segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A "hora milagrosa" nunca chegará



Já ouviu falar do Forte Bastiani, eventual leitor(a)?

Trata-se de uma "grande fortaleza, exemplo típico de engenharia militar, que guarda a única passagem entre o deserto dos tártaros e as encostas meridionais da cadeia de montanhas escarpada e ininterrupta que marca a fronteira entre os estados do Norte e os do Sul de um país sem nome", de acordo com o Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Editora Companhia das Letras, 2003)

O Forte Bastiani, entretanto, tem um alcance simbólico bem maior - pelo menos na visão deste blogueiro e de outros milhares de leitores devotos deste livro sublime chamado O deserto dos tártaros (sobre o qual, aliás, já escrevi anteriormente, de forma breve, aqui no blog).

Já que mencionei Alberto Manguel poucas linhas acima, devo dizer que o ensaísta argentino-canadense é um desses leitores devotos do romance de Dino Buzzati, publicado pela primeira vez em 1940.

O forte, escreveu Manguel em Os livros e os dias ¹,  é "um lugar que parece impossível de deixar, mas também impossível de alcançar, tão ancorado em sua própria rotina que nada que venha do exterior pode atingi-lo".

Rotina... Até certa idade, pouca ou nenhuma atenção damos a essa palavra; não refletimos sobre o real significado dela, suas implicações. Como disse, só até certa idade. À medida que se envelhece, a maior parte de nós - cuja vida se resume a subsistir dentro das condições que nos são apresentadas e nada além disso - passa a compreender que uma porcentagem grande de nosso "ser no mundo" não passa de um amontoado de hábitos. Há um capítulo magistral em O deserto dos tártaros (o décimo), em que o narrador vai enumerando as "míseras coisas" que foram suficientes para amoldar o protagonista, tenente Giovanni Drogo, "ao monótono ritmo do serviço" ². Buzzati, habilidosamente, repete a palavra hábito(s) entre as primeiras frases de seis parágrafos seguidos no capítulo X, levando o leitor a captar o "torpor" no qual se encontrava Drogo, já impregnado com "o amor doméstico pelos muros cotidianos", em apenas quatro meses de trabalho no forte. O militar, sonhando com atos guerreiros e heroicos, reduz-se a um burocrata.

Se o(a) eventual leitor(a) me permitir, desejo fazer uma digressão.

. . . . . . .

Escrito na forma de diário, Os livros e os dias revela um pouco do que sentia Alberto Manguel no momento do registro, além de mostrar que nossas leituras são sempre influenciadas pelo contexto circundante, pelo momento histórico em que se está vivendo. Por exemplo, na parte referente a O deserto dos tártaros, Manguel encontrava-se em St. John's, cidade da ilha de Newfoundland (Canadá), entre o finalzinho de 2002 e as primeiras semanas de fevereiro de 2003. O mundo estava apreensivo com a possibilidade da invasão do Iraque por tropas norte-americanas e britânicas - o que acabou acontecendo daí a um mês. Por isso, o ensaísta anota: "A guerra iminente não tem nada de heroico; sabemos que os motivos que conduzem as forças anglo-americanas são menos humanitários que financeiros", acrescentando logo em seguida:

"Na história de Buzzati, por outro lado, o trágico sentimento de absurdo que subjuga o leitor brota em grande parte da completa futilidade da empresa heroica. Nenhuma razão humanitária ou financeira pode ser invocada. A fronteira não apresenta nenhum problema, o deserto dos tártaros não viu nenhum tártaro até onde a memória alcança, os heróis nunca têm a chance de ser heroicos".

E então Manguel cita um trecho do segundo capítulo, quando Drogo, encaminhando-se, muito jovem ainda, para servir no forte Bastiani pela primeira vez, conversa com o capitão Ortiz, a quem encontrara por acaso na estrada:

"- Então o forte nunca serviu para nada? 
- Para nada - disse o capitão".

Eu também, nessa minha última leitura de O deserto dos tártaros, acabei influenciado pela conjuntura à qual estou sujeito.

No Brasil (e acredito que em vários outros países), membros das forças armadas, embora sejam agentes públicos, sobem nas tamancas quando comparados a outros servidores do Estado, a despeito do fato de que os vencimentos dos primeiros sejam pagos pelo erário, assim como acontece com os salários dos últimos. Um melindre que acarreta problemas, como estamos carecas de saber... Das funções atribuídas às forças armadas, a mais notória é defender a pátria, usualmente interpretado como proteger a nação de investidas provenientes de inimigos/agressores externos. Entretanto, quando não há necessidade dessa defesa, quando não se veem os invasores no horizonte,  quando os tártaros não vêm, o que esperar dos militares? Como devem se comportar?

A associação entre herói e soldado é, a meu ver, bastante discutível. Digo isso não só pelos vários crimes de guerra cometidos ao longo da história, mas porque a própria ideia de guerra em si não me predispõe a vinculá-la, automaticamente, ao heroísmo ³. De todo modo, soldados existem para guerrear. Mas vejamos a situação nas dezenas de nações pelo mundo afora que - felizmente, aliás - não têm invasores (refiro-me a outros exércitos) para combater. O Brasil, por exemplo. Seus militares, sobretudo oficiais, não acabam se convertendo em meros burocratas, aferrolhados a regulamentos, códigos e regras incompreensíveis para os "paisanos", tal como os personagens dentro do forte Bastiani? Há uma passagem no capítulo XIV de O desertos dos tártaros que vai bem ao encontro do que estou querendo dizer.

O comandante do forte, coronel Filimore, acaba de saber que a movimentação ocorrida no outro lado da fronteira é apenas um trabalho topográfico da parte do reino do Norte e não uma ameaça como chegaram a crer alguns de seus subordinados (e ele mesmo quase foi tomado pela esperança de entrar em combate, agir como guerreiro e tornar-se "herói"). Leiamos o último parágrafo do capítulo XIV:

"A mosca esvoaçava pela sala, a bandeira em cima do telhado do forte se afrouxara, o coronel falava em disciplina e regulamentos, na planície do norte avançavam fileiras de soldados, não mais inimigos ávidos de batalha, mas soldados inócuos como eles, não impelidos ao extermínio, porém enviados numa operação cadastral, e seus fuzis estavam descarregados, as adagas, sem fio. Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo no ritmo dos dias de sempre".

Penso que muitos militares (e aqui tenho em mente sobretudo o caso brasileiro) nunca encontraram (e nunca encontrarão) "inimigos ávidos de batalha". São "soldados inócuos". Por isso - e este é o grande perigo - podem acabar inventando adversários dentro do próprio país. E já que, na visão deles, trata-se de oponentes propensos à beligerância, precisam ser exterminados, pois é o que as forças armadas fazem: entram em guerra com o inimigo, buscando aniquilá-lo. Já foi assim durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. E nada garante que, a depender do resultado das eleições neste domingo (e seus desdobramentos), não volte a ser. Quem serão agora os indivíduos e grupos tachados como inimigos? Membros da sociedade civil - cidadãos e cidadãs cujas visões de mundo e ideário sejam distintos do que apregoa o mandatário de plantão - correm risco? Confesso que tenho muito receio e não estou tranquilo.

Voltemos, porém, à discussão do romance de Dino Buzzati.

. . . . . . .

Há um personagem secundário em O deserto dos tártaros que nunca me sai da cabeça, malgrado sua insignificância. Falo do alfaiate Prosdocimo.

Ele é cheio de si, dá-se muita importância, mas vive nos porões do forte, esquecido. Afirma estar lá apenas em "caráter ab-so-lu-ta-men-te pro-vi-só-rio". E já faz 15 anos...

Prosdocimo representa, penso eu, a tendência negativa que muitos têm para se acomodar (sendo este blogueiro um desses muitos). O personagem aparece pela primeira vez no capítulo VII. Trabalha numa oficina, acompanhado de um velhinho (seu irmão) e mais três ajudantes (que riem dele disfarçadamente). Giovanni Drogo procura-o para encomendar uma capa. Ambos iniciam uma conversa, mas logo o alfaiate do regimento é chamado e sai. Nesse momento, o velhinho se aproxima de Drogo e faz um alerta: não fique no forte, saia enquanto é tempo, não faça como os outros, a esperar um evento que nunca acontece.

É quando o (então) jovem protagonista começa a dar-se conta de uma das maiores ilusões a vigorar no forte Bastiani: a esperança de cumprir um destino heroico.

Reproduzo a seguir os cinco últimos parágrafos do capítulo VII. Peço paciência ao(à) eventual leitor(a) - valerá a pena; a prosa de Dino Buzzati é muito bonita:

"Agora Drogo finalmente entendia. Fitava as sombras múltiplas dos uniformes pendurados, que tremulavam conforme oscilavam as luzes, e pensou que naquele exato momento o coronel, no recôndito de seu gabinete, abrira a janela para o norte. Estava certo: numa hora tão triste como aquela, pela escuridão e pelo outono, o comandante do forte olhava para o setentrião, para as voragens do vale. 
Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas. 
Não haviam se adaptado à existência comum, as alegrias das pessoas comuns, ao destino medíocre; lado a lado, viviam com a mesma esperança, sem nunca mencioná-la, porque não se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o pudor ciumento do próprio íntimo. 
Até Tronk, talvez. Tronk [o sargento-mor] seguia os itens do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e se iludia imaginando que aquilo lhe bastava. Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viver, tudo igual até o fim, também ele teria acordado. Impossível, teria dito. Alguma coisa diferente ainda deverá acontecer, alguma coisa de realmente digno, de que se possa dizer: agora, mesmo que tenha acabado, paciência. 
Drogo compreendera o fácil segredo deles, e com alívio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de quatro meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava. Mas por que o velhinho continuava a fitá-lo com aquela expressão ambígua? Por que Drogo sentia o desejo de assobiar um pouco, de tomar vinho, de sair ao ar livre? Quem sabe para demonstrar a si mesmo que estava realmente livre e tranquilo?"

Essa "hora  milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um" é raríssima, quase nunca surge. Mas a maioria de nós - pelo menos quando somos jovens - não consegue abandonar a crença de que algo grande nos aguarda, ainda que sejamos constituídos de pura mediocridade.

A esperança na "hora milagrosa" perdura, contudo. Segue-se com ela durante anos Até que, tardiamente, constata-se a fuga do tempo. E nada aconteceu. Os tártaros não vieram. Não se fez outra coisa além de aguardar. O que se ganhou com a espera?

O deserto dos tártaros pertence à categoria das narrativas que se escolhe ler pela vida inteira. Tenho certeza de que voltarei constantemente a esse livro. Saiba desde já o(a) eventual leitor(a) que tenho ainda muito a dizer sobre ele. Não faltará ocasião, espero.

Na próxima postagem, pretendo discutir o fenômeno do anti-intelectualismo, partindo, desabusadamente, do pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

___________
¹ MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. [Tradução de José Geraldo Couto]

² BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017 [Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas]

³ Não estou alegando que não possa haver qualquer traço de heroísmo durante conflitos armados; a própria resistência ao fascismo e ao nazismo durante a 2ª Guerra Mundial é algo imensamente valoroso. O que estou dizendo é que a associação entre a figura do soldado e a figura do herói não é nem dada de antemão, nem imediata e muito menos óbvia per se.

BG de Hoje

Não sei por que até hoje nunca falei desta canção aqui no blog. Rocket Man foi lançada em 1972 (tem, portanto, a minha idade). Muitos críticos de música pop consideram-na uma das melhores composições de todos os tempos (eu concordo com essa avaliação). Na época do lançamento, ELTON JOHN contava com uma banda excelente. É a mesma que fez a gravação em estúdio, até onde sei, participando ativamente da elaboração dos arranjos (destaco o violão, o coro durante o refrão, a bateria suave - mas que se faz notar - e, claro, o piano do cantor-compositor britânico). Rocket Man também me fascina pela letra - triste e irônica ao mesmo tempo - falando de um sujeito que trabalha no espaço sideral (e que tipo de serviço poderia ser mais emocionante?), mas cumpre sua tarefa rotineiramente, sem qualquer sentimento especial, a não ser a saudade da esposa. Bernie Taupin, parceiro antigo de John, disse certa vez que, ao escrever a letra, foi inspirado, entre outras fontes, por um conto de Ray Bradbury, o autor de ficção científica mais poético que conheço. Abaixo, um vídeo lindo, dirigido por um cineasta iraniano (Majid Adin) e por um animador irlandês (Stephen McNaily), no qual a canção serve de trilha sonora para narrar o drama de um refugiado. Incluí também no BG uma versão feita pela desconhecida cantora Carol Kay, encontrada por acaso no Youtube, só voz e teclado, mas que achei muito bonita.

domingo, 23 de setembro de 2018

#DemocraciaSim #EleNão


Deixarei o texto sobre O deserto dos tártaros para mais adiante.

Quero, melhor dizendo, preciso abordar outro assunto.

Passei a última semana pensando muito na degradação pela qual passa a política brasileira. E confesso, tenho medo.

Um candidato completamente despreparado, racista, misógino, homofóbico, que faz apologia da violência e da tortura e apesar (ou justamente por causa) disso tudo passou a interessar a plutocracia nacional, ESSE indivíduo lidera as pesquisas de intenção de voto em 2018! Pode ganhar a próxima eleição presidencial! É assustador (mas não chega a ser surpreendente) saber que uma parcela enorme de brasileiros aderiu a essa calamidade. E, entre estes, estão indivíduos que, aproveitando o desencanto e a aflição experimentados pela população (e não tenho dúvida de que o farão de forma ostensiva caso seu candidato chegue ao poder), propagam e colocam em prática ideias e ações que devem ser chamadas pelo seu verdadeiro nome: nazi-fascistas.

Acabei de ler um manifesto com o qual tenho forte concordância. Por isso divulgarei o seu conteúdo na integra e o nome de seus principais signatários até agora. Este blogueiro também assinou-o e convida o(a) eventual leitor(a) a fazer o mesmo. Convém esclarecer que o manifesto apenas alerta para o risco representado pelo postulante do PSL, não sugerindo o nome de nenhum(a) outro(a) candidato(a) especificamente. Entre os signatários, o(a) eventual leitor(a) vai encontrar pessoas que estiveram em lados opostos na eleição de 2014. Gostaria de destacar dois nomes, por razões diferentes: Lilia Moritz Schwarcz, de quem falei nas duas últimas postagens aqui no blog, coerentemente com sua trajetória acadêmica e intelectual, assina o manifesto, o que muito me alegra; Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidenta Dima Rousseff (mesmo que ela não tenha cometido nenhum crime de responsabilidade!), parte do golpe que contribuiu enormemente para o atual miserável estado de coisas, também é um dos signatários, demonstrando o suprapartidarismo da iniciativa.

Ao texto, pois:

Pela Democracia, pelo Brasil


Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros e brasileiras sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos.

Esta clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser.


Assinam este manifesto

Adriana Lisboa
Alê Youssef
Alessandra Negrini
Alessandra Orofino
Alexandre Brasil Fonseca
Alexandre Nero
Alexandre Schneider
Alice Braga
Amon Barros
Ana Carolina Evangelista
Ana Helena Altenfelder
Ana Moser
Ana Toni
André Corradi Moreira Luthier
Andre Degenszajn
André Fischer
André Pereira de Carvalho
Andre Perosa
André Vallias
Andrea Alvarez
Andrea Barata Ribeiro
Andrea Calabi
Andrea Magri
Andreia Horta
Anete Abramowicz
Anna Penido
Antonia Pelegrino
Antonio Grassi
Antônio Nóbrega
Antônio Prata
Ariovaldo Ramos
Arnaldo Antunes
Aron Zylberman
Ary Oswaldo Mattos Filho
Astrid Fontenelle de Brito
Aurea Vieira
Bárbara Musumeci Mourão
Beatriz Bracher
Bel Coelho
Bel Melo
Bela Gil
Belisario dos Santos Junior
Bernard Appy
Beto Vasconcelos
Beto Verissimo
Bia Barbosa
Binho Marques
Braulio Mantovani
Bruno Carazza dos Santos
Bruno Torturra
Cadão Volpato
Caetano Veloso
Caio Magri
Camila Pitanga
Carlos Mello
Carlos Nobre
Carlos Pitchu
Carolina Bueno
Carolina Kotscho
Cazé Pecini
Celia Cruz
Celso Athayde
Celso Lafer
Cesar Callegari
Chico Buarque
Cicero Araujo
Ciro Biderman
Claudia Abreu
Claudia Costin
Cláudio Couto
Clemente Ganz Lucio
Clemir Fernandes
Cléo Regina Todaro Santos de Miranda
Daniel Augusto
Daniel Cerqueira
Daniel De Bonis
Daniel Ganjaman
Daniela Bianchi
Daniela Di Bonito Mônaco de Moraes
Daniela Frozi
Daniela Gleiser
Danilo Miranda
Danilo Santos de Miranda
Dario Guarita Neto
Dario Menezes
Débora Lamm
Denis Mizne
Dira Paes
Doriam Borges
Drauzio Varella
Edson Fernando de Almeida
Eduardo Calil Ohana
Eduardo Marques
Eliane Dias
Eliane Giardini
Elisandro Lotin de Souza
Enrique Diaz
Estevão Ciavatta
Esther Solano
Eugenia Moreyra
Eugenio Bucci
Fabiana Luci de Oliveira
Fabiana Pereira
Fabio Feldman
Felipe Roseno
Fernand Alphen
Fernanda Abreu
Fernanda Thompson
Fernanda Torres
Fernando Abrucio
Fernando Burgos
Fernando Grostein Andrade
Fernando Meirelles
Fernando Morais
Flávia Gusmão Eid
Flávia Lacerda
Flávio Conrado
Flavio Tavares de Lyra
Floriano de Azevedo Marques Neto
Francisco Sandro Rodrigues Holanda
Franklin Feder
Gabriel Feltran
Galeno Amorim
George Avelino Filho
Gerorgiana Goes
Gilberto Dimenstein
Gisele Froes
Glória Kalil
Gregorio Duvivier
Gui Amabis
Guilherme Casarões
Guilherme Leal
Guilherme Werneck
Haroldo Torres
Heitor Dhalia
Helder Vasconcelos
Helio Santos
Helivete Ribeiro
Heloisa Buarque de Holanda
Heloísa Perisse
Henri Philippe Reichstul
Henrique Silveira
Hugo Possolo
Humberto Dantas
Ilona Szábo
Ilza Jorge
Inês Lafer
Ivam Cabral
Ivanir dos Santos
Jailson Silva
Joana Jabace
João Biehl
Joaquim Falcao
Joel Zeferino
Jorge Abrahao
Jorge Hage
Jorge Romano
Jorge Schwartz
José Marcelo Zacchi
Juana Kweitel
Juca Kfouri
Julia Michaels
Juliana Braga de Mattos
Juliana Sakai
Jurandir Freire Costa
Jussara Silveira
Karina Buhr
Karine Carvalho
Katia Maia
Laerte
Lauro Gonzales
Leandra Leal
Leonardo Letelier
Leticia Colin
Lilia Schwarcz
Luana Lobo
Luciana Guimarães
Lucio Maia
Luedji Luna
Luis Bolognesi
Luiz Armando Badin
Luiz Camillo Osorio
Luiz Eduardo Soares
Luiz Felipe de Alencastro
Luiz Nascimento
Luiz Ruffato
Luiza Lima
Lusmarina Campos Garcia
Malak Poppovic
Mano Brown
Manoela Miklos
Marcelo Behar
Marcelo Burgos Santos
Marcelo Furtado
Marcelo Issa
Marcelo Masagão
Marcelo Rubens Paiva
Marcia Pereira das Neves
Márcio Tavares Amaral
Marco Antônio Carvalho Teixeira
Marcos Cavalcanti
Marcos Fernandes
Marcos Flaksman
Marcos Fuchs
Marcos Joaquim Alves
Marcos Rolin
Marcus Vinícius Faustini
Maria Alice Setubal
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Maria da Glória Bonelli
Maria de Medicis
Maria Filomena Gregori
Maria Gadu
Maria Ignez Barbosa
Maria Martha Cassiolato
Maria Stella Gregori
Maria Victoria Benevides
Mariana Lacorte Camponez do Brasil
Mariana Pamplona
Marília Librandi
Marina Dias Werneck
Marina Person
Mário Aquino Alves
Mário Monzoni
Marisa Moreira Salles
Mariza Abreu
Marta de Senna
Mary Camargo Neves Lafer
Mel Lisboa
Melina Risso
Michael Haradon
Miguel Lago
Miguel Reale Jr.
Milton Hatoum
Miriam Krenzinger
Monica Almeida
Monica Franco
Monique evelle
Myrian Porto
Naercio Menezes Filho
Natacha Costa
Numa Ciro
Oded Grajew
Oscar Vilhena
Otávio Dias
Pablo Nunes
Pally Siqueira
Paloma Duarte
Patrícia Pilar
Paula Lavigne
Paulinho Moska
Paulo André
Paulo Barreto
Paulo Borges
Paulo Furquim
Paulo Miklos
Pedro Abramovay
Pedro Meira Monteiro
Pedro Mendes da Rocha
Pedro Paulo Poppovic
Pedro Strozenberg
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva
Philip Yang
Pierpaolo Bottini
Pilar Lacerda
Priscila Cruz
Rafael Alcadipani
Rafael Parente
Raul Santiago
Regina Braga
Renata Motta
Renato Janine Ribeiro
Renato Sergio de Lima
Rica Amabis
Ricardo Abramovay
Ricardo Borges Martins
Ricardo Chaves
Ricardo Henriques
Ricardo Lisias
Ricardo Sennes
Ricardo Teperman
Ricardo Young
Roberta Maiorana
Roberta Martinelli
Roberto Andres
Roberto Amorim
Roberto Waack
Rodrigo Martins Constante
Ronaldo Lemos
Rubens Barbosa
Rubens Naves
Rudi Rocha
Ruth Goldberg
Samira Bueno
Sarah Oliveira
Sergio Abranches
Sergio Leitão
Sergio Miletto
Silvia Noronha dos Santos
Silvia Ramos
Silvia Taques Bittencourt
Silvio Eid
Sueli Carneiro
Tadeu Jungle
Tadeu Valadares
Tainá Müller
Talita Todaro Santos de Miranda
Tasso Azevedo
Tati Bernardi
Theo Dias
Thiago Amparo
Thiago Lacerda
To Brandileone
Tulipa Ruiz
Valeria Macedo
Valerie Tomsic
Valmir Ortega
Valter Roberto Silverio
Valter Silvério
Vanessa Elias de Oliveira
Vera Iaconelli
Vítor Marchetti
Vítor Oliveira
Wagner Moura
Walter Casagrande Jr
Walter Salles
Washington Olivetto
Wilson Simoninha
Xis
Xixo Mauricio Piragino
Zeca Camargo
Zuza Homem de Mello


Você pode assinar o manifesto aqui.


domingo, 16 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (II)


"Além do mais, Lima foi daquelas testemunhas que suportam a solidão de uma responsabilidade e, ao mesmo tempo, assumem a responsabilidade de estar num lugar, no seu caso, muitas vezes repleto de solidão".


Lilia Moritz Schwarcz - Lima Barreto: triste visionário



Grande parte dos manuais e livros didáticos de Literatura classifica Lima Barreto como escritor pré-modernista (bem, falo dos manuais e livros didáticos do meu tempo de aluno do 2º Grau; pode ser diferente hoje em dia, no Ensino Médio). É assim, por exemplo, no título que tenho em mãos neste momento: Língua & Literatura, de Maria da Conceição Castro (volume 3, editora Saraiva), cuja primeira edição é de 1993. Curioso ver que a autora afirma ter sido Lima Barreto "valorizado pelos modernistas da Semana de 22 pela sua capacidade de introduzir na obra literária fatos, situações e linguagem do cotidiano". Há controvérsias, como se verá adiante.

Antes, vale refletir um pouco se o termo Pré-Modernismo é apropriado como designação de um período literário específico.

O prefixo pré-, junto com a acepção de anterioridade, carrega muitas vezes o sentido de "preparatório para algo que virá" - é o caso, por exemplo, em palavras como pré-universitário. O que um curso pré-universitário tenciona é aprontar seus frequentadores para que, futuramente, sejam admitidos ou sintam-se melhor aclimatados numa universidade. 

Pré- também costuma denotar uma espécie de quase. Quando se usava dizer pré-escola, queria-se designar um estabelecimento que é quase uma escola, mas ainda não é. Nesse sentido, a pré-escola seria considerada menos importante do que a escola propriamente dita, pois a primeira só existiria em função da segunda. NOTA: A partir da segunda metade dos anos 1990, o termo pré-escola vai desaparecendo e sendo substituído pelo termo (mais adequado) educação infantil, pois amplia-se a compreensão de que o trabalho com crianças menores de seis anos não é menos educativo do que outros realizados noutras etapas.

Creio que essas acepções do prefixo nos ajudam a entender por que o termo Pré-Modernismo é uma classificação ruim.

Em primeiro lugar, pode nos induzir a considerar o Modernismo como um estágio evolutivo "natural" e superior da produção literária nacional, um ideal estético que se desejava atingir previamente. Aqueles que escreviam antes do advento da Semana de Arte Moderna de 1922 estariam apenas "preparando o terreno" para os que viriam depois - estes, sim, autores inovadores e de talento... Em segundo, denominar um período como pré-modernista acaba, inadvertidamente, esvaziando de importância esse mesmo período, visto somente como um quase (já que a "meta ideal" não teria sido ainda alcançada).

Dito isso, quero deixar registrado que não me oponho às tradicionais classificações de períodos literários para fins didáticos. São válidas e úteis em muitas ocasiões. Mas não nessa.

Voltemos, contudo, ao primeiro parágrafo da postagem de hoje. Teria sido Lima Barreto realmente valorizado pela turma que organizou a Semana de 22?

Em Lima Barreto: triste visionário (Ed. Companhia das Letras, 2017), biografia sobre a qual comecei a escrever na postagem anterior, Lilia Moritz Schwarcz observa que, embora "a nova agenda modernista [tivesse] pontos em comum com aquela de Lima", um episódio "marcaria a sorte" deste com o grupo paulista liderado por Mario e Oswald de Andrade.

Sérgio Buarque de Holanda, colaborador da revista Klaxon, um dos veículos de divulgação dos modernistas de São Paulo, entregou um exemplar da publicação para o escritor carioca. Era comum Lima Barreto tratar de novos autores nas muitas crônicas que produzia para a imprensa do Rio de Janeiro. No caso da Klaxon, nota Schwarcz, ele "reagiu de pronto, revelando seu célebre escárnio. Avaliou que a publicação devia muito ao futurismo italiano e, quem sabe, implicou com 'os rapazes', a quem provavelmente julgou burgueses e muito paulistas".

Ela acrescenta:

"História de 'se' não existe. Ou seja, se Lima tivesse juntado dois mais dois; se tivesse sido capaz de superar sua primeira opinião sobre a capa modernista da publicação dos paulistas; se tivesse conseguido reconhecer nas novas gerações anseios semelhantes, ou ao menos afinados, aos que ele descrevera em seu 'manifesto' de 1921 - intitulado 'O destino da literatura' -, talvez a história fosse outra. Mas não houve tempo, e o que ocorreu lembrou o estrondo e as consequências de uma trombada. 
Lima achou que os 'moços de São Paulo' tinham jeito de bovaristas [nesse contexto, encantados com o que vem do exterior, em detrimento do que se faz no próprio país] e que andavam animados demais com as ideias de Marinetti [o "pai" do Futurismo]. Já eles, na resposta divulgada no número seguinte da publicação, fizeram pouco-caso das avaliações do 'herbolário carioca'. Pensaram que só podia ser coisa de gente da capital [até 1960, o Rio de Janeiro foi o distrito federal]. Se 1922 deu a impressão de que iria se abrir como um ano de encontro, foi ano de fim".

De fato, não houve tempo para desfazer mal-entendidos e aparar arestas. Lima Barreto morreu justamente em 1922 (com apenas 41 anos) e não pôde ler, por exemplo, o Macunaíma, de Mario de Andrade (lançado em 1928), livro em que, acredito, ele identificaria um parentesco com sua concepção de fazer literário. Além do mais, a rusga surgida após o escarnecimento da Klaxon indispôs os modernistas de 22 para com uma obra em muitos aspectos próxima das intenções "anti-academicistas" defendidas pelo grupo de São Paulo.

O que foi dito até agora só reforça o deslocamento de Lima Barreto sobre o qual estamos falando desde a última postagem. Esse deslocamento ocorria tanto no plano pessoal (como espero ter demonstrado no texto anterior), quanto na sua dimensão pública de escritor e intelectual. O autor de Recordações do escrivão Isaías Caminha, mesmo depois de morto, também demorou a encontrar um lugar dentro da crítica e da história literária, em parte por causa do desentendimento mútuo entre ele e os modernistas de 22. A esse respeito, Lilia Schwarcz escreve:

"Lima também passava a ser assumido pela crítica como um autor 'entre': entre gerações, entre gêneros, entre grupos [...]. Se não se adequava aos padrões das gerações que imediatamente lhe antecederam, nem aos daquelas com as quais convivia , tampouco parecia coadunar-se com o estilo das novas vogas literárias, que faziam barulho entre os jovens paulistanos. O autor de Policarpo Quaresma considerava 'os moços de São Paulo' adeptos demais das vogas futuristas e legítimos representantes das novas elites burguesas e industriais. Já os modernistas paulistanos, ao menos nesse primeiro momento, reservavam a Lima o mesmo tipo de aversão que guardavam com relação ao grosso da produção literária que vinha do Rio de Janeiro, e o julgavam conservador demais. Um regressista que não admitia a entrada dos novos costumes, vogas artísticas e literárias ou hábitos urbanos".

Naquele Brasil da Primeira República, "Lima gostava de se definir como 'outro' - afirma a biógrafa -; "outro no jornalismo, outro em suas preferências políticas, outro ainda (e sobretudo) quando se referia ao funcionalismo público". Deslocado, "outro", avesso às pompas que cercavam muitos outros escritores de seu tempo, pobre, alinhado ao anarquismo e ao socialismo (num país em que a desigualdade faz parte do DNA da sociedade), negro (num país extremamente racista, poucas décadas após a Abolição), alcoólatra, duas vezes internado num hospício, o escritor, contudo, não parou de batalhar com os recursos que tinha, mesmo sem acreditar em si. Ou, talvez, acreditasse. No capítulo 11 (Fazendo crônicas, contos e virando Triste fim de Policarpo Quaresma), Lilia Moritz Schwarcz  assinala que:

"Com a publicação de Triste fim, a figura literária de Lima seria ainda mais lapidada. Ele era então caracterizado, e também gostava de se definir desta maneira, como um escritor boêmio, frequentador de botequins, realista por gosto, avesso ao jornalismo burguês e aos formalismos da literatura. Seus problemas na Politécnica [abandonou o curso de Engenharia] viravam virtudes, seu ir e vir nos subúrbios uma forma de existência. A despeito de tanta contraposição, Lima jamais negava seu sonho de viver das letras. Tanto que na mesma entrevista [concedida ao jornal A Época, em 1916], assim resumia sua 'missão': 'O fim da minha vida é as letras. Eu não peço delas senão aquilo que elas me podem dar: Glória! [...] Não quero ser deputado, não quero ser senador, não quero ser mais nada senão literato. Não peço às letras conquistas fáceis [...] peço-lhes coisa sólida e duradoura [...] Eu abandonei tudo por elas; e a minha esperança é que elas me vão dar muita coisa. É o que me faz viver mergulhado nos meus desgostos, nas minhas mágoas [...] Vamos beber cerveja' ".

. . . . . . .

Antes de terminar a postagem, não posso deixar de reconhecer o trabalho monumental feito por Lilia Moritz Schwarcz em Lima Barreto: triste visionário. É um livro de mais de 600 páginas, ressaltando diversos aspectos não só da vida e da obra do escritor, mas também do contexto sócio-histórico. A experiência da biógrafa como historiadora e antropóloga foi vital aqui. E mesmo que a profusão de notas possa retardar o ritmo da leitura em alguns momentos (para o leitor que vai conferi-las pelo menos em parte, como este blogueiro), o ganho informativo é tremendo.

Schwarcz também não se furtou a apresentar o lado antipático do biografado (como sua aversão ao feminismo ou o senso de superioridade evocado diante das outras pessoas de seu meio social, menos cultas do que ele), bem como salientou as ambiguidades que marcaram a sua trajetória pessoal e pública. Vale destacar o reconhecimento da autora ao trabalho de Francisco de Assis Barbosa, que, na década de 1950, não só produziu uma importante biografia, como foi fundamental para renovar o interesse pela obra do escritor, num esforço que incluiu o lançamento de inéditos e a republicação de diversos livros de Lima Barreto.

Na próxima postagem, falarei de um dos meus romances prediletos: O deserto dos tártaros, de Dino Buzzati


BG de Hoje

É meio complicado classificar, de primeira, o tipo de música feita pelo CRIOLO. Isso que é legal no som dele. Tem rap? Principalmente, claro. Mas também tem samba. E uma faixa singularíssima como Bogotá, com sua levada que remete o ouvinte a outras vertentes rítmicas latino-americanas.


sábado, 1 de setembro de 2018

O deslocamento de Lima Barreto (I)


Certas expressões viram moda num curto período de tempo. Passam a ser exaustiva e irritantemente repetidas. E tornam-se, por fim, clichês vazios.

A despeito do que acabei de escrever, vou usar uma dessas expressões. Porque ela, acho, não me soará oca ou desgastada - pelo menos, não nesse caso.

Lima Barreto me representa.

Vai além de nossa comum afrodescendência.

A vida de Lima Barreto foi marcada pelo deslocamento. Essa sensação é bastante familiar para mim. Ele era também alcoólatra - outra característica que compartilhamos.

Na volumosa biografia do escritor carioca lançada no ano passado ¹, Lilia Moritz Schwarcz escreveu:

"Ante os infortúnios, [Lima Barreto] bebia. Bebia por medo, pela falta de amigos, por não encontrar a rapariga certa, para fugir da 'desgraça doméstica', por causa de seu emprego. E bebia porque bebia, porque gostava de beber.

[...]

E justificava o vício: para não se aborrecer, para não ter de enfrentar o descompasso entre suas 'aptidões' e 'boas qualidades', assim como para poder lidar [com] (ou esquecer [de]) seus 'poderosos defeitos' e frustrações. Bebia chope, uísque, cachaça, para afastar o abismo que devia enxergar entre si e os amigos, os colegas de repartição, as mulheres, a família, os vizinhos.

[...]

Por essas e por outras, Lima se sentia e parecia cada vez mais deslocado. A roupa sempre manchada, o sapato desgastado, e placas de suor que lhe marcavam a camisa e colavam o cabelo à cabeça. Sofria com o tédio da repartição, com sua vida literária que não decolava, e com sua situação pessoal: poucos amigos, sem namoradas, e com a família que ele precisava prover. A bebida, para Lima, transformava-se ao mesmo tempo numa espécie de evasão para a sua profissão, que o entediava, e daquele mundo que insistia em não dar certo".

Destacar o alcoolismo do escritor não é tratar de tema supérfluo, nem cometer qualquer tipo de indiscrição perversa: é apresentar um fato relevante na vida de Lima Barreto, cujo impacto ultrapassou a esfera das relações pessoais, atingindo sua obra e a recepção crítica desta. Como qualquer outro ser humano, o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma carregava suas inseguranças e (muitos) fracassos. E quando penso que se trata de uma pessoa negra, neto de uma escravizada, buscando, com as poucas armas de que dispunha, reconhecimento literário no início do século passado neste país (que foi, ainda é e, ao que tudo indica, sempre será) arcaico, racista e excludente, digo em pensamento: "É isso aí, Lima, beba. Só nos resta beber..."

"Pode-se dizer" - também escreveu a biógrafa - "que Lima se sentia 'estrangeiro' onde quer que estivesse" Como isso me é igualmente familiar! Schwarcz prossegue:

"Em primeiro lugar, seu grau de formação levava-o a se apartar dos vizinhos de Todos os Santos. O escritor gostava de reconhecer sua educação e dela se gabar, e assim guardava certa quilometragem dos personagens que tão bem descrevia. Em segundo lugar, na sua roda de amigos boêmios conservava uma separação cautelar, ainda mais quando se tratava de 'socializar com as moças'. Conhecia demais aquilo que chamava de 'limitações' trazidas pela cor que estampava em sua pele, ou ao menos mantinha esse tipo de obstáculo bem delineado quando tentava medir-se ou medir os outros".

O(A) eventual leitor(a) talvez se lembre de duas passagens do romance citado linhas acima ². A primeira encontra-se no capítulo 3. Numa pequena reunião festiva, alguns conhecidos de Policarpo Quaresma falam a respeito do major, motivados pela repercussão daquele desastroso requerimento escrito em tupi. A seguir, um trecho do diálogo:

"- Quem é? - perguntou Florêncio.
 - Aquele vizinho, empregado do arsenal, não conhece?
- Um baixo, de pince-nez?
- Esse mesmo - confirmou Caldas.
- Nem se podia esperar outra coisa - disse o doutor Florêncio - Aqueles livros, aquela mania de leitura...
- Pra que ele lia tanto? - indagou Caldas.
- Telha de menos - disse Florêncio.
Genelício atalhou com autoridade:
- Ele não era formado, para que meter-se em livros?
- É verdade - fez Florêncio.
- Isso de livros é bom para os sábios, para os doutores - observou Sigismundo.
- Devia até ser proibido - disse Genelício - a quem não possuísse um título acadêmico ter livros. Evitam-se assim essas desgraças [ele se refere à "loucura" de Quaresma]"

Na outra passagem, logo no capítulo seguinte, Policarpo volta pra casa abatido, após ser suspenso e levar uma descompostura do chefe (mais uma vez, consequência do requerimento em tupi despachado por engano). No bonde, encontra-se com o amigo Ricardo Coração dos Outros. Outro trecho de diálogo:

"- O major, hoje, parece que tem uma ideia, um pensamento muito forte.
- Tenho, filho, não de hoje, mas de há muito tempo.
- É bom pensar, sonhar consola.
- Consola, talvez; mas faz-nos também diferentes dos outros, cava abismos entre os homens..."

Os interessados na obra desse escritor sabem que muitos de seus personagens funcionam como disfarces do próprio autor, inteira ou parcialmente. Policarpo Quaresma - enquanto funcionário público medíocre de baixo escalão, leitor inveterado (mas sem diploma) e sujeito intelectualizado de forma diletante e errática - é Lima Barreto. E este blogueiro se identifica tanto com isso tudo...


Noutro trecho da biografia, Lilia Schwarcz reproduz uma passagem bem significativa do diário íntimo do autor:

"Novamente no seu Diário, em 1908, o sentimento de deslocamento manifesta-se: 'Mas de tudo isso, o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande Humanidade de que quero fazer parte [...] Abate-me também não ter amigos e ir perdendo os poucos que tinha. Santos está se afastando; Ribeiro e J. Luís também. Eram os melhores. Carneiro (o Otávio), o egoísta e frio Otávio, está fazendo a sua alta vida, a sua reputação, o seu halo grandioso, e é preciso não me preocupar mais. Eu esperava isso tudo; mas não pensei que fosse tão cedo. Resta-me o Pausílipo, este é o único que se parece comigo e que tem o meu fundo, que ele desconhece por completo [...] Eu fico só, só com os meus irmãos e o meu orgulho e as minhas falhas' ".

Não consigo deixar de ficar pasmado com a ingenuidade de Lima Barreto ao acreditar que "a humanidade vive da/pela/para a inteligência" (bem, era o início do século XX, o socialismo parecia alcançável, as duas grandes guerras mundiais ainda não tinham acontecido e mesmo o capitalismo, baseado fortemente na indústria e comércio - pois mal engatinhava a irrefreável especulação financeira transnacional -, apontava uma confiança otimista no engenho humano). O escritor, porém, não cria nele mesmo. Mas como crer, se não havia recompensa alguma?

Na próxima postagem, falo de um outro aspecto do deslocamento de Lima Barreto: a sua inadequação ao sistema literário então vigente.
__________
¹ SCHWARCZ, Lilia Moritz. Lima Barreto: triste visionário. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

² BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. 21 ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1998, 


BG de Hoje

Trata-se de uma gravação impecável. Tudo soa perfeito. As harmonizações vocais (a principal característica do MPB 4), o arranjo de Luiz Carlos Ramos, o violão de sete cordas imponente, a cuíca discretíssima, a entrada gloriosa do surdo. Mas o ingrediente principal está no tamborim excepcionalmente bem tocado. Não se pode deixar de mencionar a letra do Paulo César Pinheiro para a linda melodia do Miltinho. É por essas e outras que Cicatrizes é uma das faixas de disco mais bonitas que já ouvi.

domingo, 19 de agosto de 2018

Falou e disse...

NÃO HÁ PORQUE*   **

Não há porque fantasiar essa vida
Quem quiser discordar
Eu vou desconfiar
Quem vier debochar
Cuidado que o barco pode virar
 

No estádio esse meu time só me põe doente
Eu esbarro em minhas dívidas diariamente
Na esquina quero amor e vejo o mal presente
Só me esqueço quando tomo um
copo de aguardente
O escândalo se abafa, isso é prudente
Nas escadas o degrau não é pra toda gente
A estrada dessa vida é coisa pra valente
Do estado desse mundo Deus está ciente


Não há porque fantasiar essa vida
Quem quiser discordar
Eu vou desconfiar (pra valer)
Quem vier debochar
Cuidado que o barco pode virar
 

Na espreita sobrevivo até comicamente
Os efeitos vêm a público amargamente
Um estranho ao me ver percebe claramente
Nas entranhas uma dor que fere lentamente
O espanto me domina tão tragicamente
A espécie dessa vida é morte que se sente
A espera se renova em todo poente
Qual espuma vivo fraco, mas eu vou em frente


* Não há porque foi gravada em 1975, no álbum Chama Acesa. Esse samba primoroso composto por Ivan LINS recebeu uma letra não menos caprichada de Ronaldo MONTEIRO DE SOUZA. A propósito, no disco Chama Acesa há também uma faixa de que gosto muito, Palhaços e Reis, mais uma parceria entre Lins e Monteiro de Souza, já interpretada pelo MPB-4.

** Perdão pela minha gramatiquice, mas talvez fosse melhor se, em vez de "Não há porque", os autores tivessem escrito Não há POR QUE. De todo modo, sempre achei uma canção belíssima. Confira abaixo:

terça-feira, 7 de agosto de 2018

O tribunal da quinta-feira e o "mal-estar internético"


Iria escrever hoje sobre outro assunto. Vai ficar pra próxima, porque, felizmente, acabou chegando às minhas mãos um livro que eu queria muito ler, desde o ano passado.

É O tribunal da quinta-feira ¹, de Michel Laub.

Li-o numa tarde (são apenas 183 páginas). Matutei por um tempinho e o reli daí a dois dias. E se o(a) eventual leitor(a) me perguntasse, na lata, "Gostou ou não?", confesso que teria dificuldade para responder prontamente.

Antes de entrarmos no livro, acho conveniente destacar uma declaração do escritor gaúcho feita em entrevista para O Globo, publicada em novembro de 2016:

"Minha posição é a favor da liberdade do escritor de fazer o que quiser. O dia que abrirmos mão disso, acaba a literatura. Claro que o escritor paga o preço pelas suas escolhas, de acordo com os parâmetros de sua época. O que eu fiz pode desagradar a muitos leitores de hoje, mas é uma briga que vale a pena. No momento que passamos a discutir a legitimidade de um narrador de ficção, defender valores X ou Y, entramos num debate alheio aos mecanismos da arte. Ficção é empatia, e empatia é algo necessariamente difícil - se fosse para ver os nossos próprios valores confirmados no que lemos, melhor ficarmos com o discurso das redes sociais".

Creio não ser por acaso que Laub fale em "uma briga que vale a pena". O autor sabe, é claro, que seu livro não será discutido apenas tendo em mente os "mecanismos da arte". Parte significativa do interesse despertado por O tribunal da quinta-feira decorre, penso eu,  não de seus méritos estéticos/literários, mas sim da atualidade de alguns de seus temas - a privacidade em risco na era digital; o suposto cerceamento dos discursos em nome do chamado politicamente correto; o moralismo/puritanismo de parte dos usuários das mídias sociais. A "tese" principal do romance pode ser localizada mais nitidamente no capítulo 24.

Primeiro, alguns dados.

O narrador dessa ficção é José Victor, 43 anos, branco, heterossexual, publicitário relativamente bem-sucedido - ou seja, "um privilegiado do pênis que desde cedo colheu os devidos e respectivos privilégios", como ele diz de si próprio em determinada passagem. Um dia, parte de sua correspondência por e-mail é exposta pela ex-mulher, Teca. As mensagens trocadas entre o narrador e Walter (amigo de longa data, na mesma faixa etária, também publicitário, homo(bi?)ssexual, HIV positivo) são permeadas por um linguajar chulo e até cruel (mas cujas nuanças de conotação - uma espécie de humor interno - não podem ser alcançadas por outros que não os dois correspondentes). O conteúdo é vazado, circula pelo Facebook e em pouquíssimo tempo "uma multidão acima de qualquer pecado" desce a lenha, cheia de fúria santa, em José Victor, Walter e Dani, a namorada do narrador, 23 anos mais jovem do que ele.

A ex-mulher de José Victor, Teca, é arquiteta, filha de pais ricos também arquitetos, e, assim como suas amigas que vazaram o conteúdo dos e-mails, é culta, possui o que se chama hoje de sensibilidade social, tem consciência ambiental e engajamento feminista. Pessoas assim diferem muito, portanto, das turbas ignorantes, preconceituosas e coléricas que infestam e inviabilizam o debate nas seções de comentários dos sites/blogs e nas mídias sociais, certo? Não é bem assim - é o que nos diz o romance de Michel Laub.

Um considerável número de indivíduos usa a internet sobretudo para expor pontos de vista e opiniões, além de defender posicionamentos políticos/ideológicos, notadamente nas mídias sociais. À medida que muitos desses pontos de vista e desses posicionamentos podem ser agrupados em conjuntos maiores, não é descabido falar em campos opostos que se altercam, disputando corações e mentes. E de que lado estaria Teca? Vamos ler este excerto do capítulo 24:

"O lado correto desta briga. Teca pode ficar tranquila a respeito, não é o [lado] dos aposentados, pregadores religiosos e integrantes de torcidas organizadas que se manifestaram logo depois do vazamento. Foram dezenas, centenas deles. [...] É esse lado [o de Teca] que me trouxe ao tribunal. Todos imaginamos fazer parte dele, nós que somos a favor da tolerância, do equilíbrio, da solidariedade que é tão fácil declarar, então uma briga com quem fala em nome disso tudo não deixa de ser uma briga com você mesmo".

E o narrador complementa:

"Eu já criei anúncio de um banco que dizia, aproveite a vida, dinheiro não é a coisa mais importante. Já criei anúncios sobre peças de teatro, creches e espaços públicos de convivência cidadã financiados por fábricas de inseticidas e fomentadores de trabalho infantil. Cada vez que penso na reação de Teca às mensagens, e das amigas de Teca ao vazamento posterior, é como se elas e a internet inteira fossem locutoras de um desses textos. O importante é o tempo para você se dedicar à família e ir atrás dos seus sonhos. O importante é não fazer de sua passagem pelo nosso rico planeta uma aventura em vão. Mostre que a aventura nasceu com você e independe do conflito dos seus interesses com os de outras pessoas, sejam eles puros ou impuros, e não há em você resquício da ambição, inveja, competitividade, agressividade e hipocrisia que vemos no resto do mundo".

Um dos pontos altos de O tribunal da quinta-feira, a meu ver, é o modo como aborda a hipocrisia de determinados tipos de usuários da internet. Não é por acaso que o narrador trabalhe com publicidade. Publicitários não só precisam, por questões de ofício, produzir anúncios hipócritas, como também devem ser capazes de atenuar ou dissimular a falta de sinceridade de seus clientes perante o público. José Victor, ao longo da narrativa, é muitas vezes irônico e mordaz porque não tem dificuldade em detectar a hipocrisia contida em boa parte das falas de quem se perfila no "lado correto da briga".

Pregamos empatia, mas não fazemos questão nenhuma de ouvir com cuidado quem não pensa exatamente como nós. Defendemos tolerância, mas não demoramos a apontar dedos acusadores e a rotular outros indivíduos. Sim, uso a primeira pessoa do plural porque suponho estar do mesmo lado de Teca. E é por isso que o livro de Michel Laub me deixou tão desconfortável.

Por falar em desconforto, não sei se o(a) eventual leitor(a) costuma sentir, durante sua navegação na internet, algo que - na falta de uma expressão melhor - chamo de "mal-estar internético". Esse sentimento engloba, naturalmente, o dissabor e o asco experimentados, por exemplo, durante a leitura de um sem-número de comentários postados em portais de notícias, pejados de selvageria e ódio concentrado. O mal-estar de que estou falando, entretanto, abarca também uma desagradável sensação que surge quando me dou conta de que muitos usuários da internet - posicionados no "lado correto da briga", como este blogueiro imagina estar - acreditam ser dotados de uma superioridade moral incontestável. Ora, é relativamente fácil identificar o discurso intolerante e agressivo em estado puro e a ele se opor ou dele se distanciar. Outra coisa, contudo, é lidar com alguém que se julga moralmente superior, ou pelo menos virtuoso o suficiente para estabelecer, de acordo com a sua agenda (pois está do "lado certo da briga"), o que é ou não aceitável.

Noutra entrevista, desta vez publicada no El País, Michel Laub declarou:

"Todo mundo dá opinião sobre tudo hoje. Ao mesmo tempo, posso apostar que a maioria das pessoas cuida muito para dar certas opiniões. É um mundo contraditório e muito controlado. Existe muita liberdade, supostamente, mas muito puritanismo também. Acho que as coisas não estão bem postas, porque existe, de um lado, muito medo de pensar e, de outro, muita pressão para as pessoas pensarem. Só que o pensamento às vezes é amoral. Precisa testar hipóteses. Você vê uma notícia terrível na TV e se, por um minuto, ponderar, é massacrado. Essa certeza prévia que nos é cobrada é o contrário da ciência... Você não avança nada no conhecimento, na moral, na cultura e em lugar algum se você não puder testar hipóteses, mesmo as mais antipáticas a você".

De fato, aqui no Besta Quadrada, tenho tido muito cuidado antes de postar qualquer texto. Porém, pra deixar claro, não me sinto censurado ou tolhido pelo chamado politicamente correto (parte de minhas opiniões sobre o tema foram publicadas aqui). Simplesmente reconheço que o zeitgeist atual espera de nós outra postura discursiva (o que é positivo em muitos aspectos) e também constato que essa nova postura discursiva (favorecida pela moderna tecnologia de comunicação/informação) dá voz a pessoas e segmentos sociais historicamente silenciados e marginalizados (e isso também é positivo em muitos aspectos). Algumas vezes tenho notado que a grita contra o politicamente correto é mais uma tentativa de disfarçar certa incapacidade de adaptar-se ao atual cenário do que uma defesa da liberdade de expressão.

Nem tudo é positivo, porém.

Como escrevi acima, assim como a propagação do ódio concentrado daqueles que não estão do "lado certo da briga", causa-me tremendo mal-estar a jactância dos que se julgam moralmente superiores e infalíveis em muitas falas propagadas pela internet. Algo não só prepotente, como  - e às vezes de forma concomitante - hipócrita.

Numa outra passagem, já nos últimos capítulos, José Victor diz:
"Responderei a todas as pessoas que fizeram comentários ou enviaram mensagens. Entrarei em vinte, duzentos posts sobre o assunto, e darei um like irônico como resposta a quem é incapaz de entender ironia. Não adiantará coisa alguma, tudo continuará onde sempre esteve no debate público dos últimos tempos, a glória do próprio ego numa batalha inútil que ninguém é capaz de interromper, mas ao menos uma vez eles ouvirão algo distinto da própria voz de criança, as certezas de quem nunca saiu do próprio bairro mental".
Não dá pra negar que o debate público contemporâneo é dependente do que acontece nas mídias sociais. E penso que todos deveríamos nos perguntar se ele permanecerá "a glória do próprio ego numa batalha inútil" e onde chegaremos com isso.

Teria mais coisas a dizer sobre o livro de Michel Laub, mas meu texto seguiu por um rumo não planejado antes e acabei me perdendo. Voltarei a O tribunal da quinta-feira assim que possível.

Na próxima postagem, finalmente, escreverei sobre a biografia de Lima Barreto, cuja autora é a antropóloga/historiadora Lilia Moritz Schwarcz.

___________
¹ LAUB, Michel. O tribunal da quinta-feira. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

BG de Hoje

Quando Chris Cornell morreu no ano passado, alguns artistas homenagearam-no (merecidamente). Fiquei surpreso, por exemplo, com a singela interpretação da cantora/compositora/pianista Norah Jones para Black Hole Sun, pois a pegada do Soundgarden nada tem a ver com o tipo de música feito habitualmente por ela. Por falar nessa canção, o veterano PETER FRAMPTON arrebentou no programa Guitar Center Sessions, sete anos atrás. Sua versão instrumental do grande hit de Cornell & Cia. é esplêndida. Confira abaixo.
P. S. Não sou músico, portanto, me dê um desconto. Mas não consigo entender como Peter Frampton raramente é reverenciado como o grande guitarrista que é (e sempre foi). Por exemplo, ele não está na lista dos 100 maiores guitarristas de todos os tempos da revista Rolling Stone. Na minha opinião, injustiça.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

É possível abstrair-se da política?: Lendo As meninas, de Lygia Fagundes Telles


Não saberia dizer se As meninas - passados 45 anos de seu lançamento - é um livro ao qual os leitores têm retornado (pois talvez seja considerado uma obra datada). Mas acho que deveriam.

É um escrito ambicioso, muito embora não se divise a sua ambição à primeira vista. Tratemos, pois, de evidenciá-la.

Lygia Fagundes Telles lançou mão de um formato narrativo não empregado em nenhum de seus dois romances até então publicados (Ciranda de Pedra e Verão no aquário), nem em nenhum de seus contos (até onde sei). A adoção do discurso indireto livre e a utilização do fluxo de consciência não eram novidades em sua prosa; entretanto, a escritora procurou ser, digamos, um pouco mais experimental do que vinha sendo. Isso pode ser verificado com facilidade nas passagens em que a voz narradora cabe a Ana Clara. Observemos o seguinte excerto ¹ , tirado do oitavo capítulo:

"Viro na boca a garrafa e meus poros se abrem e meu peito se abre. Vidão. Não fosse esse negro aí berrando não gosto mesmo de negro. Nem de branco. Não gosto de ninguém. Todos uns bons sacanas que não perdem a chance de mijar na cabeça da gente. Agora quem vai mijar sou eu! grito e fico rindo de feliz. Max eu te amo eu te amo eu te amo. Beijo seu sapato que está em cima do meu biquíni. O sapato. Amo o sapato dele amo tudo mas tenho que ir tenho que ir. Quando me desbloquear a gente vai rolar de gozo. Beijo meu Agnus Dei que prendi no biquíni amo meu Agnus Dei amo Madre Alix minha santa não fique triste que em janeiro minha santa santa. E minhas roupas pomba? Sumiu tudo. Queria ser invisível e sair como o cara dos quadrinhos como era o nome dele. Ele sai e entra e ninguém vê".

No esquema de As meninas, o tema do amor (e da expectativa em torno do sexo) é explorado, sobretudo, em Lorena; Lia retrata, na maior parte das vezes, a militância ideológica e a oposição à ditadura; Ana Clara, por sua vez, sintetiza, principalmente, o tópico do abuso e da dependência no consumo de drogas. Não é de se surpreender, portanto, que as passagens narradas por Ana Clara sejam aquelas com maior incidência de dizeres fragmentários, com rupturas bruscas no encadeamento das sentenças e das frases (efeitos perceptíveis graças a ausência de determinados sinais de pontuação) ². Atenção para este outro excerto, de um capítulo bem anterior:

"Meu joelho está molhado. Uísque? Uísque é evidente. Como pode ser baba? Teria que ser um crocodilo. Abro os braços de alegria ah aquela estrada. Falar. É preciso falar tudo é ir falando o tempo todo deixar correr a confissão como vai correndo o mijo. Quero mijar vou de rastros até o banheiro agora sou vegetal se alastrando. Trono alto tenho que fazer na banheira levantar a perna como o Lulu. Vou ter daqueles cachorros bacanérrimos com pintinhas pretas e olho azul como é o nome? Aquele. Mas também quero um vagabundo com a cara do Lulu. A única coisa decente que tive a única que me amou vem Lulu eu chamava".

Vamos nos deter um pouco no trecho "É preciso falar tudo e ir falando o tempo todo deixar correr a confissão como vai correndo o mijo". Das três personagens centrais, Ana Clara é a única a se submeter a sessões de psicanálise, custeadas por Madre Alix, a freira que dirige o pensionato N.S.F. (Nossa Senhora de Fátima, talvez?) onde elas moram. É propício fazer notar que foi nos anos 1960-70 que o Brasil experimentou o boom das terapias dessa natureza entre as parcelas mais privilegiadas da sociedade. Ao longo de As meninas, encontrar-se-ão várias outras referências à psicanálise, bem como a seus praticantes (destaco, a esse respeito, o capítulo 10, quando Lia, involuntariamente, fica na posição de "analista" da mãe de Lorena). Isso demonstra uma certa preocupação de Telles em contextualizar o período histórico no qual o romance está inserido - ainda que de um ponto de vista de classe restrito. Outro exemplo simples, mas ilustrativo: o gato de estimação de Lorena chamava-se Astronauta, óbvia alusão às então recentes missões espaciais da NASA. As menções a determinados músicos (Jimi Hendrix, Caetano Veloso, Gilberto Gil) e até a determinadas marcas de automóvel fazem parte do mesmo expediente de contextualização. Nesse sentido, deve-se também destacar a questão da linguagem, intimamente relacionada com a questão do foco narrativo discutida acima. Numa entrevista a Edla van Steen ³, Telles declarou:
"Em As meninas quis dar às minhas personagens toda a liberdade. À medida que elas iam vivendo, o enredo ia se modificando, soltei as rédeas, confesso que em determinado momento não conduzi mais, fui conduzida: sim, houve muito de imprevisível, deixei as meninas na sua exaltação para me concentrar na linguagem. A pesquisa era na direção da linguagem. Da revolução dessa linguagem. Alguns críticos sentiram minha ânsia de renovar, e foi essa a recompensa para tanto trabalho e aflição: reescrevi o livro três vezes, tomada pelo demônio da insatisfação".
A autora incluiu gírias e coloquialismos da época, sem receio - afinal, tínhamos que ter acesso (da forma mais vívida possível) à corrente de pensamentos (intensos e passionais, muitas vezes) de três jovens universitárias, bem diferentes entre si, vivendo na maior cidade brasileira, entre os anos 1960-70 e em meio a um golpe militar. Sabemos, contudo, que são os registros idiomáticos os principais "culpados" pela "datação" de um texto literário. O risco, porém, valeu a pena.

Entretanto, creio que As meninas notabiliza-se, principalmente, por seu dimensionamento político. E aqui cabe uma reflexão.

Noutra entrevista, concedida ao programa Roda Viva em outubro de 1996 (disponível aqui), Lygia Fagundes Telles diz a certa altura: "O bom escritor, sem arrogância eu digo isso, está naturalmente
engajado na política [...] Nós nos comprometemos, nós somos escritores comprometidos com a política". Pessoalmente, não consigo (com poucas exceções) ter grande disposição de leitura quando percebo que determinado texto literário adota um tom supostamente isento, evitando comprometer-se com os problemas de seu tempo ou ignorando fenômenos sociais - e isso vale também para gêneros erroneamente considerados imunes à política, como a ficção científica e a fantasia. Por isso, concordo com a autora. Para muitos(as) bons(boas) escritores(as), não dá pra esquecer a política, abstrair-se dela e simplesmente escrever uma história neutra. Significaria uma falta de compromisso consigo mesmos(as). NOTA: Até textos mergulhados no subjetivismo ou com arrojados projetos estetizantes, não raro, presumem o cenário sociopolítico. É possível que as duas atitudes representem inclusive reações a esse cenário.

Quanto a Telles, o que podemos dizer?

Obviamente, falando de As meninas, a ditadura é o dado histórico que salta aos olhos. Enquanto a rica Lorena fica em sua "concha" (segundo suas próprias palavras) e Ana Clara, de infância miserável e embrutecida, busca refúgio no torpor das drogas e no sonho delirante do casamento milionário, Lia integra uma das muitas células de resistência ao regime. E embora a personagem por vezes seja mais uma caricatura dos jovens de esquerda na segunda metade do século XX do que qualquer outra coisa, é através dela que a contestação à ditadura pode ganhar corpo dentro do livro (não custa lembrar que As meninas foi publicado em 1973, com os militares ainda no poder e a censura em plena vigência). E muito embora Lia não aja ("[...]ah, tão longe a fala do ato. Se eu não falasse tanto em fazer amor, se Ana Clara não falasse tanto em enriquecer, se Lião não falasse noite e dia em revolução", pensa Lorena em dada passagem), é numa conversa entre ela e Madre Alix, por exemplo, que a autora aproveita para escrever um depoimento no qual a prática da tortura é descrita com toda a sua crueldade e torpeza (capítulo 6).

Mas a palavra política, sabemos, tem um significado mais amplo, ligado às relações humanas em geral. E nesse ponto o romance de Lygia Fagundes Telles é valioso, ao promover a abordagem de questões fundamentais para aquele período (a liberação sexual, por exemplo) e algumas primordiais até hoje (a desigualdade).

Antes de encerrar, gostaria de reproduzir um trecho do terceiro capítulo. A voz narradora é de Lorena:

"Nasci num tempo de violência. Orfeu chegou a comover as feras com sua lira e eu não consegui comover nem o Astronauta. Enfim, um gato é um gato mas como gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo mas sem entrar nele, é lógico [...] Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas na rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer boa-noite passa de testemunha para participante. E não adianta fazer aquela cara de nuvem se diluindo ao largo porque nessa altura já puxaram a nuvem para dentro e a janela-guilhotina fechou rápida. Eram laços frouxos? Viraram tentáculos. Ah, que alegria quando fico aqui sozinha. Sozinha".

Será que "entrar no mundo" nunca será algo desejável de se fazer? Preferiremos (falo por mim e a personagem) ficar sempre numa distância supostamente segura, recusando-nos a ser testemunhas (que dirá participantes)? E, portanto, a satisfação só se dá no isolamento?

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¹ TELLES, Lygia Fagundes. As meninas. 16 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira: 1985

² Outro exemplo da nova técnica narrativa empregada pela escritora no romance está nesta passagem (a voz agora é de Lia):
" ' Se você acredita no homem você acredita em Deus', disse Madre Alix. Não sei explicar mas o que quero dizer é que acreditar nessas histórias absurdas que os homem contam. Quanto mais simples e inocentes forem mais me envolvem com suas façanhas de heróis e santos, vem, mãe, vem me encher de superstições que não entram na minha rotina mas também não esqueço, vem de noite me coçar as costas e depois abrir meu cabelo, a Ivanilda, aquela porcalhona passou piolho pra classe inteira. O avental cor de café-com-leite tinha um sabiá no bolso".  
³ TELLES, Lygia Fagundes. Entrevista concedida a Edla van Steen e publicada em VAN STEEN, Edla. Viver e escrever: volume 3. 2 ed. Porto Alegre: L&PM, 2008. p. 146-160

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O Colonized?, meu outro blog, escrito em inglês, também voltou a ser atualizado. Não dei a devida atenção a ele no ano passado, mas tentarei remediar as coisas agora. Como já disse noutra oportunidade, os textos de lá não são nada parecidos com os daqui, pois meu objetivo é apenas me exercitar num idioma que não é o meu. Caso esteja interessado(a), eventual leitor(a), o endereço é https://lousantino.blogspot.com . 
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BG de Hoje

Eu ia incluir essa canção como BG numa postagem sobre Verão no aquário, um outro romance de L. F. Telles. Mas acabei desistindo daquele texto (decidi, pelo menos por um tempo, trazer aqui para o blog apenas os livros de que gosto. E como não sou um grande fã de Verão no aquário...). De todo modo, Princesa (Torta de maçã), do SCATOLOVE, precisava aparecer por aqui, de um jeito ou de outro, simplesmente porque adoro essa canção. Então, lá vai.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Pelo menos sei de Olanna, Odenigbo, Ugwu, Richard, Kainene...


Poucos acontecimentos podem degradar tanto os seres humanos quanto a guerra.

Não obstante, parece que nossa espécie nunca se livrará desse flagelo. A guerra, praticada desde os primeiros esboços de civilização, provavelmente acompanhará a humanidade até... até... a sua extinção (que, sabemos, pode inclusive ser propiciada por uma conflagração nuclear global).

Segundo a organização não-governamental IRIN, há, hoje, mais de 30 conflitos armados, de média e larga escala, em andamento pelo planeta (entre guerras civis, lutas separatistas e tomadas/domínio de território por potentados ou chefões do tráfico de drogas), acarretando a morte de milhares de pessoas diariamente - seja por ataques diretos, seja por impedir o acesso dos indivíduos a alimentos ou cuidados médicos.

Não é segredo para ninguém que uma grande parte dos confrontos bélicos não recebe a devida atenção dos veículos de comunicação (sobretudo por acontecerem no antes chamado Terceiro Mundo) e, pensando naqueles já encerrados (alguns há bem poucas décadas), quase nada se ouve, se lê ou se aprende a respeito desses confrontos. É o caso da guerra civil da Nigéria, também conhecida como Guerra de Biafra, ocorrida entre 1967 e 1970. Resultando em mais de um milhão de pessoas mortas (algumas fontes falam em até três milhões), vítimas, principalmente, da fome e da falta de medicamentos causadas por bloqueios militares, esse conflito é retratado no livro Meio sol amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie¹.

Importante ressaltar, contudo, que não se trata aqui de um relato preso à mera concatenação de fatos do passado, como se fosse uma espécie de acerto de contas com a história recente do país. Não. Estamos diante de um empreendimento literário (um ótimo empreendimento, diga-se de passagem). Por isso, julgo adequado fazer algumas considerações antes de falar propriamente da narrativa em questão.

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 No célebre ensaio A personagem do romance ², Antonio Candido escreve:

"Portanto, os três elementos centrais dum desenvolvimento novelístico (o enredo e a personagem, que representam a sua matéria; as 'ideias', que representam o seu significado, - e que são no conjunto elaborados pela técnica), estes três elementos só existem intimamente ligados, inseparáveis, nos romances bem realizados. No meio deles, avulta a personagem, que representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, pelos mecanismos de identificações, projeção, transferência etc. A personagem vive o enredo e as ideias, e os torna vivos. Eis uma imagem feliz de [André] Gide: 'Tento enrolar os fios variados do enredo e a complexidade de meus pensamentos em torno destas pequenas bobinas vivas que são cada uma das minhas personagens' ".

No parágrafo seguinte de seu texto, Candido fará questão de salientar que "a construção estrutural é a maior responsável pela força e eficácia de um romance", admitindo, porém, que a leitura deste depende "basicamente da aceitação da verdade da personagem por parte do leitor". Se, como escreveu o ensaísta, apenas o amálgama dos três elementos - ideias (isto é, os intuitos, significados e valores que o texto veicula), enredo e personagens - poderá fornecer a estrutura apropriada para um bom livro, é difícil não conceder, porém, que o último componente é preponderante na maneira como nós, fruidores modernos de literatura, assimilamos as narrativas ficcionais nos dias de hoje. Se, de fato, os personagens não podem existir sem uma urdidura textual e uma cosmovisão que os sustenha, é preciso reconhecer (e assim o faz o falecido e saudoso crítico), que os/as personagens são "o elemento mais atuante, mais comunicativo da arte novelística moderna, como se configurou nos séculos XVIII, XIX e começo do XX".

Pois bem. À medida que vamos avançando pelas páginas de Meio sol amarelo, nos damos conta de que seus/suas personagens, tanto os/as centrais quanto os/as secundários(as), constituem, indiscutivelmente, as peças mais importantes do livro. São eles/elas que nos dão, como diria Antonio Candido, a "impressão de vida" do livro.

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O romance de Chimamanda Ngozi Adichie se divide em quatro partes (alternando entre o início dos anos 1960, pré-guerra, e o final desta mesma década, com o confronto em curso), totalizando 37 capítulos. Apesar do registro em 3ª pessoa, a narração privilegia o olhar das situações tal como essas são vivenciadas por:

  • Ugwu, rapaz egresso do interior da Nigéria e que vai trabalhar como serviçal na casa de um professor, na pequena cidade-universitária de Nsukka; 
  • Richard, cidadão britânico, aspirante a jornalista/escritor, fascinado pela arte antiga local; 
  • E, sobretudo, por Olanna, jovem nascida na elite nigeriana, formada em Londres, que decide trabalhar na Universidade de Nsukka, para onde segue, acompanhando seu companheiro, Odenigbo (o professor anteriormente mencionado).

No encerramento de alguns capítulos, paralelamente à história que vai sendo contada, aparece o esquema de um outro livro - O mundo estava calado quando nós morremos (e cuja autoria é revelada perto do final). É neste que se encontra a seguinte observação: "Em 1960, na época de sua Independência, a Nigéria era um conjunto de fragmentos presos por um frágil fecho".

É oportuno lembrar que a ação imperialista/colonialista efetuada pela Europa no continente africano, intensificada a partir da Conferência de Berlim (1884-85), produziu impactos cujas consequências, graves, perduram até hoje na região. Como afirma a professora Leila Leite Hernandez (Universidade de São Paulo) ³,

"A carta geopolítica da África [estabelecida nas últimas décadas do século XIX] estava basicamente pronta, sendo boa parte das fronteiras conservada, no seu conjunto, até os dias atuais. Com isso foram desconsiderados os direitos dos povos africanos e as suas especificidades históricas, religiosas e linguísticas. Em outras palavras, as fronteiras da nova carta geopolítica da África, aprovada na Conferência de Berlim, raramente coincidiram com as da África pré-colonial"

Em razão de demarcações que atendiam exclusivamente às conveniências do expansionismo europeu, povos com grande identidade cultural foram separados, enquanto outros, consideravelmente diferentes uns dos outros, forçados a conviver dentro de um mesmo país recém-inventado. Hernandez acrescenta:

"Assim, confirmados pelos Estados nacionais, os traçados das fronteiras coloniais permanecem, no seu conjunto, até os dias de hoje, por vezes potencializando uma série de conflitos de intensidade variável que, rompendo os limites territoriais de cada país, encontram condições propícias para se regionalizar. É preciso sublinhar que a 'questão étnica' apontada como causa de praticamente todas as 'guerras internas' na África é fruto da manipulação política, em grande parte das vezes, segundo interesses econômicos e políticos de alguns setores das elites africanas associadas às empresas europeias e norte-americanas"

A Nigéria, nação cuja independência deu-se apenas em 1960, experimentou - e experimenta ainda hoje - muitos dos problemas decorrentes desse período de sistemática dominação/exploração por parte dos pretensos países desenvolvidos. Odenigbo, numa passagem de Meio sol amarelo diz: "a grande tragédia do mundo pós-colonial não é não ter dado à maior parte a chance de dizer se queria ou não esse novo mundo; a grande tragédia é que a maioria não recebeu as ferramentas para negociar nesse novo mundo".

Voltemos ao livro de Chimamanda Adichie.

Como defendemos acima, Meio sol amarelo é um livro tão vívido porque apresenta um convincente conjunto de seres fictícios, ou seja, seus personagens. O evento histórico no qual se assenta em nada limita a inventividade da autora. Na nota adicionada ao final da narrativa, Adichie faz questão de registrar que, a despeito de se basear na guerra Nigéria-Biafra, "algumas liberdades foram tomadas, em nome da ficção". O que me remete a outra passagem do texto de Antonio Candido anteriormente citado. Escreve o ensaísta:

"O romancista é incapaz de reproduzir a vida, seja na singularidade dos indivíduos, seja na coletividade dos grupos. Ele começa por isolar o indivíduo no grupo e, depois, a paixão no indivíduo. Na medida em que quiser ser igual à realidade, o romance será um fracasso; a necessidade de selecionar afasta dela e leva o romancista a criar um mundo próprio, acima e além da ilusão de fidelidade".

Ainda que a existência concreta sirva de parâmetro, romancistas, enquanto artistas, não devem forçar seus escritos a coincidirem rigorosamente com o mundo real, se quiserem fazer um bom trabalho. Romances são um objeto estético: importa antes (falando sobretudo dos personagens) produzir uma caracterização que resulte de uma "escolha e distribuição conveniente de traços limitados e expressivos, que se entrosem na composição geral e sugiram a totalidade dum modo-de-ser, duma existência", sublinha Candido.

Na mesma nota final da qual falávamos, a escritora deixa claro que sua intenção é retratar suas "próprias verdades imaginadas e não os fatos da guerra. Ainda que alguns personagens tenham como base uma pessoa real, seus retratos são fictícios, assim como os eventos dos quais fazem parte".

E esses seres e episódios imaginários nos atingem em cheio.

Adichie, nas partes do livro que tratam do período pré-guerra, habilmente faz com que o leitor se torne íntimo dos personagens, para que, nas partes que descrevem os horrores do conflito, vislumbremos suas emoções (e dores e sofrimentos) com uma assombrosa sensação de proximidade. Esse artifício também permite que não percamos de vista uma questão, sempre trazida à tona nas histórias de guerra: como preservar a própria dignidade e manter-se íntegro em cenários de violência, penúria e medo? A esse respeito, há uma frase bem significativa de Kainene, a irmã gêmea de Olanna: "Estamos todos nessa guerra e cabe a nós decidir se vamos nos tornar outra pessoa ou não". A escritora, porém, é atenta para não transformar personagens em reservas de magnanimidade. Em resenha publicada no New York Times no mesmo ano de lançamento de Meio sol amarelo (2006), o professor Rob Nixon (University of Wisconsin - Madison) chamou atenção para "o tom de empatia [exibido pelo livro] que nunca sucumbe aos impulsos simplificadores, heroicos ou demoníacos, da literatura em defesa de uma causa". Ele observa que "mesmo os mais honrados de seus personagens têm falhas humanizadoras". Esse desejo de olhar para o(s) tema(s) sem reducionismos pode ser verificado em muitos momentos.

Num deles, Olanna, que aderiu de corpo e alma à causa biafrense, diz, num dos capítulos finais: " 'Eles venceram, mas nós fizemos isso' [...] e percebeu como era esquisito dizer eles venceram, dar voz a uma derrota na qual não acreditava. Seu sentimento não era o de ter sido derrotada; era o de ter sido enganada". Guerras (e isso é ainda mais patente nos séculos XX e XXI) são conduzidas a partir de decisões tomadas seguindo a orientação de poderosos interesses - políticos e principalmente econômicos - bastante localizados. Além disso, a propaganda circulante em meio ao conflito (inclusive a do lado que julgamos certo) é um recurso que se vale, quase sempre, da mistificação. Nesse aspecto, combatentes e civis (os que sangram, matam e morrem) acabam se tornando, absurdamente, a parte menos importante. Talvez seja disso que Olanna tenha se dado conta.

Noutra passagem, também nas páginas de encerramento, Richard está junto a algumas pessoas pelas quais não tem muita afeição (sendo que a uma delas dedica forte inimizade). Além do mais, a perda de uma pessoa muita querida durante a guerra o abalara muito. É quando se lê: "Não sabia muito bem se queria entrar numa daquelas conversas que quase todo biafrense tratava agora, passando grãos de culpa para os outros e besuntando a própria cara com o valor que nunca tiveram".

Já comentei aqui no blog sobre aquela famosa fala de Chimamanda Ngozi Adichie na primeira das suas TED Talks - "Histórias importam. Muitas histórias importam". Diversos ocorridos, assuntos, lugares e culturas possivelmente não chegariam ao conhecimento de muitos de nós não fossem por obras ficcionais que os têm como temas principais ou ancilares. Portanto, contar essas histórias é fundamental, mesmo que algumas sejam dolorosas às vezes. No 34º capítulo de Meio sol amarelo alguns personagens tentam lidar com a lembrança do que testemunharam e viveram durante a guerra. Olanna, numa ocasião, fugindo de Kano (cidade localizada no Norte do país e um dos primeiros focos do conflito), viajou num trem abarrotado ao lado de uma mulher que carregava a cabeça cortada da filha dentro de uma sacola. Em meio a todo o horror daquilo, contudo, ela reparara no penteado da cabeça. Ugwu, nessa altura da narrativa, prestes a iniciar sua vida adulta, faz anotações nos papéis que consegue encontrar. Atenção para este impressionante trecho:
" ' E como eram as tranças?' , perguntou Ugwu.
De início Olanna se espantou com a pergunta, depois percebeu que lembrava perfeitamente como o cabelo fora trançado, e começou a descrever o estilo do penteado, com algumas trancinhas caindo pela testa. Depois descreveu a cabeça, os olhos abertos, o acinzentado da pele. Ugwu escrevia, enquanto Olanna falava, e o fato de ele escrever, a sinceridade de seu interesse, de repente fez sua história adquirir importância, a fez servir a um propósito maior, que nem mesmo Olanna sabia bem qual era -e então contou tudo o que se lembrava sobre o trem cheio de gente chorando, gritando e urinando"

Há quem diga (e não são poucos, infelizmente) que poemas, contos e romances não passam de exercícios supérfluos, que nada se aprende com a criação literária. Este blogueiro, claro, discorda veementemente. Personagens como Olanna, Odenigbo, Ugwu, Richard, Kainene, Arize e outros ensinaram-me tanto quanto (ou mais do que) a leitura de um texto não-ficcional poderia fazê-lo. É como disse Adichie na TED Talk mencionada acima: "Histórias foram usadas para despojar e difamar, mas histórias também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Histórias podem partir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa dignidade partida".

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¹ ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Meio sol amarelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008 [Tradução de Beth Vieira]

² CANDIDO, Antonio. O personagem do romance. In: ____________.(et al) A personagem de ficção. 9 ed. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 51-80

³ HERNANDEZ, Leila Maria Gonçalves Leite. A África na sala de aula: visita à história contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005



P. S. Meio sol amarelo também foi adaptado para o cinema, num filme lançado em 2013, com Thandie Newton, Chiwetel Ejiofor e John Boyega no elenco. Aqui você pode ver o trailer.



BG de Hoje

Os paranaenses do MACHETE BOMB não escondem sua principal influência: a banda norte-americana Rage Against the Machine. Lançando mão de - como o nome do grupo já indica -  instrumentos e levadas típicas do samba (pra quem não sabe, o cavaquinho também já foi chamado de machete), eles dão uma outra cara ao estilo rap-rock desenvolvido por Tom Morello & Cia. Confira na pulsante faixa Fatcap.