sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Chupar laranja, (tomar) aspirina, catar feijão


Voltei a trabalhar numa biblioteca escolar. Quase seis anos se passaram e me deparo, nesse retorno, com as mesmíssimas situações problemáticas que eu acreditava terem ficado para trás. Bem, pelo menos está mais fácil agora reaproximar-me da literatura infantil e infantojuvenil depois de um longo hiato. Uns dias atrás, fui percorrer as prateleiras de poesia e fiquei contente ao achar o livro  Dia brinquedo,  de Fernando Paixão (Ed. Abril, 2009, com ilustrações de Suppa). Numa oportunidade anterior, noutra escola pública, eu havia selecionado três poemas deste livro para apresentá-los (junto com outros, de poetas diferentes) a um conjunto de turmas, num minissarau. Naquela ocasião, a coisa saiu melhor do que o esperado, tendo em vista as dificuldades de se obter adesão e envolvimento nas ações ligadas à literatura, por incrível que pareça, dentro de determinadas unidades escolares.

Um dos poemas selecionados tinha sido este:

 

ENCONTRO DAS FRUTAS
 
Na fruteira nova
alta luz da tarde
as laranjas têm bunda
brilha o batom das maçãs.
 
Trinta e nove uvas
de mãozinhas dadas
dão boas risadas
da cara feia do abacaxi.

 

"Funciona" muito bem com vários estudantes do início do Fundamental, as imagens ocorrendo-lhes rapidamente, achando graça nos traseiros das laranjas e se perguntando como seria ter um rosto de abacaxi.

Há uma disponibilidade muito maior de temas e assuntos aos quais recorrer nos poemas endereçados às crianças do que nos outros, destinados aos leitores mais experimentados. Pode-se imaginar, por exemplo, um diálogo de amor entre um garfo e uma colher (como se vê nesse mesmo livro de Fernando Paixão citado acima) ou compor uma cena em que uma vaca entra num bar e pede refrigerante com canudinho (lembrei-me agora de um dos muitos textos engraçados do Sérgio Caparelli), sem se preocupar se isso vai ou não comprometer a imagem de poeta sério que muitos temem colocar em risco. E Fernando Paixão é um poeta sério, lido por adultos meticulosos, professor da USP e tal, mas que fez questão de colocar nas páginas centrais do seu  Dia Brinquedo :  "O poeta escreve poesia para ser criança todo dia".  

A menção de nádegas cítricas me fez lembrar de um poema bem fraquinho de Drummond ¹, do qual praticamente ninguém fala, mas que acho bem divertido, em sua peculiaridade :

 

CHUPAR LARANJA 
 
A laranja, prazer dourado.
A laranja, prazer redondo.
A laranja, prazer fechado.
A laranja, prazer de faca.
 
Ou canivete. Cada golpe
anuncia: já se aproxima
o íntimo prazer da laranja,
que se dá sem sacrifício.
 
A laranja não se espedace,
para mais intenso prazer.
A laranja fique redonda,
mesmo sem casca, esfera nívea.

Então corte rápido a lâmina
um dos polos; a mão aperte,
e a boca sorverá, sensual,
a líquida alma da laranja.
 
Quem foi que, anônimo, inventou
o prazer de chupar laranja
em forma global de mamucha?
Gerações antigas sorriem
neste mestrado de volúpia.

 

Chupar laranja  integra  Boitempo,  conjunto de poemas de teor memorialista, ligados à meninice e a adolescência, publicado originalmente em 1968. Assim como vários dos textos ali reunidos, seus versos derivam da evocação de um ato simples, ligado à vida doméstica.

Durante muitos anos, eventual leitor(a), principalmente na infância, fiz pouca questão da laranja. Fruta trivial, da mesma categoria da banana e do mamão - todas sem qualquer mirabolância. Hoje, envelhecido, praguejo se não encontro alguma para saborear depois de um bom almoço em casa, sendo justamente a sua modéstia e despojamento o que passou a me agradar.

Levei um certo tempo para desenvolver a habilidade de descascar laranjas (só de lembrar os "machucados" que, no passar da lâmina, deixei em muitas delas, fico irritado, inclusive por uma questão estética, pois alcançar a "esfera nívea", quase homogênea, deveria ser o objetivo). Agora, com orgulho, posso arvorar-me um perito e, apesar da invencível desorganização e do caos permanente em minha moradia, guardo em local especial há anos uma faca jeitosa exclusivamente para o descascamento (por isso assimilo tão bem o verso "A laranja, prazer de faca"  ). 

O eu lírico presume que o  corte em "dois polos"  é o modo padrão de consumo da fruta. Entretanto, vê-se bastante mundo afora o  corte em xis ou cruz   (sem necessidade de tirar a casca, aliás) e até a  separação por gomos  (procedimento supérfluo e trabalhoso, devo dizer), tal qual uma tangerina que perdeu a vocação. A  "forma global de mamucha"  não é, portanto, planetária (a propósito, que palavra deliciosa é  mamucha , indisfarçavelmente mineira e com os dois pés no arcaico!).

Não recriminaria quem achasse insólito a laranja ser o tópico central de um poema (que não visava o público infantil) elaborado por um dos bambas da nossa poesia. Estranhamento parecido talvez se repita numa outra composição cujo tema principal, desta vez, é um fármaco ²:

 

NUM MONUMENTO À ASPIRINA
 
Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis de meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio dia. 
 
Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.


O autor, desta feita, é João Cabral de Melo Neto e o texto em questão é bem mais conhecido do que o anterior. Faz parte de  A educação pela pedra,  lançado em 1966.

Uma nota biográfica vem a calhar. O poeta pernambucano sofreu por décadas com uma enxaqueca crônica. Em entrevista, afirmou ter consumido, durante muitos anos, cerca de seis comprimidos de aspirina diariamente. O medicamento tornou-se parte da sua vida - uma homenagem, portanto, não soaria despropositada. Em se tratando da poética cabralina, contudo, não devemos esquecer como o autor gostava de tornar matéria de poesia aquilo que ordinariamente não é considerado poético, evitando vocábulos por demais polissêmicos, preterindo a abstração e valorizando a concretude. Frente a um comprimido de aspirina, pouco pode fazer o subjetivismo.

Para encerrar essa mirada de poemas, busquemos mais um de Melo Neto ³,  célebre, também extraído de  A educação pela pedra :

 

CATAR FEIJÃO
 
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
 
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que sempre entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá a frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


A quem ocorreria a comparação entre o prosaico ato de catar feijão e o ato de escrever (no caso, escrever literatura)? Está demonstrado que eles  se limitam  (ou seja, fazem fronteira um com o outro, são próximos embora não idênticos). Quem escreve distingue, precisa separar e depois suprimir "o leve e oco", a "palha e eco" - ou, às vezes, incorporar conscientemente a  pedra, indesejada no preparo do feijão, mas bem-vinda na escrita,  se esta atende a necessidade do artista de desafiar o leitor. Para João Cabral, o poema é sobretudo resultado de um empenho do pensar: o derramamento da inspiração é secundário na hora de compô-lo.

Esse é um dos textos cabralinos em que a sonoridade combinada das palavras contribui imensamente para sua beleza: "jogam-se os grãos na água do alguidar" ;  "e jogar fora o leve e oco, palha e eco" ;  "obstrui a leitura fluviante, flutual/ açula a atenção, isca-a com o risco".  Justamente num autor que,  aparentemente,  não dava muita bola para esses efeitos...

 

Na próxima postagem, continuarei no terreno do verso, falando do último livro de poemas de Affonso Romano de Sant'Anna que veio a público antes de seu falecimento.

_________________ 

¹ ANDRADE, Carlos Drummond de. Chupar laranja. In: ____________. Boitempo I. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 1998. p. 78-79 

² MELO NETO, João Cabral de. Num monumento à aspirina. In: ___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 32

³ MELO NETO, João Cabral de. Catar feijão. In:___________. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. p. 16-17  

BG de Hoje

Não tenho dados para confirmar, mas o Rio de Janeiro é provavelmente o município mais cantado do Brasil. É compreensível: além da antiguidade e da importância ao longo da história, muitos de seus moradores e visitantes frequentes amam de paixão aquele lugar (pessoalmente, tenho muita antipatia  pela  cidade maravilhosa  , além de muito pavor - opinião que não vale quase nada pois só estive por lá uma única vez,  num breve período). Rio 40 graus, composição de FERNANDA ABREU, FAUSTO FAWCETT e Laufer, lançada em 1992, é um breviário poético e musical da cidade como nenhum outro já feito, admiravelmente sintetizado na expressão "purgatório da beleza e do caos". 

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A apreciação do texto literário

 

Quando se usa a expressão  crítica literária  numa conversa em que filigranas conceituais podem ser deixadas de lado, qual é o entendimento desse termo? O que é, para que serve, como fazê-la?

Nessa conversa hipotética, pode-se dizer, sem rodeios, que crítica literária é a opinião de alguém, conhecedor(a) de literatura - assim se supõe -, sobre um (ou vários) texto(s) literário(s). 

Não acho uma definição das piores. É simples e compreensível. 

Prosseguindo o bate-papo, poder-se-ia acrescentar que essa opinião geralmente busca enfatizar o  valor  (isto é, supostas qualidades e méritos) do(s) texto(s) criticado(s) ou apontar seus supostos defeitos e falhas, se assim decidir a pessoa que assina/profere a crítica, pois, na maior parte das vezes, essa opinião é enunciada publicamente. Espera-se, portanto, que a crítica sirva como orientação, incentivo ou advertência para outros leitores.

Vamos complicar um pouquinho mais as coisas.

Por que deveríamos aceitar a legitimidade do indivíduo que faz a crítica? Por que a sua opinião deveria ser levada mais em conta do que outras? 

Como foi dito acima, presumem-se um conhecimento especializado ou um olhar de estudioso por parte da pessoa que faz a crítica. Atualmente, é muito provável que esse conhecimento ou esse olhar advenham de formações e cursos no âmbito universitário/acadêmico. Mas podem ser também o resultado da experiência acumulada em muitos e muitos anos de leituras particulares - um fecundo diletantismo, nesse caso. Bastante frequente, há ainda os escritores e as escritoras que, paralelamente a seu trabalho de criação artística, dedicam uma parte de seu tempo à análise de outras produções literárias (recentemente, para exemplificação, li um ensaio sensacional de Thomas Pynchon, publicado há cerca de 20 anos sobre o  1984,  de Orwell). De uma maneira ou de outra, não teríamos motivo para não atestar a competência da pessoa que faz a crítica nessas situações.

Por aí se percebe que há opiniões e opiniões, isto é, algumas delas seriam mais fundamentadas, teriam mais tutano, mais "sustança", do que outras.

Não faz muito tempo, estava lendo os textos de Umberto Eco reunidos em  A definição de arte.  Escritas entre o final dos anos 1950 e início da década ulterior, as reflexões, apesar do título do volume, voltam-se mais para a discussão de concepções estéticas do que para a formulação de um conceito cabal de arte (a noção de  obra aberta , fundamental dentro do pensamento do filósofo e escritor italiano, é uma dessas concepções). No ensaio  Notas sobre os limites da estética ¹, ele observa: 

" [...] a ação do crítico (entendido aqui como intérprete qualificado, como fruidor por excelência) consiste precisa e substancialmente em narrar uma experiência de compreensão, a experiência de um encontro em que jogam as tendências pessoais e a realidade objetiva da obra compostos num ato vital de interrogativas e confrontos, de adesões instintivas e carregadas de valor heurístico e de repulsas que devem ser avaliadas e revistas à luz dos passos já dados e dos elementos objetivos que temos diante de nós".

A pessoa que faz a crítica, por mais intelectualmente equipada que esteja, não deixará (na verdade, não pode deixar) de lado sua subjetividade ( tendências pessoais ) durante o "diagnóstico": sua apreciação ampla, seu esforço de entendimento a partir do objeto examinado (poema, conto, romance, etc., pois estamos falando de crítica literária nesse caso) dependem tanto daquilo que está de fato contido nos textos (os elementos objetivos ) quanto de seu repertório cultural e de suas inclinações particulares (em grande parte das vezes, são essas últimas que impulsionam a análise).

Para Eco, "a obra de arte constitui um fato comunicativo que pede que seja  interpretado  e, portanto, integrado, completado por um aporte do fruidor, aporte este que varia conforme os indivíduos e as situações históricas e que é constantemente medido em referência àquele parâmetro imutável que é a obra enquanto objeto físico".  Cabe dizer aqui (como fora enfatizado pelo autor italiano noutras oportunidades, em escritos posteriores) que existem limites para o alcance do olhar do fruidor. Por vezes, alguns intérpretes atribuem certos significados e traços a uma obra que não encontram sustentação em sua base material (no caso da literatura, essa base é o texto em si) e elementos paratextuais (como a biografia do/a escritor/a ou a observação do período histórico em que a obra foi gestada, por exemplo), que poderiam ser invocados em apoio, não dão conta de corroborar aquilo que está a ser a atribuído. Nem toda interpretação é válida: leituras muito afastadas (às vezes inteiramente desvinculadas) do objeto examinado em nada auxiliam na melhor compreensão deste, obviamente.

Assentindo com o filósofo Enzo Paci, Umberto Eco vai afirmar que "um crítico não diz dogmaticamente 'isto é belo - isto é feio', mas conta (com rigor e acuidade) a sua experiência de interpretação, pedindo a concordância de todos, fruidores mais ou menos qualificados, que enfrentam o mesmo esforço de compreensão". Antes, ele já havia escrito que "diante de uma obra de arte, o mais importante é um processo de interpretação: aquilo que importa é uma compreensão crítica, não um juízo de valor expresso em termos dogmáticos e simplistas".

É de se notar que o próprio Eco não foi exatamente um crítico literário. No texto que fecha o livro -  Um balanço metodológico ² -, ele declara : "Antes de definir minha dívida para com a crítica anglo-saxônica, devo precisar alguns pontos. Antes de tudo, não desenvolvo uma atividade crítica no sentido corrente do termo: burocraticamente falando, pertenço ao  genus  dos filósofos e dedico-me à estética". Sendo um estudioso dos modelos estruturais das várias poéticas, reconhece, contudo, que os resultados de parte de seu trabalho "podem ser utilizados como contribuição à compreensão crítica de uma obra ou de um autor". Ao final desse ensaio, o autor registra uma importante argumentação a respeito da necessidade de evitar as apreciações de caráter taxativo sem deixar, contudo, de se estabelecer um posicionamento diante da obra: 

"Minha definição da arte, como forma na qual os valores (o  antes  que está na origem da obra e o  depois  ao qual se dirige a obra) só se resolvem em estrutura e se tornam importantes na medida em que essa estrutura tenha valores próprios, prevê também que uma obra de arte pode transmitir um universo de valores que julgo negativos. Mas essa ordem que assumiram na forma artística poderá, por um lado, ajudar-me a estabelecer relação com eles na base de uma simpatia e de uma compreensão mais profundas. Por outro lado, é possível que diante da obra eu compreenda os valores que ela comunica e que, ainda assim, não aceite. Nesse caso, posso discutir uma obra no plano político e moral e posso rejeitá-la, contestá-la, justamente porque é uma obra de arte. Isso significa que a Arte não é o Absoluto, mas uma forma de atividade que estabelece uma relação dialética com as outras atividades, outros interesses, outros valores. Diante dela, na medida em que reconheço a obra como válida, posso operar minhas escolhas, eleger meus mestres. A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Cada um de nós, lendo uma obra literária, ainda que professe os critérios técnico-estruturais aqui expostos, deve e pode encontrar uma relação emocional e intelectual, descobrir uma visão do mundo e do homem. É justo que existam pessoas com a sensibilidade mais apurada que nos comuniquem as suas experiências de leitura que possam se tornar nossas também".

Começamos por uma definição simples do que seria a crítica literária ( a emissão de opiniões sobre obras literárias por parte de um conhededor ). Nessa altura da postagem, contudo, a partir das observações de Umberto Eco,  verificamos que o ofício consiste (ou pelo menos deveria consistir) em realizar, com o maior zelo possível, uma  interpretação  da criação artística que se está a observar, ultrapassando os comentários superficiais derivados de uma avaliação por demais terminante.

O tópico  literatura  sempre foi preponderante neste blog e nos outros dois que o antecederam. Mas nunca me dispus a escrever resenhas de livros, muito menos me atrevi a fazer crítica literária em nenhum deles. Assim sendo, que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance?

Antes de responder, gostaria de trazer para essa conversa um pequeno artigo de José Castello, publicado no jornal  Rascunho,  em agosto de 2011 ³ , cujo título é a indagação  A crítica literária existe?

Em seu texto, procurando designar a quem poderia caber a tarefa da crítica, Castello aponta uma distinção entre os teóricos da universidade, "que fazem percursos rigorosos, se submetem a leituras metódicas e se filiam a essa ou àquela nobre corrente de pensamento", e os resenhistas da imprensa (em sua maioria jornalistas de profissão), "igualmente respeitáveis, escrevendo desde a perspectiva da 'não-especialização'. Mais ensaístas do que teóricos", oferecendo textos mais informativos do que reflexivos. Ele não deixa de assinalar que alguns integrantes dos quadros acadêmicos por vezes escrevem na imprensa, em páginas eventualmente reservadas para tratar das produções literárias, mas os jornalistas, naturalmente, são a imensa maioria no setor. Diferentemente dos professores e pesquisadores universitários, os jornalistas (e ele faz parte desse segmento) "não temos compromisso algum com tradições teóricas, com sistemas, com conceitos. Escolhemos nossos livros estimulados pelas ofertas do mercado, pelas modas e ainda pelo apreço à surpresa; e não empurrados por esse ou aquele percurso intelectual".

O articulista se pergunta: no Brasil atual, teóricos da universidade e resenhistas da imprensa estão fazendo crítica literária? 

Sua resposta é não, pois, segundo ele (reconhecendo a vulnerabilidade de seu posicionamento), esse exercício deixou de existir.

Anteriormente em seu artigo, José Castello mencionara críticos importantes do passado (Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet, Wilson Martins) e desfecha: "Homens do século 20. Posso concluir: crítica literária, atividade do século 20 também". O trabalho de Antonio Candido também fora lembrado, como sendo o pioneiro no Brasil a levar a crítica literária, que era feita somente nos jornais (e, devido à ótica não-especializada do colunista de jornal, muitas vezes incorria num julgamento excessivamente apaixonado),  para dentro das salas das universidades. A partir da criação dos cursos específicos de Letras no país (aqui em Belo Horizonte, no ano de 1940, ainda dentro da Escola Livre de Filosofia e Ciências, mais tarde incorporada à instituição que se tornaria a UFMG), abre-se espaço para o surgimento de disciplinas afeitas à atuação do crítico.  Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés, Antonio Carlos Secchin são alguns dos exemplos de grandes teóricos e críticos literários egressos das faculdades de Letras citados no artigo, o que não é suficiente para Castello  consentir  com a adequação da expressão  crítica literária  como um termo pertinente para se referir "ao trabalho severo"   desenvolvido dentro do meio universitário relacionado à literatura.

E quanto à atuação de jornalistas, como ele, que escrevem sobre o assunto? No seu caso, o articulista diz narrar suas "impressões, [falar] dos pensamentos que a leitura despertou, das associações que [esta] motivou, dos livros que [esta o] levou a reler",  dentro das colunas que publica (na época desse artigo, ele escrevia no hoje extinto caderno Prosa & Verso, do Globo ). O trabalho resultante seria um gênero textual "híbrido - que nem é resenha, nem é teoria, tampouco é crítica literária também"  (Castello se descreve como um cronista).

Ele especula que a expressão  crítica literária  é atualmente empregada mais para intimidar do que propiciar acolhimento. E que isso talvez "desperte mais suspeitas do que confiança".  Seu texto termina assim:

"Declarar-se crítico literário é, quem sabe, pretender uma autoridade que, hoje, ninguém mais tem. Se o crítico não é um juiz que aprova ou desaprova, se ele não é um especialista em aferição de qualidades, se não é um severo inspetor de 'boa escrita', como eu penso que ele não é, o que sobra para o crítico? Sobra ser um leitor. Um leitor comum, para quem a paixão dá sempre a última palavra".

Levanta-se uma boa questão nesse artigo, mas não consigo concordar com ele. 

Admito não me lembrar agora de ninguém, na grande imprensa empresarial atual, que se destaque como crítico ou como resenhista (deve-se mencionar também que suplementos, seções especiais ou áreas destacadas nos sites abordando produções literárias são uma raridade hoje em dia nos grandes jornais brasileiros). Por seu turno, o "trabalho severo" dos teóricos universitários não costuma alcançar grande receptividade fora do ambiente acadêmico (por uma série de fatores, sobre os quais talvez valha a pena discutirmos noutra oportunidade). E acho que José Castelo está correto ao recusar a figura do crítico como um avaliador implacável, cravando etiquetas a torto e a direito.

Entretanto, a meu ver, a crítica literária não deixou de existir. Além disso, não sei se dá para denominar uma parcela importante das pessoas que se dedicam a esta atividade como  leitores comuns.

Preciso também fazer agora uma distinção (parecida com a de Castello) entre o que vou chamar de  comentários genéricos (sobre literatura) e  abordagem universitária (da literatura)  :  a diferenciação é apenas para facilitar aquilo que pretendo expor na sequência. 

Por comentários genéricos, entendo as (poucas) notas ou matérias publicadas na imprensa hegemônica  (no formato impresso ou na internet), em sua maioria assinadas por jornalistas, tratando de livros lançados recentemente ou recuperando escritos publicados há mais tempo (incluindo obras canônicas), geralmente com o objetivo de enaltecer ou (com menor ocorrência) detratar o(s) volume(s) em questão ou seus(suas) autores(as). Importante dizer que a internet, como não poderia deixar de ser, facilita muito a disseminação desse tipo de avaliação, sem que esta necessite estar atrelada a um veículo jornalístico: muitos dos vídeos feitos pelos chamados  booktubers  e  booktokers  (sendo estes e estas jornalistas ou não) também são exemplos desses comentários genéricos. O público-alvo de opiniões assim está buscando um ponto de vista mais direto para orientar suas escolhas (às vezes, querendo saber simplesmente se um tal ou qual livro seria  bom  ou  ruim  de acordo com o comentarista) ou apenas manter-se informado. Parte significativa do público considera e se refere a esses comentários como um tipo de crítica literária (e gosta de saber qual a nota ou a quantidade de estrelas que determinado livro recebeu).

A  abordagem acadêmica, como não poderia deixar de ser, segue os ritos da produção textual universitária, com a terminologia e o rigor próprios dos especialistas. Nesse enfoque, as obras literárias costumam suscitar  pesquisas : por essa e por outras razões, espera-se maior profundidade neste tipo de análise. Esses estudos aparecem em artigos publicados em periódicos vinculados a universidades e outras instituições de ensino superior (naturalmente, a depender do fôlego da investigação, aparecem também na forma de dissertações extensas ou teses). Não estou certo se o público em geral entende os textos da abordagem acadêmica como uma forma de crítica literária, uma vez que os critérios qualitativos nesse enfoque são expressos de forma diversa dos comentários genéricos e são pouco familiares para a maioria das pessoas.

É claro que essa divisão não dá conta de todas as iniciativas circulantes por aí cujo assunto seja a literatura. Há, entre outras, as crônicas, como as do próprio José Castello; dicas sucintas, como as que aparecem na sessão Favoritos, do jornal  Nexo ; coletâneas de ensaios (muitos deles tendo como autores professores e pesquisadores universitários); além de matérias, resenhas e  avaliações publicadas em veículos inteiramente dedicados à produção literária ou ao mundo livresco, como o já citado  Rascunho  e a revista  Quatro Cinco Um.

Recuperando a definição lá do início da postagem, a noção de crítica literária como apenas a emissão de uma opinião/avaliação sobre obras de literatura com o objetivo de apontar o que seria  bom  e o que seria  ruim, a meu ver, ainda está disseminada entre muitas pessoas. Em complemento, diversos indivíduos - alguns mais habilitados e treinados do que outros - continuam a se dispor a emitir essas opiniões, enquanto outros dedicam-se à tarefa da interpretação de obras literárias, sem pretender serem taxativos na avaliação, mas ainda assim emitindo um ponto de vista a respeito delas. A meu ver, sobretudo no caso dos que se empenham em realizar a melhor interpretação de que sejam capazes, existem pessoas produzindo crítica literária, em especial por meio da abordagem acadêmica.

A professora da UnB Regina Dalgastagnè, pesquisadora inserida no meio acadêmico e que, até onde sei, não rejeita ser identificada também como crítica literária, publicou um artigo em 2018 que acrescentará muito à nossa discussão. Na introdução de  A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial  ⁴ (disponível aqui), a autora vale-se da noção de  campo,  tal como definida por Pierre Bourdieu ( "um espaço estruturado e hierarquizado de disputas entre agentes que interiorizam um conjunto de práticas e interesses" ), para aplicá-la na literatura. Se assim for, 

"então é preciso reconhecer que o que está em jogo nesse campo é a possibilidade de consagração, que assume a forma do reconhecimento pelos pares. Escritores ou editores podem ser sensíveis a incentivos de mercado ou a outras vantagens materiais, mas, enquanto integrantes do campo literário, o que os move é a busca desse reconhecimento, que não é necessariamente o do grande público de leitores comuns. É o reconhecimento oferecido pelos demais integrantes do campo literário".

Os professores e pesquisadores universitários da área da literatura ocupariam, dentro desse campo, uma  "posição singular",  segundo Dalcastagnè. Escreve ela: "Envolvidos também em disputas por reconhecimento entre si, nós somos agentes importantes na legitimação de autores/as e obras, o que fazemos ao incluí-los no corpus de nossas disciplinas, ao orientar dissertações e teses e também ao dedicar a eles nosso esforço de pesquisa, que resulta em trabalhos apresentados em eventos acadêmicos, em livros e, especialmente, em artigos publicados em periódicos científicos".

Se a intervenção dos professores e pesquisadores consegue alterar o modo como olhamos para o cânone vigente (resgatando ou rejeitando autores/as e obras do passado), a análise da academia tem ainda mais impacto em relação ao que se publica contemporaneamente. "Para obras que ainda não possuem um lastro de crítica e camadas de interpretação acumuladas, a atenção oferecida pelos acadêmicos representa um capital importante",  afirma a autora.

O levantamento apresentado no artigo extraiu seus dados e informações de textos críticos/analíticos, abordando especialmente criações literárias brasileiras contemporâneas (dos anos 1970 em diante), que constam em nove periódicos acadêmicos nacionais classificados entre os de maior qualidade. 

Destacando alguns dos resultados: 

  • Constatou-se que a maioria dos textos críticos foram elaborados por mulheres, embora o número de escritoras analisadas seja bem menor que o dos escritores (nas referências bibliográficas para fundamentação teórica desses mesmos textos críticos, mulheres também são menos citadas do que homens).
  • Em termos de gênero textual, o romance é muito mais discutido do que o conto, poemas ou a crônica. A pesquisadora observa que  "no campo literário e mesmo no mercado editorial brasileiro das últimas décadas, o romance é considerado o gênero literário por excelência, quase que exigindo dos autores/as sua adesão para que possam ser, efetivamente, chamados de escritores/as". Não se deixou de notar a escassez de estudos críticos sobre literatura infantojuvenil entre pesquisadores da área de Letras, lacuna essa talvez resultante de um certo desprezo/preconceito, por parte dos estudiosos e também dos editores dos periódicos, em relação aos livros destinados a crianças e adolescentes.
  •  A grande maioria dos trabalhos foca em um(a) único(a) autor(a) ou em um único livro, ou seja, há bem menos estudos comparativos (que se valem de pelo menos dois autores ou de dois livros diferentes) e panorâmicos (que cobrem vários autores e livros na mesma empreitada).
  •  Os estudos enfocando somente o objeto (somente o texto da obra literária abordada), sem a incorporação de perspectivas sociológicas, antropológicas, históricas, filosóficas, psicanalíticas, etc. são minoritários.

Em sua conclusão, Regina Dalcastagnè lembra que o levantamento pede a complementação de outros e observa que muitos pesquisadores iniciantes, ingressando agora na etapa da pós-graduação e egressos de esferas sociais diversas, podem estar apontando outros rumos para a abordagem acadêmica, algo que o levantamento não conseguiu captar, pois os periódicos quase nunca publicam quem ainda não atingiu o pico da carreira universitária. Ela ainda acrescenta: "Também o catálogo de livros acadêmicos da área deveria ser observado. No Brasil, embora a avaliação de cursos  e currículos supervalorize a publicação de artigos em revistas mais bem conceituadas, é comum que estudantes e pesquisadores busquem suas referências principais nos livros, entendidos como espaço de consolidação de ideias"

O que não falta, portanto, é gente séria e perita na matéria, principalmente mulheres, fazendo crítica literária. E posso dizer agora, sem qualquer receio, que ela não é realizada por leitoras e leitores comuns.

Não estou, veja bem, alegando que os(as) críticos(as) literários(as)  - entenda-se, aqueles(as) vinculados(as) ao mundo universitário - são seres dotados de uma sabedoria inquestionável, acessível e destinada exclusivamente a eles/elas, restando a nós, os leitores incultos e apalermados, o silêncio somente. Estou dizendo é que as pessoas dedicadas à crítica adquiriram uma capacidade de observação e interpelação dos textos (graças a seu empenho e prática como estudiosos especializados, ressalte-se) que a maioria dos outros apreciadores de literatura (este blogueiro incluso) não conseguiu alcançar, pelos mais variados motivos.

Voltando à pergunta não respondida parágrafos acima: se não sou crítico literário, nem resenhista,  que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance ? 

Tento comunicar impressões de leitura.  É isso o que acontece apenas. Nesse ponto, creio (guardadas as devidas proporções) não diferir muito de José Castello e outros (não me incomodaria, vale dizer, ser visto também como um comentarista genérico de literatura ) . Seria um atrevimento sem tamanho pretender que essas comunicações inconsistentes e erráticas publicadas aqui (mesmo pondo sinceridade e entusiasmo em boa parte delas) possam equiparar-se a elaborados pareceres críticos.

Ao comunicar essas impressões, não recebo qualquer retorno. É bem desanimador, para ser franco. Mas, apesar de tudo, me sinto melhor quando escrevo uma postagem sobre um texto literário que me afeta de alguma forma. Se leio algo, quero falar sobre isso. E como é dificílimo para mim encontrar interlocutores, lanço aqui no blog. 

Tem valido a pena, apesar de tudo.

____________________ 

¹ ECO, Umberto. Notas sobre os limites da estética. In:___________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 49-62 [Tradução de Eliana Aguiar]

² ECO, Umberto. Um balanço metodológico. In: ____________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 266-272 [Tradução de Eliana Aguiar] 

³ CASTELLO, José. A crítica literária existe? Rascunho. Curitiba, ago. 2011. Disponível em <https://rascunho.com.br/colunistas/a-literatura-na-poltrona/a-critica-literaria-existe/>. Acesso em 11/08/2025. O artigo também fora publicado n'  O Globo,  jornal em que o autor era colunista.

⁴ DALCASTAGNÈ, Regina (2018). A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial. Estudos De Literatura Brasileira Contemporânea, (54), 195–209. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/10.1590/2316-40185411>. Acesso em 15/08/2025

BG de Hoje

Não parece ser uma escolha das mais brilhantes pegar uma canção conhecidíssima e reapresentá-la. Para além das comparações com a original, talvez exista uma saturação junto ao público, sobretudo quando se trata de um dos hits de uma banda lendária (no caso, os BEATLES). Entretanto, quando ouvi essa performance  stripped-down  de Eleanor Rigby,  adorei. E o jeito de cantar de dodie casou muito bem com a canção.

domingo, 31 de agosto de 2025

Um grande escritor popular se foi: Luis Fernando Verissimo (1936 - 2025)


Ser um escritor profissional popular e, ao mesmo tempo, estimado por aquela parcela de leitores considerados mais exigentes (identificada como  crítica literária ) não é algo comum no Brasil. Mas Luis Fernando Verissimo foi capaz de atingir esse patamar.

Embora não tenha sido tema de muitas postagens aqui no  Besta Quadrada,  leio o escritor gaúcho frequentemente e há muitos anos - como o fazem e vem fazendo milhares e milhares de outras pessoas.

Ele produziu romances e contos, é verdade, mas Verissimo foi mesmo perito num formato de escrita que lhe era muito próprio: o texto bastante curto (que não é bem uma crônica, gênero no qual se notabilizou, obviamente) mais próximo de pequenos recortes cênicos ou esquetes, com variados graus de humor (do mais pastelão ao quase surrealista), ambientados num apartamento, numa praça ou, sei lá, dentro de uma nave espacial, a depender da imaginação do escritor.

Ontem li algumas homenagens publicadas e gostei muito do que escreveu Frei Betto, dizendo:

"Não pensem que Verissimo era apenas um comediante com o manual de erudição debaixo do braço. Ele tinha a melancolia elegante dos humoristas de verdade. Sabia, como poucos, que a ironia é irmã da tristeza e, às vezes, o riso é apenas uma forma de dizer que não vale a pena chorar. Seu segredo era rir e fazer rir com poesia, zombar com delicadeza, atirar pedras com a mão enluvada".

Abaixo, o texto completo.


LUIS FERNANDO VERISSIMO, O ARTISTA QUE RETRATOU O BRASIL *

Frei Betto



Conheci Luis Fernando Verissimo na casa de seus pais, Mafalda e Érico Veríssimo, no arborizado bairro Petrópolis, em Porto Alegre, em 1974, ao sair da prisão. Fui agradecer a Érico as várias caixas repletas de livros enviadas por ele, a meu pedido, à biblioteca da penitenciária de Presidente Venceslau (SP), onde a ditadura me isolou, entre presos comuns, por quase dois anos.

Interessado em reler  
O Tempo e o Vento,  que se encontrava em poder de Pedro, vizinho à minha cela, passei semanas insistindo que terminasse de lê-lo. Um dia me confessou que protelava o repasse do livro porque havia gostado tanto que comprara grossos cadernos para copiar à mão cada volume da trilogia. Fiquei tão impactado que narrei o fato em carta ao Érico. Semanas depois ele fez chegar à penitenciária caixas contendo livros seus e de outros autores.

Costumava encontrar Lúcia e Luis Fernando em eventos literários, na casa deles em Porto Alegre e também no Recife, no apartamento de Leda Alves e Hermilo Borba Filho, onde o casal e eu nos hospedávamos em visita à capital pernambucana. Parecia que as conversas naquela sala, com vista para a praia de Boa Viagem, já viessem com direitos autorais, prontas para virar peça, conto, crônica, anedota de botequim ou até mesmo discurso de formatura.

Um fim de tarde, ao ser provocado sobre a política da época, Veríssimo disse algo tão simples e devastador que, até hoje, me parece uma síntese do Brasil:  
“O problema não é que estamos mal-governados. O problema é que estamos bem governados por quem não devia governar.”  Disse isso ao mexer o café, como quem fala sobre o tempo. E pronto, se calou.

Em qualquer ambiente Verissimo tinha a peculiaridade de estar presente e, ao mesmo tempo, parecer um personagem de si mesmo, recolhido ao silêncio, entretido com a sua subjetividade como se fosse um monge budista. Era como se tivesse sido inventado por Henfil, escrito por Millôr e retratado pelo traço de Chico Caruso.

Em meus lançamentos de livros no Rio, no “Esch Café”, no Leblon, Veríssimo se fazia presente em companhia de Chico Caruso e Jaguar. Na roda de amigos, lembrava o passageiro clandestino de um navio que, ao ser descoberto, não era expulso, e sim convidado para reger a orquestra. Escutava mais do que falava, e quando se pronunciava, vinha a frase curta, seca, tão exata que parecia ensaiada por séculos de reflexão.

Convidado a fazer palestras, Verissimo não discorria sobre o tema, preferia que o público o inquirisse. Assim, o caráter dialógico imprimia vivacidade ao evento. Em especial quando cessava o palavrear, retirava da caixa o saxofone e improvisava um show de jazz.

Veríssimo escrevia como quem bebe café sem açúcar, em gole rápido, quente, às vezes amargo, mas sempre pertinente. Seu humor político fugia a todos os parâmetros proselitistas. Ácido, contundente, tanto nos textos quanto nas charges vinha banhado de inteligência.

Era um cronista que não escrevia apenas sobre o Brasil; radiografava a condição humana. Seus personagens, como Ed Mort, detetive particular trapalhão; o Analista de Bagé; a Velhinha de Taubaté; as Cobras; a Família Brasil; e Dora Avante, expressam e espelham nossas facetas mais abscônditas e, ao mesmo tempo, ridículas e verdadeiras. Veríssimo era o gênio da banalidade, elogio superlativo a um artista que tocava muito mais que sete instrumentos - escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e romancista. Foi também publicitário e revisor de jornal.

Ele era o mais convincente dos disfarçados. Escrevia sobre um casal brigando pelo controle remoto e fazia parecer que narrava a Guerra de Troia. Descrevia um jantar insosso como quem pinta o teto da Capela Sistina. E fazia rir. Rir de verdade, rir de si mesmo, rir tanto a ponto de não sabermos por que estamos rindo. Em plena ditadura, no universo verissimiano rir não era uma opção estética, era uma forma de sobrevivência.

Veríssimo não precisava de grandes acontecimentos para escrever. Bastava-lhe um espirro, um engarrafamento, um pedaço de queijo esquecido na geladeira, e pronto, virava crônica. A genialidade estava em perceber que o cotidiano é um palco onde todos atuamos sem ensaio, e que o riso é o aplauso involuntário de quem reconhece a própria trapalhada.

Em seus lançamentos de livros, talvez os leitores tivessem vontade de, em vez de autógrafo, pedir a receita da felicidade em pílulas. Porque, no fundo, todos suspeitavam que ele escondia no bolso a fórmula simples de rir das desgraças antes que elas rissem de nós.

Não pensem que Verissimo era apenas um comediante com o manual de erudição debaixo do braço. Ele tinha a melancolia elegante dos humoristas de verdade. Sabia, como poucos, que a ironia é irmã da tristeza e, às vezes, o riso é apenas uma forma de dizer que não vale a pena chorar. Seu segredo era rir e fazer rir com poesia, zombar com delicadeza, atirar pedras com a mão enluvada.

E pensar que o encontrei tantas vezes e nunca lhe perguntei como conseguia manter tamanha leveza naquele corpanzil. Talvez a resposta fosse esta: aprenda a rir de si mesmo com a seriedade de quem sabe que a vida, se não for engraçada, não tem a menor graça.


* Este texto foi publicado na Folha de S. Paulo, em 30/08/2025, mas também está disponível no site de Frei Betto, no endereço: <https://www.freibetto.org/luis-fernando-verissimo-o-artista-que-retratou-o-brasil/>. Acesso em 31/08/2025

domingo, 24 de agosto de 2025

Falou e disse...


 "A ficção narrativa proporciona uma selva controlada, uma oportunidade de ser e de se tornar o Outro. O estrangeiro. Com empatia, clareza e o risco de uma autoinvestigação". *

 

 

* MORRISON, Toni. Narrar o outro. In: ________. A origem dos outros : seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 121 [Tradução de Fernanda Abreu]


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Ano 117 d. F (II)



Kidults. 

A primeira vez que vi essa palavra foi na capa de uma edição do (saudoso) caderno  Mais!  da Folha de S. Paulo, décadas atrás. Não cheguei a ler o texto principal, mas a perspectiva era crítica, acho eu, pelo que pude perceber no lead do artigo e nas ilustrações, demonstrando preocupação com o fenômeno dos  adultos-crianças.

Corta pra 2025. Entro no Google e a visão geral da IA do buscador me dá o seguinte resumo:
 

" 'Kidults' é um termo usado para descrever adultos cujos interesses ou atividades são frequentemente associados à infância, como colecionar brinquedos, jogar videogames ou assistir a desenhos animados. Esse fenômeno tem crescido e impactado diversos setores, como o mercado de brinquedos e jogos. 

O que são Kidults?

São adultos que mantêm interesses e atividades tradicionalmente consideradas infantis, como colecionar brinquedos, jogar videogames, assistir a desenhos animados ou filmes de super-heróis, e participar de eventos geek e de cultura pop.

A nostalgia desempenha um papel importante, com muitos kidults buscando reviver momentos felizes da infância através de itens colecionáveis ou atividades relacionadas.

O termo pode ser visto de duas formas: algumas fontes o usam para descrever adultos que agem de maneira infantil, evitando responsabilidades, enquanto outras o usam para descrever adultos que buscam ativamente manter a alegria e o lado lúdico da infância, usando esses interesses como forma de escapismo ou para trazer mais diversão para suas vidas".

Na sequência, menciona como esse comportamento influencia o consumo de determinados produtos.

Algum tempo atrás, assisti a esta esquete do Saturday Night Live  que me fez rir um bocado:

   

Tudo fica mais engraçado quando se lê os comentários do vídeo no Youtube, com um monte de perfis choramingando que a franquia Star Wars  agora é  woke  (e por isso ruim, na visão do comentarista), reclamando que a venda de brinquedos desse tipo caiu porque o verdadeiro fã está sendo desrespeitado pela Disney, etc., demonstrando que os adultos-crianças ficam nervosinhos com muita facilidade...

Fiquei sabendo que a empresa chinesa Pop Mart, fabricante dos bonecos Labubu, viu seus lucros subirem cerca de 200% de um ano para o outro. Tal como os bebês reborn (e assim foi anteriormente com os Funko Pops), uma porcentagem significativa do público interessado nos monstrinhos é de adultos. 

Sobre esse último ponto: Bebês reborn, Labubus, Funko Pops são (ou foram)  trends, usando a terminologia atual calcada nas mídias sociais. Quem não quer ficar de fora (e tem dinheiro pra gastar) segue. Um comportamento assim não seria possível sem o estabelecimento da sociedade de massa.  

Imersos na sociedade de massa (ou de massas) há tanto tempo, raramente tomamos real consciência das implicações psicossociais negativas desse tipo de existência transcorrida em meio a enormes agrupamentos de pessoas.

Nesta postagem, dando sequência à anterior, continuarei a tratar do livro  Admirável mundo novo, um texto que também buscou refletir sobre a sociedade de massa (entre outras coisas), concentrando-me numa das disfunções relacionadas a esse fenômeno: o consumismo.

. . . . . . .

No capítulo dezessete de Admirável mundo novo, Mustafá Mond, um dos poderosos Administradores do Estado Mundial (e meu personagem predileto na narrativa), diz o seguinte ¹: "Mas a civilização industrial somente é possível quando não há desprendimento. É necessário o gozo até os limites impostos pela higiene e pelas leis econômicas. Sem isso, as rodas cessariam de girar".

Convém dizer que os principais argumentos do livro (afinal, estamos falando de um romance com intento filosófico) estão mais claramente expostos no antepenúltimo e no penúltimo capítulos, por meio do sensacional diálogo entre John, o Selvagem, e Mustafá Mond. John repele um mundo que interdita as emoções autênticas, não deixa espaço para a liberdade individual, sufoca as expressões artísticas digamos "elevadas" (nesse caso, representadas pela obra de Shakespeare) e prescinde das religiões tais como as conhecemos. Mond, por sua vez, vai mostrar que não se precisa de nada disso para atingir os objetivos do Estado Mundial: a manutenção de um corpo social estável e feliz. Portanto, Deus, arte, indivíduos que pensam por si mesmos e emoções genuínas são coisas desnecessárias.

Pela maneira como o romance é construído, percebe-se que o narrador tenciona levar o leitor a endossar a exaltação do Selvagem e a se distanciar da fleuma utilitarista do Administrador. Aceitarei, por ora, esse arranjo. Voltemos, porém, à declaração de Mond: será mesmo que as engrenagens da civilização industrial deixariam de funcionar se a abnegação (uma outra palavra para  desprendimento) fosse amplamente disseminada?

Diversas foram as maneiras encontradas pelo Estado Mundial para assegurar que  todos amem a servidão. Uma delas é criar mecanismos para diminuir o intervalo de tempo entre "a consciência de um desejo e a sua satisfação", como diz o Administrador a um grupo de aprendizes no capítulo três. Ele está se referindo sobretudo às relações sexuais (com indisfarçável moralismo, as condutas sexuais chamadas de  promíscuas  no livro são a norma naquele futuro imaginado), mas o Estado Mundial também se ancora num modelo de vida orientado para o consumo permanente: em complementariedade, a divisão por castas e o condicionamento psicológico fazem com que cada indivíduo naquela sociedade aceite o seu quinhão sem reclamar. 

Pensemos agora no sistema econômico preponderante na atualidade. Não é difícil constatar o quanto nossa capacidade de gastar ou de adquirir produtos é uma das principais definidoras de nosso estar no mundo. Se há algo que irmana as pessoas no planeta é o fato de praticamente todos sermos consumidores, variando "apenas" o poder aquisitivo dos indivíduos. Muitos de nós valem-se do consumo como compensação emocional. Noutros casos, consumir torna-se uma meta em si mesma. Ter ou não acesso (pago) a determinados serviços, marcas, conteúdos, mercadorias e  lifestyles  determina nosso lugar social. Chegamos talvez a um ponto em que não sabemos mais como - ou se queremos - deixar de ser tais criaturinhas consumidoras. Estamos atolados nessa ordem socioeconômica (seria exagero dizer nessa  servidão?) e não se vê muitos esforços significativos para escaparmos dela. Como agravante, adultos infantilizados, por vezes resignada, noutras vezes prazerosamente engajados (como os colecionadores de brinquedo) nas ininterruptas cadeias de consumo são uma realidade já há bastante tempo. As rodas não param de girar. A diferença para o Estado Mundial é que não há castas e não sofremos o condicionamento psicológico mencionado no livro.

Hmm... Não falo das castas, mas há muito a se dizer sobre o condicionamento psicológico hoje em dia.

Huxley compôs seu texto no período entreguerras. A  propaganda  (em uma de suas acepções mais antigas, ou seja, o uso de técnicas de comunicação voltadas para a inculcar mensagens político-ideológicas) corria solta nessa época. Embora a hipnopedia não tenha se convertido em realidade e o poder do condicionamento pavloviano seja superdimensionado em Admirável mundo novo, o autor, contudo, não estava errado em indicar o quanto os seres humanos poderiam ser manipulados psicologicamente para agirem de acordo com propósitos determinados. Atualmente, sabe-se que cientistas e acadêmicos "emprestam" seus conhecimentos para grandes empresas, entre elas as chamadas Big Techs, com intuito de garantir que usuários/clientes destas ajam de tal ou qual modo, prevendo reações e estimulando atitudes específicas (o caso do Laboratório de Tecnologia Persuasiva de Stanford talvez seja o mais conhecido). Além disso, a ubíqua publicidade e o marketing contemporâneos são bastante sofisticados e eficientes quando se trata de gerar convencimento e aceitação do  status quo, sem falar que a propaganda passou a ser veiculada de diferentes maneiras, diluída noutras formas de narrativa, sendo uma delas o cinema (a poderosa indústria hollywoodiana faz o que sempre fez há quase  um século e não me deixa mentir). NOTA: Falei em  adultos infantilizados  e acaba de me ocorrer o seguinte: já reparou como as plataformas digitais e empresas de mídia - hoje, transnacionais - estão sempre tentando nos empurrar entretenimento goela abaixo?  Não menos importante, a educação formal e o trabalho, incapazes de promover real emancipação, também têm sua parte no "adestramento".

O panorama imaginado pelo escritor britânico, isto é, a consolidação de um gigantesco Estado dominador supranacional, olhando para o hoje, não se verifica. Pelo contrário, o imenso poder do capital financeiro em poucas mãos privadas e as megacorporações é que dão as cartas na maior parte do tempo. Entretanto, estamos apenas no ano 117 d. F (depois de Ford). O que poderá acontecer nos próximos 500 anos, uma vez que a história contada no romance se passa em 632 d. F (isto é, no ano 2540 do calendário gregoriano)?

. . . . . . .  

Gostaria de retomar um ponto mencionado, mas não desenvolvido acima. Afirmei que o leitor do Admirável mundo novo, graças à intercessão do narrador, inclina-se para o lado de John, o Selvagem, e não para o de Mustafá Mond. Em minhas últimas leituras, devo admitir, porém, que o ponto de vista do Administrador Mundial me parece cada vez menos estapafúrdio.

Vou reproduzir abaixo um trecho de que gosto muito:

"- [Diz John a Mustafá] Mas eu gosto dos inconvenientes.
- Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
- Em suma - disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja - retrucou o Selvagem em tom de desafio. - Eu reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
- Eu os reclamo todos - disse finalmente o Selvagem.
Mustafá Mond deu de ombros.
- À vontade - respondeu"

Nesse trecho, sempre me lembro que o Selvagem, mesmo rejeitando a conformação do Estado Mundial, não foi preso ou executado. Simplesmente escolheu viver como uma espécie de eremita num lugar desabitado (não muito distante de Londres, aliás), o que lhe foi permitido. Mesmo Bernard Marx e Helmholtz Watson, tidos como heréticos dissidentes, foram apenas banidos para locais onde encontrariam pessoas que pensavam como eles. 

Admirável mundo novo  descreve uma comunidade global em que praticamente tudo é controlado. Sem dúvida, um regime totalitário. Brutal, contudo? Não estou certo.

Isso vai soar inadvertido, eu sei, mas, pessoalmente, acho que a tão propalada liberdade individual perde muito do seu valor quando as pessoas se encontram cercadas por insegurança, insalubridade e miséria. Quer dizer então que valeria a pena sacrificar a liberdade em troca da estabilidade social? Se for para que o maior número possível de pessoas tenha acesso a uma vida mais igualitária e com menos privações materiais, talvez sim. NOTA: Apesar de repetir que todos os seres humanos são física e quimicamente iguais e ter no seu lema a ideia de uma concentração harmônica de pessoas, o Estado Mundial não é igualitário, uma vez que necessita das castas para existir.  Lamento revelar-me menos humanista e mais antidemocrático do que costumo me mostrar em várias das postagens já publicadas aqui, mas creio que seria pior fugir do questionamento do que cair no conceito do(a) eventual leitor(a).

____________________

¹HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014. [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano]. Todas as passagens do livro citadas nesta postagem foram extraídas dessa tradução.

 

BG de Hoje

Billy Gorgan disse, bastante tempo depois do lançamento do álbum Siamese Dream (1993), que a canção  Soma  foi composta após o término de uma relação amorosa particularmente importante para ele. O musicista também confirmou que o miraculoso remédio do Admirável mundo novo  inspirou o título (embora isso não esteja tão evidente na letra). De todo modo, achei bacana colocar essa faixa dos SMASHING PUMPKINS no BG de hoje, extraída de um dos discos mais marcantes dos anos 1990.

domingo, 27 de julho de 2025

Ano 117 d. F (I)

[ Atualizado em 28/07/2025 ] 

Talvez este não seja o melhor momento para voltar ao Admirável mundo novo. Digo isso porque as ciências não parecem estar gozando de um apreço significativo e generalizado nos últimos tempos (ou esse montão de gente por aí dizendo que a Terra é plana, dando de ombros para a emergência climática, consultando astrólogos e duvidando da eficácia da vacinação retrata uma história de sucesso em termos de letramento científico?). Os alertas contidos no livro de Aldous Huxley são melhor apreciados, penso eu, quando as proposições das ciências estão com crédito em alta. Numa época, entretanto, em que pessoas dão atenção (e dinheiro) a  coaches  "quânticos" (que ofertam, entre outras coisas, "alteração de células corporais através do pensamento, sentimentos, emoções e comportamentos", segundo um instituto voltado para essa "terapia"), a narrativa literária pode já não ter muito a oferecer como crítica aos excessos do cientificismo. 

Se não estiver contando errado, essa deve ser a 11ª (ou 12ª?) vez que percorro esse texto. É um dos volumes basilares na minha formação de leitor, mas admito que a satisfação de décadas atrás foi deixando de se repetir nas últimas leituras. Há uma emanação moralista e reacionária naquelas páginas que, hoje, não consigo mais aceitar como um problema menor da composição. 

Sendo assim, além da crítica ao cientificismo (e não à ciência, bem entendido), por qual outro motivo valeria a pena retornar mais uma vez ao célebre romance distópico publicado pela primeira vez em 1932?

. . . . . . .  

Apesar de algumas marcas óbvias - por exemplo, nomes de personagens (Bernard Marx, Helmholtz Watson, etc.), determinados episódios, como a cerimônia do Orgião-Espadão (Orgy-Porgy, no original, um trocadilho com a cantiga infantil inglesa Georgie Porgie ), além do próprio título -, levei muito tempo para me dar conta do quão longe chegava o conteúdo satírico na escrita do Admirável mundo novo (não é à toa que este blog se chama Besta Quadrada...). Huxley quis, deliberadamente, fazer troça com H. G. Wells e o otimismo dele em relação ao futuro da humanidade, manifestado em alguns de seus livros, principalmente  Deuses Humanos (algo que só muito tempo depois das primeiras leituras vim a saber). Creio que seria proveitoso dispor de algumas informações biográficas para compreender melhor tudo isso (sobretudo porque acho que Huxley deve ter achado graça em alguns momentos durante o processo de elaboração da obra), mas infelizmente não há como obtê-las no momento. Estou querendo dizer que a intenção satírica me leva a especular sobre a possibilidade de o escritor estar apenas se divertindo em algumas passagens.  De qualquer forma, trata-se de um romance de ideias, em que o autor certamente quer conduzir seu leitor para determinadas conclusões e, no todo, não estava brincando em serviço.

A amplitude de uma obra de ficção científica depende, em grande parte, do quanto suas "previsões" se mostram corretas. No prefácio ao livro publicado anos depois do lançamento, impactado pelo uso de bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial, o romancista admite que não deu atenção suficiente para o poder da fissão nuclear, embora essa não seja sua única falha em termos de imaginação do futuro. Por outro lado, com acerto, ele intuiu que o controle social conseguiria ser muito eficiente se empregasse técnicas e estratégias direcionadas para a pisque, valendo-se de tecnologia avançada, resultando em indivíduos que "amam a servidão". Mesmo assim, oportuno observar, o controle social em nossos dias ainda depende da violência e da coerção física em inúmeros casos, bem diferente do estável sistema de castas futurista (o Estado Mundial) apresentado no livro, no qual o descontentamento pode ser facilmente suprimido por meio de um fármaco. Nesse aspecto, a crítica que Huxley fez a George Orwell numa carta a respeito de  1984, afirmando que a política de  botina na cara  não parecia ter muito futuro no longo prazo, não se mostrou acertada, pelo menos até o presente momento histórico.

É fato que Huxley temia o totalitarismo. Por essa razão, muitos identificam no Admirável mundo novo tão somente uma condenação implacável direcionada ao fascismo (que, sabemos, desembocaria na monstruosidade de Hitler), bem como ao regime vigente no chamado  socialismo/comunismo real  de feitio soviético (o ficcionista britânico talvez preferisse o termo bolchevismo ), tendo Stálin no comando. Não digo que essa interpretação é equivocada. Uma análise um pouquinho mais atenta, contudo, permite-nos ver que não se trata apenas disso.

Observemos um excerto do capítulo três - uma das falas do Diretor do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres ¹:

"- É estranho [...], é estranho pensar que, mesmo no tempo de Nosso Ford, a maioria dos jogos não tivesse mais acessórios que uma ou duas bolas, alguns bastões e talvez um pedaço de rede. Imaginem que tolice permitir que as pessoas se dedicassem a jogos complicados que não contribuíam em nada para aumentar o consumo. Atualmente, os Administradores não aprovam nenhum jogo novo, salvo se demonstrar que ele necessita, pelo menos, de tantos acessórios quanto o mais complicado dos jogos existentes".

Aumentar o consumo... Referências à necessidade de consumir aparecem noutros momentos da narrativa. No capítulo onze, por exemplo, Linda - uma pessoa criada no Estado Mundial, mas que foi deixada para trás numa reserva formada por uma população à parte desta organização social -, mesmo após tantos anos de fora, não se livrou do condicionamento para o consumo. Diz ela em determinado momento "Além disso, nunca foi direito remendar roupa. É atirar fora quando estiverem estragadas e comprar novas. 'Quanto mais se remenda, menos se aproveita' [um ensinamento incutido por meio de sucessivas repetições através de um processo chamado hipnopedia]. Não é verdade? Remendar é antissocial".

O fenômeno da  sociedade de massa  inquietava muitos intelectuais na primeira metade do século passado, atraindo pensadores politicamente tão diferentes quanto Ortega Y Gasset e Adorno e Horkheimer (posteriormente, a partir dos anos 1950, a questão apareceria também na obra de Hannah Arendt). O autor de  Admirável mundo novo  também estava, a seu modo, refletindo e se questionando a esse respeito. Num mundo cada vez mais populoso, os conflitos serão ainda mais destrutivos? Haverá ocupações e lugar para todos? Como fica a questão da ordem, do exercício da autoridade e do poder? E o risco da anulação do indivíduo, cada vez mais indistinto no mundaréu de gente? Nesse cenário, como atender a liberdade de cada um? Como fica a questão da autonomia de pensamento, da criatividade pessoal e da inspiração artística? 

De acordo com a ficção de Huxley, a humanidade do futuro (gigantesca massa de pessoas) reforçará a segurança e a estabilidade em detrimento da independência de pensamento e da liberdade individual. O "detalhe" é que, para sustentar essa segurança e essa estabilidade, uma das condições deve ser o consumo contínuo, praticado por seres humanos infantilizados. É esse ponto - seres humanos infantilizados impelidos ao consumo constante - um dos poucos tópicos que fazem o livro aqui debatido uma criação ainda dialogante com os nossos tempos.

Concluo a discussão na próxima postagem.

 _______________ 

¹ HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014 [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano).

BG de Hoje

A frase "É pra isso que eu pago internet" não deve ser usada em vão. Dito isso, os Tiny Desk Concerts (da NPR norte-americana) estão entre aquele monte de iniciativas pelas quais agradecemos a existência da web. É tão bom poder ver artistas que se admira apresentando-se dentro do formato proposto ali, bastando uns poucos cliques e pressionar de teclas! Recentemente, a banda nova-iorquina LIVING COLOUR, uma das minhas prediletas em todos os tempos, apareceu por lá. Sensacional! Entre as canções tocadas, Love Rears Its Ugly Head  teve tudo a ver com o espaço, principalmente pela execução ainda mais  jazzy  do que a gravação original (a partir de 12m5s). 

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Felicidade, afinal, para quê?


Felicidade, afinal, para quê? Essa pergunta ficou na minha cabeça por muitas horas após terminar a leitura de A trégua.  A história do amor tardio ali contada (tardio pelo menos para uma das personagens) me chacoalhou um pouco, forçoso admitir, embora seu desfecho não fosse difícil de antecipar. Falaria sobre outra obra hoje, mas sinto que preciso me acertar com este livro de Mario Benedetti e com a emoção que senti. 

Publicado originalmente em 1960, o romance é construído a partir do diário de Martín Santomé, ser ficcional que enfeixa as características de um tipo de protagonista bastante frequente na literatura moderna, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, ligado à progressiva urbanização dos espaços: o sujeito sem qualquer excepcionalidade, um funcionário sem destaque, a mediania personificada, apenas mais um na multidão.

De olho na aposentadoria que se aproxima, Santomé, viúvo há bastante tempo, pai de três filhos já adultos, acaba se apaixonando por uma mulher muito mais jovem, Laura Avellaneda, empregada recém-contratada e subordinada a ele no escritório comercial onde ambos trabalham em Montevidéu.

Antes de abrir o livro, eu tinha dois motivos para me indispor com ele. Como já escrevi aqui e noutras postagens, não costumo apreciar histórias de amor. Além disso, acho a forma  diário  um expediente meio preguiçoso dos escritores ao construir uma narrativa literária (sou obrigado a aceitar,  contudo, que um de meus livros mais diletos - A náusea, de Sartre - foi feito nesse formato). A ficção apresentada como  diário,  porém, tem a vantagem de ser conduzida por uma voz narrativa em primeira pessoa propensa à sinceridade (aquela possível dentro uma história inventada, claro) e, em  A trégua,  assim como noutras composições similares, o mecanismo de identificação/afinidade entre narrador e leitor acaba se estabelecendo muito facilmente.

O protagonista é mordaz, mas nunca cruel ou isento de compaixão. Nem por isso deixa de mostrar-se um homem de seu tempo (chegando à meia-idade no intermédio do século passado), incapaz de emergir do machismo e da homofobia - a ironia é que tem um filho gay e, pela primeira vez, está aprendendo o valor do âmbito afetivo e sentimental de uma relação para além da crua atração física pela mulher amada.

Como seria de se esperar, é uma pessoa solitária, com uma vida desinteressante e banal, tendo como única atividade o trabalho - "essa espécie de constante martelar, ou de morfina, ou de gás tóxico" ¹. Antes de Avellaneda e ele começarem seu envolvimento (que o casal passa a chamar de  Assunto ), lê-se no diário a certa altura:

"Quase todos os domingos, almoço e janto sozinho, e inevitavelmente fico melancólico, 'O que fiz da minha vida?' é uma pergunta que soa a Gardel ou a Suplemento Feminino ou a artigo do  Reader's Digest. Hoje, domingo, sinto-me além do irrisório e posso me fazer perguntas desse tipo. Em minha história particular não se operaram mudanças irracionais, guinadas insólitas e repentinas".

Santomé sempre tivera "um leve mal-estar diante do pieguismo", mas não consegue deixar de se perguntar em determinado momento: "Por que será que o verdadeiro é sempre um pouco piegas?". Esse questionamento não é respondido: ele, entretanto, a cada dia, passa a compreender que não há como (e nem há necessidade de) fugir do sentimentalismo frente a essa paixão temporã, cuja verdade aceita: "Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Tenho  de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou".

Trata-se, como se vê, de uma época crucial na vida do personagem (e o leitor, quem sabe, pode estar também no mesmo barco):  

"Hoje, em vários momentos do dia, pensei: 'Cinquenta anos', e minha alma despencou até o chão. Fiquei diante do espelho e não pude evitar um pouco de piedade, um pouco de comiseração por este tipo enrugado, de olhos fatigados, que nunca chegou nem chegará a nada. O mais trágico não é ser medíocre, mas inconsciente dessa mediocridade; o mais trágico é ser medíocre e saber que se é assim e não se conformar com esse destino que, por outro lado (isso é o pior), é de rigorosa justiça".

A esse sujeito "meio apagado mas inteligente", sem mais expectativas do que o desencargo da pós-aposentadoria, foi dada nova chance de experimentar a felicidade: 

"Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivificante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma, que se chama lucidez, até as zonas mais intrincadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e, sobre as perguntas que ela me faz, eu me faço muitas mais, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido".
Nós, os desgostosos desse mundo, porém, estamos fartos de saber que a felicidade é um colossal engodo, quaisquer que sejam os modos como se queira enxergá-la ou defini-la. Não se tem muitas oportunidades de prová-la (no sentido de experenciá-la). A plenitude desse estado emocional, então, é algo ainda mais fortuito. Isso fica bem ilustrado num dos trechos memoráveis do romance:

"Fui até a cozinha, acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. Lá do quarto, ela me chamou. Levantara-se assim mesmo, embrulhada na manta, e estava junto à janela, vendo chover. Eu me aproximei, também olhei como chovia, e por alguns minutos não dissemos nada. De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia da cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura. Eu nunca havia sido tão plenamente feliz como naquele momento, mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo, pelo menos naquele grau, com aquela intensidade. O ápice é assim, claro que é assim. Além disso, tenho certeza de que o ápice é só um segundo, um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações".

Aprendemos rapidamente (nós, os desgostosos) a dispensar a felicidade, a não contar com a felicidade. Não é só pelo fato de que ela tende a durar pouquíssimo. É principalmente por que ela pode nos ser tomada a qualquer momento, sem alertas ou avisos prévios. 

Devemos continuar sem mais nada além de nossas rotinas incolores e vazias, às quais estamos tão acostumados. 

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¹ Todas as citações de A trégua aqui reproduzidas foram extraídas da edição publicada em 2007 pela Objetiva, com tradução de Joana Angelica D'Avila Melo.

 

BG de Hoje

Repito: histórias de amor não costumam me atrair. Ano retrasado, no entanto, numa das minhas (muitas) noites de insônia, decidi assistir à série Wolf Like Me (disponível no Amazon Prime). Não estava muito interessado, a princípio, mas fui sendo fisgado progressivamente. Resultado: adorei a primeira temporada (não tenho como avaliar a segunda porque ainda estou na metade). Embora o sobrenatural exerça papel essencial na trama, a série trata sobretudo dos laços que podem surgir entre um casal formado por indivíduos angustiados, após sofrerem perdas amorosas pesadas. É um tanto sentimentaloide? Sim. Mas deu certo como entretenimento. Além disso, a produção fez um ótimo trabalho na trilha sonora. O maior exemplo foi o uso de Fortress, uma das melhores canções do QUEENS OF THE STONE AGE em momentos significativos.