segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Thomas Hobbes e a autoajuda (1)



"Mas há um outro ditado que ultimamente não tem sido compreendido, graças ao qual os homens poderiam realmente aprender a ler-se uns aos outros, se se dessem ao trabalho de fazê-lo: isto é, Nosce te ipsum, Lê-te a ti mesmo".

Thomas Hobbes - Leviatã


Há bastante tempo, em entrevista publicada na revista Istoé* (buscada em meu precário arquivo de pastas plásticas), Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, respondia a uma pergunta sobre os diversos interesses do público leitor brasileiro. A conversa acabou chegando aos livros de autoajuda. Surgiu então outro questionamento: "o sr. acha que, de certa forma, isto [o livro de autoajuda] é um estímulo para leituras um pouco mais avançadas?" Parte da resposta de Schwarcz nunca saiu de minha cabeça:

"Este é um leitor em potencial para outros livros. Eu sou um otimista. Costumo dizer que todo bom livro é de autoajuda, só que uns têm uma pretensão mais totalitária sobre a vida das pessoas ou mais imediatista".

Há dois pontos a considerar, penso eu:

1) Ao dizer que o consumidor de livros de autoajuda, potencialmente, chega a outros tipos de publicação, o editor da Companhia das Letras acaba referendando a "teoria do degrau". É como dizer que o leitor de Augusto Cury, por exemplo, poderá, no futuro, apreciar Graciliano Ramos. Hoje, Zíbia Gasparetto; amanhã, Virginia Woolf... Não acredito nisso. Mas discutirei a "teoria do degrau" em outra oportunidade.

2) "Todo bom livro é de autoajuda": o que dizer dessa frase? Para muitos leitores (entre estes, o blogueiro que vos escreve), o ato de ler é, na maior parte das vezes, uma eterna procura. Pelo quê? Ou melhor, por quem? Por nós mesmos, dispersos nas páginas dos livros que vamos acumulando. Queremos encontrar traços definidores daquilo que chamamos (equivocadamente até) nossa personalidade. Lemos principalmente para compreender. E essa compreensão pode ser - como é, aliás, na maioria das vezes - uma tentativa de entender nossos próprios gestos e atitudes, mesmo sendo por meio do que outros escreveram.

Mas o que toda essa ladainha tem a ver com uma obra "maldita", elaborada por um intelectual do século XVII?

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Falemos de outra entrevista**. Em março deste ano, o filósofo Renato Janine Ribeiro conversou com a reportagem da (excelente) Revista de História da Biblioteca Nacional  (disponível aqui). Entre as questões, algumas sobre Thomas Hobbes, especialidade do entrevistado. Para Ribeiro, "Hobbes consegue ser antipático a todas as classes, o que é fabuloso". Perguntado sobre o que o pensador inglês teria a nos dizer hoje, ele responde:

"A grande questão hobbesiana é que o poder político não é a realização da natureza humana. É o contrário do homo politicus grego. Para o grego, você só se torna plenamente humano em sociedade. Não sendo assim, você é um bicho selvagem, como Kaspar Hauser. Com Hobbes, você tem a ideia de que a natureza humana, solta a si própria, levará todos a um conflito que abreviará a duração e a qualidade de nossas vidas. Isso tem muito a ver como o modelo de discurso dominante freudiano: o nosso desejo é infinito, temos que limitá-lo. Tanto em Freud como em Hobbes há esse descompasso  entre o desejo humano e a possibilidade de sua realização".

E mais à frente: "esta ideia de que a vida humana exige restrições marca o pensamento hobbesiano. E isto é algo muito próximo".

Os famigerados livros de autoajuda são escritos para fazer com que seus leitores se achem melhores do que realmente são (ou pelo menos, melhores do que os outros). É você - dizem esses livros - que deve estabelecer seus próprios limites. Hobbes, por sua vez, lembra-nos, a todo o tempo, que  não somos poços de virtude e, sem limites externos a nós, produzimos apenas conflito violento.

Ao teorizar sobre o surgimento do Estado, Thomas Hobbes acabou por dissecar nosso lado monstruoso. Eu me reconheço em suas reflexões. Não consigo imaginar forma mais adequada de "autoajuda"...

Na próxima postagem da série, começo a discutir o Leviatã.

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* O Brasil quer ler. Istoé, São Paulo, n. 1309, 2 jan. 1994, p. 5-7 [entrevista realizada por Apoenan Rodrigues]

** Renato Janine Ribeiro, um filósofo sem medo. Revista de História da Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, Ano 6, n. 66, mar. 2011, p. 48-53 

BG de Hoje


"Me sinto uma cobaia, um rato enorme/ nas mãos de Deus mulher/ de um Deus de saia/ cagando e andando". Essa é, para mim, a letra mais visceralmente autêntica de CAZUZA: Cobaias de Deus é uma cacetada. O artista carioca estava nos EUA buscando tratamento médico. ANGELA RÔ RÔ pediu, Cazuza enviou o escrito pelo correio e a música foi feita.


domingo, 11 de setembro de 2011

Notas sobre o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais




Só pude comparecer a quatro dos onze dias previstos para o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais. Como os eventos dos quais participei em 9 e 10/09 levaram a reflexões mais demoradas, falarei deles em outras oportunidades. Vamos aos dias 4 e 6/09:

04/09/2011 - Compareci ao debate Dilemas da mediação de leitura, cuja mesa era composta por João Marcos (artista gráfico), Raquel Elizabete (representante da Secretaria Estadual de Educação/MG) e Maria Antonieta Pereira (professora aposentada da FALE/UFMG e coordenadora do Teia de Textos). Eliana Yunes, anunciada pela organização do evento, não conseguiu viajar a Belo Horizonte; pena, pois estava muito interessado em ouvi-la. A sala reservada para o debate ficou praticamente vazia (num domingo à tarde, o público, suponho, tinha outros interesses). Críticas à rigidez das instituições escolares (vistas, entretanto, como agências fundamentais para a mediação da leitura); críticas também à Universidade, no que se refere à formação de professores e bibliotecários; o "divórcio" entre os estudos literários e o estudo da arte dentro da escola; a presença dos quadrinhos no espaço escolar, ainda vistos com desconfiança por parte dos educadores; o mediador como exemplo de leitor; esses foram alguns dos pontos discutidos na ocasião. Ah, e registro a desagradável participação de um sujeito falastrão e pedante, não obstante mal informado, que veio nos contar, por exemplo, como sua vovozinha o ajudou a gostar de ler, como se isso interessasse a alguém, naquele contexto específico...

06/09/2011 - Clima antipático: assim eu caracterizaria o Diálogo Literário, do qual participaram os escritores Leo Cunha e Fanny Abramovich, com mediação da também escritora Neusa Sorrenti. E o evento começou auspicioso, com menos de 10 minutos de atraso (coisa rara em programações do tipo). Problemas com o microfone, no entanto, "compensaram" o que foi ganho no tempo inicialmente. No começo do debate, a partir de uma pergunta feita pela mediadora sobre a importância do humor na Literatura Infanto-Juvenil (LIJ), comecei a desconfiar que o restante da conversa ia ser desalentador.

Fanny Abramovich não demonstrava consideração alguma pela plateia; ela falava se dirigindo apenas aos outros integrantes da mesa e à professora Maria Antonieta Antunes Cunha (uma das maiores estudiosas de LIJ do país, que foi proprietária da histórica editora-livraria Miguilim e é mãe de Leo Cunha), sentada mais à frente. Abramovich destacou o trabalho de apenas três autores: Lobato, João Carlos Marinho e, principalmente, Sylvia Orthof. De repente, deu uma ferroada na obra de Ana Maria Machado (que nem estava no contexto da discussão). A única escritora ainda ativa elogiada por ela foi Eva Furnari.

Deu-me a impressão que Abramovich não lê nada de mais recente no campo da LIJ. E embora não ache que estar up-to-date com a produção literária seja por si só uma vantagem, é estranho perceber tal atitude na escritora paulista, porque ela tem livro teórico publicado sobre o assunto (Literatura Infantil: gostosuras e bobices), foi professora universitária especializada nesse campo, chegando a escrever na imprensa diária.

A mediadora parecia um pouco perdida e Leo Cunha tentou salvar o debate com a postura mais lúcida entre os que compunham a mesa. Uma discussão que poderia render era sobre o conceito de qualidade na LIJ: quais os critérios seguros (se é que eles existem) para dizer que um livro é bom e outro é ruim? Infelizmente, esse assunto não avançou. No momento em que se abriu para as perguntas do público, fui embora.

Na próxima postagem, mudança completa de assunto: começo a escrever sobre Thomas Hobbes.

BG de Hoje

Adoro o humor do PREMEDITANDO O BREQUE (e, claro, a ótima qualidade de seus instrumentistas - principalmente Mário Manga). Em Bem Brasil, divertidíssima crítica ao país. E com participação de Caetano Veloso.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

A Literatura Infantil sob a ótica de Walter Benjamin


No ensaio Livros infantis antigos e esquecidos*, Walter Benjamin ressalta um lado nada simpático da bibliofilia, frequentemente escamoteado. Diante da pergunta "por que você coleciona livros?", o que um adepto dessa atividade diria se induzido à autorreflexão? Escreve o pensador alemão:

"Como seriam interessantes as respostas, pelo menos as sinceras! Pois apenas os não iniciados poderiam crer que não existe aqui o que esconder ou racionalizar. Arrogância, solidão, amargura - muitas vezes esse é o lado noturno de muitos colecionadores cultos e bem sucedidos. Toda paixão revela de vez em quando os seus traços demoníacos, e nada confirma tão cabalmente essa verdade como a história da bibliofilia".

Mas não é esse traço da paixão de colecionar que será ressaltado por Benjamin ao analisar o conjunto de livros para crianças pertencente a um contemporâneo seu, Karl Hobrecker (nem a bibliofilia será o assunto principal dessa postagem, mas sim as opiniões do ensaísta sobre a Literatura Infantil).

É necessária certa predisposição de espírito para apreciar adequadamente uma coleção desse gênero. Segundo Walter Benjamin, o indivíduo precisará permanecer "fiel à alegria que experimentou quando criança, ao ler esses livros". E embora haja o interesse de preservar belos exemplares, os chatos e meticulosos sentir-se-ão deslocados: "é uma boa coisa que a pátina depositada nas folhas por mãos infantis pouco asseadas mantenham à distância o bibliófilo esnobe".

Benjamin nos informa que, de acordo com Hobrecker,

"o livro infantil alemão nasceu com o Iluminismo. Era na pedagogia que os filantropos punham à prova o seu grande programa de remodelação da humanidade. Se o homem é por natureza piedoso, bom e sociável, deve ser possível fazer da criança, ente natural por excelência, um ser supremamente piedoso, bom e sociável. E como em todas as pedagogias teoricamente fundamentadas a técnica da influência pelos fatos só é descoberta mais tarde e a educação começa com as admoestações problemáticas, assim também o livro infantil em suas primeiras décadas é edificante e moralista, e constitui uma simples variante deísta do catecismo e da exegese".

Ou seja, desvenda-se, na Alemanha iluminista, o mesmo que se percebe em outros lugares do mundo, mesmo em outras épocas: o "pecado original" da Literatura Infantil, cujo nascimento deixou-a no meio do caminho entre a pedagogia e a expressão artística (e, muitas vezes, a segunda é suplantada pela primeira, com resultados ruins).

O dono da coleção e também o ensaísta criticam esses textos excessivamente didáticos. "Mas" - diz  Benjamin - "essas falhas, já superadas, são insignificantes se comparadas com os equívocos que hoje estão na moda graças a uma suposta 'empatia' no espírito da criança: a jovialidade desconsolada das histórias em versos e as caretas hilares desenhadas por pretensos 'amigos das crianças' para ilustrar essas histórias"

E o pensador alemão acaba se metendo a psicólogo:

"A criança exige dos adultos explicações claras e inteligíveis, mas não explicações infantis, e muito menos as que os adultos concebem como tais. A criança aceita perfeitamente coisas sérias, mesmo as mais abstratas e  pesadas, desde que sejam honestas e espontâneas [...]"

Cabe a pergunta: para se trabalhar com a Literatura Infantil é necessário algum conhecimento da psicologia infantil? Já respondendo, acho que sim, como é necessário em qualquer outro campo de atuação ligado à infância. E, preciso confessar, ressinto-me deste conhecimento.

Benjamin critica o preconceito decorrente da crença de que as crianças são seres cuja existência é "incomensurável à nossa"; faz concisas (e preciosas) análises sobre o conto de fadas e as fábulas; e fala com brilhantismo sobre o papel das ilustrações nesse tipo de produto editorial. Deixarei, porém, a discussão destes tópicos para outra oportunidade.

Quero destacar um último excerto, encontrado no final do ensaio, e que me parece atualíssimo (observo que o texto de Benjamin foi publicado em 1924). Ao falar de "abusos menos visíveis" presentes até na Literatura Infantil menos impregnada do "pedagogismo" extremo, o ensaísta nota certa perda de conteúdo ético:

"Liberta dessa dimensão ética [verificável mesmo nas obras mais "pedagogizadas" do século XVIII], tal literatura passou a depender dos estereótipos da imprensa diária. A cumplicidade secreta entre o artesão anônimo e a criança desaparece; escritores e ilustradores se dirigem cada vez mais à criança através da mediação ilegítima das suas próprias preocupações e das modas predominantes. A atitude sentimental, apropriada não a criança, mas à concepção pervertida que dela se tem, adquire nas imagens direito de cidadania. O formato perde sua nobre discrição, tornando-se incômodo".

E isso não vale para diversos outros produtos - música, cinema, objetos, etc. - voltados para a infância? Além disso, não revela a assimetria típica do gênero Literatura Infantil, como já discuti em outra postagem?

Na próxima semana, falo das minhas impressões sobre o Salão do Livro Infantil e Juvenil de Minas Gerais.
__________
* BENJAMIN, Walter. Livros infantis antigos e esquecidos. In: _______________. Magia e técnica, arte e política.: ensaios sobre literatura e história da cultura. 7 ed. São Paulo: Brasiliense, 1994, p. 235-243 [tradução de Sergio Paulo Rouanet]

BG de Hoje

Ainda bem que encontrei este vídeo: foi a primeira apresentação do grupo vocal BR6 a que pude assistir, interpretando Chovendo na roseira. Ah, e tinha que ser no imprescindível programa Sr. Brasil (TV Cultura), apresentado pelo "patrimônio" Rolando Boldrin.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

1, 2, 3...


Havia prometido a mim mesmo falar mais de poesia e de Literatura Infantil e Juvenil durante este ano. Não tenho cumprido a promessa a contento, principalmente em se tratando da produção editorial voltada para crianças e adolescentes. Portanto, escolhi três títulos dos quais gosto muito - e mais à frente, em outras oportunidades, adotarei o mesmo procedimento - para compor pequenos "flashes" sobre eles.

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1)  Apresentei o livro E um rinoceronte dobrado, de Hermes Bernardi Jr (Editora Projeto, 2008) para três turmas de estudantes (8 anos de idade, em média) lá da escola em que trabalho, no 1º semestre. Após as leituras, felizmente, quase todas as crianças destacaram justamente o que eu intencionava: o objeto que abre o texto ("O que eu colocaria numa caixa de sapatos?") é uma metáfora para uma espécie de "catalisador" de recordações (os estudantes, obviamente, não disseram isso com esses termos...). Foi divertido vê-los enumerarem, na atividade complementar, as coisas que eles próprios colocariam numa caixa assim. Muitos incorporaram o humor meio nonsense do poema de Bernardi Jr. E não poderia deixar de mencionar o ótimo trabalho gráfico do designer Guto Lins, que sempre me agrada.

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2)  No prefácio de Lendas Negras (Editora FTD, 2001 - ilustrações de Salmo Dansa), Júlio Emílio Braz chama a atenção para um fato:

"Sem procurar muito, até hoje é bem mais fácil encontrar livros com lendas europeias, vikings, celtas, russas, japonesas. Nada contra. O homem é a somatória de suas experiências e de tudo o que lê. Quanto maior e mais diversificada sua leitura, melhor. De qualquer forma, a máxima não se aplica às lendas, histórias e culturas africanas".

Por isso, o escritor decidiu, através de 8 narrativas, dar sua contribuição na tentativa de equilibrar um pouco essa balança. Já adaptei três dessas lendas, divulgando-as por meio da contação de histórias: Tsui'goab ou A batalha contra a Morte (de origem kói, povo que habita parte do deserto do Kalahari); minha preferida, Kigbo e os espíritos do mato (ioruba "de nascença"); e A viúva velha (da tradição quimbunda). Apresentei esta última a estudantes matriculados na EJA (Educação de Jovens e Adultos) e ela "funcionou" muito bem.

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3) Na opinião (abalizada) de Ana Maria Machado, "Graciela Montes é a maior autora argentina de literatura infanto-juvenil". Esse juízo tão favorável deve ter sido decisivo para que a escritora brasileira realizasse a tradução de Outroso: um outro mundo (Editora Salamandra, 2006 - 3ª edição).

Logo na segunda página, o narrador observa que : "ler um livro não tem que ser tão fácil assim..." Prenúncio de que Outroso escapará dos lugares-comuns típicos desse gênero de Literatura? Não e sim. Não, porque se vale das quase onipresentes turmas (até compreensível, trata-se de um livro direcionado a adolescentes). E sim, pelo modo como discute, por exemplo, a "oposição" entre os muito jovens e os "Velhos" (todos os adultos), assim como as maneiras de escapar dos grupos que implantam e disseminam a violência organizada dentro da sociedade (representados pela temível "Patota"). E há também uma indisfarçável referência ao período da ditadura militar argentina.

BG de Hoje

Um furacão renovador. Assim eu definiria o aparecimento de CHICO SCIENCE E NAÇÃO ZUMBI no cenário musical do Brasil. No vídeo, a versão de Todos estão surdos (de Roberto Carlos). Impressiona-me a qualidade do guitarrista Lúcio Maia. OBS: É a apresentação do grupo no Hollywwod Rock de 1996.


domingo, 28 de agosto de 2011

"Eu sou a vovó do livro": Tatiana Belinky e a leitura como exemplaridade





Meses atrás, postei texto alusivo aos 80 anos de Ruth Rocha, minha forma de homenagear essa representante fundamental da nossa Literatura Infanto-Juvenil

Mas, e Tatiana Belinky (perguntou-me, outro dia, uma ex-colega de trabalho)? A escritora e tradutora - nonagenária! - não merece também reconhecimento? Claro que sim.

Já havia escrito sobre ela (clique aqui), quando tratei do livro autobiográfico Transplante de menina, no qual a autora narra sua infância, desde o nascimento na Rússia até a chegada a São Paulo, na década de 1930. Motivo para uma brincadeira, na entrevista concedida ao Almanaque Brasil de Cultura Popular*(disponível aqui): "Sou mais brasileira do que vocês. Estou no Brasil há 75 anos [a matéria foi publicada em 2004] e vocês não".

Nesta mesma entrevista, ela relata sua progressiva familiaridade com diversos idiomas: o letão e o russo ("heranças" nativas), o alemão, o francês, o inglês e, obviamente, o português. E dispara: "a gente aprende mais lendo do que decorando mesóclises e outras barbaridades".

Conta-nos sua experiência com o teatro infantil e com a (então incipiente) televisão: não custa lembrar que a escritora foi a primeira a roteirizar textos de Monteiro Lobato (na época, para a extinta TV Tupi).

E embora sua produção autoral seja considerável, sempre valorizei mais a imensa contribuição de Tatiana Belinky na área da tradução.

Recordemos, por exemplo, os trabalhos que fez, nos anos 1980, para a Coleção Asa Delta. Em "Causos" russos**, apresentou a muitos leitores brasileiros (a este blogueiro, por exemplo) as historietas humorísticas de Mikhail Zochtchenko. Em Salada russa***, reuniu narrativas breves de autores destacados com Pushkin, Liermontov, Turgueniev, Tolstoi, Tchekhov e Gorki. É também dela a tradução que se encontra no lindíssimo A feira anual de Sorotchinski**** (de Nicolai Gógol), publicado pela Ática.

Mais recentemente, em Um caldeirão de poemas*****, o público infantil pode conhecer textos da própria Tatiana Belinky e outros, de anônimos a autores afamados, como Emily Dickinson, Walt Whitman, Edward Lear, Goethe, Heine, Lewis Carroll... Todos convenientemente vertidos para o português e acompanhados de ótimas ilustrações.

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E antes de encerrar, gostaria de destacar mais um trecho da entrevista acima mencionada. Diante da pergunta "como escrever bem para criança?", Belinky amplia sua resposta e acaba falando sobre algo que julgo indispensável para aqueles que militam no campo da promoção da leitura:

"Precisa expor o livro à criança, expor a criança ao livro. Tem que levá-la à biblioteca; ter livros em casa; ler para ela; ela ver a gente lendo. Nunca vi meus pais sem livro na mão [...]. Eu sou a vovó do livro. Quero que me vejam com o livro na mão". [grifos meus]

As ações de promoção da leitura e aquelas que intentam contribuir para a formação do leitor não serão bem sucedidas, penso eu, enquanto os agentes - professores, bibliotecários, pais e mães, etc. - não se tornarem referências, modelos ou exemplos de leitores para os sujeitos com os quais convivem, interagem e/ou trabalham.

* "Precisa expor o livro à criança, expor a criança ao livro". Almanaque Brasil de Cultura Popular, São Paulo, Ano 6, v. 64, jul. 2004, p. 20-24

** ZOCHTCHENKO, Mikhail M. "Causos" russos. 2 ed. São Paulo: Paulinas, 1988 [tradução de Tatiana Belinky] (Coleção Asa Delta)

*** TOLSTOI, Leon et al. Salada russa. 3 ed. São Paulo: Paulus 1988 [tradução de Tatiana Belinky] (Coleção Asa Delta)

**** Um caldeirão de poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 2003 [poemas traduzidos, adaptados ou escritos por Tatiana Belinky]

***** GÓGOL, Nicolai. A feira de Sorotchinski. 2 ed. São Paulo: Ática, 1993 [Adaptado por Sybil G. Schönfeldt e traduzido por Tatiana Belinky]

BG de Hoje

Milagres do povo, de CAETANO VELOSO, inicia-se com um verso antitético: "Quem é ateu e viu milagres como eu". Canção forte, tratando de aspectos caros à negritude brasileira, seja ela religiosa ou não (como é meu caso): "Quem descobriu o Brasil?/ Foi o negro que viu a crueldade bem de frente/ e ainda produziu milagres de fé no extremo ocidente" . OBS: O vídeo foi extraído do saudoso programa Chico e Caetano.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O que lamento em Borges





"[Borges] Citou-me um verso no qual dizia ter cometido o pior de todos os pecados possíveis ao homem, o de não ter sido feliz".
 
Álvaro Alves de Faria - Borges: o mesmo e o outro

 
 
Há poucos dias fui buscar livros que encomendei na excelente Livraria do Psicólogo e do Educador de BH. NOTA: Faço questão de incluir o merchandising (não remunerado, esclareço) pois tenho sido muito bem atendido por lá. Estou comprando aos poucos - beeeeem aos poucos - algumas das obras de Jorge Luis Borges, reeditadas pela Companhia das Letras. E consegui agora adquirir O livro dos seres imaginários e O livro de areia.

Falar do escritor argentino sem certa reverência é bastante difícil. Leia-se, por exemplo, o verbete dedicado a ele na Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe*:

"Um dos alicerces fundadores da literatura latino-americana do século XX, assegurou a renovação e, ao mesmo tempo, a retomada das raízes da cultura ocidental ao continente". E mais adiante: "[...] instaurou uma metamorfose estética à qual a narrativa será para sempre grata".

Entretanto, o mesmo verbete considera que, ao lado da erudição impressionante, Borges "manteve uma linearidade política conservadora diante da realidade política de seu país", apoiando inclusive o regime ditatorial militar.

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Em postagem publicada meses atrás, falando sobre Monteiro Lobato, critiquei postura assumida por parte do público leitor, que acostumou-se a idealizar a figura dos escritores, chegando quase a mitificá-los. E, reconheço, às vezes também incorro nesse erro.

Falo disso porque, recentemente, acabei de ler um bom livrinho (o diminutivo aqui só se refere ao número de páginas - menos de 80) que ajuda a lembrar que Jorge Luis Borges, a despeito da genialidade, era, antes de mais nada, um simples mortal. E com opiniões detestáveis, absurdas, asquerosas.

Em Borges: o mesmo e o outro**, de Álvaro Alves de Faria, composto a partir de uma entrevista realizada em Buenos Aires, no ano de 1976, o tom reverente não é abandonado, mas o autor não ameniza as declarações do escritor argentino, como essa, por exemplo:

"A raça negra é inferior em tudo. A raça negra nada fez, nada faz. Se não existissem negros a história do mundo não mudaria em nada. O negro é uma raça que só sabe viver da imitação das coisas dos homens brancos. Os negros não servem para nada".

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Seria o caso de deixar de ler Borges? Não farei isso. Mas quero lembrar a mim mesmo que os artistas, no sentido mais pleno do termo, são muitas vezes tão desprezíveis e odiosos quanto qualquer outro ser humano.

________________
* Jorge Luis Borges. In: SADER, Emir et al. (Coord.). Enciclopédia Contemporânea da América Latina e do Caribe. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, 2006. p. 204-205


**  FARIA, Álvaro Alves de. Borges: o mesmo e o outro. São Paulo: Escrituras, 2001 (Coleção Ensaios Transversais)

BG de Hoje

Graças a meu irmão mais velho, comecei a curtir rock'n'roll (curiosamente, hoje em dia, ele não é mais tão ligado em música). Era eu ainda criança e gostava de ouvir um álbum duplo, ao vivo, da cantora JANIS JOPLIN, pertencente a ele. Achava aquele som maravilhoso. Tanto que passei a admirar todos os cantores que, do mesmo modo que Joplin, interpretam cada canção como se fossem morrer de um mal súbito assim que terminarem de cantar. Embora não seja um rock típico, muito me emociona Kozmic Blues.



segunda-feira, 22 de agosto de 2011

"Mas de tudo, terrível, fica um pouco..."


Embora A rosa do povo não seja meu livro predileto de Carlos Drummond de Andrade (sempre gostei mais de Brejo das Almas e Sentimento do Mundo), nele podem ser encontrados alguns dos poemas mais bem elaborados, do ponto de vista da forma, na obra do itabirano (e o caminho progressivo na burilação do texto poético, penso eu, atingirá o ápice no trabalho ulterior, Claro Enigma). Entre os textos inesquecíveis de A rosa do povo - inesquecível, no meu caso, em sentido literal; sei dizê-lo de cor, mesmo tendo tomado doses e doses de cachaça - está Resíduo*. Poucas vezes li algo tão bonito falando sobre a dissolução de tudo que existe, da precariedade e insegurança da existência, das lembranças como sinônimo de tormento.

Chega de falação desnecessária: ao poema, pois:

RESÍDUO

De tudo ficou um pouco.
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
- vazio - de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam
um pouco: não está nos livros.

De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este sorriso infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte de escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob ti mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato.

* ANDRADE, Carlos Drummond de. Resíduo. In: A rosa do povo. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 92-95

BG de Hoje

O amor é um jogo de azar... Simples, direto: precisa acrescentar mais alguma coisa? AMY WINEHOUSE, Love is a losing game.



quinta-feira, 18 de agosto de 2011

O ato de escrever: vaidade, autoafirmação ou compartilhamento de saber? (2)



"A vaidade está de tal forma arraigada no coração do homem que um soldado, um criado, um cozinheiro, um malandro, se gaba e pode ter seus admiradores; e os próprios filósofos pretendem o mesmo. E os que escrevem contra isso querem a glória de escrever bem, e os que os leem querem ter a glória de os ter lido; e eu, que escrevo isto, talvez tenha essa vontade, e talvez os que me lerem..."

 Pascal - Pensamentos*


"Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento".
Carlos Drummond de Andrade, no poema América**


Comecemos falando do poema*** de João Cabral de Melo Neto citado na postagem anterior, cujos dois primeiros versos compõem uma pergunta que o poeta tentará responder com o próprio texto: "Por que é o mesmo o pudor/ de escrever e defecar?"


Escrever, neste caso, refere-se à escrita literária (mais precisamente, à produção do poema). Este é um dos textos que, a meu ver, melhor se ajustam à concepção cabralina do fazer poético. E este fazer, para João Cabral, nada tem de especialmente sublime ou inefável. Daí a magistral comparação entre o momento da geração/elaboração do texto literário (algo supostamente elevado, enobrecedor) com a cagada (aqui no sentido literal, necessidade fisiológica culturalmente associada àquilo que é reles, sórdido).

Na segunda estrofe, João Cabral nos diz que "escrever é estar no extremo/ de si mesmo [...]" ; é estar completamente nu. Daí o pudor. Mas atenção: essa vergonha aparece apenas porque o escritor/poeta não quer que outras pessoas "vejam/ o que deve haver de esgar,/ de tiques, de gestos falhos,/ de pouco espetacular/ na torta visão de uma alma/ no pleno estertor de criar". Essas reações - mais uma vez a comparação - assemelham-se às que acontecem quando estamos sentados nos vasos sanitários. E vale lembrar que alguns escritores/poetas (que, na minha opinião, são os piores) gostam de alardear que sua escrita provém, não da atividade assídua, rotineira, mas  de um "dom" singular.

No último grupamento de versos, o autor dá-se conta de um paradoxo: "o pudor de fazer/ é impudor de publicar". Deve ser por isso que há tanta merda em prosa e verso jogada na web (sendo este blog amostra inequívoca de matéria excrementícia) ... Tenciono, porém, falar de outro assunto a partir de agora.

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Sempre desconfio de quem não reconhece em si próprio a vaidade. Blaise Pascal (já citado na epígrafe deste texto), um dos filósofos que melhor refletiu sobre essa característica humana (e não vou me deter aqui sobre as razões que o levaram a isso), afirmara:

"Curiosidade não é senão vaidade. O mais das vezes, não se quer aprender senão para falar do que se sabe. Não viajaríamos por mar, só pelo prazer de ver, se não quiséssemos dizer algo a respeito e não esperássemos comunicar nossas impressões".

Partindo dessa passagem, e pensando no ato de escrever para além da atividade artística/ profissional, gostaria de discutir com o(a) leitor(a) o que podemos intuir hoje em dia sobre esse ato, com o advento dos blogs e, principalmente, das chamadas redes sociais, esses novos espaços da escrita, cada vez mais populares, influentes e despudorados, em certo sentido (principalmente as redes), levando em consideração o que esses "lugares" podem representar em termos de exibição vaidosa, necessidade de autoafirmação e desejo de compartilhamento de algum saber.

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Marcelo Coelho, recentemente, na sua (ótima) coluna da Folha de S. Paulo**** (disponível aqui), ao comentar sobre as futilidades que infestam o Facebook (e preciso admitir: "contribuo" com um bocado delas), disse ficar "aflito de ver as pessoas postando de 15 em 15 minutos, durante toda a extensão do dia. A falta do que fazer nunca deu tanto trabalho".

Admitindo sua rabugice, Coelho, no entanto, acaba vendo uma função para a rede social: seria uma "função fática", quando o que se quer é apenas enviar sinais de existência, do tipo "olha, eu tô aqui!". E percebendo que a "utilidade" do Facebook (e por consequência, parte significativa da sua lucratividade) está também ligada à ferramenta curtir, faz uma observação com a qual concordo plenamente: "Reparei que não existe, entretanto, a ferramenta oposta. O ' não curti ', que sem dúvida eu empregaria com relativa frequência, não está previsto".

E isso talvez seja bom: evitam-se brigas, que seriam ainda mais banais do que as próprias postagens.

Com tudo isso quero dizer o seguinte: na minha avaliação, o Facebook (como outros "serviços" na web, inclusive a blogosfera) é, para muitas pessoas, apenas um espaço de exibicionismo vaidoso. Entretanto, cabe perguntar: quem não é vaidoso? O problema, penso eu, é que essa rede social e os blogs (assim como o Twitter ou o Orkut) podem nos mostrar como determinadas pessoas são superficiais e a gente não percebia... Mas, pensando bem,  isso pode até ser útil: não tenho problema nenhum em "deletar" da minha lista de contatos (e também do meu convívio fora da web) pessoas que me encham o saco com seu narcisismo.

Porém, reconheço que, para muita gente, esses "serviços" criados na/pela rede mundial de computadores ajudam no caminho da autoafirmação de alguns indivíduos, como já pude comprovar com conhecidos próximos a mim, cuja aceitação de si mesmos está se tornando menos traumática.

Não seria o caso, por fim, de especular, de modo otimista (embora eu seja cronicamente pessimista), que estejamos plasmando talvez uma nova forma de gerar conhecimento, compartilhando, através desses "serviços", novas formas de saber? Quero lembrar o verso de Drummond citado na segunda epígrafe desse texto: "portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento".

O que pensa o(a) leitor(a) dessas lucubrações?

P.S. Vale muito também ler o que escreveu Rachel Nunes (clique aqui) a respeito das ideias de Marshall McLuhan, difundidas pelo clássico livro O Meio é a Mensagem, e que, de certo modo, se relaciona com o que discuti acima.

__________
* PASCAL, Blaise. Pensamentos. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1979 [tradução de Sérgio Milliet] (Coleção Os pensadores)

** ANDRADE, Carlos Drummond de. América. In: A rosa do povo. 40 ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 150-155

*** MELO NETO, João Cabral de. Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 90-91 [Este poema integra o livro Museu de Tudo, publicado originalmente em 1974]

***** COELHO, Marcelo. Curti (não curti) isso. Folha de S. Paulo, São Paulo, 10 ago. 2011, Caderno Ilustrada, p. 12


BG de Hoje

Os recentes "protestos" ou "desordens" (os termos variam de acordo com a posição ideológica do observador) ocorridos em Londres lembraram-me uma famosa canção do CLASH (misturando punk e reggae), The guns of Brixton (aliás, um dos distritos colocados em polvorosa nesses dias). Claro que o momento histórico era distinto deste e a banda não falava exatamente da mesma coisa, mas mesmo assim quis incluir este BG.




sábado, 13 de agosto de 2011

O ato de escrever: vaidade, autoafirmação ou compartilhamento de saber? (1)


Num de seus melhores escritos* (apenas em minha opinião, claro), o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto fez extraordinária reflexão sobre o ato de escrever. Por enquanto, apenas reproduzo o poema; falarei dele (e de um assunto relacionado) mais adiante.

EXCEÇÃO: BERNANOS, QUE SE DIZIA ESCRITOR DE SALA DE JANTAR

Por que é o mesmo o pudor
de escrever e defecar?
Não há o pudor de comer,
de beber, de incorporar,
e em geral tem mas pudor
quem pede do que quem dá.
Então por que quem escreve,
se escrever é afinal dar,
evita gente por perto
e procura se isolar?

Escrever é estar no extremo
de si mesmo, e quem está
assim se exercendo nessa
nudez, a mais nua que há,
tem pudor de que outros vejam
o que deve haver de esgar,
de tiques, de gestos falhos,
de pouco espetacular
na torta visão de uma alma
no pleno estertor de criar.

(Mas no pudor do escritor
o mais curioso está
em que o pudor de fazer
é impudor de publicar:
com o feito, o pudor se faz
se exibir, se demonstrar,
mesmo nos que não fazendo
profissão de confessar,
não fazem para se expor
mas dar a ver o que há.)

Convido o(a) leitor(a) a refletir junto comigo nesta e na próxima postagem.
__________
* MELO NETO, João Cabral de. Exceção: Bernanos, que se dizia escritor de sala de jantar. In: A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997, p. 90-91 [Esse poema integra o livro Museu de Tudo, publicado originalmente em 1974)

BG de Hoje

No chamado movimento grunge, por razões óbvias, sempre gostei mais dos grupos que não se distanciavam do heavy metal tradicional. Caso do SOUNDGARDEN (e do Alice in Chains, minha banda predileta, claro). Além do mais, o quarteto contava com o guitarrista "zen" Kim Thayil e o excepcional cantor Chris Cornell. Em Blow up the outside world (canção feita sob medida para os permanentemente-putos-com-a-vida, como é o meu caso), Cornell escreveu uma das suas melhores letras. OBS: Abaixo, competente versão ao vivo.


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Dom Quixote e o sonho do leitor (3)



Antes de falar sobre o romance de Cervantes  (mais especificamente, sobre um de seus capítulos), gostaria de mencionar algumas observações sobre o ato de ler, recentemente ditas por Alberto Manguel, ensaísta argentino (radicado no Canadá), por quem tenho muita admiração.

Em entrevista concedida à revista Língua Portuguesa*  (disponível aqui), ao ser perguntado se "ler de fato nos melhora", ele responde por meio de um caso pessoal:

"Fiz o secundário no Colégio Nacional de Buenos Aires, em meio à ditadura. Foi um professor de literatura de lá que me inspirou a escrever. Ele me fez descobrir a função humanizante da literatura, que a ficção é uma mentira que conta a verdade e a experiência dos personagens é, no fundo, a nossa experiência. Veja, os alunos desse colégio fizeram forte oposição aos militares. Pouco depois eu saí do país, mas soube que muitos de meus colegas foram denunciados, torturados e mortos. Uns vinte anos depois, voltei à Argentina para uma festa de ex-colegas. E descobri, chocado, que aquele professor era o informante dos torturadores. Ler em si mesmo não é mais que uma atividade essencial. Mas o valor do ato está dado pelo uso que fazemos da leitura".

E Manguel, prossegue, mais à frente:

"Minha primeira reação foi rechaçar a literatura associada àquele professor. Mas percebi que a literatura é uma forma de manter a atenção entre duas margen [...]há leituras que permitem fazer uso da memória da experiência do mundo. Nesse caso, ler melhora nossa maneira de atuar".

"A ficção é uma mentira que conta a verdade".  "Ler melhora nossa maneira de atuar". Gostaria que o(a) leitor(a) mantivesse essas duas ideias em seu espírito enquanto acompanha minha exposição.

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O capítulo XXII do Dom Quixote **  (Da liberdade que Dom Quixote deu a muitos desditados, que iam levados contra sua vontade onde eles por si não quereriam ir) é marcado pelo humor burlesco. Mas não só isso.

Vai o fidalgo da Mancha pela estrada, acompanhado de Sancho Pança, quando surge uma guarnição militar levando condenados a remar nas galés. Dom Quixote quer saber de cada um "a causa da sua desgraça". Os presos vão informando, a maioria deles fazendo chacota (um dos guardas já antecipara a Dom Quixote que "essa gente põe gosto em fazer e assoalhar velhacarias"). Após ouvir os relatos, o cavaleiro andante toma uma decisão fora do comum: resolve libertar todos os galeotes, "porque dura coisa lhe parece o fazerem-se escravos indivíduos que Deus e a natureza fizeram livres".  Após uma refrega, todos são soltos e seu libertador exige que os libertados relatem o ocorrido perante a Senhora Dulcinéia del Toboso. Obviamente, os agora fugitivos se recusam e enchem Dom Quixote e Sancho Pança de pedradas.

Acho esse capítulo engraçadíssimo, principalmente ao ler o modo como os presos se expressavam e a ingenuidade com que o cavaleiro os ouvia. Entretanto, há também aqui o reconhecimento da liberdade como um valor supremo e uma crítica, ainda que discreta, às autoridades que se colocam muito distantes das pessoas sobre as quais seu poder recai.

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Nunca existiu Dom Quixote (em carne e osso, quero dizer). E se algo não tem concretude física, para muita gente, não passa de bobagem. Ou não passa de mentira. Mas, para mim, há verdade nas coisas que diz e faz o Cavaleiro da Triste Figura - e também seu escudeiro, como não?. Tendo sido um leitor contumaz das novelas fantasiosas que apreciava, Dom Quixote tornou-se, mesmo amalucado, uma "pessoa" que agia da melhor forma possível em relação aos outros.

É este também o meu sonho de leitor
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* A leitura do mundo. Revista Língua Portuguesa, São Paulo, n. 63, p. 10-14, jan. 2011 (Editora segmento) [Entrevista concedida a Luiz Costa Pereira Júnior]

** CERVANTES DE SAAVEDRA, Miguel de. Dom Quixote de la Mancha. São Paulo: Abril Cultural, 1981 [tradução dos Viscondes de Castilho e Azevedo: notas de José Maria Castro Calvo, traduzidas por Fernando Nunes Rodrigues]


BG de Hoje

Na postagem anterior, indiquei um guitarrista de rock  (o maior deles, aliás)  tocando blues. Falo de outro hoje: Jack White, dos WHITE STRIPES, arrebentando em  Ball and Biscuit.