"Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, [...], e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas 'aspiracionais' pelo 'mainstream' "*.sábado, 18 de junho de 2016
Falou e disse...
"Porque é claro que todos nós temos preconceitos (não suporto nem alguns dos meus parentes de sangue, uma gente ávida e egoísta), mas o racismo tem a ver com o poder de um grupo de pessoas e, nos Estados Unidos, são os brancos que têm esse poder. Como? Bem, os brancos não são tratados como merda nos bairros afro-americanos de classe alta, não veem bancos lhes recusarem empréstimos ou hipotecas precisamente por serem brancos, os júris negros não dão penas mais longas para criminosos brancos do que para os negros que cometeram o mesmo crime, os policiais negros não param os brancos apenas por estarem dirigindo um carro, as empresas negras não escolhem não contratar alguém porque seu nome soa como de uma pessoa branca, os professores negros não dizem às crianças brancas que elas não são inteligentes o suficiente para serem médicas, [...], e as agências publicitárias não dizem que não podem usar modelos brancas para anunciar produtos glamorosos porque elas não são consideradas 'aspiracionais' pelo 'mainstream' "*.quinta-feira, 16 de junho de 2016
Sobre a imagem poética: lendo O cortejo, de Henriqueta Lisboa
A professora da Unesp - e também poeta - Susanna Busato, num artigo em que analisa um poema de Frederico Barbosa* (disponível aqui), escreveu:
"Antes de mais nada é preciso dizer que poesia é imagem. Este pressuposto é condição para que deixemos de lado qualquer traço de interpretação que nos leve para o âmbito das referências, para o âmbito do caráter simbólico no sentido da convenção do signo linguístico. Todas as referências que nos levem para um outro universo que não aquele da imagem poética transformam nossa leitura da poesia em falácia, em visão superficial, em percepção automatizada para com a linguagem".
Como se vê, a poesia é indissociável da imagem. Sem esta, ficaríamos presos à "convenção do signo linguístico". Lembrando a afirmação do crítico literário russo Victor Chklovski, segundo a qual o objetivo da imagem poética é "criar uma percepção particular do objeto, criar uma visão e não o seu reconhecimento", Susanna Busato observa que, assim sendo, não se sustenta
"o pensamento de que a imagem tornaria mais próxima de nossa compreensão a significação do objeto. A imagem poética não é um modo de pensar, ou de expressar na linguagem o princípio da economia de energia ao nomear as coisas do mundo, como fazemos cotidianamente com o uso das metáforas simples, já codificadas pelo uso. A imagem poética surge como percepção única, singular das coisas".
Como definir o que é a imagem no texto poético? Não é tarefa simples...
Em 1957, Gaston Bachelard publicou um ensaio bem contrastante em relação a toda sua produção anterior. Conhecido por seus trabalhos dedicados à filosofia das ciências, Bachelard surpreendeu ao lançar A poética do espaço**, em que tenciona estudar, fenomenologicamente, um dos aspectos fundamentais da poesia. Por que fenomenologicamente? Segundo o pensador francês,
NOTA: Para facilitar o entendimento (afinal, trata-se de uma mera postagem de blog), tomaremos o termo fenomenologia como a tentativa de descrever as experiências subjetivas vivenciadas por uma consciência (no caso, a do apreciador do poema) diante de um fenômeno específico (no caso, o texto poético).
"A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber", diz Bachelard, pois "nos poemas se manifestam forças que não passam pelos circuitos de um saber" (Susanna Busato já indicara algo similar, ao considerar que "a imagem poética não é um modo de pensar"): ou seja, a leitura de um poema não passa pela apreensão de conceitos; tudo se dá "na linha sutil da frase, na vida efêmera de uma expressão".
O filósofo acredita que
Impulsos linguísticos que saem da linha ordinária da linguagem pragmática... Eis aí o que poderia ser uma boa definição de imagem poética. Passemos agora, a um poema em particular.
Esse poema é de Henriqueta Lisboa e integra o livro Flor da morte***, publicado pela primeira vez em 1949. Cheia de ecos simbolistas, a obra da poeta mineira "é uma intensa e extensa metáfora. Tudo por ela saber que a metáfora protege o escritor e liberta o leitor para outras indagações", segundo Bartolomeu Campos de Queirós, que foi grande amigo e admirador da autora. "Henriqueta exercia a poesia" - prossegue ele - "por bem saber que na densidade dos versos o fruidor encontra espaço para mais deslocamentos".****
O aparecimento da palavra metáfora, nas observações de Queirós, veio bem a calhar. Frequentemente, imagem e metáfora são empregadas em sentido quase idêntico (o Aurélio, por exemplo, coloca metáfora como uma das acepções possíveis no verbete imagem). Cabe, então, estabelecermos o seguinte: penso não valer a pena embrenharmo-nos pelo cipoal de sutilezas que diferenciam estes dois tropos - isso sem falar em alegorias, símbolos, catacreses, símiles e comparações - nessa nossa reflexão despretensiosa em torno da imagem poética. Nesta postagem, portanto, não nos preocuparemos em distinguir metáfora de imagem. Voltemos ao poema.
Todo o livro Flor da morte concentra-se em um tema nuclear, introduzido desde o título. E penso que, entre os 42 poemas ali compilados, O cortejo contém a maior força imagética ao falar da morte.
Como não ser logo carregado por esses cavalos poderosos, possantes, negros/claros e ágeis - mas, ao mesmo tempo, traiçoeiros, hediondos, lúbricos? Nem bem começamos a visualizar dentro de nós "a noite/com suas tempestades lúridas/e seus cabelos desnastrados" e já os animais imponentes irrompem, imprimindo um traçado novo no território do poema (e também modificando a paisagem mental do leitor) "como a força das águas descendo a montanha".
Nada obstrui ou retarda o caminho deles: "Tudo são planícies abertas" (e faço questão de destacar o fechamento antitético da estrofe: "acariciando as patas que as flagelam"). Vamos nos deter um pouco no seguinte agrupamento de versos:
Numa primeira visada, poderia soar desagradável a quem lê o lugar-comum representado pelas "searas em flor". Mas, logo em seguida, o poema retoma seu valor expressivo. Os versos subsequentes neutralizam o clichê, auxiliados pelo efeito (não muito excepcional, mas bastante eficaz) da anástrofe - "[...] marcou-as/o destino dos pastos". Convém mencionar ainda que seara e pasto ocupam posições distintas num mesmo campo semântico - e a associação da morte com o segundo vocábulo não é imediatamente perceptível. Ponto para a poeta.
A pergunta lançada na última estrofe traz à superfície do texto quem até então não figurava nele: os indivíduos (incluídos aí os leitores) a serem "arrebatados" pelo cortejo da morte, reinstalando-se assim a atmosfera de inquietude presente no poema (e no livro como um todo).
Percebem como a tentativa de falar do texto de Henriqueta Lisboa, de forma analítica e interpretativa, fica muito aquém do que o poema evoca por si só através de suas imagens? Nunca se consegue "transportar", adequadamente, para outra modalidade de escrita o que já foi dito num poema. O que um poema diz não pode ser separado da forma como ele se compõe e se apresenta, incluindo, claro, suas imagens.
Antes de encerrar, gostaria de sugerir ao(a) eventual leitor(a) a palestra intitulada A imagem poética, realizada pelo professor Murilo Marcondes de Moura, durante evento da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP) - disponível aqui. O professor, atualmente trabalhando na USP, teve uma curta passagem pela Faculdade de Letras da UFMG na década de 1990, quando tive a honra e felicidade de ter sido seu aluno. Dada a grande erudição de Murilo Marcondes, a palestra - na qual são discutidos os poetas Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gongora, Guillaume Apollinaire e Murilo Mendes - é muito mais enriquecedora do que as patacoadas deste blogueiro.
Na próxima postagem. falarei sobre um livro marcante na filosofia, no estudo histórico e na sociologia das ciências, A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn
__________
* BUSATO, Susanna. Sob os poros da poesia: um roteiro de leitura. Zunái - Revista de poesia e debate. Disponível em <http://www.revistazunai.com/ensaios/susanna_busato_sobosporos.htm> Acesso em 02/06/2016
** BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1978 [Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal] (Coleção Os pensadores)
*** LISBOA, Henriqueta. Flor da morte. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004
**** O depoimento do escritor Bartolomeu Campos de Queirós pode ser encontrado na apresentação de uma edição da Revista do Tribunal de Contas do Estado (vol. 75, n. 2, ano XXVIII - abril/maio/junho de 2010). Link para o texto de Queiros: http://revista.tce.mg.gov.br/Content/Upload/Materia/886.pdf
Gosto muito desta canção: Vermelho (composta e interpretada por VANESSA DA MATA). Contudo, sempre sinto - por motivos que não vêm ao caso agora - um ponta de tristeza quando a ouço.
Em 1957, Gaston Bachelard publicou um ensaio bem contrastante em relação a toda sua produção anterior. Conhecido por seus trabalhos dedicados à filosofia das ciências, Bachelard surpreendeu ao lançar A poética do espaço**, em que tenciona estudar, fenomenologicamente, um dos aspectos fundamentais da poesia. Por que fenomenologicamente? Segundo o pensador francês,
"Para esclarecer filosoficamente o problema da imagem poética é preciso voltar a uma fenomenologia da imaginação. Esta seria um estudo do fenômeno da imagem poética no momento que ela emerge na consciência como um produto direto do coração, da alma, do ser do homem tomado na sua atualidade".
NOTA: Para facilitar o entendimento (afinal, trata-se de uma mera postagem de blog), tomaremos o termo fenomenologia como a tentativa de descrever as experiências subjetivas vivenciadas por uma consciência (no caso, a do apreciador do poema) diante de um fenômeno específico (no caso, o texto poético).
"A imagem, em sua simplicidade, não precisa de um saber", diz Bachelard, pois "nos poemas se manifestam forças que não passam pelos circuitos de um saber" (Susanna Busato já indicara algo similar, ao considerar que "a imagem poética não é um modo de pensar"): ou seja, a leitura de um poema não passa pela apreensão de conceitos; tudo se dá "na linha sutil da frase, na vida efêmera de uma expressão".
O filósofo acredita que
"A imagem poética é uma emergência da linguagem, está sempre um pouco acima da linguagem significante. Ao viver os poemas, tem-se pois a experiência salutar da emergência. Emergência sem dúvida de pequeno porte. Mas essas emergências se renovam; a poesia põe a linguagem em estado de emergência. A vida se mostra aí por sua vivacidade. Esses impulsos linguísticos que saem da linha ordinária da linguagem pragmática são miniaturas do impulso vital".
Impulsos linguísticos que saem da linha ordinária da linguagem pragmática... Eis aí o que poderia ser uma boa definição de imagem poética. Passemos agora, a um poema em particular.
. . . . . . .
O CORTEJO
Para a passagem do cortejo da morte
é que se fez a noite
com suas tempestades lúridas
e seus cabelos desnastrados.
Os cavalos da morte são negros
poderosos e negros mais que a noite
de relâmpagos e ventos repleta.
Cristalizam-se as águas
para a passagem do cortejo da morte.
Os rios transformam-se em pistas de gelo,
mares e lagos são tablados de musgo e areia.
Os cavalos da morte são possantes,
pesados e claros
como a força das águas descendo a montanha.
Nivelam-se colinas e vales
à passagem do cortejo da morte.
Tudo são planícies abertas.
Deitam-se na relva as árvores
acariciando as patas que as flagelam.
Os cavalos da morte são ágeis
e traiçoeiros como as serpentes do bosque.
Devassam-se as furnas, as cavernas
seus tesouros expõem,
searas em flor, subitamente,
cessam de sonhar: marcou-as
o destino dos pastos
Os cavalos da morte são hediondos
e lúbricos
na sua fome de eternidade.
Os cavalos da morte, quem os nutre,
senão os próprios viajores arrebatados?!
Esse poema é de Henriqueta Lisboa e integra o livro Flor da morte***, publicado pela primeira vez em 1949. Cheia de ecos simbolistas, a obra da poeta mineira "é uma intensa e extensa metáfora. Tudo por ela saber que a metáfora protege o escritor e liberta o leitor para outras indagações", segundo Bartolomeu Campos de Queirós, que foi grande amigo e admirador da autora. "Henriqueta exercia a poesia" - prossegue ele - "por bem saber que na densidade dos versos o fruidor encontra espaço para mais deslocamentos".****
O aparecimento da palavra metáfora, nas observações de Queirós, veio bem a calhar. Frequentemente, imagem e metáfora são empregadas em sentido quase idêntico (o Aurélio, por exemplo, coloca metáfora como uma das acepções possíveis no verbete imagem). Cabe, então, estabelecermos o seguinte: penso não valer a pena embrenharmo-nos pelo cipoal de sutilezas que diferenciam estes dois tropos - isso sem falar em alegorias, símbolos, catacreses, símiles e comparações - nessa nossa reflexão despretensiosa em torno da imagem poética. Nesta postagem, portanto, não nos preocuparemos em distinguir metáfora de imagem. Voltemos ao poema.
Todo o livro Flor da morte concentra-se em um tema nuclear, introduzido desde o título. E penso que, entre os 42 poemas ali compilados, O cortejo contém a maior força imagética ao falar da morte.
Como não ser logo carregado por esses cavalos poderosos, possantes, negros/claros e ágeis - mas, ao mesmo tempo, traiçoeiros, hediondos, lúbricos? Nem bem começamos a visualizar dentro de nós "a noite/com suas tempestades lúridas/e seus cabelos desnastrados" e já os animais imponentes irrompem, imprimindo um traçado novo no território do poema (e também modificando a paisagem mental do leitor) "como a força das águas descendo a montanha".
Nada obstrui ou retarda o caminho deles: "Tudo são planícies abertas" (e faço questão de destacar o fechamento antitético da estrofe: "acariciando as patas que as flagelam"). Vamos nos deter um pouco no seguinte agrupamento de versos:
"Devassam-se as furnas, as cavernas
seus tesouros expõem,
searas em flor, subitamente,
cessam de sonhar: marcou-as
o destino dos pastos".
Numa primeira visada, poderia soar desagradável a quem lê o lugar-comum representado pelas "searas em flor". Mas, logo em seguida, o poema retoma seu valor expressivo. Os versos subsequentes neutralizam o clichê, auxiliados pelo efeito (não muito excepcional, mas bastante eficaz) da anástrofe - "[...] marcou-as/o destino dos pastos". Convém mencionar ainda que seara e pasto ocupam posições distintas num mesmo campo semântico - e a associação da morte com o segundo vocábulo não é imediatamente perceptível. Ponto para a poeta.
A pergunta lançada na última estrofe traz à superfície do texto quem até então não figurava nele: os indivíduos (incluídos aí os leitores) a serem "arrebatados" pelo cortejo da morte, reinstalando-se assim a atmosfera de inquietude presente no poema (e no livro como um todo).
Percebem como a tentativa de falar do texto de Henriqueta Lisboa, de forma analítica e interpretativa, fica muito aquém do que o poema evoca por si só através de suas imagens? Nunca se consegue "transportar", adequadamente, para outra modalidade de escrita o que já foi dito num poema. O que um poema diz não pode ser separado da forma como ele se compõe e se apresenta, incluindo, claro, suas imagens.
Antes de encerrar, gostaria de sugerir ao(a) eventual leitor(a) a palestra intitulada A imagem poética, realizada pelo professor Murilo Marcondes de Moura, durante evento da Sociedade Brasileira de Psicanálise (SP) - disponível aqui. O professor, atualmente trabalhando na USP, teve uma curta passagem pela Faculdade de Letras da UFMG na década de 1990, quando tive a honra e felicidade de ter sido seu aluno. Dada a grande erudição de Murilo Marcondes, a palestra - na qual são discutidos os poetas Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Gongora, Guillaume Apollinaire e Murilo Mendes - é muito mais enriquecedora do que as patacoadas deste blogueiro.
Na próxima postagem. falarei sobre um livro marcante na filosofia, no estudo histórico e na sociologia das ciências, A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn
__________
* BUSATO, Susanna. Sob os poros da poesia: um roteiro de leitura. Zunái - Revista de poesia e debate. Disponível em <http://www.revistazunai.com/ensaios/susanna_busato_sobosporos.htm> Acesso em 02/06/2016
** BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1978 [Tradução de Antônio da Costa Leal e Lídia do Valle Santos Leal] (Coleção Os pensadores)
*** LISBOA, Henriqueta. Flor da morte. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2004
**** O depoimento do escritor Bartolomeu Campos de Queirós pode ser encontrado na apresentação de uma edição da Revista do Tribunal de Contas do Estado (vol. 75, n. 2, ano XXVIII - abril/maio/junho de 2010). Link para o texto de Queiros: http://revista.tce.mg.gov.br/Content/Upload/Materia/886.pdf
BG de Hoje
Gosto muito desta canção: Vermelho (composta e interpretada por VANESSA DA MATA). Contudo, sempre sinto - por motivos que não vêm ao caso agora - um ponta de tristeza quando a ouço.
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Um fracasso de espécie
"Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado"
Carlos Drummond de Andrade, no poema O sobrevivente
Numa das mais conhecidas cenas do filme Matrix*, o agente Smith, próximo à janela de um arranha-céu e tendo sob seu jugo um Morpheus intimidado e fora de combate graças ao efeito de drogas poderosas, divaga: "Já olhou para tudo isso de cima? Maravilhado com sua beleza, sua genialidade? Bilhões de pessoas vivendo suas vidas distraídas". Para o agente Smith, "como espécie os seres humanos definem a realidade através da desgraça e do sofrimento". O vilão não está maravilhado pela beleza e genialidade da atividade humana. Não, o que ele admira é o simulacro (a própria Matrix) criado pela inteligência artificial à qual serve, para iludir nosso "cérebro primitivo" e nos fazer crer que estamos no "ápice da civilização".
Logo mais adiante, prosseguindo seu monólogo noutra cena (e que grande momento do ator Hugo Weaving!), Smith conta-nos sobre a revelação que teve no seu tempo dentro da Matrix:
"Ela me ocorreu quando tentei classificar sua espécie e me dei conta de que vocês não são mamíferos. Todos os mamíferos do planeta, instintivamente, entram em equilíbrio com o meio ambiente. Mas os humanos não. Vocês vão para uma área e se multiplicam e se multiplicam, até que todos os recursos naturais sejam consumidos. A única forma de sobreviverem é indo para uma outra área. Há um outro organismo neste planeta que segue o mesmo padrão. Você sabe qual é? Um vírus. Os seres humanos são uma doença. Um câncer neste planeta. Vocês são uma praga".
E justificando seu trabalho de exterminador, arremata: "E nós somos a cura".
Não é assim, porém, que a humanidade costuma olhar para si própria (a autocrítica, mecanismo tão útil para ajuste e correção, ao que tudo indica não está inserida em nosso código genético). Os seres humanos, encantados (ou iludidos) com sua autoimagem de indivíduos racionais e sensíveis, parecem a todo tempo repetir, como um mantra, a famosa fala de Miranda, em A tempestade, de Shakespeare: "O, wonder!/How many goodly creatures are there here!/How beauteous mankind is! O brave new world, that has such people in't!".
Contudo, definitivamente, não somos criaturas admiráveis, nem maravilhosas.
NOTA: Uma tradução aproximada da citação anterior poderia ser: "Ó, maravilha!/ Quantas criaturas agradáveis há aqui/Quão deslumbrante a humanidade é! Ó admirável mundo novo que tem pessoas tais nele!". É preciso considerar, porém, que a jovem Miranda coloca em sua fala uma boa dose de ironia. De todo modo, seu brado de admiração foi sendo interpretado por alguns, com o passar do tempo, como um elogio aos supostos dons da humanidade.
O historiador britânico Felipe Fernández-Armesto, em seu livro Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade**, faz questão de nos lembrar que, antes de qualquer outra coisa, permanecemos animais: "Ao que parece, nunca deixamos de ser macacos; mas aspiramos a ser anjos". A teoria da evolução por seleção natural, claro, forneceu os últimos fundamentos para a sólida base conceitual-argumentativa que retirou dos humanos, por completo, o status de espécie superior, essencialmente distinta em relação aos outros seres vivos:
Graças à teoria da evolução, "ficamos sabendo, portanto, que o homem descendeu de um quadrúpede peludo, com rabo e orelhas pontudas, provavelmente de hábitos arbóreos"
* Matrix, lançado em 1999, foi escrito e dirigido pelos (então) irmãos Andy e Larry Wachowski (hoje, Lilly e Lana Wachowski, respectivamente, já que se assumiram como mulheres transgênero - Lana, desde 2008, e Lilly, a partir deste ano).
___________
** FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras: 2007 [Tradução de Rosaura Eichemberg]
*** O ótimo filme Criação (sobre o qual ainda escreverei aqui no blog) mostra um pouco desse interesse de Darwin na primata do zoo de Londres
**** BRUM, Eliane. Todo inocente é um fdp?, El País, 29 fev. 2016. Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/29/opinion/1456756118_797834.html> Acesso em 2 mar. 2016
Contudo, definitivamente, não somos criaturas admiráveis, nem maravilhosas.
NOTA: Uma tradução aproximada da citação anterior poderia ser: "Ó, maravilha!/ Quantas criaturas agradáveis há aqui/Quão deslumbrante a humanidade é! Ó admirável mundo novo que tem pessoas tais nele!". É preciso considerar, porém, que a jovem Miranda coloca em sua fala uma boa dose de ironia. De todo modo, seu brado de admiração foi sendo interpretado por alguns, com o passar do tempo, como um elogio aos supostos dons da humanidade.
O historiador britânico Felipe Fernández-Armesto, em seu livro Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade**, faz questão de nos lembrar que, antes de qualquer outra coisa, permanecemos animais: "Ao que parece, nunca deixamos de ser macacos; mas aspiramos a ser anjos". A teoria da evolução por seleção natural, claro, forneceu os últimos fundamentos para a sólida base conceitual-argumentativa que retirou dos humanos, por completo, o status de espécie superior, essencialmente distinta em relação aos outros seres vivos:
"Darwin" - afirma Fernández-Armesto - "evidentemente preferia Jenny [uma fêmea de orangotango que habitava o zoo de Londres]*** a alguns dos humanos que conhecia. Em particular, achou repulsivos os nativos da Terra do Fogo quando os viu pela primeira vez, a bordo do Beagle, em 1832: 'o homem no seu estado mais baixo', eles lhe pareciam, aparentemente 'privados da razão humana ou ao menos das artes resultantes dessa razão'. A visão o convenceu de um pensamento tão terrível que ele nem sequer ousou confiá-lo à obra A origem das espécies: o homem era um animal como os outros animais [esse pensamento, dedução óbvia já a partir da leitura de seu trabalho mais conhecido, só seria explicitamente formulado pelo naturalista inglês, entretanto, em The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex, publicado mais de uma década após A origem das espécies]".
Graças à teoria da evolução, "ficamos sabendo, portanto, que o homem descendeu de um quadrúpede peludo, com rabo e orelhas pontudas, provavelmente de hábitos arbóreos"
Então você pensa que é humano se enfraquece quando o autor, no afã de fazer valer seus pontos de vista, cai em simplificações e generalizações com pouco poder de convencimento. Ainda assim, Felipe Fernández-Armesto chama atenção para diversos aspectos importantes da relação (no mínimo problemática) dos humanos com os outros animais, permitindo ao leitor, inclusive, extrapolar para considerações que contemplem a relação da humanidade com o próprio planeta em que vivemos.
Poderíamos
continuar a explorar indiscriminadamente os recursos naturais como se
apenas o bem-estar dos humanos (e de um grupo bem delimitado de
humanos, bem entendido) importasse? Que direito temos de confinar
animais e nos servir deles como se fossem apenas insumo industrial?
Fazendo
questão de se distinguir das outras espécies desde sempre (para
Descartes, por exemplo, os animais eram apenas máquinas desprovidas
de espírito), os humanos, supostamente detentores de uma natureza ou
essência singularíssima, acabaram transformando a Terra num
ambiente perigoso para milhares de outros seres vivos. E a solução
para o drama colocado está longe de ser simples. Fernandez-Armesto
sugere que:
“Talvez pudéssemos simplesmente parar de nos preocupar com nossa incapacidade de definir a natureza humana, e adotar um altruísmo cósmico – colocando as outras espécies em primeiro lugar. Poderia ser ecologicamente salutar, mas não seria prático: nenhuma sociedade poderia ser tão altruísta e sobreviver”.
. . . . .
. .
O que foi
até agora apresentado na postagem me remete a um artigo da
jornalista e escritora Eliane Brum****, publicado em fevereiro deste
ano na edição online do jornal El País. Com um título em que não há margem para subterfúgios – Todo inocente é um fdp?
-, o artigo (e digo com sinceridade) me fez pensar durante dias e
dias. Até hoje não me recuperei do impacto.
No seu
texto, Eliane Brum também se vale do filme Matrix, mas a cena
destacada é outra: aquela em que o personagem Cypher, diante de um
suculento (e ilusório) bife, combina com o agente Smith como
executará sua traição ao grupo de rebelados.
A articulista argumenta que, por vivermos num período histórico em
que quantidades imensas de informação nos são acessíveis através de uns poucos
cliques, não podemos mais usar a desculpa do “Eu não sabia!”:
“Talvez o mal-estar do nosso tempo seja o de que já não é possível escolher entre a pílula azul e a vermelha [opção que ocorre em Matrix] – ou entre continuar cego ou começar a enxergar o que está por trás da trama dos dias. O mal-estar se deve ao fato de que talvez já não exista a pílula azul – ou já não seja possível a ilusão, esta que desempenhou um papel estrutural na constituição subjetiva da nossa espécie ao longo de milênios”
Se
queremos um filé, não podemos mais desconhecer os meios que o
fizeram chegar, limpinho e embalado a vácuo, às nossas mãos:
“Nossa superpopulação de humanos extrapolou a lógica dos vivos, matar para comer. E impôs a escravização e a tortura cotidiana de outras espécies. Milhões de bois, galinhas e porcos nascem apenas para nos alimentar em campos de concentração aos quais damos nomes mais palatáveis. São sacrificados em holocaustos diários sem que nem mesmo tenham tido uma vida”
Pensar
criticamente sobre isso não é, como assevera Brum, “algo menor
ou coisa de 'adoradores de alface'”, pois alcança até ela
mesma, “que pode ser colocada na categoria de 'adoradores de
churrasco' ”.
Não acaba aí. O ritmo da produção agropecuária atual leva a “desmatamento,
destruição de ecossistemas inteiros e com eles toda a vida que lá
havia [inclusive, agrupamentos
de humanos, como no caso de algumas populações indígenas
brasileiras]”. A roupa e calçados, bem como algumas
bugigangas eletro-eletrônicas que adquirimos nos magazins da vida
têm “o sangue de crianças, homens e mulheres em regime de
trabalho análogo à escravidão”.
“O
tempo das ilusões acabou”, nos diz Eliane Brum. E acrescenta,
um pouco mais adiante:
“Comemos, vestimos, nos entretemos, transportamos e nos transportamos à custa da escravidão, da tortura e do sacrifício de outras espécies e também dos mais frágeis de nossa própria espécie. Somos o que de pior aconteceu ao planeta e a todos que o habitam. A mudança climática já anuncia que não apenas tememos a catástrofe, mas nos tornamos a catástrofe. Desta vez, não só para todos os outros, mas também para nós mesmos”.
Ser
completamente inocente, num cenário desses, é praticamente
impossível. Por isso, muitos adotam o cinismo (“Desde que não
seja eu – ou os meus – os sacrificados, tudo bem”). Tomar
consciência desse cenário é também doloroso para quem se dispõe
a não se omitir pelo menos - “não é fácil viver na pele do
algoz”.
Mas o que fazer agora após o inexorável choque de
realidade?
“Talvez estejamos, como espécie que se pensa, diante de um dos maiores dilemas éticos de nossa história. Sem poder optar pela pílula azul, a das ilusões, condenados à pílula vermelha, o que nos obriga a enxergar, como construir uma escolha que volte a incluir a ética? Como não paralisar diante do espelho, reduzidos ou ao horror ou ao cinismo, eliminando a possibilidade de transformação? Como nos mover?”
Confesso
que não sei nem por onde começar a tentar responder as indagações
deixadas por Eliane Brum. Carnívoro preguiçoso, incapaz de me
mobilizar até para reciclar o lixo de minha própria habitação,
sou um dos bilhões de filhos da puta espalhados por esse planeta
condenado. E sem a desculpa de ser inocente ou a desfaçatez
suficiente para abraçar o cinismo por inteiro.
* Matrix, lançado em 1999, foi escrito e dirigido pelos (então) irmãos Andy e Larry Wachowski (hoje, Lilly e Lana Wachowski, respectivamente, já que se assumiram como mulheres transgênero - Lana, desde 2008, e Lilly, a partir deste ano).
___________
** FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Então você pensa que é humano?: uma breve história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras: 2007 [Tradução de Rosaura Eichemberg]
*** O ótimo filme Criação (sobre o qual ainda escreverei aqui no blog) mostra um pouco desse interesse de Darwin na primata do zoo de Londres
**** BRUM, Eliane. Todo inocente é um fdp?, El País, 29 fev. 2016. Disponível em <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/29/opinion/1456756118_797834.html> Acesso em 2 mar. 2016
BG de Hoje
Percebe-se, nos últimos dez anos pelo menos, uma tendência para retomar a simplicidade dentro da música pop (vejam, por exemplo, o caso do Alabama Shakes). Puxando mais para o blues e o garage rock, tal tendência está também presente no trabalho de Patrick Carney e Dan Auerbach (THE BLACK KEYS). Escolho a bela canção Little black submarines, do álbum El Camino (2011), disco de maior sucesso comercial da banda até agora.
sexta-feira, 20 de maio de 2016
Falou e disse...

"Até algum tempo atrás, o homem que não devia nada a ninguém era um virtuoso exemplo de honestidade e vida laboriosa. Hoje, é um extraterrestre. Quem não deve, não é. Devo, logo existo. Quem não é digno de crédito, não merece nome ou rosto: o cartão de crédito prova o direito à existência. Dívidas: isto é o que tem quem nada tem; e uma patinha presa nessa ratoeira há de ter qualquer pessoa ou país que pertença a este mundo". *
* GALEANO, Eduardo. De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso.
7 ed. Porto Alegre: L & PM, 1999. p. 255 [Tradução de Sérgio Faraco]
7 ed. Porto Alegre: L & PM, 1999. p. 255 [Tradução de Sérgio Faraco]
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Amada, de Toni Morrison: quando o "fato histórico se torna pessoas com nomes"
No
romance Amada* somos imediatamente lançados dentro do mundo da
casa identificada pelo número 124, advertidos de que o lugar “era
rancoroso. Cheio de um veneno de bebê”. É a principal
ambiência onde transcorre a narrativa. Uma de suas habitantes é
Sethe. A certa altura, após a personagem rememorar, com o auxílio
de outra, mais um doloroso episódio ocorrido em sua vida, lemos a
seguinte passagem:
“Balançou a cabeça de um lado para outro, conformada com seu cérebro rebelde. Por que não havia nada que seu cérebro recusasse? Nenhuma miséria, nenhuma tristeza, nenhuma imagem odiosa detestável demais de se aceitar? Igual uma criança gananciosa, seu cérebro agarrava tudo. Uma vez só não poderia dizer: não, obrigada? Detestei e não quero mais, não?”
Páginas
antes, a narradora já observara que, “para Sethe, o futuro era
uma questão de manter o passado à distância”. Pensar no
futuro era uma tarefa dificílima, quase impossível para ela:
“cheia de passado e com fome demais, não havia espaço para
imaginar, quanto menos planejar o dia seguinte”. O leitor,
angustiado, se pergunta então: como é possível prosseguir com
tanto sofrimento acumulado dentro de si (e à sua volta)?
. . . . .
. .
Noutra
oportunidade, escrevi aqui que não se sai das duzentas e poucas
páginas de O olho mais azul [o
primeiro livro de Toni Morrison, discutido naquela ocasião] com
a alma aliviada. O mesmo se pode dizer após as mais de trezentas
e cinquenta que compõem Amada – com um acréscimo ainda
maior de dor (se isso é possível). A escritora não saberia
produzir sua ficção de outra forma. Em longa entrevista concedida
em 1993 a Elissa Shappell, para a Paris Review (disponível na integra aqui), Morrison diz: “It's not possible for me to be unaware
of the incredible violence, the willful ignorance, the hunger for
other people's pain. I'm always conscious of that though I am less
aware of it under certain circumstances – good friends at dinner,
other books”.**
Os
horrores da escravidão na América – um dos temas de Amada,
ainda que a história se passe em 1873, ou seja, 10 anos após a abolição nos
EUA – estão cheios de “incrível violência, ignorância
deliberada e ânsia pela dor de outras pessoas”. A
autora, na preparação do romance, pesquisou relatos e outros
documentos históricos.
“So while I looked at the documents” – diz Toni Morrison na entrevista citada – “and felt familiar with slavery and overwhelmed by it, I wanted it to be truly felt. I wanted to translate the historical into the personal. I spent a long time trying to figure out what it was about slavery that made it so repugnant, so personal, so indifferent, so intimate, and yet so public”.***
Uma
instituição tão cruel (e de tão longa duração) como foi a
escravidão colonial e pós-colonial não pode ser facilmente
assimilada, sequer superada sem mais nem menos. Os envolvidos nela
(tanto as vítimas quanto os algozes) fizeram daquilo algo complexo - ao
mesmo tempo “tão repugnante, tão pessoal, tão indiferente,
tão íntimo e ainda assim, tão público”. Explicá-la, tentar
entendê-la, não é tarefa simples. Toni Morrison desejava, por meio
de seu livro, que o horror da escravidão fosse “verdadeiramente
sentido” pelo leitor. Ela quis “traduzir o histórico para
o pessoal”.
Na mesma
passagem, aludida no começo da postagem, em que Sethe relembra um
dos momentos dolorosos de sua vida, outro personagem, Paul D,
menciona um instrumento de castigo/tortura com o qual fora punido uma
vez – o freio. Sobre isso, a autora diz:
“I make other references to the desire of spit, to sucking iron, and so on; but it seemed to me that describing what it looked like would distract the reader from what I wanted him or her to experience, wich was what it felt like. The kind of information you can find between the lines of history. It's sort of falls off the page, or it's a glance and a reference. It's right there in the intersection where an institution becomes personal, where the historical becomes people with names”. ****
"O histórico se torna pessoas com nomes": eis aí, na minha opinião, o grande valor de Amada. A monstruosidade escravagista é apresentada ao leitor sem o distanciamento analítico presente nos estudos históricos. No livro, como não podia deixar de ser, o que predomina são os expedientes próprios da Literatura: a interioridade psicológica dos personagens, a seleção e escolha calculada das cenas a serem descritas, as alterações no foco narrativo, o cuidado no arranjo das palavras, garantindo ao livro a perspectiva humanizadora característica das grandes obras de ficção.
Há ainda outro ponto.
A presença fantasmagórica na narrativa levou algumas pessoas a arrolar esse trabalho de Toni Morrison na categoria dos romances realistas-fantásticos. Creio que isso não é muito acertado. No prefácio - em que a autora, além de explicar as motivações e reflexões anteriores à sua composição, "entrega", sem qualquer cerimônia, que o infanticídio é o ápice dramático do livro - Morrison conta que
O fantasma presente na obra é, sem dúvida, elemento estruturante desta; parece-me, contudo, ter sido incluído mais como o "fiador" (no caso, a fiadora) que permitirá a escritora não ser atrapalhada por determinadas convenções da escrita de romances realistas. Sua tentativa foi arriscadísima, devo dizer; entretanto, o resultado comprovou seu acerto (o prêmio Pulitzer obtido com a publicação não me deixa mentir).
Antes de terminar, acho oportuno discutir brevemente uma "acusação" frequentemente dirigida a Toni Morrison: a de que ela é uma escritora limitada. Ano passado, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian (disponível aqui), ela deu uma resposta excelente a esse respeito:
Não, Toni Morrison, de fato, você não tem que se desculpar por seus livros. Nós, leitores, é que devemos agradecer por eles, apesar da dor que nos provocam.
Há ainda outro ponto.
A presença fantasmagórica na narrativa levou algumas pessoas a arrolar esse trabalho de Toni Morrison na categoria dos romances realistas-fantásticos. Creio que isso não é muito acertado. No prefácio - em que a autora, além de explicar as motivações e reflexões anteriores à sua composição, "entrega", sem qualquer cerimônia, que o infanticídio é o ápice dramático do livro - Morrison conta que
"Na tentativa de tornar a experiência do escravo íntima, eu esperava que a sensação de as coisas estarem ao mesmo tempo controladas e fora de controle fosse convincente de início ao fim; que a ordem e quietude da vida cotidiana fosse violentamente dilacerada pelo caos dos mortos carentes; que o esforço hercúleo de esquecer fosse ameaçado pela lembrança desesperada para continuar viva. Para mostrar a escravatura como uma experiência pessoal, a língua não podia atrapalhar".
O fantasma presente na obra é, sem dúvida, elemento estruturante desta; parece-me, contudo, ter sido incluído mais como o "fiador" (no caso, a fiadora) que permitirá a escritora não ser atrapalhada por determinadas convenções da escrita de romances realistas. Sua tentativa foi arriscadísima, devo dizer; entretanto, o resultado comprovou seu acerto (o prêmio Pulitzer obtido com a publicação não me deixa mentir).
. . . . . . .
Antes de terminar, acho oportuno discutir brevemente uma "acusação" frequentemente dirigida a Toni Morrison: a de que ela é uma escritora limitada. Ano passado, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian (disponível aqui), ela deu uma resposta excelente a esse respeito:
"I'm writing for black people in the same way that Tolstoy was not writing for me, a 14-year-old coloured girl from Lorain, Ohio. I don't have to apologise or consider myself limited because I don't [write about white people] - which is not absolutely true, there are lots of white people in my books. The point is not having the white critic sit on your shoulder and approve it" *****
Não, Toni Morrison, de fato, você não tem que se desculpar por seus livros. Nós, leitores, é que devemos agradecer por eles, apesar da dor que nos provocam.
______________________
* MORRISON, Toni. Amada. São Paulo: Companhia das Letras, 2007 [Tradução de José Rubens Siqueira]
** [tradução aproximada] “Não me é possível ficar indiferente à incrível violência, à ignorância deliberada, à ânsia pela dor dos outros. Estou sempre consciente disso, embora esteja menos sob certas circunstâncias – bons amigos para o jantar, outros livros”.
** [tradução aproximada] “Não me é possível ficar indiferente à incrível violência, à ignorância deliberada, à ânsia pela dor dos outros. Estou sempre consciente disso, embora esteja menos sob certas circunstâncias – bons amigos para o jantar, outros livros”.
***
[tradução aproximada] “Então, enquanto eu olhava os documentos e
me sentia familiarizada com a escravidão e sobrecarregada por ela, eu queria
que ela fosse verdadeiramente sentida. Eu queria traduzir o histórico
para o pessoal. Eu passei um longo tempo tentando descobrir o que
havia na escravidão que a fazia tão repugnante, tão pessoal, tão
indiferente, tão íntima e, ainda assim, tão pública”.
****
[tradução aproximada] “Eu faço outras referências ao desejo de
cuspir, ao chupar ferro, e por aí vai: mas pareceu-me que descrever
como aquilo se parecia distrairia o leitor do que eu queria que ele
ou ela experimentasse, que era como senti-lo. O tipo de informação
que você pode encontrar nas entrelinhas da história. Meio que cai fora da página, ou é [apenas] uma olhadela e uma nota [de rodapé]. Está bem
ali na interseção em que a instituição torna-se pessoal, em que o[ fato] histórico se torna pessoas com nomes”.
***** [tradução aproximada] "Estou escrevendo para pessoas negras do mesmo modo que Tolstói não estava escrevendo para mim, uma garota de cor de 14 anos de Lorain, Ohio. Eu não tenho que me desculpar ou me considerar limitada porque não [escrevo sobre pessoas brancas] - o que não é absolutamente verdade, há muitas pessoas brancas em meus livros. O negócio é não ter um crítico branco sentado no seu ombro e aprovar isso".
BG de Hoje
Um grande clássico do blues: Born Under A Bad Sign, interpretado por ALBERT KING. Na apresentação abaixo, King está em companhia do inigualável STEVIE RAY VAUGHAN, um dos meus guitarristas preferidos. P. S. Essa canção já foi cantada por ninguém menos que Homer Simpson (na verdade, claro, o ator que lhe dá voz, Dan Castellaneta) no disco The Simpsons Sing The Blues, com direito a B. B. King na gravação (já tive esse álbum em vinil e CD; infelizmente, não tenho a menor ideia de onde estejam hoje).
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Afinal, o que é transcendental?: uma leitura de Kant
Dia desses estava cantarolando Trilhos urbanos, de Caetano Veloso. Num dos últimos versos aparece o título do disco em que a canção está contida, lançado em 1979, um dos melhores na carreira do artista baiano:
trilhos urbanos Gal
cantando o balancê
como eu sei lembrar de você"
Por que Cinema transcendental? A referência ao cinema não nos parece fora de lugar; o compositor ligou-se ao universo fílmico noutros trabalhos. Já se disse muitas vezes, aliás, que a própria poética de Caetano Veloso recorre frequentemente à técnica da montagem cinematográfica (a canção da qual estamos falando é um bom exemplo). E o que se pode dizer a respeito do transcendental?
Bem, não posso afirmar peremptoriamente que o artista empregou o adjetivo no rigoroso sentido circunscrito por Immanuel Kant há mais de dois séculos. Desconfio, contudo, que o hábil letrista fez uma breve alusão, intencional, nessa direção. É uma bizantinice, admito, mas acho que vale a pena escrever sobre o assunto (quando menos, para evitar ambiguidades e equívocos terminológicos no trato com o pensamento do filósofo alemão).
Na Crítica da razão pura*, ele escreveu:
Farei agora um esboço (apenas um esboço, enfatizo) bem simplificado de alguns aspectos do pensamento de Kant para que possamos compreender melhor essa definição.
Antes, porém, é justo perguntar: pra que se deter na epistemologia de Kant? Não vale mais a pena procurar saber o que dizem os pensadores e cientistas contemporâneos?
Para responder a isso, recorro ao pesquisador brasileiro Daniel Omar Perez que, numa entrevista** anos atrás, disse magistralmente:
O conhecimento transcendental, segundo Immanuel Kant, é um conhecimento apriorístico: "portanto" - escreve ele - "conhecimentos a priori entenderemos não os que ocorrem de modo independente desta ou daquela experiência, mas absolutamente independente de toda a experiência". Esses conhecimentos fazem parte do kit básico racional dos indivíduos e - importante - "nada de empírico está mesclado" a eles. O que os torna tão especiais? "Necessidade e universalidade rigorosa são, portanto, seguras características de um conhecimento a priori e também pertencem inseparavelmente uma a outra", diz o filósofo.
O que Kant buscava, por meio da filosofia transcendental, era "a ideia de uma ciência para a qual a Crítica da razão pura deverá projetar o plano completo, arquitetonicamente, isto é, a partir de princípios, com plena garantia da completude e segurança de todas as partes que perfazem este edifício".
A imagem arquitetônica reaparece em outros pontos da obra de Kant. Movido pelo mesmo anseio encontrado lá em Platão e Aristóteles, mas que também acometeu Descartes, Locke e Hume (para ficar só nestes) - qual seja, estabelecer as bases do conhecimento racional -, o filósofo alemão tencionou fixar em seu principal livro os fundamentos do edifício chamado Razão, algo imprescindível antes de se fazer qualquer outra tentativa de conhecer os objetos espalhados pelo mundo. Daí dizer-se razão pura, ou seja, não "contaminada" com as contingências da experiência. É um plano ambicioso? Of course it is! Apesar de simular modéstia, Kant sabia bem qual o alcance da tarefa que ele mesmo colocou diante de si:
João de Fernandes Teixeira, um dos melhores colunistas da revista Filosofia Ciência e Vida, observou*** que
__________
"Denomino transcendental todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com objetos, mas com nosso modo de conhecimento de objetos na medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema de tais conceitos denominar-se-ia filosofia transcendental".
Farei agora um esboço (apenas um esboço, enfatizo) bem simplificado de alguns aspectos do pensamento de Kant para que possamos compreender melhor essa definição.
Antes, porém, é justo perguntar: pra que se deter na epistemologia de Kant? Não vale mais a pena procurar saber o que dizem os pensadores e cientistas contemporâneos?
Para responder a isso, recorro ao pesquisador brasileiro Daniel Omar Perez que, numa entrevista** anos atrás, disse magistralmente:
"O exercício da Filosofia é um exercício sistemático, mas não porque oferece sistemas como edifícios, mas porque se pergunta sistematicamente, porque leva o pensamento até seu próprio limite. Alguns saberes pensam os fenômenos, as coisas, os fatos. A Filosofia deve poder pensar o próprio pensamento que pensa esses fenômenos, coisas ou fatos. Kant é um filósofo porque nos obriga a nos interrogarmos radicalmente até onde o pensamento pode ser pensado. Contra uma determinada tradição filosófica, Kant mostra que o pensamento tem os limites da própria finitude a partir da qual se produz. Por isso, podemos dizer que todos os problemas que podemos formular são problemas que demandam resolução. Porém, a resolução desses problemas, nos limites daquilo que pode ser pensado, depende das condições de possibilidade de sua formulação. Essa é a pergunta sistemática que Kant encontra: a pergunta pelas condições de possibilidade".
. . . . . . .
O conhecimento transcendental, segundo Immanuel Kant, é um conhecimento apriorístico: "portanto" - escreve ele - "conhecimentos a priori entenderemos não os que ocorrem de modo independente desta ou daquela experiência, mas absolutamente independente de toda a experiência". Esses conhecimentos fazem parte do kit básico racional dos indivíduos e - importante - "nada de empírico está mesclado" a eles. O que os torna tão especiais? "Necessidade e universalidade rigorosa são, portanto, seguras características de um conhecimento a priori e também pertencem inseparavelmente uma a outra", diz o filósofo.
O que Kant buscava, por meio da filosofia transcendental, era "a ideia de uma ciência para a qual a Crítica da razão pura deverá projetar o plano completo, arquitetonicamente, isto é, a partir de princípios, com plena garantia da completude e segurança de todas as partes que perfazem este edifício".
A imagem arquitetônica reaparece em outros pontos da obra de Kant. Movido pelo mesmo anseio encontrado lá em Platão e Aristóteles, mas que também acometeu Descartes, Locke e Hume (para ficar só nestes) - qual seja, estabelecer as bases do conhecimento racional -, o filósofo alemão tencionou fixar em seu principal livro os fundamentos do edifício chamado Razão, algo imprescindível antes de se fazer qualquer outra tentativa de conhecer os objetos espalhados pelo mundo. Daí dizer-se razão pura, ou seja, não "contaminada" com as contingências da experiência. É um plano ambicioso? Of course it is! Apesar de simular modéstia, Kant sabia bem qual o alcance da tarefa que ele mesmo colocou diante de si:
"Não podemos denominá-la propriamente doutrina, mas somente crítica transcendental, pois tem como propósito não a ampliação dos próprios conhecimentos, mas apenas sua retificação, devendo fornecer a pedra de toque que decide sobre o valor ou desvalor de todos os conhecimentos a priori".
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João de Fernandes Teixeira, um dos melhores colunistas da revista Filosofia Ciência e Vida, observou*** que
"Muito antes de a Psicologia existir como disciplina, Kant alertava para os perigos de se fazer uma ciência da mente. Já no século XVIII, ele indagava: como a mente poderia conhecer-se a si mesma e se seria possível conhecer sua natureza última, isto é, se a mente que podemos conhecer não seria diferente daquilo que ela de fato é. Para conhecermos a natureza da mente seria preciso ter um conhecimento transcendente; uma cadeira cósmica privilegiada da qual pudéssemos apreciar se a experiência subjetiva pode ser reduzida ao cérebro ou à Neurofisiologia, ou, inclusive, até que ponto elas se conectam. Nossa própria mente não nos dá esse ponto de vista privilegiado e, por isso, a resolução do problema mente-cérebro é cognitivamente inacessível".
Segundo
Kant, nunca chegaremos à essência da realidade. Isso não é
possível já que contamos apenas com os elementos a priori de
nossa sensibilidade, o espaço e o tempo (“as
formas da intuição sensível”, como diria o pensador alemão),
combinados com as formas do entendimento (as “categorias da
inteligência”) de que a razão humana dispõe. A coisa em
si (o noumenon – ou númeno – kantiano) é inacessível
a nós, em última instância. Os seres humanos só poderiam conhecer
os objetos do mundo enquanto fenômenos, isto é, tais como
são percebidos, melhor dizendo, como aparecem à nossa
estrutura cognitiva em dadas condições. No excerto reproduzido logo
acima, Teixeira reconhece que Kant, a despeito do estágio em que se
encontrava a ciência de seu tempo, tinha consciência que o
conhecimento possível aos humanos tem limites. A propósito, no
trecho citado, o autor usa o adjetivo transcendente (e não
transcendental, alguém reparou?). É porque o qualificativo ali foi
usado nas acepções mais comuns da palavra (“algo que está/vai
além da realidade ordinária”, o que leva algumas pessoas a associar o termo com o divino ou
quase divino). O par transcendental - transcendente
enseja certa confusão. É conveniente fazer algumas observações a
respeito.
Kant usou
os dois adjetivos na Crítica da razão pura. Porém, enquanto
transcendental, como vimos, refere-se àquilo que antecede a
experiência (uma condição de possibilidade para o conhecimento), o
transcendente é aquilo que está além das experiências
possíveis (opõe-se a imanente, que, segundo o filósofo, é
o princípio “cuja aplicação se mantém completamente nos
limites de uma experiência possível”). Mas deixarei isso de
lado agora, pois, para o objetivo dessa postagem, interessa-nos mesmo
é nos distanciarmos do uso popular desses termos. Frequentemente,
transcendental (e sobretudo) transcendente são empregados no discurso religioso (particularmente no Budismo, Hinduísmo e Espiritismo). Sempre é bom
reforçar, entretanto, que Kant não os emprega desse modo em seu
livro mais destacado, obviamente.
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Crítica
da razão pura apresenta uma estética transcendental,
seguida de uma analítica transcendental e é encerrada por
uma dialética transcendental (as duas últimas formam a
lógica transcendental). Todas são partes de uma
“propedêutica ao
sistema da razão”, de acordo com as palavras do próprio Kant.
Juntas comporiam um ferramental bem útil para o saber, para o exercício do
pensar.
Voltemos
a Caetano Veloso. A humanidade, ao longo do tempo, vem acrescentando
novos recursos e dispositivos culturais que auxiliam as tarefas do
pensamento. Inimaginável na época de Immanuel Kant, o Cinema poderia ser um
desses instrumentos? Como disse antes, desconfio (apenas desconfio)
que o compositor baiano usou o adjetivo transcendental
intencionalmente, como a aventar a possibilidade da inclusão do Cinema numa nova e
pós-moderna “propedêutica
ao sistema da razão”.
Ou não.
Talvez o
poeta/letrista só estivesse procurando uma palavra satisfatória
para rimar com Gal. Vai saber...
* KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Nova Cultural, 1999 [Tradução de Valerio Rohden e Udo Baldur Moosburger]
** A entrevista completa com Daniel Omar Perez pode ser encontrada no número 71 (junho de 2012) da revista Filosofia Ciência e Vida (Editora Escala Educacional)
*** TEIXEIRA, João de Fernandes. Kant, esse filósofo da mente. Filosofia Ciência e Vida, São Paulo, ano IV, n. 45, 2010, p. 52-53
** A entrevista completa com Daniel Omar Perez pode ser encontrada no número 71 (junho de 2012) da revista Filosofia Ciência e Vida (Editora Escala Educacional)
BG de Hoje
Há
muitas bandas de rock bem pretensiosas por aí. O MUSE é uma delas.
Difícil de agradar na primeira vez em que se ouve, o grupo é odiado
pela galera old school (consideram-no cheio de afetação).
Mas já me acostumei. O som dos caras tem um jeitão meio Queen, meio
Radiohead (fora que eles mantêm às vezes uma atitude auto-irônica
bem bacana). A faixa United States of Eurasia (do disco The
Resistence, 2009), com sua letra pacifista/humanitária, caiu
no gosto dos fãs da banda, também por causa de seu arranjo
orquestral. P. S. Pra falar a verdade, não gosto muito desses
arranjos. Sempre me soam pomposos, um tanto inautênticos. Além do
mais, fico com a impressão que os musicistas de orquestra odeiam ter
que tocar com popstars (é como se fosse um rebaixamento da arte
deles, sei lá).
terça-feira, 3 de maio de 2016
Falou e disse...
"A desgraça é variada. O infortúnio da terra é multiforme. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris, suas cores são como as deste, variadas, distintas e, contudo, intimamente misturadas. Arqueando-se sobre o vasto horizonte como o arco-íris! Como de um exemplo de beleza, derivei eu uma imagem de desencanto? Da aliança de paz, uma semelhança de tristeza? É que, assim como na ética o mal é uma consequência do bem, da mesma forma, na realidade, da alegria nasce a tristeza. Ou a lembrança da felicidade passada é a angústia de hoje, ou as amarguras que existem agora têm sua origem nas alegrias que podiam ter existido".
POE, Edgar Alan. Berenice. In: __________. Contos de terror, de mistério e de morte. 7 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 13. [Tradução de Oscar Mendes]
POE, Edgar Alan. Berenice. In: __________. Contos de terror, de mistério e de morte. 7 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 13. [Tradução de Oscar Mendes]
quinta-feira, 28 de abril de 2016
"Alma de bandido tímido" (II)
Em 1955, o crítico literário Eugênio Gomes assim se expressou a respeito do escritor Lima Barreto*: "Seus extravasamentos de ressentido não obedeciam a nenhuma conveniência, certamente por efeito de uma neurose exacerbada após a alucinação de seu pai e, mais tarde, pela dipsomania, tão responsável por seus desregramentos de vida". E a coisa fica pior:
"O fato é que Lima Barreto atraiu para si o inconsciente coletivo da gente de cor, em sua época, quando, entretanto, muitos outros mestiços de talento ocupavam posições de relevo na sociedade, nas letras e na alta política do país. De outro modo não se compreende que tivesse dado tão exageradas proporções a uma luta de competições que, embora cruel e inumana a certos aspectos, só podia abater os fracos e inaptos".
A antipatia (diria até a animosidade) do crítico para com o autor de O homem que sabia javanês é patente. Mas não é aí que está o problema de sua análise (afinal, a crítica literária profissional não é feita - ou pelo menos não deveria ser feita - apenas com os livros e autores ou autoras dos quais se gosta). A posição de Eugênio Gomes é baseada, primeiro, num psicologismo um tanto capenga. E, na sequência, o crítico demonstra total desconhecimento dos mecanismos de "filtragem" social (leia-se exclusão) operantes na sociedade brasileira, impedindo a ascensão de determinados grupos sociais (como a população negra) a muitos postos e "posições de relevo", mesmo em se tratando de "mestiços de talento".
Por outro lado, só para efeito de comparação, vejamos como Eugênio Gomes se refere a outro escritor - Coelho Neto - na mesma ocasião:
"Dotado de extraordinária imaginação e de grande força criadora, naturalmente eloquente e podendo servir-se, ao correr da pena, de um inexcedível vocabulário (calculado mais ou menos em vinte mil palavras), Coelho Neto pode ser considerado, no domínio da prosa, um escritor dos mais completos, devendo seus romances e crônicas, contos e críticas, e mesmo suas peças de teatro, ser colocadas entre os melhores dos nossos melhores autores".
Agora em 2016, percebemos o quanto tal posicionamento é revelador da falta de visão do crítico, pois ainda lemos Lima Barreto (os que são leitores de verdade, naturalmente) em nossos dias, cientes de sua importância. Alguém aí, entretanto, saberia mencionar ao menos o título de um livro qualquer de Coelho Neto (não vale olhar no Google, hein)?
Eugênio Gomes assemelha-se um pouco ao Floc, personagem de Recordações do escritor Isaías Caminha**. Segundo o narrador, a crítica de Floc "não obedecia a nenhum sistema, não seguia escola alguma. As suas regras estéticas eram as suas relações com o autor, as recomendações recebidas, os títulos universitários, o nascimento e a condição social" (não custa lembrar que o escritor tão incensado por Eugênio Gomes - embasbacado com o vocabulário de "mais ou menos vinte mil palavras" de Coelho Neto - foi deputado federal e presidiu a Academia Brasileira de Letras).
Lima Barreto não gostava de Coelho Neto. Tanto que o satirizou implacavelmente em seu romance de estreia, na figura de Veiga Filho, um sujeito que teve a desfaçatez de escrever um texto elogioso à própria obra para ser publicado no jornal como se o enaltecimento partisse de outrem. Claro que este não foi o caso do panegírico feito por Eugênio Gomes a Coelho Neto, mencionado acima. Ainda assim, observamos nele o exemplo significativo de um modelo de crítica literária que se distancia dos estudos de caráter universitário/acadêmico, sustentados por um substrato teórico, forma atual assumida pela crítica literária mais rigorosa. Importante dizer que esses estudos (de circulação não muito ampla, reduzida ao intramuros das universidades) coexistem com a crítica puramente subjetivista, bem mais difundida entre o público em geral, cuja permanência pode ser atestada facilmente no jornalismo ou em centenas de milhares de páginas espalhadas na web***.
. . . . .
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Costumo
considerar Lima Barreto um de meus heróis. Entretanto, não se deve esquecer que ele foi, antes de mais nada, um ser humano falho, contraditório muitas vezes. Noutras ocasiões, revelando algo de si nada admirável.
A tese de
doutorado Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto**** apesar de reconhecer os méritos do escritor, buscou
não mitificá-lo. O pesquisador Denilson Botelho não omitiu
a dualidade vivida pelo artista. O indivíduo que “jamais
renegará as suas origens”, morador do subúrbio e funcionário
público de salário parco, é também aquele que, ao insistir e lutar por sua participação nos meios mais intelectualizados,
“chegará mesmo a expressar desprezo e ódio pela gente simples com a qual convive. Embora seja ao lado dela que sempre colocará a sua literatura militante, admite não suportar a convivência com boa parte dessa camada mais pobre da população. Age, desta forma, como um intelectual que pensa num projeto para as classes populares, das quais não faz parte”.
Para
corroborar o que diz, o pesquisador reproduz em sua tese trechos do Diário
íntimo***** do escritor (só publicado em 1953, 21 anos após a
morte deste). A certa altura, Lima Barreto anota:
“Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, artística, por assim dizer, em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não têm por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente”
A confissão é dura, indigna, mas também dolorosa (nesse caso) para quem a faz. Logo adiante, o escritor dá-se conta da gravidade da declaração e registra :
"Se essas notas forem algum dia lidas, o que eu não espero, há de ser difícil explicar esse sentimento doloroso que eu tenho de minha casa, do desacordo profundo entre mim e ela; é de tal forma nuançoso a razão de ser disso que para bem ser compreendido exigiria uma autobiografia, que nunca farei. Há cousas que, sentidas em nós, não podemos dizer. A minha melancolia, a mobilidade do meu espírito, o ceticismo que me corrói [...] nasceu da minha adolescência feita neste sentimento da minha vergonha doméstica, que também deu nascimento a minha única grande falta [...] Aqui bem alto declaro que, se a morte me surpreender, não permitindo que as inutilize [refere-se às notas do diário], peço a quem se servir delas que se sirva com o máximo cuidado e discrição, porque mesmo no túmulo eu poderia ter vergonha".
Apesar da sua "grande falta" (indicadora de seu lado preconceituoso), o autor ao menos tem consciência do quanto ela é vergonhosa. Por isso, prefiro pensar como o professor Antônio Arnoni Prado:
Deixei de responder a uma pergunta na postagem anterior. Lima Barreto disse, numa crônica, possuir a "alma de bandido tímido". Eu lembrei que os bandidos, além de ousados, são geralmente violentos. Mas e quando se trata de um “bandido tímido”? (essa era a pergunta não respondida).
Pois bem. Vamos dar uma olhada num excerto de Recordações do escrivão Isaías Caminha:
Esse impulso violento do narrador-personagem surpreende o leitor, acostumado à maneiras educadas do pacato Isaías Caminha e este logo trata de retornar tudo ao estado anterior: "Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem nome. Fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente".
Porém, um esbarrão recebido dentro do bonde - "episódio insignificante", como ele mesmo reconhece - reacende em seu espírito o "desejo feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir de joguete, de irrisão, a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres. O nome não me veio à memória, mas foi isso que eu desejei chegar a ser um dia".
Sabemos que Isaías Caminha é o disfarce do autor Lima Barreto. As ações diretas - em que muitas vezes se necessita ser violento - não são de seu feitio, embora, mais ao final do romance, depois de "deitar por terra" um colega de profissão que o insultara de modo racista, ele tenha escrito (acertadamente, a meu ver): "no mundo é preciso o emprego da violência, do murro, do soco, para impedir que os maus e os covardes não nos esmaguem de todo".
Lima Barreto, um escritor politizado, próximo do anarquismo e do socialismo, enxergava com nitidez "as cordas, roldanas e contrapesos da sociedade" que esmagavam os mais pobres. Não sejamos ingênuos: não é possível mudar esse estado de coisas somente esperando a boa vontade "desses poderosos todos por aí"; a ação revolucionária - portanto, a ação violenta - é a alternativa restante (e legítima) àqueles historicamente alijados do poder e do conforto material (este último, aliás, quase sempre decorrente da exploração econômica).
Contudo, Lima Barreto tinha a "alma de bandido tímido". Não recorreria à força física para tentar mudar a estrutura social brasileira, cheia de desigualdade e exclusão (mesmo sabedor de que uma revolução de fato deve trazer consigo, inerentemente, o seu quinhão de violência). A contribuição que imaginou acrescentar na luta contra a opressão se realizou na escrita, tentando tirar o leitor da passividade e da resignação, levando-o a pensar e problematizar suas condições de vida.
E isso não é pouco.
"Ler os livros de Lima Barreto é de alguma forma participar do drama do intelectual sitiado. Mais talvez do que isso, é um exercício de consciência histórica que conta com a vantagem, como poucas vezes noutro escritor brasileiro, de um difícil testemunho: constatar como a vida, e nesta a opressão e o fracasso, se converte em literatura".
. . . . . . .
Deixei de responder a uma pergunta na postagem anterior. Lima Barreto disse, numa crônica, possuir a "alma de bandido tímido". Eu lembrei que os bandidos, além de ousados, são geralmente violentos. Mas e quando se trata de um “bandido tímido”? (essa era a pergunta não respondida).
Pois bem. Vamos dar uma olhada num excerto de Recordações do escrivão Isaías Caminha:
"Imbecis! pensei eu. Idiotas que vão pela vida sem examinar, vivendo quase por obrigação, acorrentados às suas misérias como galerianos à calceta! Gente miserável que dá sanção aos deputados, que os respeita e prestigia! Por que não lhes examinam as ações, o que fazem e para que servem? Se o fizessem... Ah! se o fizessem! Que surpresa! Riem-se, enquanto do suor, da resignação de vocês, das privações de todos tiram ócios de nababo e uma vida de sultão... Veio-me um assomo de ódio, de raiva má, assassina e destruidora; um baixo desejo de matar, de matar muita gente, para ter assim o critério da minha existência de fato".
Esse impulso violento do narrador-personagem surpreende o leitor, acostumado à maneiras educadas do pacato Isaías Caminha e este logo trata de retornar tudo ao estado anterior: "Depois dessa violenta sensação na minha natureza, invadiu-me uma grande covardia e um pavor sem nome. Fiquei amedrontado em face das cordas, das roldanas, dos contrapesos da sociedade; senti-os insuperáveis e destinados a esmagar-me, reduzir-me ao mínimo, a achatar-me completamente".
Porém, um esbarrão recebido dentro do bonde - "episódio insignificante", como ele mesmo reconhece - reacende em seu espírito o "desejo feroz de reivindicação. Senti-me humilhado, esmagado, enfraquecido por uma vida de estudo, servir de joguete, de irrisão, a esses poderosos todos por aí. Hoje que sou um tanto letrado sei que Stendhal dissera que são esses momentos que fazem os Robespierres. O nome não me veio à memória, mas foi isso que eu desejei chegar a ser um dia".
Sabemos que Isaías Caminha é o disfarce do autor Lima Barreto. As ações diretas - em que muitas vezes se necessita ser violento - não são de seu feitio, embora, mais ao final do romance, depois de "deitar por terra" um colega de profissão que o insultara de modo racista, ele tenha escrito (acertadamente, a meu ver): "no mundo é preciso o emprego da violência, do murro, do soco, para impedir que os maus e os covardes não nos esmaguem de todo".
Lima Barreto, um escritor politizado, próximo do anarquismo e do socialismo, enxergava com nitidez "as cordas, roldanas e contrapesos da sociedade" que esmagavam os mais pobres. Não sejamos ingênuos: não é possível mudar esse estado de coisas somente esperando a boa vontade "desses poderosos todos por aí"; a ação revolucionária - portanto, a ação violenta - é a alternativa restante (e legítima) àqueles historicamente alijados do poder e do conforto material (este último, aliás, quase sempre decorrente da exploração econômica).
Contudo, Lima Barreto tinha a "alma de bandido tímido". Não recorreria à força física para tentar mudar a estrutura social brasileira, cheia de desigualdade e exclusão (mesmo sabedor de que uma revolução de fato deve trazer consigo, inerentemente, o seu quinhão de violência). A contribuição que imaginou acrescentar na luta contra a opressão se realizou na escrita, tentando tirar o leitor da passividade e da resignação, levando-o a pensar e problematizar suas condições de vida.
E isso não é pouco.
__________
* Esta avaliação crítica de Eugênio Gomes encontra-se no volume 4 (Era Realista/Era de Transição) da vetusta coleção A Literatura no Brasil, dirigida por Afrânio Coutinho. A edição consultada para essa postagem foi a sétima (revista e atualizada), publicada pela Editora Global em 2004.
** BARRETO, Lima. Recordações do escrivão Isaías Caminha. São Paulo: Ática, 1984
*** Embora tenha citado as opiniões de Eugênio Gomes com o propósito de mostrar o que penso ser falho nelas, não me oponho à crítica literária subjetivista in totum. Não é proveitoso para a Literatura, penso eu, ser discutida exclusivamente dentro do rigor acadêmico. E mais uma vez, não custa repetir: o blog Besta Quadrada não é um espaço de crítica literária; apenas comunica impressões de leitura de seu autor.
*** Embora tenha citado as opiniões de Eugênio Gomes com o propósito de mostrar o que penso ser falho nelas, não me oponho à crítica literária subjetivista in totum. Não é proveitoso para a Literatura, penso eu, ser discutida exclusivamente dentro do rigor acadêmico. E mais uma vez, não custa repetir: o blog Besta Quadrada não é um espaço de crítica literária; apenas comunica impressões de leitura de seu autor.
**** BOTELHO, Denilson. Letras militantes: história, política e literatura em Lima Barreto. 2001. Tese (Doutorado em História) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001. Disponível em <http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000232427 >. Acesso em: 04/04/2016
***** O Diário íntimo, assim como toda obra de Lima Barreto está em domínio público. O livro pode ser obtido aqui <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2078 >. Acesso em 11/04/2016
Monólogo ao pé do ouvido/Banditismo por uma questão de classe é a faixa que abre o seminal álbum Da lama ao caos, de CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. O Monólogo... tem jeitão de manifesto (embora o disco contenha um manifesto propriamente dito - Caranguejos com cérebro - escrito no encarte). No Monólogo... há algumas saudações: a Zapata, Lampião, Antônio Conselheiro, aos Panteras Negras... Tratados como meros bandidos pelo status quo, as ações desses indivíduos tinham significado político (maior e mais profundo em determinados casos do que em outros, convém dizer). Se há "banditismo por pura maldade", também há o "banditismo por necessidade" e o "banditismo por uma questão de classe". Ah, e tudo isso sem falar na extraordinária guitarra tocada por esse monstro chamado Lúcio Maia.
***** O Diário íntimo, assim como toda obra de Lima Barreto está em domínio público. O livro pode ser obtido aqui <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2078 >. Acesso em 11/04/2016
BG de Hoje
Monólogo ao pé do ouvido/Banditismo por uma questão de classe é a faixa que abre o seminal álbum Da lama ao caos, de CHICO SCIENCE & NAÇÃO ZUMBI. O Monólogo... tem jeitão de manifesto (embora o disco contenha um manifesto propriamente dito - Caranguejos com cérebro - escrito no encarte). No Monólogo... há algumas saudações: a Zapata, Lampião, Antônio Conselheiro, aos Panteras Negras... Tratados como meros bandidos pelo status quo, as ações desses indivíduos tinham significado político (maior e mais profundo em determinados casos do que em outros, convém dizer). Se há "banditismo por pura maldade", também há o "banditismo por necessidade" e o "banditismo por uma questão de classe". Ah, e tudo isso sem falar na extraordinária guitarra tocada por esse monstro chamado Lúcio Maia.
quarta-feira, 20 de abril de 2016
"Alma de bandido tímido" (I)
"Malditos são todos aqueles que dizem verdades incômodas. E Lima Barreto incomodava como ainda incomoda. O escritor que silencia já nasceu morto. O escritor que não incomoda acaba refestelado em cadeiras acadêmicas, glorificadas por outro extinto imortal. O escritor, enfim, bem comportado, toma chá às quintas-feiras. Lima Barreto tomava cachaça todos os dias. Às vezes, era obrigado a parar: tirava férias no hospício"
Helcio Pereira da Silva -Lima Barreto: escritor maldito
Numa crônica publicada em 1915*, no extinto jornal Correio da noite, Lima Barreto reclamava das características do (então) novo prédio da Biblioteca Nacional, cheio de "suntuosidades desnecessárias". Segundo ele, "o Estado tem curiosas concepções, e esta, de abrigar uma casa de instrução, destinada aos pobres-diabos, em um palácio intimidador, é das mais curiosas". Na sua opinião, "a velha biblioteca era melhor, mais acessível, mais acolhedora, e não tinha a empáfia da atual".
A preocupação do escritor é que "os mal vestidos, os tristes, os que não tem livros caros" dificilmente fariam uso de um espaço assim. É de se notar a agudeza do olhar de Lima Barreto: uma biblioteca pública (e esse é o caso da Biblioteca Nacional) deveria ser receptiva a qualquer um, principalmente aquelas pessoas que não têm condições de comprar livros (sobretudo nas primeiras décadas do século passado, quando esta mercadoria quase nunca chegava à mão do pobre). A pompa do prédio - quando o mais importante deveria ser a sua funcionalidade - constrange o visitante que não dispõe de boas roupas (o escritor, com ironia, diz: "Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção, espadim e meias de seda"). Uma biblioteca, a despeito de suas especificidades, é "uma casa de instrução", ou seja, um espaço para o aprendizado e o incremento cultural. Entretanto, vivemos num país onde a casca rutilante vale mais do que a polpa - que não é tão vistosa, é verdade, mas fundamental para a nutrição e sustentação do organismo...
A preocupação do escritor é que "os mal vestidos, os tristes, os que não tem livros caros" dificilmente fariam uso de um espaço assim. É de se notar a agudeza do olhar de Lima Barreto: uma biblioteca pública (e esse é o caso da Biblioteca Nacional) deveria ser receptiva a qualquer um, principalmente aquelas pessoas que não têm condições de comprar livros (sobretudo nas primeiras décadas do século passado, quando esta mercadoria quase nunca chegava à mão do pobre). A pompa do prédio - quando o mais importante deveria ser a sua funcionalidade - constrange o visitante que não dispõe de boas roupas (o escritor, com ironia, diz: "Ninguém compreende que se subam as escadas de Versalhes senão de calção, espadim e meias de seda"). Uma biblioteca, a despeito de suas especificidades, é "uma casa de instrução", ou seja, um espaço para o aprendizado e o incremento cultural. Entretanto, vivemos num país onde a casca rutilante vale mais do que a polpa - que não é tão vistosa, é verdade, mas fundamental para a nutrição e sustentação do organismo...
Menciono essa crônica porque nela aparece uma breve definição (posteriormente bem conhecida) que Lima Barreto fez de si mesmo: "A minha alma é de bandido tímido". Os bandidos são geralmente ousados; não se
vexariam de entrar num palácio mesmo que seu vestuário fosse
considerado inapropriado para o local. O homem de letras, por seu turno, era
ressabiado, inibido. Bandidos também empregam a violência –
ocasional ou habitualmente. Mas e quando se trata de um “bandido
tímido”?
Antes de
responder a pergunta, tentemos compreender um pouco mais o autor.
. . . . .
. .
No volume
dedicado a Lima Barreto na (boa e velha) coleção Literatura
Comentada**, Antônio Arnoni Prado afirma que, no caso do autor de
Recordações do escrivão Isaías Caminha,
“[...] fica difícil simbolizar os limites entre o intelectual profundamente consciente das questões políticas e sociais de seu tempo e o estilista que insistia em não ter estilo algum; entre o repórter extremamente impiedoso e mordaz, que atacava de frente o lado grotesco dos homens, e o mulato oprimido que chorava às escondidas na solidão de seu quarto, enchendo as páginas do diário de angústia, vergonha e ressentimentos”.
A
sinceridade – ainda que filtrada pela construção literária –
era um valor para Lima Barreto e a despeito da injusta pecha de
desleixado (que o acompanhou durante anos, até mesmo após a morte),
encontra-se
“em seus textos a moderna atitude do narrador que se recusava a ver o mundo de cima, a salvo das ameaças. Na sua 'alma de bandido tímido', a obra não preexistia ao processo que a originava, assim como não dependia mais de um estado de ser especial e singular para gerá-la. Ela acontecia aqui e agora, banalizada no tempo e no espaço do leitor, no curso das pequenas coisas apanhadas na rua, no acaso que se organizava, depois, em testemunho”, ainda de acordo com Arnoni Prado.
“Reabilitado”
pela crítica literária a partir dos anos 1960, o escritor nunca
dissociou a literatura da política e atreveu-se “a falar em nome
do oprimido com a mesma ferocidade do opressor”. Mais que isso:
“soube ver na burguesia legiferante a força reacionária que, no
Brasil, impedia as reformas inadiáveis que os novos tempos exigiam.
Desmascarou também a sua aliança com os plutocratas e
latifundiários da aristocracia rural [...]”.
Basta observar a maneira de agir de nossos parlamentares no Congresso Nacional para ver como
ele ainda hoje tem razão, iniciado o século XXI.
Como,
porém, tentar mudar a dura realidade decorrente de nossos problemas
sociais? Denunciá-los através da escrita é um modo; tornar o
leitor da obra literária consciente da natureza destes, outro. Mas
seria isso suficiente? A considerar os grandes traços excludentes de
nossa estrutura social, a resposta é, obviamente, não.
Há outra
resposta faltando, relativa à pergunta deixada em aberto lá no
terceiro parágrafo. Por exigir um pouco mais de discussão, prometo-a para a próxima postagem.
_________________
* A crônica intitula-se A Biblioteca e foi posteriormente incluída no livro Marginália, lançado em 1953 (31 anos após a morte do autor). Como a obra de Lima Barreto encontra-se hoje em domínio público, o livro pode ser encontrado em <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1862> (Acesso em 15/04/16)
** PRADO, Antônio Arnoni. Uma literatura do povo para o povo. In: BARRETO, Lima. Lima Barreto. São Paulo: Abril, 1980. p. 100-104 (Coleção Literatura Comentada)
** PRADO, Antônio Arnoni. Uma literatura do povo para o povo. In: BARRETO, Lima. Lima Barreto. São Paulo: Abril, 1980. p. 100-104 (Coleção Literatura Comentada)
BG de Hoje
O Brasil, felizmente, tem uma boa tradição de canções cuja marca é seu conteúdo político. Pode-se dizer, sem dúvida, que é o caso de O ronco da cuíca, de JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. Composição primorosa, que entra diretamente na veia.
sexta-feira, 15 de abril de 2016
Falou e disse...
Empobrecimento da subjetividade é um nome elegante para a imbecilização planetária.— Marcia Tiburi (@marciatiburi) 15 de abril de 2016
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