gostaria que as pessoas pudessem deixar de viver, quando entendessem que já não suportam mais estar vivas. E tanto melhor se pudessem contar com a ajuda do Estado ou de terceiros, sem tabus ou recriminações moralistas e carolas. Considero esse direito de escolha e a assistência que poderia ser prestada avanços civilizatórios. Concordo plenamente com a personagem Gloria Beatty, do livro Mas não se mata cavalo?, de Horace McCoy (já abordado no blog numa postagem de 2014):

" - Uma coisa que me intriga é que todo mundo se preocupa tanto com viver e tão pouco com morrer. Por que é que todos esses cientistas bambas sempre andam por aí tentando prolongar a vida em vez de achar um jeito agradável de acabar com ela? Deve haver um mundão de gente como eu neste mundo... gente que quer morrer mas que não tem coragem..."
 
No ano passado, em meio ao bombardeamento de notícias horrorosas que recebemos todos os dias, não pude deixar de ficar abalado e ao mesmo tempo indignado com o fato de que uma mulher poderia ser condenada a um considerável tempo de prisão por ter furtado dois refrigerantes, um saquinho de refresco em pó e dois pacotes de miojo, na tentativa de alimentar a si e aos filhos.

Em uma entrevista, após ser solta por um habeas corpus concedido pelo STJ ³, ela disse que seu grande sonho "era ser gente". Não duvido que muitos dos tais cidadãos-de-bem-conservadores-e-cristãos apontaram o dedo para a pobre mulher e esbravejaram: "Mas também é uma drogada desocupada que vive na rua! Teve o que mereceu!". Digo a você, eventual leitor(a): já não aguento mais o cada-um-por-si deste mundo, a burrice generalizada, a acumulação indecente de dinheiro, a proximidade do colapso ambiental.

Acho que já vivi demais. 
 
Está insuportável.

Preciso dar o passo final. Que me venha a coragem.

___________
¹ Já expliquei este ponto anteriormente, mas o faço agora, de novo, pois julgo importante. Quando uso a expressão música pop, estou me referindo a tudo aquilo que não é música clássica nem erudita. Em termos simples: música pop é aquilo que toca no rádio, aquilo que era feito para vender discos (e hoje é feito para gerar downloads ou acessos/visualizações). Não importa a vertente (rock, reggae, dance, metal, o chamado sertanejo, blues, country, o pop em si mesmo - quando considerado como um gênero à parte -, tecno/eletrônico, jazz, aquilo que denominamos MPB, aquilo que toca nos chamados bailes funk, etc.): se não é erudito nem clássico e foi feito com objetivos mercadológicos (o que não significa necessariamente um vício de origem), coloco tudo no gigantesco balaio da música pop. Obviamente, dentro dessa vastidão, há coisas que gosto e coisas que detesto.
 
² Para fazer todas essas afirmações (um tanto forçadas e peremptórias, admito), estou deliberadamente considerando a trajetória humana "somente" a partir do processo de sedentarização possibilitado pela agricultura e o surgimento das condições para o nascimento das primeiras civilizações.  

³ Como um caso desses vai parar no STJ? Que judiciário é esse? Como os juízes das instâncias inferiores não tiveram a compreensão e a sensibilidade adequadas para lidar com isso?
 

BG de Hoje

Adoro o riff de guitarra desta canção: Summer Romance (Anti-Gravity), gravada pelo INCUBUS e lançada em 1997. Alguns comentaristas de música já observaram - e eu concordo - que o Incubus, em muitos momentos, parece um epígono do Faith No More (esta sim uma das minhas bandas preferidas).


sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Histórias, narrativas e discursos (I)

"Mas as histórias, mesmo as melhores e mais verídicas, não podem nos salvar de nossa loucura. As histórias não podem nos proteger do sofrimento e do erro, de catástrofes naturais ou humanas, de nossa própria cobiça suicida. O máximo que podem é, por vezes e por razões impossíveis de prever, fazer com que percebamos essa loucura e essa cobiça e voltemos um olhar vigilante para nossas tecnologias cada vez mais perfeitas. As histórias podem nos oferecer consolo para nosso sofrimento e nomes para nossa experiência. As histórias podem nos dizer quem somos, o que são essas ampulhetas pelas quais passamos, como podem nos ajudar a imaginar um futuro em que, sem finais felizes e confortáveis, possamos continuar vivos e juntos nesta terra tão devastada".

 Alberto Manguel - A cidade das palavras 

 

Costumava contar histórias no trabalho.

Isso terminou em 2019.

A prefeitura do município - a empregadora - extinguiu o cargo que eu ocupava e criou um outro, praticamente me obrigando a ir cumprir tarefas num setor cujas incumbências em quase nada se assemelham às funções que vinha exercendo há mais de 20 anos. Toda uma experiência de prestação de serviço depreciada por uma decisão administrativa, a meu ver, discutível... 

Fazer o quê?

Nunca fui um contador de histórias especialmente talentoso, mas também não era dos piores. Comecei no ano 2000, animado por um Curso de Formação de Mediadores de Leitura, da Fundação Abrinq (mencionei-o aqui).

Pode ser um purismo desnecessário, mas penso que se deve fazer uma distinção. Em certas ocasiões, não me preocupava nem um pouco em reproduzir ipsis litteris o texto-base: achava melhor incluir variações ou "cacos", para me aproximar da espontaneidade da fala. Os contos infantis Tampinha (de Angela Lago) e Rumpelstiltskin (compilado pelos Irmãos Grimm), entre vários outros, eram alguns dos que cabiam melhor na estratégia. Nesse caso, então, preferia dizer que estava contando uma história. Noutros momentos, pensava que o mais acertado era oferecer os textos-base sem alterações. Tratava-se de uma leitura direta (com uns toques teatrais) dos livros que continham as histórias. Este admirável mundo louco (Ruth Rocha), Os pestes (Roald Dahl) e A fogueira (Jack London) são algumas das muitas que já apresentei dessa forma (a última teve recepção surpreendentemente positiva em turmas da educação de jovens e adultos com as quais trabalhei). Nessas vezes, gostava de dizer que estava narrando uma história.

Tanto o contar quanto o narrar histórias têm seus préstimos. Creio que ambas as ações contribuem para um aprendizado da escuta - essa faculdade tão rara de se achar em pessoas de qualquer idade. Além disso, falando especificamente do narrar, estou entre aqueles que acredita ser fundamental ler textos em voz alta para outras pessoas, sobretudo para aquelas que não têm uma grande bagagem literária e não percebem como o ritmo da leitura, as inflexões na voz (mesmo aquela "voz interna" que muitos de nós empregamos quando lemos silenciosamente) ou a observação correta da pontuação são muito relevantes para o entendimento daquilo que se comunica por escrito.

Não faço ideia de como se deu o processo que levou os humanos, lá no Paleolítico, a iniciarem o desenvolvimento de algo tão magnífico como a linguagem verbal articulada. E o que considero ainda mais prodigioso: como foi que evoluíram a ponto de serem capazes não só de comunicar necessidades imediatas e dar orientações práticas, mas de expressar abstrações e criar metáforas, imaginar personagens e enredos, usar as palavras para jogar com as noções de passado e de futuro apenas pelo prazer de contar histórias e compor ficções?

. . . . . . .

Dos mitos cosmogônicos às fanfics, da epopeia de Gilgamesh às teorias da conspiração, do Dom Quixote aos RPGs (role-playing games), o fato é que os agrupamentos humanos sempre demandaram histórias.

Aedos, rapsodos, menestréis, trovadores, griots, poetas, romancistas, dramaturgos, roteiristas. Seja na forma oral ou usando o cálamo, a pena, a caneta, o teclado, sempre haverá pessoas dispostas a difundir narrativas nascidas da fabulação e da invencionice.

Mas os sentidos de termos como história e narrativa parecem-me um pouco amesquinhados hoje em dia, tal como os vejo sendo usados no meio empresarial, no marketing, no jornalismo e na política profissional/institucional.

Pretendo explicar isso melhor na próxima postagem e também sugerir que passemos a falar mais a palavra discurso no dia-a-dia.

BG de Hoje

Posso estar puto, triste, mas basta eu ouvir Colors, do BLACK PUMAS, e o mundo deixa de ser a desgraça que é (pelo menos nos minutos que dura a canção). Eric Burton canta demais e o Adrian Quesada... bem, escutem o solo dele no vídeo abaixo. Há poucas semanas, o projeto PLAYING FOR CHANGE também fez sua versão de Colors, com participação não só de Burton e Quesada, mas também do Slash.

 


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Falou e disse...

"Well, I come from—as you said, I grew up in the hood. And so, when we think about these communities that we care about, the communities that have been so-called devastated by drugs of abuse, I believed that narrative for a long time. In fact, I’ve been studying drugs for about 23 years; for about 20 of those years, I believed that drugs were the problems in the community. But when I started to look more carefully, started looking at the evidence more carefully, it became clear to me that drugs weren’t the problem. The problem was poverty, drug policy, lack of jobs—a wide range of things. And drugs were just one sort of component that didn’t contribute as much as we had said they have.

[...]

People get addicted for a wide range of reasons. Some people have co-occurring or other psychiatric illnesses that contribute to their drug addiction. Other people get addicted because that’s the best option available to them; other people because they had limited skills in terms of responsibility skills. People become addicted for a wide range of reasons. If we were really concerned about drug addiction, we would be trying to figure out precisely why each individual became addicted. But that’s not what we’re really interested in. We are interested, in this society, of vilifying a drug. In that way, we don’t have to deal with the complex issues for why people really become addicted". *  **


* Afirmações do psicólogo e neurocientista estadunidense Carl HART, feitas durante entrevista para a organização jornalística Democracy Now!, publicada em 06/01/2014 ("Drugs aren't the problem", disponível aqui). Li essas afirmações há alguns anos e desde então constato como nossas sociedades disfuncionais lidam mal com a questão das drogas (lícitas ou ilícitas), sobretudo em relação às parcelas mais pobres da população. Ao invés de se olhar para o consumo abusivo de drogas como assunto de saúde pública, muitas vezes ligado a problemas sociais e econômicos ou à ausência de ações preventivas eficazes por parte do Estado, prefere-se adotar uma postura moralista, com repressão violenta aos usuários (àqueles que consomem substâncias consideradas ilegais, pois há muita complacência com o álcool, mesmo quando se sabe o quanto ele é danoso - a propósito, eu sou alcoólatra). Isso tudo sem falar no temor de se discutir franca e abertamente a possibilidade de descriminalização de alguns (ou, quem sabe, de todos os) entorpecentes e na insistência com a malsucedida "guerra às drogas" (que é, na verdade, uma guerra aos pobres). Sugiro também ao(à) eventual leitor(a) o documentário Crack: cocaína, corrupção e conspiração, no catálogo da Netflix. 

** [Tradução aproximada: "Bem, eu vim - como você disse, eu cresci na periferia. E assim, quando nós pensamos nessas comunidades com as quais nos importamos, as comunidades que têm sido chamadas de devastadas por drogas de abuso, eu acreditei nessa narrativa por um longo tempo. Na verdade, eu venho estudando drogas por cerca de 23 anos, por cerca de 20 desses anos, eu acreditei que as drogas eram os problemas na comunidade. Mas quando eu comecei a olhar mais cuidadosamente, comecei a olhar as evidências mais cuidadosamente, tornou-se claro para mim que as drogas não eram o problema. O problema era pobreza, a política de drogas, a falta de empregos - uma amplidão de coisas. E drogas eram apenas um componente que não contribuía tanto quanto nós dizíamos.

[...]

Pessoas ficam viciadas por uma amplidão de motivos. Algumas pessoas têm doenças psiquiátricas ou outras concomitantes que contribuem para seu vício em drogas. Outras pessoas ficam viciadas porque essa é a melhor opção disponível para elas: outras porque são limitadas em termos de capacidade de ser responsáveis. As pessoas se tornam viciadas por uma amplidão de motivos. Se nós estivéssemos realmente preocupados com o vício em drogas, nós estaríamos tentando descobrir precisamente por que cada indivíduo se tornou viciado. Mas não é nisso que estamos realmente interessados. Estamos, nessa sociedade, interessados em maldizer uma droga. Desse modo, não temos que lidar com questões complexas de por que as pessoas realmente se tornam viciadas".]


segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Alice In Chains no MoPop


Como sou uma besta quadrada, apenas em agosto deste ano é que soube da existência do Museum Of Pop Culture (MoPop), localizado em Seattle (EUA), cidade natal de seu fundador, o falecido bilionário Paul Allen (um dos criadores da Microsoft, junto, é claro, de seu amigo e conterrâneo Bill Gates).

A organização surgiu no ano 2000 como Experience Music Project and Science Fiction Museum and Hall of Fame (o nome atual só começou a ser usado em 2016). Suas exibições e atividades, além de ocasionais mostras de artes plásticas, são voltadas principalmente para cinema, literatura, quadrinhos, videogames e entretenimento nos gêneros de ficção científica, fantasia e horror, bem como a manutenção de acervos e a realização de eventos relacionados à música pop, com destaque para artistas nascidos em Seattle ou vinculados à cidade

Desde 2007, ocorre uma celebração (cujo objetivo é também angariar fundos) homenageando cantores(as), instrumentistas, bandas e afins, intitulada Founders Award. Devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19, a festividade teve de ser cancelada em 2020, mas as apresentações musicais previstas aconteceram e foram abertas para o público em geral, por meio de transmissão online. 

Tratou-se de um tributo ao Alice In Chains, meu grupo de rock preferido.

Nesta postagem, destaco as performances de que mais gostei.

Man In The Box


Canção mais famosa do Alice In Chains, provavelmente, Man In The Box marcou a minha vida (já escrevi sobre isso aqui). Na execução acima, três músicos que se conhecem bem: Dave Navarro e Chris Chaney tocam juntos no Jane's Addiction há um longo tempo; o baterista Taylor Hawkins (Foo Fighters) é parceiro de Chaney num projeto paralelo (além disso, os dois colaboraram com Alanis Morissette no passado). Mantendo o estilo próprio, Navarro ainda assim conduziu sua guitarra de maneira bem próxima da versão original, inclusive no solo. Não tão positiva foi a atuação de Corey Taylor (Slipknot). Cantor respeitado dentro e fora do ambiente do heavy metal, Taylor não conseguiu atingir a pujança vocal do falecido Layne Staley, principalmente no refrão. Ainda assim, aprovei.


It Ain't Like That


Algumas performances aconteceram fora das dependências do museu. É o caso dessa. It Ain't Like That é minha canção preferida do Alice In Chains. Não esperava que fosse tocada nesse tributo porque não é das mais conhecidas. Fiquei contente. Nunca tinha ouvido falar na cantora Shaina Shepherd. Pouco importa: ela é ótima. Não se pode deixar de mencionar a participação do mestre zen da guitarra de Seattle, Kim Thayil (Soundgarden). It Ain't Like That tem alguns dos melhores versos cantados por Layne Staley, como por exemplo:

"Here I sit, writing on the paper
Tryin' to think of words you can't ignore
In my eyes, what I'm lackin'
Score at face, a ten for slackin'
Sign the deal, set in motion
Smaller fish, so huge the ocean"



Would?


(Versão do Metallica)
Outra apresentação que não ocorreu no MoPop. É significativo que uma banda tão venerada e rica quanto o grupo californiano desça de seu pedestal para honrar outros artistas, mesmo que seja sem sair de casa. Aplausos para o vocal de James Hetfield: a medida que o tempo passa, ele vai cantando cada vez melhor, anos-luz de distância da - como gosto de dizer - fase "canina" dos três primeiros álbuns do Metallica.


(Versão do Korn)
Se você for ler os comentários do vídeo acima no Youtube, verá que alguns deles começam mais ou menos assim: "I'm not a Korn's fan, but...". Pois bem, não sou fã do Korn, mas eles acertaram em cheio nessa.


Put You Down


Adorei essa performance! Liv Warfield é uma cantora ligada ao rythm'n'blues e ao soul, mas Put You Down encaixou-se perfeitamente com ela (e para valorizar sua voz, penso eu, a canção foi tocada numa levada um pouquinho mais lenta do que a versão original). Achei bacana a transmissão do vídeo ter explorado bem o cenário do museu. Quando ouvi Put You Down pela primeira vez, senti uma vibração parecida com o Van Halen, banda que eu ouvia pra caramba, 30 anos atrás. Muito tempo depois, soube que Jerry Cantrell, de fato, admirava o guitarrista neerlandês-americano (este, inclusive, presenteou o então iniciante Alice In Chains com instrumentos e equipamentos, no comecinho da década de 1990).


Rooster


É o que se pode chamar de encontro de gerações: Ann Wilson, que desde os anos 1970 e sobretudo nos 1980, ajudou a reforçar a imagem de Seattle como uma cidade roqueira (graças ao sucesso do Heart, banda formada junto com sua irmã, Nancy), interpretando Rooster, hit de um dos expoentes do grunge, cena musical que teve Seattle como epicentro nos anos 1990 (muito embora o Alice In Chains não assumisse o rótulo).


Them Bones


A versão mais "estranha" (no bom sentido) de todo o evento. O Fishbone é daqueles grupos difíceis de classificar (ska? funk? rock?). Não sei descrever o que esses caras fizeram nesse cover, mas ficou bom.


No Excuses (com o próprio Alice In Chains)


Faz muito sentido tocar No Excuses num dia de homenagem, uma vez que a canção tematiza a amizade. Nessa versão acústica, já experimentada no MTV Unplugged de 1996, o trabalho do baterista Sean Kinney transparece. No Excuses também realça uma das melhores características do Alice In Chains: a harmonização vocal em dupla (às vezes recorrendo ao double-tracking nas gravações de estúdio), algo raro em bandas de rock pesado. Por falar nisso, confesso que custei muito a "aquiescer" com a incorporação de William DuVall ao grupo. Sua adição, porém, revelou-se bastante acertada: é um bom cantor, além de instrumentista competente (algo que Layne Staley, mesmo sendo dono de uma voz extraordinária, não era). Após a chegada de DuVall, mais três discos foram lançados, sendo um destes - Black Gives Way To Blue - um álbum bem bacana, na minha opinião. 


Rain When I Die


Deixei por último a apresentação que considerei a mais bonita de todas. Nunca imaginei que Rain When I Die pudesse ser tocada sem o forte riff de guitarra elétrica que é a sua principal marca na versão original. Não foi preciso mais do que o violão e a voz límpida do cantor e compositor canadense Dallas Green (que usualmente se apresenta com o nome artístico City and Colour) para dar ainda mais dramaticidade a uma canção já de si tão triste. Belíssimo.

Se o(a) eventual leitor(a) desejar, o evento completo pode ser conferido aqui.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

Sobre a ABL (Academia Brasileira de Letras) e sobre o seu lado ultrapassado


[Postagem atualizada em 14/12/2021]


A chamada Casa de Machado de Assis, nos últimos dois meses, conseguiu um espaçozinho nos noticiários em virtude da eleição de quatro novos membros, sendo dois destes - Fernanda Montenegro e Gilberto Gil - artistas bastante populares e estimados. 

Terá sido uma estratégia para gerar imagem mais simpática e menos vetusta, já que, na visão de alguns, a agremiação não passa de um clube privativo de velhinhos emproados que se reúnem de vez em quando para tomar chá e fazer comentários pomposos sobre a cultura do país?

É provável que sim (movimento similar parece ter sido a entrada de Paulo Coelho em 2002). Em minha opinião, contudo, está longe de ser suficiente para que a instituição aparente ser mais receptiva e avançada, sobretudo ao pensarmos no processo de candidatura e escolha de seus membros.

Quando uma cadeira é declarada vaga após o cerimonial previsto, os postulantes precisam, em até 30 dias, enviar uma carta, e-mail ou telegrama (sim, o telegrama ainda é usado no Brasil) para a presidência da ABL, manifestando o interesse. Os únicos pré-requisitos são: 1)ter nacionalidade brasileira e 2)contar com ao menos um livro publicado no currículo (o estatuto da entidade fala que o volume deve apresentar "valor literário", mas outras "obras de reconhecido mérito" são também aceitas). Indicados os concorrentes, a definição do(a) vencedor(a) acontece por meio de escrutínio secreto. Vence aquele(a) que obtiver maioria simples. O eleitorado resume-se aos(às) integrantes já estabelecidos(as) e empossados(as).

Tranquilo, não?

Contudo, entre a inscrição e o resultado, há uma longa campanha. Ou seja, é preciso pedir votos.

Em 1940, Oswald de Andrade se candidatara. Enviou correspondência feroz a cada um dos membros. Começava assim ¹:

"Será Vossa Senhoria uma das raras inteligências desse Grêmio que compreendem a atual situação do mundo, e, portanto, a da própria Academia? […] Ou será Vossa Senhoria daquelas teimosas velhas de Botafogo que ainda acreditam no pavoneio dos títulos literários, roubados aos verdadeiros trabalhadores da cultura?”

E terminava: "O futuro julgará essa eleição mais do que essa eleição me julgará".

O autor do Manifesto Antropófago errou na previsão. A instituição, nos anos seguintes, não deu mostras de desmoronamento por não escolhê-lo (penso até que se reforçou ao optar por Manuel Bandeira, um poeta incomparavelmente melhor). Isso não quer dizer que a Academia Brasileira de Letras não está perdendo o bonde da História, como disse Conceição Evaristo no programa Roda Viva. Voltarei à escritora mais adiante.

Fundada em 1897, a ABL demorou 80 anos para eleger uma mulher (Rachel de Queiroz). Um artigo de seu regimento interno inclusive restringia a eleição a "brasileiros do sexo masculino" e só foi alterado em 1976 (atualmente, os homens ocupam mais de 80% das cadeiras). Além desse passivo androcêntrico, digamos assim, foi ínfimo, ao longo dos anos, o número de afrodescendentes entre seus quadros. 

O crítico literário, poeta e ensaísta Antônio Carlos Secchin, atual ocupante da cadeira 19, afirma que "a representatividade é bem-vinda, mas não pode ser pré-requisito, pois não há cotas [...] Na história da ABL, registram-se acadêmicos negros, gays, registra-se, muito tardiamente embora, a presença de mulheres. Convivem representantes de todos os gêneros literários. Esperamos que essa representatividade ainda se amplie, não por gesto paternalista de benevolência, mas pela qualidade intrínseca dos candidatos.". Segundo ele, também se considera para a escolha que o(a) novo(a) membro eleito(a) "desejavelmente enseje um convívio harmônico, pois será vitalício".

No seu valor de face, a frase "não há cotas" (na ABL) é verdadeira, mas - e posso estar completamente errado na avaliação - vejo nela uma necessidade de bravatear independência. Parece uma tática diversionista. Os problemas da ABL, segundo penso, não se restringem à baixíssima diversidade de representação, um fato inegável. Eles tem a ver com dois outros pontos das declarações de Secchin: a suposta "qualidade intrínseca dos candidatos" e o preceito (não sei se regimental) do "convívio harmônico".

Convenhamos, quantos não se tornaram "imortais" apenas por serem endinheirados, influentes ou bem relacionados com o poder? Ao longo dos anos, poetastros inexpressivos, romancistas fracos, médicos, advogados e jornalistas não mais que medianos (mas cheios de si), políticos buscando lustre (incluindo associados à ditadura militar), não tiveram qualquer dificuldade para serem escolhidos. "Qualidade intrínseca dos candidatos"? Difícil de engolir... Quanto ao tal "convívio harmônico", os acadêmicos não ficam confinados ao estilo BBB e creio que não moram no Petit Trianon. Encontram-se, eventualmente, duas vezes por semana e noutras ocasiões extraordinárias. Qual o problema se houver algum desentendimento? A instituição não sabe lidar com a divergência?

Quando Conceição Evaristo aceitou se candidatar em 2018 (após petições na web), seu gesto foi carregado de significação política (no amplo sentido da palavra), assim como foram as recusas em concorrer de Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade, décadas antes. Ela não procurou adular os(as) integrantes da ABL, nem sequer enviou comunicados pessoais a eles(as), expediente usual na pequena confraria. Nélida Piñon e Ignácio de Loyola Brandão ficaram amuados (quase todos os outros também, já que Evaristo só obteve um voto favorável). A candidata deveria ter "contatado, visitado os acadêmicos", reclama Piñon. "Ela forçou sua candidatura, não cumpriu nenhum ritual, nada de nada, como se fosse necessário dar-lhe um lugar", queixa-se o autor de Não verás país nenhum (um livro, aliás, de que gosto muito).

Não sei você, eventual leitor(a), mas grande parte das escolhas da instituição, para mim, tem menos a ver com possíveis valores literários, artísticos e culturais e mais com louvaminhas e compadrio. 

Apesar da notoriedade que ainda a circunda, a Academia Brasileira de Letras dificilmente conseguirá desembaraçar-se de certas posturas e dispositivos ultrapassados. Pelo menos não no curto/médio prazo. E o fardão cafona nem é o pior deles.

Há em seu estatuto, por exemplo, a exigência de que 25 dos 40 ocupantes de cadeira possíveis sejam residentes no Rio de Janeiro, algo que até fazia sentido no final do século XIX, quando a cidade era o centro político e econômico do país, não existia transporte aéreo e a comunicação via internet não era sequer sonhada, mas essa obrigação é perfeitamente dispensável hoje. Entende-se que a ABL tenha muito apego a tradições, mas por que não ampliar o número de eleitores, tendo em conta as muitas mudanças demográficas, educacionais, socioeconômicas e culturais ocorridas desde a sua fundação? (Se não for o caso de aumentar o número de cadeiras, por que não formar um conselho, composto, sei lá, de professores universitários ou outros estudiosos, cujo posicionamento teria algum peso nas votações ou nas indicações de candidaturas?). Sendo sua missão "a cultura da língua e da literatura nacional", não é muito claro qual o papel da entidade em relação à produção de escritores(as) jovens e ao fomento da leitura.

Buscando poupá-la de críticas, alguns de seus membros fazem questão de lembrar que a ABL não é pública (e, portanto, seria livre para formular suas próprias normas). De fato, trata-se de entidade privada sem fins lucrativos, cujos recursos advêm principalmente dos rendimentos oriundos de aluguéis de imóveis, com destaque para o edifício localizado ao lado do Petit Trianon. Também há o apoio da Light e da Vale e, esporadicamente, de outras empresas. O que não muda o desejo (oculto ou escancarado) de muitos de seus membros - vivos ou falecidos - de serem vistos e lembrados como glórias nacionais reverenciadas pelo povo ("Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem/Não vês que não tens importância absolutamente nenhuma?", para lembrar os famosos versos de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos).

Apesar de reprovar a Academia Brasileira de Letras em muitos aspectos, acho que ela tem uma tarefa a cumprir, principalmente num país tão clivado como o nosso, com tantos problemas educacionais (o que se reflete nos hábitos e disposições de leitura da população). A existência de instituições de consagração, bem como a de prêmios literários, malgrado suas falhas, têm a importante função de balizar determinado campo da cultura e da arte e atrair a atenção de pessoas que usualmente não se reconhecem nele (daí a relevância da candidatura de Conceição Evaristo em 2018 e a de Daniel Munduruku neste ano). 

Para finalizar: se é acabrunhante saber que José Sarney e Merval Pereira (cáspita!) integram a ABL, por outro lado é gratificante que também estejam lá intelectuais pelos quais tenho profundo respeito (Evanildo Bechara, Alberto da Costa e Silva, Sérgio Paulo Rouanet, o acima mencionado Antonio Carlos Secchin) e outros que, além de respeitar, também admiro (Lygia Fagundes Telles, Antonio Cicero, Ana Maria Machado e o recém-chegado Gilberto Gil).
     
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¹ O beija-mão na Academia Brasileira de Letras. Revista Época. 29 mar. 2018 [Matéria assinada por Marcelo Bortoloti]. Disponível em: https://epoca.oglobo.globo.com/cultura/noticia/2018/03/o-beijamao-na-academia-brasileira-de-letras.html. Acesso em: 03/12/2021. 

² O que é imortal: com silêncio e mistério, começa campanha para vagas na ABL. TAB Uol. 12 set. 2021 [Matéria assinada por Mateus Araújo]. Disponível em: https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/09/12/rito-de-imortal-com-silencio-e-misterio-comeca-campanha-para-vagas-na-abl.htm . Acesso em 03/12/2021. Todas as declarações de membros da ABL citadas aqui  foram extraídas dessa reportagem.

BG de Hoje

Catavento e girassol, parceria do violonista GUINGA com ALDIR BLANC, é uma canção que consegue, como poucas, reunir sofisticação e despojamento. Linda demais. E que tem na interpretação da LEILA PINHEIRO sua versão definitiva.