quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A submissão epistemológica de Blaise Pascal



Um modo bastante corriqueiro de realizar a exegese de um texto filosófico canônico é interpretá-lo levando em consideração dados extraídos da biografia de seu autor. Para ser franco, não gosto desse expediente, pois, em muitos casos, a vida pessoal de um filósofo não ajuda a explicar sua obra. Entretanto, no caso de Blaise Pascal, a coisa muda de figura.

Devo admitir, entretanto, que, não sendo um estudioso particularmente interessado na obra pascalina, conheço apenas, de forma superficial, alguns fatos relacionados à sua biografia. Dessa maneira, prosseguirei, valendo-me somente das mais difundidas informações sobre a vida do filósofo francês.

Como se sabe, Blaise Pascal morreu antes dos 40 (1623-1662). Seus últimos anos foram bem penosos: a saúde, frágil desde a infância, esvaiu-se paulatinamente em razão das doenças constantes, incapacitando-o até mesmo para a escrita (diversos trechos de seu célebre trabalho póstumo - Pensamentos - foram ditados a terceiros). Mesmo sendo filho de um alto funcionário da burocracia estatal e não tendo que trabalhar para se sustentar, Pascal deve ter experimentado o seu quinhão de sofrimento. Mas isso não o transformaria num santo, ainda que a irmã do filósofo, Gilberte Périer, tenha tentado algo nesse sentido.

Publicada em 1684, A vida de Pascal passou a ser anexada a muitas edições ulteriores dos Pensamentos (como a que tenho em mãos agora*). A autora, como numa hagiografia**, confere ao irmão uma aura de devoção e magnanimidade sobre-humana:

"É verdade que nunca vi alma mais naturalmente superior a todas as manifestações humanas da corrupção natural; e não era somente em relação às injúrias que se mostrava tão insensível; era-o igualmente no concernente a tudo o que fere os outros homens e os apaixona. Tinha seguramente uma grande alma, mas sem ambição, não desejando nem grandeza nem poder e considerando mesmo que tudo isso comporta mais miséria do que felicidade. Só aspirava aos bens para distribuí-los aos outros e seu prazer residia na razão, na ordem, na justiça, em tudo, enfim, capaz de alimentar a alma. E só muito pouco nas coisas dos sentidos".

Esse texto um tanto mistificador deu, provavelmente, sua contribuição para que Pascal (pelo menos até o início do século XIX) fosse considerado um exemplo de (bom) caráter para muitos. Excluindo-se suas fantasias e exageros retóricos, porém, A vida de Pascal apresenta pelo menos um dado importante para meu propósito hoje. Segundo Gilberte Périer, antes do filósofo atingir os 24 anos,

"tendo-lhe a Providência divina dado a oportunidade de ler escritos devotos, Deus o iluminou de tal maneira com essa leitura que ele compreendeu perfeitamente que a religião cristã nos obriga a viver tão-somente para Deus e não ter outro objetivo senão Deus".

Ora, ainda adolescente, Blaise Pascal já era considerado um matemático genial. Sua contribuição no cálculo de probabilidades (denominado por ele de alae geometria - "geometria do acaso") é significativa. Dessa maneira, não é incômodo que um pensador com tal capacidade consagre seus esforços finais à pretensa salvação da alma num pretenso além-túmulo, afundando-se no atoleiro da religião?

Neste momento, não consigo deixar de especular: teria sido Pascal um indivíduo tão atormentado pelas agruras da existência a ponto de simular um recolhimento monástico e sujeitar seu intelecto às inconsistências da teologia? O fato de estar a todo momento sob ameaça da morte (na forma de uma ou mais doenças) foi assim determinante para o rumo tomado por suas reflexões filosóficas? Por ter adotado como divisa a renúncia aos prazeres e "a toda forma de superfluidades" - como acreditava Gilberte Périer -, o filósofo francês não encenara em vida (uma vida relativamente curta para nossos padrões atuais, diga-se de passagem) uma tragédia pessoal semelhante à perspectiva trágica de sua própria filosofia?

A maior parte dos Pensamentos me aborrece***, mas lê-los, tendo em mente os vestígios de infortúnio que atribuo ao ambiente e às circunstâncias em que a obra foi elaborada, torna tudo mais estimulante.

Ao contrário de Descartes, Pascal não admitia um ponto seguro e garantido, acessível ao ser humano, a partir do qual o conhecimento poderia ser estabelecido: noutras palavras, Pascal foi um dos primeiros filósofos modernos a questionar a supremacia absoluta da razão (embora ele próprio não deixasse de ser, a seu modo, um racionalista). A razão humana é limitada; aquilo que ela conhece será sempre limitado:

"Todo esse mundo visível é apenas o traço imperceptível na amplidão da natureza, que nem sequer nos é dado conhecer mesmo de um modo vago. Por mais que ampliemos as nossas concepções e as projetemos além dos espaços imagináveis, concebemos tão-somente átomos em comparação com a realidade das coisas. Esta é uma esfera infinita cujo centro se encontra em toda parte e cuja circunferência não se acha em nenhuma".

De acordo com o filósofo, à ausência de "uma plataforma firme e uma base última e permanente" sobre a qual se possa erguer o conhecimento junta-se o fato de "[as coisas] serem simples em si, enquanto nós somos compostos por duas naturezas antagônicas e de gêneros diversos, alma e corpo", completando nossa incapacidade de conhecer (e aqui estamos diante do velho dualismo que sustenta toda uma concepção metafísica da existência).

Se somos - segundo o autor de Pensamentos, OK? - "infinitamente incapaz[es] de compreender os extremos" e permanece vedado a nós "tanto o fim das coisas como o seu princípio", fechados ambos "num segredo impenetrável", o que nos resta fazer? Buscar a Deus por intermédio de Jesus Cristo, responderia Pascal, para, desse modo, aplacar "a doença principal do homem": a curiosidade.

Pascal defendia o preceito do Deus absconditus, ou seja, um ser divino "infinitamente incompreensível, pois, não tendo partes nem limites, não tem nenhuma relação conosco". Mas como se sabe que ele existe? Não se pode determiná-lo pela razão. É preciso então recorrer à fé para aceitá-lo. E o que é a fé? "É o coração que sente Deus, e não a razão. Eis o que é a fé: Deus sensível ao coração, não a razão".

Há várias menções ao coração no texto do filósofo francês (inclusive na conhecidíssima frase "O coração tem suas razões, que a razão não conhece: percebe-se isso em mil coisas"). Sendo a razão insuficiente para o conhecimento total das coisas do mundo, Pascal - e nesse caso, acertando ao mesmo tempo em que erra - torna relevantes a intuição e as emoções no conjunto das tentativas de entendimento humano. É por esse motivo que ele afirma: "Conhecemos a verdade não só pela razão mas também pelo coração".

A solução apresentada por Pascal para solucionar a incapacidade humana de conhecer é (para usar a expressão consagrada por Kierkegaard) dar um salto enorme: submeter o escrutínio racional à fé religiosa, o que resulta na paradoxal sentença: "Submissão e uso da razão, eis em que consiste o cristianismo".

Nem preciso dizer que acho essa solução desprezível. Não obstante, olho com certa simpatia para esse pensador angustiado.
__________
* PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 [Tradução de Sérgio Milliet] (Coleção Os pensadores)

** Vale lembrar que "vidas de santos" eram material de leitura muito difundido na Europa desde o final do século XVI até a primeira metade do século XIX.

*** Há, contudo, trechos expondo a antropologia filosófica de Pascal pelos quais tenho grande interesse e escreverei sobre eles noutra oportunidade.

BG de Hoje

Downbound train (BRUCE SPRINGSTEEN) - que em bom "mineirês" poderia ser traduzida como "Trem despinguelado" - narra a história de um cara comum, cuja vida é uma sucessão de pequenas e grandes infelicidades. E então ele se pergunta: "Don't you feel like you're a rider on a downbound train?" Eu me sinto assim quase o tempo todo.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Campo Geral: uma história que se lê para ficar triste


"Os outros têm uma espécie de cachorro farejador, dentro de cada um, eles mesmos não sabem. Isso feito um cachorro que eles têm dentro deles, é que fareja, todo o tempo, se a gente está mole, está sujo ou está ruim, ou errado... As pessôas, mesmas, não sabem. Mas, então, elas ficam assim com uma precisão de judiar da gente..."


Fala do Dito, personagem de Campo Geral, de João Guimarães Rosa.

 
 
O ensaísta e historiador Alberto da Costa e Silva observou, com acerto, que "poucos, pouquíssimos escritores souberam tão bem captar as iluminações da meninice quanto Guimarães Rosa. Os seus meninos são tão reais, e tão meninos, que cada um de nós neles revê suas saudades" *.

De fato, alguns dos mais inesquecíveis personagens do universo rosiano (ou roseano, como queiram) são crianças: lembro, por exemplo, do (simplesmente assim chamado) Menino, do conto As margens da alegria, ou a Nhinhinha, encantada criatura presente em A menina de lá, ambos os textos integrando o volume Primeiras estórias. Antes destes, porém, há ainda o Tiãozinho, guia de um carro puxado por sábios bovinos em Conversa de bois (de Sagarana). E, claro, há também Miguilim, protagonista da extraordinária novela Campo Geral**.

Só que quando leio (e releio) esta última história, não é saudade o que sinto, mas sim uma grande tristeza. E é justamente a sua tristeza aquilo que, na condição de leitor, busco, pois as obras de arte verdadeiras devem provocar em cada um de nós diferentes matizes de sentimentos e é isso que as torna, ao lado de suas qualidades técnicas e estilísticas, grandiosas.

Cercado por um ambiente tomado pela brutalidade, representada principalmente pela figura paterna, Miguilim estava sempre "receando os desatinos das pessoas grandes". Ao perguntar para o irmão Dito (que, embora mais novo que ele, era possuidor de maior sabedoria) se o considerava um "bobo de verdade", recebe uma sublime resposta: "É não, Miguilim, de jeito nenhum. Isso mesmo que não é. Você tem o juízo por outros lados...". Parecido com a mãe, sonhador, ficava "todo olhando para a tristeza".

Sem saber ler ou escrever, Miguilim gosta de inventar histórias. Criança dotada de uma sensibilidade ímpar, com um modo bem peculiar de reagir ao mundo, o personagem tem aversão por todos os elementos que possam transtornar seu ensimesmamento:

"Porque a alma dele temia os gritos. No sujo lamoso do chiqueiro, os porcos gritavam, por gordos demais. Todo grito, sobre ser, se estraçalhava, estragava, de dentro de algum macio miolo - era a começação de desconhecidas tristezas. O quirquincho de um tatú caçado. O afurôo dos cachorros, estrepolindo com o tatú em buraco".

Mas ele é apenas uma criança e, como lemos em certa altura da narrativa, "ser menino, a gente não valia para querer mandar coisa nenhuma". Ele sofre e não há nada que o leitor possa fazer; ambos partilhando a mesma triste impotência.

Quando li Campo Geral pela primeira vez, há muitos anos, foi um dilema ético vivenciado por Miguilim aquilo que mais atraiu minha atenção. Entregar ou não o bilhete escrito por Tio Terêz para a sua mãe: o menino fica agoniado por causa da difícil decisão e não recebe dos outros personagens a quem recorre nenhuma orientação satisfatória. É sem dúvida um momento fundamental do livro (e provavelmente escreverei sobre isso noutra ocasião), mas, após várias releituras, percebo hoje que sempre foi a figura mesma do protagonista, com a sua mistura de fragilidade e resistência, a razão do meu interesse e afeto por esse livro.

Apesar de irradiar esperança em suas últimas cenas, nunca conseguirei ler Campo Geral com o espírito leve. E é bom que seja assim.

Na próxima semana, volto a falar de filosofia, quando escreverei sobre Blaise Pascal.
_______________
* Essa observação foi retirada de Estas Primeiras estórias, pequeno ensaio que constitui um dos prefácios da 50ª edição do livro Primeiras estórias, de João Guimarães Rosa, publicada pela Ediouro em 2011.

** ROSA, João Guimarães. Campo Geral. In: _________. Manuelzão e Miguilim: (Corpo de Baile). 11 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 17-152 (Não custa lembrar que Campo Geral, originalmente, integrava o livro Corpo de Baile, publicado pela primeira vez em 1956)

BG de Hoje

No começo da minha adolescência, a canção Luka, de SUZANNE VEGA, era um tremendo sucesso radiofônico. Gostava da canção - como permaneço gostando até hoje - sobretudo pela interpretação doce da cantora norte-americana. Só mais tarde fui compreender a amargura de sua letra, tratando de abuso infantil e do nosso comportamento omisso, muitas vezes, em relação ao problema.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Os narradores-meninos de Ondjaki


Em determinado trecho do romance Bom dia camaradas*, o narrador (uma criança) faz um desabafo:

"Nesses dias, quando me acontecia não conseguir evitar pensar nessas coisas [o fim da infância], ficava muito triste, porque embora ainda faltassem muitos anos para o fim dos anos lectivos, um dia eles iam acabar, e os mais velhos não fazem indisciplina na sala de aulas, não apanham falta vermelha, não dizem disparates na sala de aulas com professores cubanos que não entendem esses disparates, os mais velhos não aumentam automaticamente as estórias que contam, os mais velhos não ficam assim um monte de tempo a falar só das coisas que uma pessoa já fez ou gostava de fazer, os mais velhos nem sabem uma boa estiga!"

E, conclui, revelando alguma apreensão:

"Isso de ser mais velho deve masé dar muito trabalho".

A vida traz complicações para todos - tenhamos pouca ou muita idade - e o escritor angolano Ondjaki prefere olhar o mundo com os olhos de menino. Se os mais velhos têm lá suas makas (seus problemas, suas questões) próprias, os miúdos lidarão com os fatos por meio de outra forma de percepção, mais ingênua, imaginativa, um tanto malvada às vezes e, não raro, lírica.

Esse lirismo é mais evidente nas falas do narrador dos diversos livros de Ondjaki, que, com pequenas variações (e muitas continuidades) de uma história para outra, exibem traços biográficos do autor (que é também poeta).

Noutro romance  - AvóDezanove e o segredo do soviètico** -, em conversa com o extravagante personagem EspumaDoMar - o narrador-menino se mostra preocupado com a sua "vocação" poética:

" - Gosto da palavra 'segredo', parece uma coisa misteriosa onde cabe muita coisa.
- Me gusta tu modo de pensar. Puede que lhegues a ser un poeta.
- Não quero, muito obrigado. Já ouvi dizer que os poetas ficam malucos.
- No, no es verdad. Los poetas son locos, pero ese es otro tipo de locura. No te preocupes... [...]"

Esse narrador-menino não quer que o precioso tempo da meninice se vá. Está cheio de convicção quando diz a uma colega de escola, em Bom dia camaradas, que sabe "perfeitamente que estes são os melhores tempos da nossa vida [...]". Tornar-se adulto é despedir-se da infância e ele não gosta das despedidas porque estas não tem o "cheiro bom tipo chá-de-caxinde, ou as plantas a darem ares duma primeira respiração na frescura da manhã, entre silêncios e cacimbos molhados", como está escrito no comovente conto Um pingo de chuva (do livro Os da minha rua***). "Não. Despedida tem cheiro de amizade cinzenta. Nem sei bem o que isso é, nem quero saber. Não gosto mesmo de despedidas".

"Camuflar-se" na voz de uma criança permite também ao autor abordar, com maior leveza, temas mais graves, como, por exemplo, o ambiente belicoso que existia em Angola (até mesmo na capital Luanda) em razão do conflito civil interno pós-independência do país, além dos combates travados com os sul-africanos, num período em que a sombra da Guerra Fria ainda não se dissipara. Em Bom dia camaradas, pode-se verificar a força dessa atmosfera de luta armada no imaginário infantil:

"[...] É impressionante, eu costumava observar isso nas provas de EVP [Educação Visual e Plástica] desde a quarta classe, toda a gente desenhava coisas relacionadas com a guerra: três pessoas tinham desenhado akás [o fuzil AK-47], duas tinham desenhado tanques de guerra soviéticos, outros fizeram [pistolas] makarov's [...] Desenhar armas era normal, toda gente tinha pistolas em casa ou mesmo akás, se não, sempre havia um tio que tinha, ou que era militar e mostrava o funcionamento da arma".

E não posso deixar de fazer uma pergunta ao(à) eventual leitor(a): seria você capaz de adivinhar qual o produto cultural brasileiro mais citado nessas narrativas de Ondjaki? Não, não é a nossa música, mas sim as famigeradas novelas de TV. Cambalacho, O Bem Amado e, principalmente, Roque Santeiro eram entretenimento apreciado pela criançada angolana e referências à (discutível) teledramaturgia da Rede Globo surgem em várias páginas.

Mas a vida de criança desse narrador-menino um dia vai terminar, como termina a de qualquer pessoa. Diante da possibilidade de ir estudar noutro país depois de ter passado pelas primeiras etapas da educação escolar em sua cidade natal, ele se depara com mais uma despedida difícil, transformada no belíssimo conto Palavras para o velho abacateiro (que fecha o livro Os da minha rua):

"Deixei os braços pousarem na madeira inchada e úmida, abri um pouco a janela a pensar que isso de olhar a chuva de frente podia abrandar o ritmo dela, ouvi lá em baixo, na varanda, os passos da avó Agnette que se ia sentar na cadeira da varanda a apanhar fresco, senti que despedir-me da minha casa era despedir-me de todos os outros: os da minha rua, senti que rua não era um conjunto de casas mas uma multidão de abraços, a minha rua, que sempre se chamou Fernão Mendes Pinto, nesse dia ficou espremida numa só palavra que quase me doía na boca se eu falasse com palavras de dizer: infância".

E, quando se olha bem a fundo, qual o ganho em ser adulto? É, tenho que concordar: isso de ser mais velho dá masé muito trabalho...

* ONDJAKI. Bom dia camaradas. Rio de Janeiro: Agir, 2006

** ________. AvóDezanove e o segredo do soviético. São Paulo: Companhia das Letras, 2009

***________. Os da minha rua. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007.

BG de Hoje

O cantor, compositor e guitarrista ROBERT CRAY é muitas vezes acusado de não tocar o, digamos, "blues de raiz". Ao adotar arranjos e acompanhamentos mais pop em suas composições, ele estaria "degradando" o gênero, Bem, não costumo ser purista com coisa alguma. Por isso, gosto do trabalho de Cray, como esse hit "Don't be afraid of the dark", que ouvi mais cedo pela manhã, pouco depois de acordar.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Todo brasileiro deveria ouvir (e refletir sobre) a música do Emicida




O jornalista Franklin Martins, ex-comentarista do Jornal da Globo, bem como ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula (e, só por curiosidade, irmão da escritora Ana Maria Machado), publicou recentemente um trabalho de fôlego denominado Quem foi que inventou o Brasil?: a música popular conta a história. Numa participação no programa Observatório da Imprensa (TV Brasil), o jornalista reconheceu que, a partir dos anos 1990, o rap passou a ser a principal fonte das canções brasileiras com mensagem inegavelmente política, papel que fora desempenhado pela MPB (e, um pouco menos, pelo rock) em períodos anteriores.

Nesta segunda década do século XXI, talvez o principal representante desse segmento dentro da nossa música seja Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido pelo nome artístico de Emicida. Na semana passada, o rapper lançou a faixa Boa Esperança, acompanhada do videoclipe dirigido pela cineasta Kátia Lund e pelo fotógrafo João Wainer.

O resultado é grandioso, impressionante. Trata-se de uma projeção - dessas que só são possíveis por meio do empreendimento artístico - incidindo sobre o fosso existente no país, que coloca de um lado a elite branca rica e, do outro, a classe trabalhadora negra pobre.

Boa esperança fala por si. Vamos logo à composição (videoclipe no final).

BOA ESPERANÇA
(Emicida/Vinícius Nave)

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do Orixá?
E os camburão, o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão
Bomba relógio prestes a estourar

O tempero do mar foi lágrima de preto
Papo reto, como esqueletos, de outro dialeto
Só desafeto, vida de inseto, imundo
Indenização? Fama de vagabundo
Nação sem teto, Angola, Ketu, Congo, Soweto
A cor de Eto'o, maioria nos gueto
Monstro sequestro, capta três, rapta
Violência se adapta, um dia ela volta pu cêis
Tipo campos de concentração, prantos em vão
Quis vida digna, estigma, indignação
O trabalho liberta, ou não
Com essa frase quase que os nazi varre os judeu? extinção
Depressão no convés
Há quanto tempo nóiz se fode e tem que rir depois
Pique jack-ass, mistério tipo Lago Ness, sério és
Tema da faculdade em que não pode por os pés
Vocês sabem, eu sei
Que até Bin Laden é Made in USA
Tempo doido onde a KKK veste Obey (é quente memo)
Pode olhar, num falei?
Nessa equação, chata, policia mata? Plow!
Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão
Desacato, invenção, maldosa intenção
Cabulosa inversão, jornal distorção
Meu sangue na mão dos radical cristão
Transcendental questão, não choca opinião
Silêncio e cara no chão, conhece?
Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece
Vence o Datena, com luto e audiência
Cura baixa escolaridade com auto de resistência
Pois na era cyber, ceis vai ler
Os livro que roubou nosso passado igual Alzheimer, e vai ver
Que eu faço igual Burkina Faso
Nóiz quer ser dono do circo
Cansamos da vida de palhaço
É tipo Moisés e os hebreus, pés no breu
Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu
(Cê é loco, meu?)
No veneno igual água e sódio
Vai vendo sem custódio
Aguarde cenas no próximo episódio
Cês diz que nosso pau é grande
Espera até ver nosso ódio

Por mais que você corra, irmão
Pra sua guerra vão nem se lixar
Esse é o xis da questão
Já viu eles chorar pela cor do Orixá?
E os camburão, o que são?
Negreiros a retraficar
Favela ainda é senzala, Jão
Bomba relógio prestes a estourar

quarta-feira, 1 de julho de 2015

A infância não é sempre rósea: narrativas de Geni Guimarães


No início do conto Tempos escolares, de Geni Guimarães, há uma cena que evoca em mim vívida lembrança familiar, na qual figuram minha mãe e algumas de minhas irmãs:

"Minha mãe trançava meu cabelo. Ela, sentada num banquinho que o meu pai havia feito com os restos de um pilão que, quando novo, triturava milho para as galinhas, e eu, de cócoras na sua frente, ouvia silenciosamente"

- Amanhã, seu cabelo já está pronto. Hoje você dorme com lenço na cabeça que não desmancha [...]"

Esse pequeno trançado de cabelos denota, quase sempre, um gesto de aconchego, para além de uma mera tarefa na rotina doméstica. E, tal como nesse gesto, há muita benquerença e doçura nas narrativas que compõem Leite de peito*, livro apresentado ao público pela primeira vez em 1988. Mas também há, em igual proporção, amargura e tristeza.

É preciso reconhecer, entretanto, que os contos não têm todos a mesma intensidade e brilho; destacaria, além do texto já citado, Fim dos meus natais de macarronadas, Metamorfose e Bairro da Cruz.

Em Metamorfose, a menininha inteligente, capaz de fazer versos, experimenta pela primeira vez uma gama de sentimentos acabrunhantes na escola ao se dar conta do modo mesquinho como ali se representavam os africanos escravizados e os negros brasileiros:

"No entanto, não me preocupavam mais os erros ou acertos, sucessos ou insucessos. Era a vergonha que me abatia. Pensava que era a grande da classe, só por ser a única a fazer versos. Quantas vezes deviam ter rido de mim, depois das minhas tontices em inventar cantigas de roda... Vinha mesmo era de uma raça medrosa, sem histórias de heroísmo. Morriam feito cães. Justo era mesmo homenagear Caxias, Tiradentes e todos os Dons Pedros da história. Lógico. Eles lutavam, defendiam-se e ao seu país. Os idiotas dos negros, nada.

Por isso que o meu pai tinha medo de seu Godoy, o administrador, e minha mãe nos ensinava a não brigar com o Flávio [um menino branco]. Negro era tudo bosta mesmo. Até meu pai, minha mãe..."

Sem ainda compreender os mecanismos culturais e sociais da opressão, a menina toma uma atitude drástica para se "livrar" de sua cor:

"Até então, as mulheres da zona rural não conheciam 'as mil e uma utilidades do bombril' e, para fazerem brilhar os alumínios, elas trituravam tijolos e com o pó faziam a limpeza dos utensílios.

A ideia me surgiu quando minha mãe pegou o preparado e com ele se pôs a tirar da panela o carvão grudado no fundo.

Assim que ela terminou a arrumação, voltou para casa. Eu juntei o pó restante e, com ele, esfreguei a barriga da perna. Esfreguei, esfreguei, e vi que, diante de tanta dor, era impossível tirar todo o negro da pele".

Mas, apesar da pouca idade, não era ingênua. Possuía já dentro de si um "coração de mãe, irmã, criança", compreendendo desde cedo a inescrupulosa distância que separa os pobres dos ricos, como se pode ler em Fim dos meus natais de macarronadas, pequena história que sempre me deixa emocionado.

Em Bairro da Cruz, com a protagonista-narradora já adolescente, a mudança da família para aquele "bico torto, no lado vesgo do mundo" vira ocasião para um festa fora de hora:

"No ambiente, gosto e cheiro esquisitos: suor e desodorante Rexona, brilhantina, talco velho, batom de má qualidade, laquê: tudo num misto de produtos e sentimentos fluindo agora por conta da alegria simples dos corações carentes de justiça.

Olhávamos deslumbrados e o evento singular era um ritual mistico burlando nossos valores de bichos do mato".

Por ser, sem dúvida, autobiográfico, Leite do peito é todo conduzido memorialisticamente, permitindo a verificação plena daquele modo de narrar ao qual a escritora Conceição Evaristo se refere como escrevivência. A prosa de Geni Guimarães é imediatamente apreensível. Seus contos, porém, não deixam aquele que lê em posição confortável.

Um leitor mais sensível perceberá certamente que a infância ali retratada não tem nada da idealização cor de rosa com a qual se costuma olhar para essa (difícil) fase da vida.
____________________
* GUIMARÃES, Geni. Leite do peito. 3 ed. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2001 (Boa parte dos contos desse livro funcionaram, posteriormente, como capítulos para a novela A cor da ternura (Editora FTD), da mesma autora, e lançada no ano seguinte à publicação de Leite do peito).

BG de Hoje

Essa sim é uma canção popular, na legítima acepção do termo: Minha história, parceria de JOÃO DO VALE e Raimundo Evangelista.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Ferreira Gullar e "este surdo poema que não toca no rádio"



"Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz [...]"

Ferreira Gullar, no poema Arte poética


As eleições do ano passado, entre outras coisas, serviram para desvelar, com um pouquinho mais de nitidez, as muitas clivagens que caracterizam este imenso poço de desigualdade econômica e racial - bem como terreno de conflitos sociais decorrentes dessa condição - chamado Brasil. Tudo isso em meio às tentativas, aqui e acolá, de infundir (e difundir) a impostura segundo a qual formamos todos uma sociedade harmônica e cordial.

Infelizmente, um dos efeitos colaterais dessas cisões emersas na superfície do debate público foi a reaparição - em nova roupagem - do patrulhamento ideológico. Se fulano apoiou a candidata X, ele não passa de um "comunistazinho safado"; se, por outro lado, beltrana declarou voto no candidato Y, só pode ser mais uma "reaça raivosa". Nos dois casos, ambos se tornarão personae non gratae, independentemente de qualquer talento ou obra relevante que por ventura apresentem. Este blogueiro inclusive admite não ter conseguido, durante a campanha, escapar do furor de sair carimbando uns e outros com essa rotulação simplista; foi necessário um posterior exercício de reflexão para não dimensionar todo o trabalho de determinados(as) artistas somente pela escolha ocasional feita por eles(as) numa disputa eleitoral.

O caso do poeta Ferreira Gullar, entretanto, merece um enfoque mais detido. O autor maranhense vem atacando o PT e sua principal liderança, o ex-presidente Lula, desde o primeiro mandato deste. Portanto, bem antes da última eleição. Até aí, nada de mais. Qualquer um tem o direito (e, às vezes, até o dever) de apontar os erros cometidos por qualquer partido, por qualquer administração. Entretanto, falta tutano às opiniões de Gullar nesse terreno. Elas não fazem menção, por exemplo, ao aumento escandaloso da concentração de renda nos últimos 12 anos (distanciando ainda mais ricos de pobres); ou às tímidas ações na área da reforma agrária e na demarcação das terras indígenas; ou ainda à incapacidade do governo, na propícia ocasião em que sua popularidade estava em alta, de promover a correção das distorções existentes na propriedade e controle do setor midiático brasileiro. Reivindicações típicas de esquerda, convém ressaltar. Digo isso porque o escritor, ao que parece, já se identificou com esse ideário, mesmo que parcialmente: foi filiado ao Partidão, perseguido e exilado pela ditadura militar. E sua produção poética (pelo menos durante certo período) demonstrava uma visão de mundo explicitamente anticapitalista.

Mas o Ferreira Gullar de hoje nos dá a entender que aderiu de vez à teoria do "fim da história"* e, portanto, nada nos resta a não ser a resignação. Se seus textos publicados na imprensa - estou me referindo à coluna do autor na Folha de S. Paulo - exibissem um tom de desencantado fatalismo, acharia até apreciável. Porém, o leitor só encontrará lá os mesmos lugares-comuns da crítica superficial de direita, com seu moralismo de conveniência, acrescido da denúncia mal informada do "assistencialismo" estatal e sua "farra" de bolsas e cotas.

Nesse aspecto, Ferreira Gullar é idêntico a Arnaldo Jabor: ambos deixaram de lado a atividade artística para assinarem crônicas políticas medíocres. Com uma diferença: Jabor foi um cineasta comum, enquanto Gullar está entre os grandes poetas brasileiros da segunda metade do século XX. Quero me concentrar nesse legado a partir de agora.

. . . . . . . 

Num ensaio - justificadamente - laudatório**, o crítico literário Antonio Carlos Secchin considera que a poesia de Ferreira Gullar percorreu ao longo do tempo "várias e às vezes antagônicas direções, sempre abertas ao risco, numa vertiginosa dialética de teses e antíteses que jamais se acomodou em qualquer síntese". Fez poesia de vanguarda, hermética, mas, a partir dos anos 1960, mergulhou de cabeça na cultura popular, escrevendo cordel. Nessa mesma década, aliás, o verso do poeta se converte em discurso engajado, sem abandonar, contudo, "o veio lírico-existencial", como assinala Secchin. Muitos poemas dessa época foram reunidos no volume Dentro da noite veloz (e já discuti um deles - Pela rua - aqui). Em 1976, exilado na Argentina, publica aquela que é considerada sua obra-prima: O poema sujo, longo e difícil "acerto de contas" do autor consigo mesmo. Os últimos resquícios inegavelmente políticos na poesia de Ferreira Gullar estão na reunião de textos apresentada em 1980: Na vertigem do dia (e também já discuti um deles - Bicho urbano - aqui).

O poeta, a essa altura do campeonato, parece cansado, desiludido:

"Para uma vida de merda
nasci em 1930
na Rua dos Prazeres"
                                      (do poema Primeiros anos***)

E completa, ao final da mesma composição:

"Depois me suspenderam pela gola
me esfregaram na lama
me chutaram os colhões
e me soltaram zonzo
em plena capital do país
sem ter uma arma na mão"

Ninguém parece dar mais atenção ao poeta. Noutro momento (Poema obsceno), enquanto todos fazem a festa, ele soca "este pilão/este surdo poema que não toca no rádio/que o povo não cantará". Afinal, quem hoje em dia ouve os poetas? Na batalha comunicacional e cultural diária, o sussurro da poesia mal pode ser escutado. Ironicamente, muitos dos que hoje admiram as insossas crônicas dominicais de Gullar talvez nunca tenham lido nenhum de seus belíssimos poemas...

Resta saber o quanto coincide a identidade do cidadão Ferreira Gullar com o poeta que falava nesses poemas, o quanto se assemelhava o indivíduo com o eu lírico ali inscrito. Uma discussão que nos remeteria a uma recorrente questão literária: o quanto finge (e cria) um artista no ato próprio de criar? Será o poeta obrigado a sempre ser absolutamente sincero naquilo que escolhe colocar num poema? Tal conversa fica para outra oportunidade.

E gostaria de encerrar falando do texto que abre Na vertigem do dia. O poeta nele se vale de imagens de desgraça, repugnância e dor para mostrar que não há nada de especial em sofrer: o sofrimento é condição elementar de todos. A alegria, portanto, é uma rara preciosidade.

Por ser um poema de que gosto muito, reproduzo-o na íntegra:

A ALEGRIA

O sofrimento não tem
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

        A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
                       querem estar contentes.
__________
* "O Fim da História é uma teoria iniciada no século XIX por Georg Wilhelm Friedrich Hegel e posteriormente retomada, no último quarto do século XX, no contexto da crise da historiografia e das Ciências Sociais no geral. Essa teoria sustenta, como o nome sugere, o fim dos processos históricos caracterizados como processos de mudança. Para Hegel isso iria acontecer no momento em que a humanidade atingisse o equilíbrio, representado, de acordo com ele, pela ascensão do liberalismo e da igualdade jurídica, mas com prazo indeterminado para ocorrer. Retomada ao final do século XX, essa teoria já adquire caráter de situação ocorrida pois, de acordo com os seus pensadores, a História terminou no episódio da Queda do Muro de Berlim. Naquele momento, os antagonismos teriam terminado pelo fato de, a partir de então, haver apenas uma única potência - os Estados Unidos da América - e, consequentemente, uma total estabilidade. A ideia ressurgiu em um artigo, publicado em fins de 1989 com o título de O fim da história e, posteriormente, em 1992, com a obra O fim da história e o último homem, ambos do estadunidense Francis Fukuyama". Extraído da Wikipedia, disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/Fim_da_hist%C3%B3ria> Acesso em 22/06/15

** SECCHIN, Antonio Carlos. Um Nobel para Gullar. In: _________. Escritos sobre poesia & alguma ficção. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2003. p. 205-218. (Este texto foi apresentado na Suécia como parte da candidatura de Ferreira Gullar ao prêmio Nobel. Daí seu viés enaltecedor).

*** GULLAR, Ferreira. Toda poesia. 16 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. Todos os poemas do autor citados nesta postagem foram encontrados nessa edição.

BG de  Hoje

No último domingo assisti a uma apresentação gratuita do grupo BERIMBROWN. Com nova formação, a banda belo-horizontina pretende retomar seu trabalho. Torço muito pra que consigam alcançar todo o sucesso que seu congopop consciente e dançante merece atingir. Abaixo, clipe de Black broder - 20 do 11, faixa do disco Aglomerado (2002).


terça-feira, 16 de junho de 2015

Sobre nerds, geeks e a educação científica (II)



Há algumas semanas escrevi aqui sobre o filósofo Francis Bacon e a obra Novum Organum*. Naquela ocasião tratava eu de outro assunto, mas há um fragmento daquele livro - peça-chave para a compreensão do ímpeto científico da Era Moderna - descrevendo bem um dos aspectos do tema abordado no dia 1º de junho e que será retomado (e concluído) hoje, nesta postagem.

Bacon, no aforismo XCI, afirma que,

"[...] Com efeito, não estão nas mesmas mãos o cultivo das ciências e as suas recompensas. As ciências progridem graças aos grandes engenhos, mas o estipêndios e os prêmios estão nas mãos do vulgo e dos príncipes, que, raramente, são mais que medianamente cultos. Dessa maneira, esse progresso não é apenas destituído de recompensa e reconhecimento dos homens, mas até mesmo do favor popular. Acham-se as ciências acima do alcance da maior parte dos homens e são facilmente destruídas e extintas pelos ventos da opinião vulgar. Daí não se admirar que não tenha tido curso feliz o que não costuma ser favorecido com honrarias".

Na segunda metade do śeculo XVII, o filósofo inglês observara uma paradoxal situação: fazer ciência - atividade para a qual são necessárias consideráveis doses de preparo e empenho (está "acima do alcance da maior parte dos homens") - não costuma receber os "estipêndios" e as "honrarias" que, supostamente, deveriam corresponder a um campo do saber tão essencial ao progresso humano.

Contudo, pode-se objetar que, na época de Bacon, ainda bastante influenciada pelo ideário medieval, a investigação científica não devia mesmo gozar de muito prestígio. No período contemporâneo, entretanto, teríamos outra mentalidade, certo?

Bem... Na primeira parte dessa discussão, no início do mês, citei um trecho de O mundo assombrado pelos demônios**, de Carl Sagan, no qual o autor, lamentando o desinteresse de um grande número de adolescentes (bem como de uma parcela significativa da população em geral) pela ciência, argumentou que este pode decorrer de vários fatores, inclusive da "impressão de que a ciência e a matemática não vão dar a ninguém um carro esporte". Além disso, há a imagem (negativa) associada aos que estudam empenhadamente (ou seja, os nerds)...

Nessa mesma obra, o astrônomo e astrofísico norte-americano, criticando os estereótipos associados àqueles dedicados ao aprendizado e ao trabalho na área da ciência, escreve:

"[...] Os cientistas são nerds, socialmente inoportunos, trabalham com temas incompreensíveis que nenhuma pessoa normal acharia interessante - mesmo que estivesse disposta a investir nele o tempo exigido, o que, mais uma vez, ninguém com bom senso faria. 'Vá viver', é o que se tem vontade de lhes dizer".

Por que os(as) jovens estudantes (mas não só eles(as), é bom ressaltar), hoje tão mais preocupados em serem aceitos dentro dos grupos com os quais interagem primariamente (e isso significa vestir a roupa aprovada pelo grupo, ter a aparência desejada pelo grupo, conversar somente sobre os assuntos estabelecidos pelo grupo), "perderiam" seu tempo com cálculos complicados ou com a observação e análise de fenômenos tão pouco fenomenais, de acordo com certa axiologia preponderante nas nossas atuais sociedades de consumo? Um verdadeiro nerd (ainda de acordo com esse conjunto de valores) dificilmente poderá ser alguém cativante, sedutor ou popular, porque, "como a imagem do cientista louco à qual está intimamente associado, o estereótipo do cientista nerd está disseminado em nossa sociedade", diz Sagan. E essa imagem pode, em última instância, conduzir a um resultado problemático: "se, por qualquer razão, as pessoas não gostam do cientista estereotipado, é menos provável que deem apoio à ciência". Isso é válido, penso eu, tanto para os EUA quanto para o Brasil.

E o que dizer da nossa educação, do nosso ensino? Recentemente, um levantamento feito pela OCDE coloca o Brasil na 60ª colocação num ranking com 76 nações, relativo a testes para medir a capacidade dos estudantes em matemática e ciência. No ano passado, foi divulgado um Índice de Letramento Científico dos brasileiros (iniciativa semelhante ao Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional - INAF - que mede habilidades e práticas em leitura, escrita e matemática) e o resultado mostrou que "apenas 5% do total se mostraram de fato proficientes em ciência"***. Além disso, entidades representativas dos trabalhadores em educação vêm alertando, nos últimos dez anos pelo menos, para um "apagão" no ensino médio (possibilidade que chegou a ser admitida pelo próprio MEC anos atrás). Como se daria esse "apagão"? 1) Alguns cursos de licenciatura estão estagnados e não são demandados por muitos postulantes ao ensino superior; 2) como consequência, menos professores(as) dessas disciplinas são formados(as); 3) disso tudo resulta um déficit no número de profissionais de ensino especializados disponíveis no mercado de trabalho; 4)com o progressivo aumento de matrículas no ensino médio, muitos estudantes dessa etapa da educação básica não terão aulas com alguém devidamente habilitado. E que cursos de licenciatura estão sendo mais afetados? "Embora a pedagogia ainda esteja entre os três cursos mais procurados no ensino superior, esse interesse pela educação não se reflete em áreas como física, química e matemática", de acordo com artigo assinado pelo SEMESP (Sindicato das Entidades Mantenedoras de Ensino Superior)****. Isso sem falar que só 10,6% das escolas brasileiras possuem laboratório de ciências...

Este blogueiro mesmo é o resultado do descaso com que a educação científica é conduzida no Brasil. É desprezível meu aprendizado em matemática, química, física e biologia, fato que me trouxe grande prejuízo. Mas nem por isso deixo de perceber a tremenda importância da educação científica, principalmente para além dos muros escolares.

Carl Sagan, em O mundo assombrado pelos demônios, é bastante sensato ao afirmar que

"Não há uma solução única para o problema do analfabetismo em ciência - ou em matemática, história, inglês, geografia e muitos dos outros campos de que nossa sociedade mais necessita. As responsabilidades são amplamente partilhadas - os pais, o eleitorado, os conselhos das escolas locais, a mídia, os professores, os administradores, os governos federal, estadual e local, além dos próprios estudantes, é claro".

Torço para que os(as) alunos(as) mais estudiosos(as) e aplicados(as) não se importem com os possíveis rótulos de nerds a lhes ser impingidos e, por esse motivo, desanimem. O mundo precisa - e muito - dos nerds.


. . . . . . .

A postagem já está bem mais extensa do que o habitual, mas peço um pouco mais de paciência ao(à) eventual leitor(a), pois há um último ponto a discutir.

A imagem no alto deste texto indica as características que distinguem um geek de um nerd. É bastante comum as pessoas tomarem um pelo outro, como se ambos os tipos sociais fossem os mesmos. Não penso assim. Mas voltemos à ilustração. Segundo minha interpretação, o desenho dá a entender que o geek é, digamos, mais cool, sobretudo em seu look. Importante notar, porém, que o personagem do nerd carrega um livro na mão, ao invés de um gadget (no caso um smartphone, provavelmente), além de ser alguém que tem "extremo interesse ou fascinação por assuntos acadêmicos". E acho que aí está a diferença fundamental entre os dois.

Geeks, em geral, são muito inteligentes, mas sempre me pareceram, com frequência, estar a reboque do que a indústria do entretenimento e as marcas mais famosas do mundo tecnológico, consumidas como grifes, oferecem. Acho que há pouca disposição intelectual e esparsa consciência política no ambiente geek.

Por outro lado, considero os nerds mais comprometidos com o ethos do aprimoramento intelectual, bem como acho-os menos indiferentes aos processos políticos.

Diria então que os geeks são, em relação à intelectualização, mais soft, enquanto os nerds seriam mais hard.
__________
* BACON, Francis. Novum Organum ou Verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 [Tradução e notas de José Aluysio Reis de Andrade] (Coleção Os pensadores)

** SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 [Tradução de Rosaura Eichemberg]

*** GARCIA, Marcelo. Brasileiro: "analfabeto" científico? Ciéncia Hoje. 18 ago. 2014. Disponível em <http://cienciahoje.uol.com.br/noticias/2014/08/brasileiro-analfabeto-cientifico> Acesso em 14/06/15

**** Apagão docente. Disponível em <http://educacaoeuapoio.com.br/2014/02/25/apagao-docente/> Acesso em 14/06/15

BG de Hoje

Uma das melhores bandas de rock de todos os tempos (e também uma das bandas mais adoradas por nerds mundo afora): R.E M., Imitation of Life. E, a propósito, acho este clipe sensacional.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

Por que preciso falar de Serena Williams?


E não é falar apenas da atleta, mas sobretudo das questões que emergem do seu papel (involuntário, talvez) de símbolo para o enfrentamento do racismo e do machismo.

Concentremo-nos, inicialmente, na atleta.

Ao vencer o Aberto da França no último sábado, Serena Williams chegou a seu vigésimo título em Grand Slams. Se conquistar mais três, ultrapassará a alemã Steffi Graf, ex-número 1, já aposentada. Nem a detentora do recorde duvida que ela atingirá a marca (leia aqui).

Nessa final em Roland Garros, mesmo ainda se recuperando de uma forte gripe, Serena conseguiu superar a tcheca Lucie Safarova, valendo-se de seus mais eficientes recursos: a força do saque e a precisão e vigor nos winners, evitando as desgastantes trocas de bola. Ela é simplesmente a maior tenista de todos os tempos, embora eu seja suspeito para afirmar isso - pois sou um fã ardoroso. Consideremos os últimos 12 ou 13 anos: ela nunca foi de fato ameaçada em sua supremacia pelas outras jogadoras. Perdeu posições no ranking em algumas temporadas anteriores, é verdade, mas apenas por causa de lesões, nunca por deficiência técnica. Pude assistir a jogos com excepcionais atletas - Martina Navratilova, Gabriela Sabatini, Monica Seles, Martina Hingis, a própria Steffi Graf, Justine Henin - mas em nenhuma havia tanta energia e intensidade quanto se pode ver em Serena Williams. Como já registrei aqui, ela, certamente, é um verdadeiro fenômeno do esporte.

Vamos agora para o domínio extra-quadra. 

Apesar de seu talento e da indiscutível capacidade atlética, por que Serena Williams tem menos visibilidade midiática e, por consequência, menos contratos publicitários do que a segunda colocada do ranking, a russa Maria Sharapova? NOTA: Em confrontos diretos, Williams leva enorme vantagem sobre a adversária. Num artigo da revista Rolling Stone, que foi bastante comentado - e recriminado -  há dois anos, Stephen Rodrick escreveu:

"Here are the facts. Serena is the number-one tennis player in the world. Maria Sharapova is the number-two tennis player in the world. Sharapova is tall, white and blond, and, because of that, makes more money in endorsements than Serena, who is black, beautiful and built like one of those monster trucks that crushes Volkswagens at sports arenas. Sharapova has not beaten Serena in nine years. Think about that for a moment"*.

Rodrick, apesar da escorregada**, não coloca panos quentes: a tenista russa, por ser alta, branca e loura - o estereótipo da garota-propaganda - movimenta mais grana com publicidade do que a número um do mundo, que não tem nenhuma dessas características. Serena, com sua pele negra e seu corpo forte (e exuberante), parece não se "adequar" ao mundinho estreito e nada inclusivo (nem atento à diversidade humana) dos publicitários...

Ainda um último ponto. Há muito tempo não vejo uma hegemonia tão evidente no mundo esportivo. Penso, hoje em dia, no caso do judoca francês Teddy Riner, imbatível em sua categoria, sendo hepta campeão mundial.  E até pouco tempo atrás tínhamos Kelly Slater ditando as regras no surfe. Mas nada se parece com o que Serena Williams vem fazendo nos últimos anos. E por que seus feitos não são tão reverenciados como os de outros mitos do esporte? Aliás, é o caso de também perguntar por que os grandes feitos das mulheres no mundo esportivo não têm a mesma visibilidade, nem repercutem tanto quanto as atuações dos homens?NOTA: A esse respeito, basta ver que a derrota de Djokovic para Wawrinka - e o sérvio mais uma vez não conseguiu o título em Roland Garros - teve muito mais destaque nos programas esportivos do que a final feminina no mesmo torneio. 

Para garantir maior diversidade, num mundo plural e complexo como este em que vivemos, seria muito bom se os ídolos realizassem diferentes atividades (chega da monocultura esportiva do futebol!) e pertencessem a  todos os gêneros, com corpos, cor de pele e cabelos que representassem a diversidade humana. É por esse motivo (e por alguns outros) que exalto Serena Williams.

* Tradução aproximada: "Eis os fatos. Serena é a jogadora de tênis número-um no mundo. Maria Sharapova é jogadora de tênis número-dois no mundo. Sharapova é alta, branca e loura, e, por causa disso, faz mais dinheiro em anúncios publicitários do que Serena, que é negra, bonita e esculpoda como um desses caminhões-monstro que passam por cima de Volkswagens nas arenas de esporte. Sharapova não derrotou Serena em nove anos. Pense um pouco sobre isso".
** No seu suposto elogio, ao comparar a tenista com um veículo, o jornalista pisa na bola

BG de Hoje

Muitas vezes fico maravilhado com a riqueza da música brasileira, mesmo sendo, primeiramente, um apaixonado pelo rock inglês e norte-americano. Não me refiro às horripilantes duplas "sertanejas" (léguas distantes do sertão) ou ao primitivo e embrutecido "pancadão" (equivocadamente chamado de funk pela mídia nacional e pela massa desinformada). Infelizmente, porém, esses são os gêneros que predominam no mercado atual (sem falar no repetitivo pagode mauricinho). Mas as rádios e a TV já privilegiaram a qualidade em sua programação noutros tempos. Por exemplo: esta esplêndida composição de Sivuca e Glória Gadelha - Feira de Mangaio - foi um grande sucesso popular na voz de CLARA NUNES! É impossível ouvir essa canção e não ser contagiado por seu ritmo, sua harmonia, sua letra. Rádios e TV do Brasil, por favor, voltem a tocar boa música!.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Sobre nerds, geeks e a educação científica (I)


"Quando, por indiferença, desatenção, incompetência ou medo do ceticismo, dissuadimos as crianças de estudar ciência, nós as privamos de um direito seu, roubando-lhes as ferramentas necessárias para administrar o seu futuro".

Carl Sagan - O mundo assombrado pelos demônios

 
Gosto muito de assistir a desenhos animados, tanto aqueles em que se empregam as técnicas tradicionais de animação quanto aqueles compostos integralmente por computação gráfica, como, por exemplo, Operação Big Hero (Big Hero 6 - direção de Don Hall e Chris Williams, 2014), ao qual assisti no último domingo.

A Disney adaptou um título pouco conhecido da Marvel Comics (esta, como se sabe, é hoje propriedade daquela), contando com a ajuda do grupo Man of Action (criador, diga-se de passagem, da lucrativa marca Ben 10). Tantos nomes fortes da indústria do entretenimento conseguiram, no entanto, produzir uma história apenas razoável, embora não seja um passatempo de todo ruim. Imagino que se encontre por aí, disponível em lojas, milhares de bonequinhos, camisetas estampadas, álbuns de figurinhas e outras quinquilharias relativas a cenas e personagens do filme, feito sob medida para o lançamento de uma variada linha de produtos licenciados para o comércio.

Operação Big Hero, contudo, tem lá o seu valor (e não estou fazendo alusão à sua rentabilidade potencial). É uma narrativa em que, surpreendentemente, os nerds são retratados de maneira positiva. São nerds e são heróis. Melhor dizendo, conseguiram tornar-se heróis no filme em razão de serem nerds : conheciam bastante de matemática, física, química, robótica, eletrônica e essa competência foi necessária e útil para o ato heroico que executam.

Mas, deixando essa animação de lado, por que, em geral, os chamados nerds costumam aparecer de forma estereotipada e/ou negativa em desenhos, filmes ou séries de TV (inclusive em The Big Bang Theory, um produto estranhamente apreciado pelo público)? 

Antes de tentar responder, pensemos um pouco sobre o termo em si.

O Oxford Dictionary define nerd, primeiramente, como "uma pessoa ingênua ou insignificante que carece de habilidades para a convivência social ou é uma estudiosa entediante". E só depois registra, como segunda acepção: "um especialista hábil num campo técnico em particular". Já a Wikipedia ressalta que o termo é "usado frequentemente de modo pejorativo" e muitos nerds são descritos como "tímidos, esquisitões e não atraentes". No entanto, a mesma fonte reconhece que assim como outros termos pejorativos usados para estereotipar, esse "tem sido reapropriado e redefinido como um termo de orgulho e identidade de grupo". A enciclopédia colaborativa on-line também fornece (escassas) informações sobre os primeiros usos dessa palavra como gíria. Segundo o verbete, o termo - já com as conotações de tenacidade nos estudos e inaptidão pessoal - se popularizou nos EUA (e nos países anglófilos) a partir dos anos 1970, graças ao "uso intensivo no seriado cômico Happy Days".

Aqui no Brasil, a palavra nerd é hoje empregada com certa frequência; e, quando assume o sentido de pessoa muito estudiosa, substituiu expressões coloquiais mais antigas do nosso idioma, como a dinossáurica "caxias", a grosseira "CDF" e a simpática "crânio" *.

Em muitas ocasiões, podemos verificar o uso da palavra nerd para fazer referência a um outro tipo social: o geek. Considero isso um grande equívoco. Tratarei, porém, dessa confusão terminológica mais adiante.

Neste momento, gostaria de falar um pouco sobre o livro O mundo assombrado pelos demônios** (a edição brasileira acrescentou a este um ótimo subtítulo: a ciência vista como uma vela no escuro), publicado pelo astrônomo e astrofísico Carl Sagan em 1995. É um dos melhores livros não-ficcionais que conheço. Discute aspectos de metodologia científica e epistemologia, possui elementos de história da ciência, sugere formas para se divulgar melhor a atividade científica para o público em geral, além de ser uma boa fonte para a compreensão adequada do ceticismo. Tudo isso "amarrado" pela narração de alguns trechos autobiográficos, nos quais o autor fala de sua trajetória como estudioso e cientista apaixonado por seu campo de trabalho. E o livro também fornece valiosos pontos de vista sobre a educação escolar, pois foi escrito com a intenção de combater o que Sagan (e muitos outros) chamam de analfabetismo científico.

Leiamos com atenção o trecho abaixo. O autor tem em mente o contexto educacional norte-americano, mas acredito que vale também para o caso brasileiro:

"Algo aconteceu entre o primeiro ano primário e o último ano secundário, e não foi apenas a puberdade. Eu diria que é, em parte, a pressão dos pares para não se sobressair (exceto nos esportes); em parte, o fato de a sociedade ensinar gratificações a curto prazo; em parte a impressão de que a ciência e a matemática não vão dar a ninguém um carro esporte; em parte, que tão pouco seja esperado dos estudantes; e, em parte, que haja poucas recompensas ou modelos de papéis para uma discussão inteligente sobre ciência e tecnologia - ou até para o aprendizado em si mesmo. Os poucos que continuam interessados são difamados como nerds, geeks ou grinds".

Estudar com afinco ou auxiliar e incentivar quem tenha essa disposição não parecem ser prioridades em nossas sociedades. Além do mais, aqueles que se dedicam ao estudo são impopulares, considerados aborrecidos ou esquisitos. Mas Sagan alerta:

"Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais - o transporte, as comunicações e todas as indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto - dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém mais cedo ou mais tarde essa mistura inflamável de ignorância e poder vai explodir na nossa cara".

Vivendo na (pomposamente) chamada era do conhecimento e dependentes da ciência, seria razoável que valorizássemos tanto a instrução e a educação quanto as pessoas dedicadas a essas atividades. Entretanto, é o que se verifica? Volto ao tema na próxima semana.
__________
* Caxias, segundo o Houaiss, proveio do título do Duque de Caxias e alude à disciplina e à aplicação desse militar; CDF (acrônimo para cu-de-ferro) refere-se a "quem apresenta aplicação extrema e mais ou menos obcecada a seus trabalhos, deveres, compromissos (diz-se especialmente de estudante)", segundo o mesmo dicionário; por fim, o Houaiss inclui como um dos sentidos do termo crânio a seguinte acepção: "pessoa de notável inteligência".

** SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006 [Tradução de Rosaura Eichemberg]

BG de Hoje

Direto ao ponto: PINK FLOYD, One of these days.