sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Fome



"A fome está sempre ali.
Como está ali, ela vem quando e como quer.
O princípio da causalidade é o trabalho ignóbil do Anjo da Fome.
Quando ele chega, chega com força".

Do personagem-narrador Leo Auberg, em Tudo o que tenho levo comigo, de Herta Müller


 
 
É possível conferir ao sofrimento um tratamento poético?

Não estou dizendo no momento mesmo em que se padece, é óbvio - mas retrospectivamente, quem sabe?

Quando lemos o romance Tudo o que tenho levo comigo ¹, de Herta Müller, somos convencidos de que a resposta é sim.

O livro tem como narrador o jovem Leo Auberg. Após o fim da 2ª Guerra Mundial, aos dezessete anos, ele foi levado para um campo de trabalho forçado na Ucrânia, junto com outras pessoas de ascendência alemã residentes na Romênia, como parte das obras de reconstrução exigidas pela então União Soviética (a mãe da escritora, aliás, enfrentara o mesmo tormento). Leo Auberg representa o poeta Oskar Pastior, amigo de Herta Müller.

"Em 2001" - anota ela no epílogo do romance - "comecei a registrar por escrito as conversas com pessoas do meu vilarejo que haviam sido deportadas [para campos de trabalho forçado na URSS]. Eu sabia que Oskar Pastior fora deportado e contei-lhe que queria escrever sobre isso. Ele quis ajudar-me com suas lembranças. Nós nos reuníamos com regularidade: ele falava e eu anotava. E logo surgiu o desejo de escrever o livro
juntos. 
Quando, em 2006, Oskar Pastior morreu repentinamente, eu tinha quatro cadernos repletos de anotações manuscritas, além de esboços para alguns capítulos. Depois de sua morte, fiquei como paralisada. A proximidade pessoal que as anotações propiciavam fez com que a perda se tornasse ainda maior. 
Somente depois de um ano, consegui obrigar-me a me despedir do 'nós' e escrever este romance sozinha. Porém, sem os detalhes de Oskar Pastior sobre o cotidiano no campo de trabalho, eu não teria conseguido fazê-lo"

Tudo o que tenho levo comigo é dividido em vários pequenos capítulos: alguns deles descrevendo episódios específicos, como se fossem contos. Do ponto de vista estilístico, salta aos olhos a prosa cheia de elementos líricos, mesmo retratando um ambiente tão opressivo e duro com um campo de trabalho forçado. Um exemplo? Atente para este trecho:

"Sempre tento convencer-me de que sou pouco sensível. Se levo algo a sério, afeta-me apenas moderadamente. Quase nunca choro. Não sou mais forte que os de olhos úmidos, e sim mais fraco. Eles se atrevem. Quando se é apenas pele e osso, os sentimentos são valentes. Prefiro ser covarde. A diferença é mínima, eu uso minha força para não chorar. E se me permito algum sentimento, transformo-o numa história que insista, seca, na ausência de nostalgia. Mas então se tornam apenas as castanhas imperiais e reais com cheiro de couro fresco, das quais meu avô me havia falado. Como marinheiro no porto de Pula, ele havia descascado e comido castanhas antes de partir para a volta ao mundo no veleiro Donau. Sendo assim, minha ausência de nostalgia passa a ser a nostalgia narrada pelo meu avô, com a qual domestico a nostalgia daqui. Ou seja, se tenho alguma vez um sentimento, trata-se de um aroma. O aroma-palavra da castanha ou do marinheiro. Com o tempo, o aroma-palavra torna-se surdo, como os feijões do Lommer da cítara [refere-se a um dos internos do campo de trabalho, que "lia" o futuro de acordo com a posição dos feijões após serem jogados]. Podemos transformar-nos num monstro quando deixamos de chorar. O que me impede, caso eu não o seja já faz tempo, não é muito; no máximo, a frase: Eu sei que você vai voltar [dita pela avó de Leo Auberg quando ele foi levado pelos soldados soviéticos]".

Durante quatro dos cinco anos passados no campo de trabalho a fome era ubíqua. Não era possível livrar-se dela; sua presença obsedante desumanizava suas vítimas:

"O que se pode dizer sobre a fome crônica. Pode-se dizer: existe uma fome que te deixa doente de fome. Que se soma, ainda mais fome, à fome que já se tinha. A fome sempre renovada, que cresce insaciável, e que salta para dentro da eterna e tão trabalhosamente amansada antiga fome. Como se anda pelo mundo quando não se tem nada mais a dizer sobre si mesmo, além do fato de estar com fome. Quando não se consegue pensar em mais nada. E o céu da boca é maior do que a cabeça: uma cúpula alta e sonora até o crânio. Quando a fome fica insuportável, ela se estende até o céu da boca como se tivesse colocado uma pele de coelho fresca para secar atrás do seu rosto. As faces murcham e se cobrem com uma pálida penugem".
(NOTA: O leitor deve estar atento: o uso do ponto de interrogação é raríssimo nos textos de Herta Müller. Isso já havia me despertado curiosidade quando li, no início deste ano, outro de seus livros - O compromisso)

As perguntas feitas por Leo Auberg são pungentes: Como se anda pelo mundo quando não se tem nada mais a dizer sobre si mesmo, além do fato de estar com fome? Quando não se consegue pensar em mais nada?

Muitos de nós, ainda que passemos por agruras ao longo da vida, certamente não experimentamos nada tão amargo quanto a fome (e pensar que, segundo a ONU, mais de 800 milhões de pessoas no mundo hoje mal conseguem arranjar o que comer...). É horrível também descobrir que, há apenas sete décadas, a privação de alimentos era empregada metodicamente, como forma de "reeducação" e controle.

Há um episódio dentro do romance de Müller que gostaria de destacar. Em O caso do crime do pão podemos ver como a fome age sobre as condutas.

Nesse capítulo somos apresentados a Fenja, um exemplo da burocracia soviética. "Nenhum de nós se interessava pela pessoa de Fenja", admite o narrador. "Mas todos estávamos entregues a ela, pois distribuía o pão. Ela era a senhora do pão, e nós comíamos da sua mão todos os dias".

A funcionária, meticulosa, nunca errava na quantidade das porções individuais diárias: "Lá estava ela, totalmente sozinha com a enorme faca atrás do balcão, em sua câmara branca, entre a balança de cozinha e o ábaco. Ela deveria conhecer as listas de cabeça. Sabia com exatidão quem deveria receber a ração de seiscentos gramas, quem a de oitocentos gramas e quem a de mil gramas". Segundo Leo, "Fenja não era boa nem má, ela não era uma pessoa, mas uma lei usando casacos de tricô".

Uma parte dos trabalhadores, durante o dia, tentava guardar parte da ração de pão debaixo do travesseiro para comê-la à noite, junto com a rala sopa de repolho que era invariavelmente servida. Era preciso "ser firme". A maioria faminta, entretanto, acabava por devorar toda a ração antes mesmo do meio-dia:

"Se eu não havia conseguido manter-me firme de manhã, à noite não existia nenhum resto de pão, nem mesmo algo para decidir. Eu enchia a colher somente pela metade, sorvia profundamente. Aprendera a comer devagar, a engolir saliva após cada colherada de sopa. O Anjo da Fome dizia:  A saliva prolonga a sopa, e ir dormir cedo encurta a fome".

Entretanto, o sinistro personagem, apesar do nome, nada tem de angelical: "Todo dia o Anjo da Fome me devorava o cérebro. E um dia ele ergueu a minha mão. E com essa mão estive a ponto de matar Karli Halmen - é o caso do crime do pão"

Esse rapaz, Karli Halmen, estava de folga durante o período diurno, sozinho no alojamento. À noite, quando Albert Gion, junto com os outros, voltou de seu turno e procurou pela parte da ração que havia guardado não a encontrou. Halmen foi agredido até que vomitou "uma massa de baba e pão".

"O desejo de matar" - nos conta Leo Auberg - "devorava-me a razão. Não só a mim, éramos uma matilha". O "ladrão do pão" foi espancado violentamente, chegaram a urinar em seu rosto, mas sobreviveu.

Ao fim do capítulo, lemos:

"O problema com o pão fora resolvido, todos agiam normalmente. Nunca acusamos Karli Halmen de roubo. Ele nunca nos censurou pelo castigo. Sabia que o havia merecido. O tribunal do pão não negocia: pune. A tolerância zero não conhece parágrafos, não precisa de leis. Ela existe porque o Anjo da Fome também é um ladrão, um ladrão que nos rouba o cérebro. O tribunal do pão não conhece preâmbulos ou perorações: vive apenas o momento presente. Totalmente transparente ou totalmente misterioso. De qualquer forma, a violência do tribunal do pão é diferente da violência sem fome. Não é possível apresentar-se diante dele com a moralidade de todos os dias"

Poucas coisas na vida devem ser tão ruins quanto passar dias e dias com fome.

__________
¹ MÜLLER, Herta. Tudo o que tenho levo comigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011 [Tradução de Carola Saavedra]

BG de Hoje

Em minha humilde (tá, vá lá, nem tão humilde) opinião, uma das melhores bandas de heavy metal da atualidade: a francesa GOJIRA (aqui com a faixa Silvera)

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Falou e disse...



"Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está mais fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência". *

* TIBURI, Marcia. O consumismo da linguagem. In: __________. Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro. 9 ed. Rio de Janeiro: Record. 2017. p. 134-135.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Estragado por dentro, só me resta votar. Domingo é 13!


Creio que já disse, nalguma postagem anterior, que considero Eliane Brum um dos grandes talentos do jornalismo atual. Suas colunas na edição brasileira do El País devem ser elencadas, sem nenhum exagero, entre os textos de maior qualidade da nossa imprensa. Neste período eleitoral, então, tornaram-se imprescindíveis para mim.

Numa das mais recentes - Como resistir em tempos brutos - , publicada no último dia 9, ela observou, com desgosto, que "Jair Bolsonaro, aquele que é chamado de 'coiso' nas redes sociais, ganhou esta eleição mesmo antes da votação no primeiro turno". Vitória,  nesse contexto, significa que a candidatura do PSL, mesmo tendo desprezado a discussão política, eclipsou todas as outras. As pautas reacionárias e obscurantistas de seu interesse, além de suas declarações odiosas, dominaram as conversas, tornando-se o tópico central de toda a campanha presidencial e deixando ocultos temas urgentes - como, por exemplo, combate ao desemprego, financiamento da saúde pública ou a possibilidade da implementação de reformas (entre elas, a previdenciária). ¹.

Os motivos para essa vitória nada têm de positivo: um deles me aflige particularmente:

"Jair Bolsonaro ganhou mesmo antes de ter ganhado um número expressivo de votos no primeiro turno" - escreve Eliane Brum - "porque conseguiu mergulhar uma parte das pessoas numa paralisia amedrontada, como se estivessem estragadas por dentro. Jamais se esqueçam que a primeira vitória da opressão é sobre a subjetividade. É o que faz uma mulher cotidianamente espancada ficar calada. Ou uma mulher estuprada não denunciar o estuprador. Há algo que a amarra por dentro. É como se perdesse a voz mesmo tendo voz, perdesse a força mesmo tendo força. Esse é o efeito de ser violentada ou violentado. Vi muita gente assim no final da campanha de primeiro turno, vivendo a campanha violenta de Bolsonaro e de seus apoiadores como uma violência sobre o próprio corpo, sobre sua mente e sobre seu espírito. Mulheres, principalmente, mas também homens".

É isso. Encontro-me "numa paralisia amedrontada", como se estivesse estragado por dentro. Não serei energúmeno a ponto de comparar meu estado de ânimo ao de uma mulher que foi espancada/estuprada, pois, na condição de homem, mesmo que venha a sofrer tais brutalidades, não seria capaz sequer de conceber toda a dor e o trauma vividos por mulheres que passaram por isso. Posso dizer, porém, que a violência da cruzada bolsonarista produziu mesmo um efeito inquietante sobre minha mente e sobre meu espírito. Há quem possa querer negar, mas não tenho dúvida de que a violência - efetivada ou em potência - foi a maior marca da campanha do deputado. (Isso gera consequências deletérias. Indivíduos que se julgam ou se sentem agindo em nome de Bolsonaro têm demonstrado conduta violenta, tanto verbal quanto física, inclusive dentro das polícias. Creio que isso se intensificará após 28 de outubro).

Na coluna citada, a autora faz um chamado ao leitor: apesar do cenário de desalento, "é preciso lutar neste segundo turno para o autoritarismo não se instalar no Brasil pelo voto, mais uma contradição da democracia". Pessoalmente, não acredito numa derrota eleitoral de Bolsonaro neste domingo e, mesmo que ela ocorra, a erupção do fascismo à brasileira, encampado pela burguesia predatória local, já tomou conta do cenário (o que pode, paradoxalmente, talvez dar um novo impulso à luta política no Brasil - conhecendo agora quão fascista parte significativa da sociedade brasileira é, tem que se pensar em estratégias de confrontação diferentes). Contudo, ao contrário de mim, que já desisti da peleja, Eliane Brum ainda não esmoreceu: "Mas não podemos permitir que nossos dias sejam devorados, porque, no banquete dos perversos, nossas almas é que são comidas. Há que se resistir ao devoramento das almas"

Ah, e antes que venha a (surrada, oca e repetitiva) acusação "ela-deve-ser-uma-petralha-de-carteirinha!", atenção para este outro trecho:

"Uma parte [dos eleitores que são avessos ao PT], na qual me incluo, terá que segurar o estômago para votar num partido que reeditou o projeto da ditadura civil-militar na Amazônia, reduzindo a floresta a objeto de exploração, evidenciado nas grandes hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio, e na expulsão dos povos da floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo, terá que tampar o nariz para votar num partido que assinou a lei antiterrorismo e que usou a Força Nacional para perseguir e reprimir manifestantes e trabalhadores nas cidades e na floresta. Uma parte, na qual eu também me incluo, terá pesadelos para votar num partido que até hoje não se manifestou contra a ditadura assassina de Nicolás Maduro na Venezuela (Nem isso, PT, nem isso...). Uma parte, na qual eu também me incluo, sofrerá para votar num partido que consumiu os esforços de pelo menos duas gerações de brasileiros com a promessa de que seria diferente dos outros e, como os outros, se corrompeu no poder e se aliou ao que havia de mais nefasto na política nacional. E sofrerá também porque o PT fez tudo isso e nenhuma autocrítica. Nem uma autocrítica bem pequenina, uma autocriticazinha. Nada que mereça esse nome"

Atente, porém, também para o complemento:

"Mas uma parte, na qual de jeito nenhum eu me incluo, usa o ódio contra o PT para justificar o injustificável. É um truque. E esse truque precisa ser desmascarado. Se você votou e votará em Bolsonaro, não é porque é contra a corrupção. Havia outros candidatos que não eram suspeitos de corrupção e você não votou neles no primeiro turno. Você votou em Bolsonaro porque compartilha de suas ideias e compartilha do seu ódio. E se você compartilha com quem afirma o que ele afirma - ser contra negros, contra mulheres, contra LGBTQ, contra indígenas, contra camponeses e a favor das armas e do autoritarismo e da tortura e do atirar para matar - então é isso que você defende. E, principalmente, é esse tipo de pessoa que você é"

(Em casos extremos, hoje comuns, o antipetismo leva a crenças absurdas. Para compreender melhor o fenômeno, sugiro a leitura do artigo A estigmatização do PT e o irracionalismo na eleição, de Cláudio Couto, cientista político e professor da FGV, publicado no Nexo Jornal)

Tenho visto uma hashtag circular no Twitter: #OBrasilÉMelhorQueOBolsonaro. 

Não é não.

Finalmente estamos caindo na real e constatando que a imagem do "brasileiro boa praça", vendida para os turistas, nunca passou de um tremendo conto do vigário. Há por aqui uma quantidade imensa de pessoas integralmente adeptas do emprego da violência para a resolução de todo e qualquer conflito e outro tanto de indivíduos movidos por um ódio primitivo. Todos eles sentem-se plenamente representados - e pior, legitimados - neste momento.

Algumas personalidades que respeito e admiro - como o rapper Emicida, por exemplo - têm ponderado, com razão, que nem todos os eleitores de Bolsonaro são fascistas ou proto-fascistas. Muitos deles, sobretudo entre os mais pobres, fazem essa opção por estarem completamente desiludidos com o establishment político. Desassistidos pelo Estado, procuram pela candidatura que lhes pareça mais antissistêmica. Sem mencionar os convencidos (ou seria manipulados?) por pastores e outros representantes religiosos. Há também aquele eleitor, como escreve Eliane Brum, que está "muito furioso e muito triste com o país e votou com raiva, votou como quando dá aquela vontade de quebrar tudo e ver o circo pegar fogo". 

Tudo isso é verdade. É pena que não há mais tempo para conversar com esses eleitores. E, para ser franco, nem sei se adiantaria alguma coisa.

Por falar em argumentar com eleitores, lembrei de outro excepcional texto de Eliane Brum, Bolsonaro e a autoverdade, publicado em julho deste ano.

"Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre" - escreve ela -, "que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade" [Segundo a autora, a autoverdade é "a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo 'dizer tudo' da internet", acrescentando que "o valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos"]

A exposição de evidências, as alegações fundamentadas, até a racionalidade, em certa medida, tornaram-se completamente irrelevantes nesta eleição. Um dos motivos para eu estar estragado por dentro vem disso: não é possível argumentar com a quase totalidade dos eleitores de Bolsonaro, muito menos com seu fandom raivoso e cheio de testosterona. Eles só querem aceitar e só vão acreditar naquilo que favoreça seu candidato. Todo o resto é fake news. Tem mais, porém: todas as falas do deputado - pejadas de racismo, homofobia, apologia à tortura, ameaça ao estado democrático de direito, misoginia, etc - são percebidas, por seus eleitores, como "apenas brincadeira" ou exemplo de que ele é "autêntico".

Mas mesmo com tudo o que foi dito até agora, nem é a figura individual de Jair Bolsonaro, com sua canalhice intrínseca, o que mais me causa desespero e apreensão. São os esteios que o sustentarão no poder.

. . . . . . . 

Há alguns meses, o jornalista e ensaísta Francisco Bosco escreveu um ótimo artigo para o caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo ².

Intitulado O mês que não terminou, o texto procura apontar o "legado" das chamadas "Jornadas de Junho". Bosco considera que

"o sentido geral de junho de 2013 era a revolta acumulada contra a tendência progressivamente privatista da democracia liberal (tiveram o mesmo sentido o Occupy Wall Street, em Nova York, e os Indignados, em Madri), que comprimia  cada vez mais o espaço do comum, e contra um sistema institucional endógeno, blindado, que asfixiava a participação política, reduzindo ao mínimo possível sua intensidade [...] Não era só por 20 centavos. Estava em jogo o poder empresarial submetendo o poder público e o interesse dos cidadãos; um péssimo serviço a preço alto; péssimas condições de circulação. Estava em jogo, em suma, o direito à cidade".

Lembro-me de que olhei com entusiasmo toda aquela agitação (o articulista assim também o fez) e "muitos apostaram nessa movimentação social como a esperança para pressionar, furar ou renovar a política institucional". Após junho de 2013, diversos grupos de esquerda (Muitas, Bancada Ativista, entre outros) e de direita (Vem pra Rua, Novo, entre outros) buscaram representação legislativa. Bosco observa que "apesar das diferenças ideológicas - e, pelo menos no caso do MBL, das estratégias baixas -, são todos sintomas da formação de uma nova cultura política, com o objetivo comum de transformar o sistema político institucional"

Mas os ventos esperançosos das "Jornadas de Junho", passados cinco anos, dissiparam-se quase sem vestígio.

Para Francisco Bosco (e eu concordo com ele),

"O gigante rapidamente foi se revelando menos progressista do que reacionário. Menos esclarecido do que irracional. Menos espontâneo do que titerizado por setores poderosos. Por fim, menos democrático do que autoritário. 
Junho de 2013 foi uma montanha que pariu um pato - e uma récua de cavalgaduras. Chega a quase dar saudade daquelas figuras de direita da Veja e até do delírio paranoico de Olavo de Carvalho, inofensivo perto da regressão em massa dos infantilizados adoradores de Bolsonaro"

Vivi, ainda criança, o governo Figueiredo, o último da ditadura militar, do qual tenho nítidas memórias (desagradáveis muitas delas). Passei perrengue, junto com minha família, durante o desastroso governo Sarney e sua hiperinflação. Estudante secundarista, participei de alguns protestos contra Collor. Não fiquei satisfeito com o conjunto da obra, mas reconheço avanços durante os mandatos de FHC, mesmo sem nunca ter votado nele. Tenho sido eleitor do PSOL desde 2006, mas votei em Lula antes (quatro vezes), por me identificar, naquela época, com o programa de seu partido. Desde então, só digitei o número do PT na urna eletrônica nos segundos turnos, porque considerava  seu adversário, o PSDB, uma alternativa ruim (e considero até hoje).

Aprendi algumas coisas nesse tempo todo.

E após o desanimador resultado das "Jornadas de Junho", é muito difícil olhar o Brasil com confiança.

Chegamos a 2018. O que temos?

De um lado, mais uma vez o PT, representado agora por Fernando Haddad. O partido, todos sabemos, tem muito o que explicar, desde o Mensalão. Mas seria desonesto da minha parte não admitir que políticas públicas implementadas nos mandatos de Lula e Dilma - algumas bem sucedidas, como o Bolsa Família - tinham como objetivo mitigar a indecente desigualdade social brasileira. E, com todos os seus defeitos, o PT, desde a sua fundação, tem jogado o jogo democrático.

Do outro lado, está um sujeito desequilibrado e que já deu mostras exaustivas de que o autoritarismo não o repugna, muito pelo contrário. E quando vemos que os financistas do mercado, os picaretas travestidos de líderes evangélicos, os tubarões do agronegócio desmatador e empresários inescrupulosos apoiam com euforia a sua candidatura, prevendo ganhos e lucros futuros, não tenho muita dúvida do que fazer.

No próximo domingo, voto em Fernando Haddad. Voto 13!

Não tenho mais ilusões quanto a eleições e democracia representativa ³. Como escreveu o historiador e cientista político camaronês Achille Mbembe (A era do humanismo está terminando), "a democracia liberal não é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro" e, nesse duelo, já sabemos quem será sacrificada. A transformação da política em apenas mais um braço do mercado é visível. A política, como espaço de disputa e também de negociação, poderá (e acho mesmo que será) eliminada em breve pela voracidade do capitalismo financeiro. Quais as alternativas para evitar isso (se é que existem)?

Uma delas é a ação direta. Ir para as ruas e lutar. Mas não só protestar. Lutar mesmo, no real sentido da palavra. Porque o poder econômico, como todo poder, não deseja contestação. Reagirá. E sua reação, garanto, será feroz. O Estado pouco ou nada pode fazer; na maioria das nações, aliás, o Estado está a serviço do poder econômico, inclusive (e principalmente) suas forças de repressão. Como não tenho a coragem necessária para a luta real, tento a outra alternativa.

Que é continuar escolhendo representantes políticos (sempre democraticamente, mesmo reconhecendo as falhas da democracia representativa), acreditando que, se estes não conseguem frear o poder econômico, podem ao menos tentar aliviar um pouco as consequências nefastas das ações de financistas, banqueiros e megacorporações, sobretudo para as parcelas mais pobres da sociedade.

É provável que um hipotético governo Haddad pouco possa fazer para contrapor-se ao poder econômico. Contudo, não tenho dúvida de que um hipotético governo Bolsonaro é o sonho dos canalhas endinheirados, loucos para que bobagens (estou sendo irônico, viu?) como direitos humanos, direitos trabalhistas, garantias constitucionais, auditorias, fiscalizações ambientais caiam por terra e possibilitem maior lucro.

Claro, posso estar completamente equivocado e o apologista da tortura pode fazer um bom governo, mostrar-se à altura do cargo e nem recorrer ao autoritarismo e a violência sistematizada. Porém, acho isso altamente improvável. O consórcio que tentará sustentá-lo - agronegócio, sistema financeiro, setores rapaces do empresariado, parte da mídia corporativa - não está disposto a ceder um centímetro de terreno, sobretudo após o bem sucedido golpe parlamentar-judicial de 2016. E o deputado do PSL é o cara certo pra completar o serviço.

Há um último ponto que quero abordar.

Uma característica dos governos autoritários é limitar e mesmo reprimir a exteriorização de opiniões contrárias a eles.

Sei que sou um ninguém, mas é também característica dos governos autoritários criar ou incentivar a criação de uma rede de delatores, dispostos a vigiar e denunciar pessoas com opiniões contrárias ao governo autoritário, que podem acionar seus próprios meios de repressão ou deixar isso a cargo de milícias ou grupos de valentões não-oficiais.

Corro risco? "O medo, o medo daquela ridícula Regina, me tomou", como desabafou o escritor e artista plástico Nuno Ramos.


No próximo domingo, voto em Fernando Haddad. Voto 13!

__________
¹ Para sermos honestos, se recuarmos até 2014, veremos que aquela campanha foi também pobremente propositiva, além de excessivamente agressiva, tanto do lado do PT (lembram-se como foi feita a "desconstrução" de Marina Silva pela militância petista?), quanto do lado do PSDB. Ainda assim, a deste ano apresenta um nível de baixeza quase inacreditável da parte bolsonarista.

² BOSCO, Franciso. O mês que não terminou. Folha de S. Paulo, São Paulo, 3 jun. 2018. Caderno Ilustríssima, p. 4-5

³  Por favor, não se entenda com isso que me oponho à democracia. Defendo a democracia. Aponto apenas que a democracia representativa tem seus limites, É hora de começarmos a implementar a democracia direta, com mais plebiscitos e referendos, além de favorecer a criação de conselhos populares, dando a estes poder de deliberação.

BG de Hoje

Apesar de gostar de ambos, devo dizer que o primeiro disco da banda potiguar, radicada em São Paulo, FAR FROM ALASKA (Mode Human, lançado em 2014) tem um som mais pesado (e mais do meu agrado) do que o segundo (Unlikely, de 2017). Um exemplo é a ótima faixa Dino vs Dino.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Anti-intelectualismo e o vozerio dentro deste bar


"Em meio à onda anti-intelectualista, não causa surpresa que a lógica do pensamento passa a trabalhar com categorias pré-modernas como o 'messianismo' e a 'peste'. O messianismo identifica-se com a construção de heróis e salvadores da pátria (seres diferenciados, bravos e destemidos, mas que não são necessariamente cultos ou inteligentes, nem corajosos, mas usam uma performance política em que gritar e esbravejar provocam efeitos populistas). A lógica da peste identifica cada um dos problemas brasileiros como um mal indeterminado, em sua extensão, em suas formas e em suas causas, mas tangível e mortal, contra o qual só Deus ou pessoas iluminadas podem resolver. Só há 'messianismo' e 'peste', fenômenos típicos de um conservadorismo carente de reflexão, onde desaparece o saber e a educação".


Marcia Tiburi e Rubens Casara - Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo



Uma das frases mais famosas de Jean-Jacques Rousseau é "prefiro ser um homem de paradoxos que um homem de preconceitos". Tenho que admitir: a máxima tem lá seu charme. Porém, quando olhada de pertinho... Pois para demonstrar um paradoxo, Rousseau, a meu ver, lançou mão de um preconceito no seu Discurso sobre as ciências e as artes.

Tentarei esclarecer isso logo, logo. No momento, contudo, gostaria de dividir com o(a) eventual leitor(a) a birra que me dá um certo cacoete hermenêutico, manifestado por um considerável número de comentadores e estudiosos, diante de textos filosóficos.

Pego para ler Obra aberta, de Umberto Eco, e A escritura e a diferença, de Jacques Derrida, por exemplo. Consigo compreender satisfatoriamente o primeiro livro; não entendo bulhufas do segundo. Derrida praticava uma escrita desnecessariamente hermética; Eco, não. Seja como for, se interpreto determinada sentença do pensador italiano seguindo diretamente o que está escrito - sentença esta bastante precisa, sintática e semanticamente -, corro o risco de topar com alguém que me advertirá: "Não foi isso que ele quis dizer". Como assim? Está lá escrito, qualquer um pode entender! Por outro lado, se tal situação acontecesse quando me arriscasse a decifrar algo produzido por uma figura como Derrida, eu aceitaria de bom grado a admoestação. Até agradeceria, se logo em seguida viesse a ajuda para sacar o que o filósofo franco-argelino está argumentando naquele seu aranzel.

Eis o busílis:

  • Muitas vezes, o filósofo não está interessado em complicar e só quis dizer aquilo mesmo que está lá no seu texto (sem mistério nenhum, sem nada de enigmático). Não é preciso uma super capacidade exegética para entender o sentido do que foi escrito.  (Isso vale para os autores que prezam a clareza do texto, não os Derridas da vida)
  • Todavia, muitas vezes também - porque se admira aquele pensador ou porque algumas de suas ideias são caras ao comentarista/estudioso -, toma-se um cuidado excessivo para "protegê-lo" das "más interpretações", não raro atribuindo maior profundidade ou complexidade a perspectivas do autor que nada têm de profundas ou complexas (e, olha lá, não estou afirmando que só tem valor o que é profundo e complexo...)

Veja o caso de Jean-Jacques Rousseau.

Está sempre cercado de "protetores" por ter sido um grande defensor da igualdade e, principalmente, da liberdade. É uma peça-chave na história do pensamento político ocidental e todos reconhecemos isso. Mas tem sempre alguém da turma do "não-foi-isso-o-que-ele-quis-dizer" para "corrigir" interpretações "erradas" das suas palavras, mesmo quando o sentido delas é cristalino.


Bem, para este blogueiro, é gritante a visão anti-intelectualista do escritor genebrino, sobretudo em seu primeiro grande trabalho, o Discurso sobre as ciências e as artes. Como o tema central da postagem de hoje é justamente o anti-intelectualismo, falar um pouquinho desse texto (elaborado em 1749) vale a pena. E se a maneira como julgo Rousseau é resultado de "má interpretação" de suas palavras, paciência.

Antes de mais nada, convém darmos uma definição de anti-intelectualismo. NOTA: Talvez fosse oportuno distinguir irracionalismo, anti-racionalismo e anti-intelectualismo; contudo, a tarefa tornaria a postagem muito longa (meus escritos já são habitualmente beeem compridos) e tiraria a ênfase que quero dar à atmosfera anti-intelectual na qual estamos imersos atualmente. Assim que possível, publicarei no blog um texto cujo único objetivo será fazer a distinção desses termos.

Utilizemos uma conceituação bem simples, disponível no verbete da Wikipédia:

"Anti-intelectualismo descreve um sentimento de hostilidade em relação a, ou suspeição de, intelectuais e seus objetos de pesquisa. Isto pode ser expresso de várias formas, tais como ataques aos méritos da ciência, educação, arte e literatura" 

Eu acrescentaria que a aversão se estende aos resultados da atividade intelectual, como por exemplo, livros, artigos científicos, programas de ensino, espetáculos musicais ou teatrais, obras de arte, etc.

"Entre as suas motivações mais comuns" - continua o verbete -, "podemos enumerar: ressentimento de pessoas pouco instruídas contra eruditos; hostilidade em relação ao trabalho realizado pelos intelectuais, como educação, pesquisa, crítica social e cultural, literatura; acusação de parasitismo social (os intelectuais não teriam uma 'função' econômica na sociedade, sendo esta última compreendida, portanto, de maneira organicista); acusações de subversão e morbidez".

Penso que o anti-intelectualismo tornou-se um forte traço de nossa época, não obstante os índices de escolaridade atuais, os mais altos da história. No Brasil, nesse gravíssimo momento de tensão política, as posturas anti-intelectuais são algo patente. Mas o anti-intelectualismo não é um evento novo. Periodicamente, o estatuto do intelectual e seu papel dentro da sociedade são alvo de ataque. Não é preciso recuar muito no tempo. Olhando apenas para o século passado, sabemos que a caça às bruxas macarthista, realizada nos EUA no início da Guerra Fria, não poupou escritores e outros artistas, perseguidos com a desculpa de que "promoviam o comunismo". Notaremos também que muitos estudantes, após o Maio de 68, passaram a repudiar o saber teórico, visto por eles como inerentemente conservador e submisso ao poder. Ao anti-intelectualismo, acorreram, de tempos em tempos, tanto a direita quanto a esquerda. Entretanto, o fenômeno se torna particularmente funesto quando o identificamos como um dos elementos constituintes de influxos políticos de viés autoritário (e até mesmo totalitário). Convém lembrar que o fascismo e sua variante, o nazismo, eram fortemente anti-intelectualistas, assim como o stalinismo e (em parte) o maoismo.

Na definição da Wikipédia reproduzida acima, vimos que uma das acusações dirigidas aos intelectuais por parte de seus detratores é considerá-los parasitas da sociedade. A esse respeito, atentemos para esta passagem localizada na segunda parte do Discurso sobre as ciências e as artes ¹:

"Se nossas ciências são inúteis no objeto que se propõem [o encontro da verdade, de acordo com Rousseau], são ainda mais perigosas pelos efeitos que produzem. Nascidas da ociosidade, por seu turno a nutrem, e a irreparável perda de tempo é o primeiro prejuízo que determinam forçosamente na sociedade. Na política, como na moral, é um grande mal não se fazer de algum modo o bem e todo cidadão inútil pode ser considerado um homem pernicioso. [A seguir, Rousseau faz uma série de alusões a alguns pensadores e homens de ciência, entre estes Newton e Leibniz - importante notar que, no século XVIII, filosofia e ciência não eram ainda reconhecidos como ramos distintos do conhecimento e o termo filósofo designava também o que hoje chamamos de cientista] Respondei-me, pois, filósofos ilustres, vós por intermédio de quem sabemos por que razões os corpos se atraem no vácuo; quais são, nas revoluções dos planetas, as relações entre as áreas percorridas em tempos iguais; quais as curvas que têm pontos conjugados, pontos de inflexão e de retrocesso; como o homem vê tudo em Deus; como, sem comunicação, se correspondem a alma e o corpo, tal como o fariam dois relógios; quais os astros que podem ser habitados; quais os insetos que se reproduzem de modo extraordinário - respondei-me, repito, vós de quem recebemos tantos conhecimentos sublimes, se não nos tivésseis nunca ensinado tais coisas, seríamos com isso menos numerosos, menos bem governados, menos temíveis, menos florescentes, ou mais perversos? Reconhecei, pois, a pouca importância de vossas produções e, se o trabalho dos mais esclarecidos de nossos sábios e de nossos melhores cidadãos nos proporciona tão parca utilidade, dizei-nos o que devemos pensar dessa chusma de escritores obscuros e de letrados ociosos que, em pura perda, devoram a substância do Estado".

OK, OK. Sei que o próprio Jean-Jacques Rousseau admitia que o Discurso sobre as ciências e as artes foi mal escrito ². Sei também que ele não defendia o fechamento das universidades, nem acreditava que a ciência é uma maldição que se abateu sobre o planeta, nem pregava a morte a pauladas dos artistas e das pessoas cultas. Não obstante, acho difícil não atestar que o excerto acima está carregado do mais genuíno anti-intelectualismo. Para demonstrar um paradoxo - como o restabelecimento das ciências e das artes (durante o Iluminismo) não contribuiu para aprimorar os costumes -, o autor lançou mão de um preconceito - em geral, os praticantes das ciências e os artistas não têm como preocupação fundamental fomentar a virtude, dedicando-se a atividades supérfluas para a boa organização da sociedade, e por isso a contribuição não se deu. A passagem acima reproduzida serve para ilustrar um ponto de vista muito difundido em meio ao senso comum, tanto o da época quanto o de hoje, do qual Rousseau não conseguiu se desvencilhar.

A pressuposição de que a atividade intelectual e a criação artística são pura perda de tempo se não forem convertidas em algo "útil" acompanha a humanidade há milênios - com a ideia de utilidade variando de época para época, de cultura para cultura (no caso da nossa, útil será o mesmo que lucrativo). Do mesmo modo, é antiga a crença na futilidade da erudição, ainda mais quando confrontada com a premência do trabalho que garante o sustento. Para o anti-intelectualista, de ontem e de hoje, os "letrados ociosos" que "devoram a substância do Estado" são um problema. Qual o corolário? Se ninguém precisa deles, diz o anti-intelectualista, não há necessidade de mantê-los.

Passemos a outro trecho do livro, agora retirado da primeira parte:

"Onde não existe nenhum efeito não há nenhuma causa a procurar; nesse ponto, porém, o efeito é certo, a depravação é real, e nossas almas se corromperam à medida que nossas ciências e nossas artes avançaram no sentido da perfeição. Dir-se-á ser uma infelicidade própria de nossa época? Não, senhores; os males causados por nossa vã curiosidade são tão velhos quanto o mundo. A elevação e o abaixamento cotidianos das águas do oceano não foram mais regularmente submetidos ao curso do astro que nos ilumina durante a noite quanto a sorte dos costumes e da probidade aos progressos das ciências e das artes. Viu-se a virtude fugir à medida que sua luz se elevava no nosso horizonte e observou-se o mesmo fenômeno em todos os tempos e em todos os lugares"

A virtude (ou seja, a retidão moral desejável nos "homens de bem", segundo Rousseau) é corrompida à medida que se avança intelectualmente. Importante notar que essa afirmação vai ao encontro da concepção de natureza humana defendida pelo pensador genebrino: o ser humano vai se degenerando à medida que se sociabiliza.  A visão preconceituosa do saber intelectualizado - essa "vã curiosidade" que causa "males" -  tem forte relação com a tradição cristã de considerar o orgulho do conhecimento a causa do pecado original. O anti-intelectualista dirá que o incremento científico e o apuro artístico provocam a fuga da virtude e, portanto, os intelectuais e os artistas são imorais.

Seria possível fazer desaparecer ou, ao menos, atenuar esse preconceito?

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Em um breve artigo publicado na revista CULT em outubro de 2016 (Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo), a filósofa Marcia Tiburi e o jurista Rubens Casara escreveram:

"Há, dividindo espaço com opressões próprias ao campo do saber, um estranho ódio ao saber em sua forma crítica e desconstrutiva. Um ódio que se relaciona com a ameaça libertária do saber, um saber capaz de desmistificar, de contrastar certezas e de desvelar a ignorância que serve de base para todos os preconceitos. O pensamento e a ousadia intelectual tornaram-se insuportáveis para muitas pessoas chegando a um nível institucional e, não raro, acabam excluídos ou mesmo criminalizados.
Diversos exemplos de anti-intelectualismo podem ser observados na sociedade brasileira. Desde a caricata presença do ator Alexandre Frota (menos pelo que ele é, mas sobretudo pelo que ele representa) como formulador de políticas públicas do Ministério da Educação [Frota foi recebido pelo então titular da pasta do MEC, Mendonça Filho, em 25/05/2016]  ao projeto repleto de ideologia (e mais precisamente: da ideologia, de viés autoritário, da 'negação do saber') da 'Escola sem partido'. Do silêncio em torno da exclusão de disciplinas (filosofia, sociologia, artes, etc.) do ensino médio (MP 746) à expressiva votação de candidatos que apostam no uso da força, em detrimento do conhecimento, como resposta aos mais variados problemas sociais. Do descaso com a educação (consagrado na PEC 241) [depois PEC 55, quando passou da Câmara dos Deputados para o Senado, e virou a Emenda Constitucional nº 95, estabelecendo um teto de gastos públicos para os próximos 20 anos, afetando áreas como saúde e educação] ao tratamento conferido aos professores em todo Brasil [...]".

Este blogueiro poderia dar outros exemplos, como o cancelamento de uma exposição de arte após protestos de fanáticos raivosos insuflados por uma milícia ou, recentemente, o pedido (da parte dos pais e mães) para proibir, em uma escola, a leitura de um livro infantojuvenil considerado "comunista". Importa destacar, contudo, que estamos correndo o risco, como acertadamente sugerem Tiburi e Casara, de que o anti-intelectualismo se torne institucionalmente cada vez mais aceito e praticado, quem sabe até incentivado por representantes do poder público. A agressividade obscurantista e, pior ainda, intimidatória de parte significativa dos apoiadores de Jair Bolsonaro, direcionada a jornalistas, literatos, artistas e professores universitários que têm posicionamento contrário ao deles, é bastante preocupante, dado que o deputado é favorito para vencer as eleições presidenciais neste segundo turno.

Tiburi e Casara observam que, na lógica limitada do anti-intelectualista, existe, de um lado, o "messias" (ou seja, o salvador da pátria infalível) e do outro, "a peste" (ou seja, processos, eventos, organismos e indivíduos que precisam ser combatidos, aniquilados, sem pestanejar ou parar para pensar). Dentro dessa lógica, não cabem a complexidade e as contradições inerentes ao real, tudo é preto no branco, não há espaço para a reflexão, os intelectuais são supérfluos, não têm lugar. E, mais grave: para os milhares de anti-intelectualistas que estão emergindo, os intelectuais, mesmo tão metidos a inteligentes, não sabem lidar com "a peste" (alguns, até, estão contaminados por ela...),

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Outro dia, num dos bares que frequento aqui em Belo Horizonte, ouvi invectivas a Paulo Freire na mesa ao lado. Serei franco com o(a) eventual leitor(a): pessoalmente, me desagrada uma certa hagiolatria que costuma cercar o educador recifense, expressa por alguns de seus estudiosos. Nem por isso contesto a grande relevância de sua obra para a pedagogia e para a filosofia.

Da mesa vinham frases como "Paulo Freire é que trouxe esse comunismo todo pra dentro das escolas"; "Tem muita escola aí que é pura doutrinação esquerdista. Culpa desse Paulo Freire". Não me dei ao trabalho de apurar quem eram (além do mais, seria bem grosseiro da minha parte me intrometer na conversa alheia). Sou capaz de apostar, porém, que não eram professores (se fossem, saberiam que dentro de uma escola há tantos embaraços e reveses mais urgentes para serem resolvidos que ninguém tem tempo para uma suposta doutrinação esquerdista). Também apostaria que jamais leram uma página sequer dos livros de Freire.

Falando nisso, nesse mesmo bar, algumas semanas depois, escutei declaração semelhante de um conhecido meu, curiosamente, filho de um professora (aposentada) de escola pública. Quando perguntei se já lera algo de Paulo Freire, a resposta oblíqua me fez ver que ele (tal como as pessoas do outro dia) apenas reproduzia a ladainha rasteira, baseada em memes de mídias sociais e posts de veracidade duvidosa do WhatsApp, empregada nas disputas ideológicas desse nosso mundinho digital contemporâneo.

Eu ainda bebo habitualmente nesse e em outros dois bares próximos ao lugar onde moro. A ar está pesado em todos eles, pelo menos para mim. Botequins, claro, nunca foram espaços de conferências acadêmicas. Mas já foram pelo menos mais acolhedores a quem, num bate-papo acompanhado de umas geladas, se dispunha a apresentar fatos, corrigir informações falsas. Também não havia tantos esgares e olhares de fastio ou raiva mal disfarçada quando se tentava levar a conversa para temas menos ordinários.

O que tenho escutado nos últimos meses é um vozerio de indivíduos sem qualquer disposição para ouvir o outro, a dizer (e, as vezes, berrar) que "o coro vai comer", "esse povo vai entrar na linha", repetindo bordões cujo teor é marcado por uma completa ausência de empatia, por uma falta de preocupação social e senso de coletividade, revelando uma incultura que não conhece limites, a exigir, entretanto, que lhes prestemos continência.

O escritor Isaac Asimov disse certa vez: "Anti-intellectualism has been a constant thread winding his way through our political and cultural life, nurtured by the false notion that democracy means that 'my ignorance is just as good as your knowledge' " ["o anti-intelectualismo tem sido uma corrente constante insinuando-se através de nossa vida política e cultural, alimentado pela falsa noção de que democracia significa que 'minha ignorância é simplesmente tão boa quanto o seu conhecimento' "].

Infelizmente, temo não se tratar mais de algo que se insinua, que se infiltra paulatinamente. Acho que os ignorantes assumiram o controle de vez.

E todos iremos perder.

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Antes de encerrar, gostaria de fazer notar ao(à) eventual leitor(a) que a candidatura Bolsonaro, pelo que representa de obscurantismo e de ameaça ao regime democrático e à liberdade (inclusive a de expressão), tem sido repelida por muitos intelectuais e pessoas ligadas ao objeto que melhor nos representa - o livro.

Pode-se verificar o veto ao candidato do PSL na declaração dos escritores que representaram o Brasil na Feira de Frankfurt desse ano; no posicionamento de Luiz Schwarcz, presidente da Companhia das Letras, uma das mais prestigiadas e importantes empresas livreiras do país; e no Manifesto do Livro, assinado por diversos escritores e escritoras, editores e editoras.

[Atualização: 20/10/18]: Esqueci de citar aqui o sensacional texto-desabafo (Isto não é um poema) do cantor, compositor e poeta Arnaldo Antunes, também contrário à candidatura mencionada acima. Faço-o agora.

___________
¹ ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre as ciências e as artes. 2 ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. p. 321-352. (Coleção Os pensadores) [Tradução de Lourdes Santos Machado]

² Na Advertência incluída numa das edições do texto, o escritor registrou: "Que será a celebridade? Eis a obra infeliz a que devo a minha. É certo que essa peça, que me valeu um prêmio e me deu nome, será, no máximo, medíocre e, ouso acrescentar, uma das menores deste repositório. Que abismo de misérias não teria evitado o autor, se esta primeira obra tivesse sido recebida como o merecia! Mas era preciso que um favor inicial injusto me trouxesse, aos poucos, uma severidade que ainda é mais injusta".

BG de Hoje

The Same Boy You've Always Known é uma canção para a qual não dei muita bola há alguns anos, quando adquiri White Blood Cells, dos WHITE STRIPES. Aos poucos, entretanto - e era inevitável -, acabei chegando a conclusão de que é uma das mais bonitas daquele álbum (senão uma das melhores em toda a carreira da dupla de Detroit). NOTA: Prefiro a versão em estúdio (sempre prefiro as versões em estúdio), mas achei que a apresentação abaixo ganhou um tom que não sei definir (bem-vindo, todavia), ausente na gravação incluída no disco lançado em 2001.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

A "hora milagrosa" nunca chegará



Já ouviu falar do Forte Bastiani, eventual leitor(a)?

Trata-se de uma "grande fortaleza, exemplo típico de engenharia militar, que guarda a única passagem entre o deserto dos tártaros e as encostas meridionais da cadeia de montanhas escarpada e ininterrupta que marca a fronteira entre os estados do Norte e os do Sul de um país sem nome", de acordo com o Dicionário de lugares imaginários, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi (Editora Companhia das Letras, 2003)

O Forte Bastiani, entretanto, tem um alcance simbólico bem maior - pelo menos na visão deste blogueiro e de outros milhares de leitores devotos deste livro sublime chamado O deserto dos tártaros (sobre o qual, aliás, já escrevi anteriormente, de forma breve, aqui no blog).

Já que mencionei Alberto Manguel poucas linhas acima, devo dizer que o ensaísta argentino-canadense é um desses leitores devotos do romance de Dino Buzzati, publicado pela primeira vez em 1940.

O forte, escreveu Manguel em Os livros e os dias ¹,  é "um lugar que parece impossível de deixar, mas também impossível de alcançar, tão ancorado em sua própria rotina que nada que venha do exterior pode atingi-lo".

Rotina... Até certa idade, pouca ou nenhuma atenção damos a essa palavra; não refletimos sobre o real significado dela, suas implicações. Como disse, só até certa idade. À medida que se envelhece, a maior parte de nós - cuja vida se resume a subsistir dentro das condições que nos são apresentadas e nada além disso - passa a compreender que uma porcentagem grande de nosso "ser no mundo" não passa de um amontoado de hábitos. Há um capítulo magistral em O deserto dos tártaros (o décimo), em que o narrador vai enumerando as "míseras coisas" que foram suficientes para amoldar o protagonista, tenente Giovanni Drogo, "ao monótono ritmo do serviço" ². Buzzati, habilidosamente, repete a palavra hábito(s) entre as primeiras frases de seis parágrafos seguidos no capítulo X, levando o leitor a captar o "torpor" no qual se encontrava Drogo, já impregnado com "o amor doméstico pelos muros cotidianos", em apenas quatro meses de trabalho no forte. O militar, sonhando com atos guerreiros e heroicos, reduz-se a um burocrata.

Se o(a) eventual leitor(a) me permitir, desejo fazer uma digressão.

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Escrito na forma de diário, Os livros e os dias revela um pouco do que sentia Alberto Manguel no momento do registro, além de mostrar que nossas leituras são sempre influenciadas pelo contexto circundante, pelo momento histórico em que se está vivendo. Por exemplo, na parte referente a O deserto dos tártaros, Manguel encontrava-se em St. John's, cidade da ilha de Newfoundland (Canadá), entre o finalzinho de 2002 e as primeiras semanas de fevereiro de 2003. O mundo estava apreensivo com a possibilidade da invasão do Iraque por tropas norte-americanas e britânicas - o que acabou acontecendo daí a um mês. Por isso, o ensaísta anota: "A guerra iminente não tem nada de heroico; sabemos que os motivos que conduzem as forças anglo-americanas são menos humanitários que financeiros", acrescentando logo em seguida:

"Na história de Buzzati, por outro lado, o trágico sentimento de absurdo que subjuga o leitor brota em grande parte da completa futilidade da empresa heroica. Nenhuma razão humanitária ou financeira pode ser invocada. A fronteira não apresenta nenhum problema, o deserto dos tártaros não viu nenhum tártaro até onde a memória alcança, os heróis nunca têm a chance de ser heroicos".

E então Manguel cita um trecho do segundo capítulo, quando Drogo, encaminhando-se, muito jovem ainda, para servir no forte Bastiani pela primeira vez, conversa com o capitão Ortiz, a quem encontrara por acaso na estrada:

"- Então o forte nunca serviu para nada? 
- Para nada - disse o capitão".

Eu também, nessa minha última leitura de O deserto dos tártaros, acabei influenciado pela conjuntura à qual estou sujeito.

No Brasil (e acredito que em vários outros países), membros das forças armadas, embora sejam agentes públicos, sobem nas tamancas quando comparados a outros servidores do Estado, a despeito do fato de que os vencimentos dos primeiros sejam pagos pelo erário, assim como acontece com os salários dos últimos. Um melindre que acarreta problemas, como estamos carecas de saber... Das funções atribuídas às forças armadas, a mais notória é defender a pátria, usualmente interpretado como proteger a nação de investidas provenientes de inimigos/agressores externos. Entretanto, quando não há necessidade dessa defesa, quando não se veem os invasores no horizonte,  quando os tártaros não vêm, o que esperar dos militares? Como devem se comportar?

A associação entre herói e soldado é, a meu ver, bastante discutível. Digo isso não só pelos vários crimes de guerra cometidos ao longo da história, mas porque a própria ideia de guerra em si não me predispõe a vinculá-la, automaticamente, ao heroísmo ³. De todo modo, soldados existem para guerrear. Mas vejamos a situação nas dezenas de nações pelo mundo afora que - felizmente, aliás - não têm invasores (refiro-me a outros exércitos) para combater. O Brasil, por exemplo. Seus militares, sobretudo oficiais, não acabam se convertendo em meros burocratas, aferrolhados a regulamentos, códigos e regras incompreensíveis para os "paisanos", tal como os personagens dentro do forte Bastiani? Há uma passagem no capítulo XIV de O desertos dos tártaros que vai bem ao encontro do que estou querendo dizer.

O comandante do forte, coronel Filimore, acaba de saber que a movimentação ocorrida no outro lado da fronteira é apenas um trabalho topográfico da parte do reino do Norte e não uma ameaça como chegaram a crer alguns de seus subordinados (e ele mesmo quase foi tomado pela esperança de entrar em combate, agir como guerreiro e tornar-se "herói"). Leiamos o último parágrafo do capítulo XIV:

"A mosca esvoaçava pela sala, a bandeira em cima do telhado do forte se afrouxara, o coronel falava em disciplina e regulamentos, na planície do norte avançavam fileiras de soldados, não mais inimigos ávidos de batalha, mas soldados inócuos como eles, não impelidos ao extermínio, porém enviados numa operação cadastral, e seus fuzis estavam descarregados, as adagas, sem fio. Pela planície do norte abaixo alastra-se aquele inofensivo simulacro de exército, e no forte tudo se estagna de novo no ritmo dos dias de sempre".

Penso que muitos militares (e aqui tenho em mente sobretudo o caso brasileiro) nunca encontraram (e nunca encontrarão) "inimigos ávidos de batalha". São "soldados inócuos". Por isso - e este é o grande perigo - podem acabar inventando adversários dentro do próprio país. E já que, na visão deles, trata-se de oponentes propensos à beligerância, precisam ser exterminados, pois é o que as forças armadas fazem: entram em guerra com o inimigo, buscando aniquilá-lo. Já foi assim durante a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. E nada garante que, a depender do resultado das eleições neste domingo (e seus desdobramentos), não volte a ser. Quem serão agora os indivíduos e grupos tachados como inimigos? Membros da sociedade civil - cidadãos e cidadãs cujas visões de mundo e ideário sejam distintos do que apregoa o mandatário de plantão - correm risco? Confesso que tenho muito receio e não estou tranquilo.

Voltemos, porém, à discussão do romance de Dino Buzzati.

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Há um personagem secundário em O deserto dos tártaros que nunca me sai da cabeça, malgrado sua insignificância. Falo do alfaiate Prosdocimo.

Ele é cheio de si, dá-se muita importância, mas vive nos porões do forte, esquecido. Afirma estar lá apenas em "caráter ab-so-lu-ta-men-te pro-vi-só-rio". E já faz 15 anos...

Prosdocimo representa, penso eu, a tendência negativa que muitos têm para se acomodar (sendo este blogueiro um desses muitos). O personagem aparece pela primeira vez no capítulo VII. Trabalha numa oficina, acompanhado de um velhinho (seu irmão) e mais três ajudantes (que riem dele disfarçadamente). Giovanni Drogo procura-o para encomendar uma capa. Ambos iniciam uma conversa, mas logo o alfaiate do regimento é chamado e sai. Nesse momento, o velhinho se aproxima de Drogo e faz um alerta: não fique no forte, saia enquanto é tempo, não faça como os outros, a esperar um evento que nunca acontece.

É quando o (então) jovem protagonista começa a dar-se conta de uma das maiores ilusões a vigorar no forte Bastiani: a esperança de cumprir um destino heroico.

Reproduzo a seguir os cinco últimos parágrafos do capítulo VII. Peço paciência ao(à) eventual leitor(a) - valerá a pena; a prosa de Dino Buzzati é muito bonita:

"Agora Drogo finalmente entendia. Fitava as sombras múltiplas dos uniformes pendurados, que tremulavam conforme oscilavam as luzes, e pensou que naquele exato momento o coronel, no recôndito de seu gabinete, abrira a janela para o norte. Estava certo: numa hora tão triste como aquela, pela escuridão e pelo outono, o comandante do forte olhava para o setentrião, para as voragens do vale. 
Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas. 
Não haviam se adaptado à existência comum, as alegrias das pessoas comuns, ao destino medíocre; lado a lado, viviam com a mesma esperança, sem nunca mencioná-la, porque não se davam conta ou simplesmente porque eram soldados, com o pudor ciumento do próprio íntimo. 
Até Tronk, talvez. Tronk [o sargento-mor] seguia os itens do regulamento, a disciplina matemática, o orgulho da responsabilidade escrupulosa, e se iludia imaginando que aquilo lhe bastava. Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viver, tudo igual até o fim, também ele teria acordado. Impossível, teria dito. Alguma coisa diferente ainda deverá acontecer, alguma coisa de realmente digno, de que se possa dizer: agora, mesmo que tenha acabado, paciência. 
Drogo compreendera o fácil segredo deles, e com alívio pensou estar fora disso, espectador não contaminado. Dentro de quatro meses, graças a Deus, ele os deixaria para sempre. Os obscuros fascínios da velha construção tinham-se dissolvido, ridículos. Assim pensava. Mas por que o velhinho continuava a fitá-lo com aquela expressão ambígua? Por que Drogo sentia o desejo de assobiar um pouco, de tomar vinho, de sair ao ar livre? Quem sabe para demonstrar a si mesmo que estava realmente livre e tranquilo?"

Essa "hora  milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um" é raríssima, quase nunca surge. Mas a maioria de nós - pelo menos quando somos jovens - não consegue abandonar a crença de que algo grande nos aguarda, ainda que sejamos constituídos de pura mediocridade.

A esperança na "hora milagrosa" perdura, contudo. Segue-se com ela durante anos Até que, tardiamente, constata-se a fuga do tempo. E nada aconteceu. Os tártaros não vieram. Não se fez outra coisa além de aguardar. O que se ganhou com a espera?

O deserto dos tártaros pertence à categoria das narrativas que se escolhe ler pela vida inteira. Tenho certeza de que voltarei constantemente a esse livro. Saiba desde já o(a) eventual leitor(a) que tenho ainda muito a dizer sobre ele. Não faltará ocasião, espero.

Na próxima postagem, pretendo discutir o fenômeno do anti-intelectualismo, partindo, desabusadamente, do pensamento de Jean-Jacques Rousseau.

___________
¹ MANGUEL, Alberto. Os livros e os dias: um ano de leituras prazerosas. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. [Tradução de José Geraldo Couto]

² BUZZATI, Dino. O deserto dos tártaros. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017 [Tradução de Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas]

³ Não estou alegando que não possa haver qualquer traço de heroísmo durante conflitos armados; a própria resistência ao fascismo e ao nazismo durante a 2ª Guerra Mundial é algo imensamente valoroso. O que estou dizendo é que a associação entre a figura do soldado e a figura do herói não é nem dada de antemão, nem imediata e muito menos óbvia per se.

BG de Hoje

Não sei por que até hoje nunca falei desta canção aqui no blog. Rocket Man foi lançada em 1972 (tem, portanto, a minha idade). Muitos críticos de música pop consideram-na uma das melhores composições de todos os tempos (eu concordo com essa avaliação). Na época do lançamento, ELTON JOHN contava com uma banda excelente. É a mesma que fez a gravação em estúdio, até onde sei, participando ativamente da elaboração dos arranjos (destaco o violão, o coro durante o refrão, a bateria suave - mas que se faz notar - e, claro, o piano do cantor-compositor britânico). Rocket Man também me fascina pela letra - triste e irônica ao mesmo tempo - falando de um sujeito que trabalha no espaço sideral (e que tipo de serviço poderia ser mais emocionante?), mas cumpre sua tarefa rotineiramente, sem qualquer sentimento especial, a não ser a saudade da esposa. Bernie Taupin, parceiro antigo de John, disse certa vez que, ao escrever a letra, foi inspirado, entre outras fontes, por um conto de Ray Bradbury, o autor de ficção científica mais poético que conheço. Abaixo, um vídeo lindo, dirigido por um cineasta iraniano (Majid Adin) e por um animador irlandês (Stephen McNaily), no qual a canção serve de trilha sonora para narrar o drama de um refugiado. Incluí também no BG uma versão feita pela desconhecida cantora Carol Kay, encontrada por acaso no Youtube, só voz e teclado, mas que achei muito bonita.

domingo, 23 de setembro de 2018

#DemocraciaSim #EleNão


Deixarei o texto sobre O deserto dos tártaros para mais adiante.

Quero, melhor dizendo, preciso abordar outro assunto.

Passei a última semana pensando muito na degradação pela qual passa a política brasileira. E confesso, tenho medo.

Um candidato completamente despreparado, racista, misógino, homofóbico, que faz apologia da violência e da tortura e apesar (ou justamente por causa) disso tudo passou a interessar a plutocracia nacional, ESSE indivíduo lidera as pesquisas de intenção de voto em 2018! Pode ganhar a próxima eleição presidencial! É assustador (mas não chega a ser surpreendente) saber que uma parcela enorme de brasileiros aderiu a essa calamidade. E, entre estes, estão indivíduos que, aproveitando o desencanto e a aflição experimentados pela população (e não tenho dúvida de que o farão de forma ostensiva caso seu candidato chegue ao poder), propagam e colocam em prática ideias e ações que devem ser chamadas pelo seu verdadeiro nome: nazi-fascistas.

Acabei de ler um manifesto com o qual tenho forte concordância. Por isso divulgarei o seu conteúdo na integra e o nome de seus principais signatários até agora. Este blogueiro também assinou-o e convida o(a) eventual leitor(a) a fazer o mesmo. Convém esclarecer que o manifesto apenas alerta para o risco representado pelo postulante do PSL, não sugerindo o nome de nenhum(a) outro(a) candidato(a) especificamente. Entre os signatários, o(a) eventual leitor(a) vai encontrar pessoas que estiveram em lados opostos na eleição de 2014. Gostaria de destacar dois nomes, por razões diferentes: Lilia Moritz Schwarcz, de quem falei nas duas últimas postagens aqui no blog, coerentemente com sua trajetória acadêmica e intelectual, assina o manifesto, o que muito me alegra; Miguel Reale Jr., um dos autores do pedido de impeachment da ex-presidenta Dima Rousseff (mesmo que ela não tenha cometido nenhum crime de responsabilidade!), parte do golpe que contribuiu enormemente para o atual miserável estado de coisas, também é um dos signatários, demonstrando o suprapartidarismo da iniciativa.

Ao texto, pois:

Pela Democracia, pelo Brasil


Somos diferentes. Temos trajetórias pessoais e públicas variadas. Votamos em pessoas e partidos diversos. Defendemos causas, ideias e projetos distintos para nosso país, muitas vezes antagônicos.

Mas temos em comum o compromisso com a democracia. Com a liberdade, a convivência plural e o respeito mútuo. E acreditamos no Brasil. Um Brasil formado por todos os seus cidadãos, ético, pacífico, dinâmico, livre de intolerância, preconceito e discriminação.

Como todos os brasileiros e brasileiras sabemos da profundidade dos desafios que nos convocam nesse momento. Mais além deles, do imperativo de superar o colapso do nosso sistema político, que está na raiz das crises múltiplas que vivemos nos últimos anos e que nos trazem ao presente de frustração e descrença.

Mas sabemos também dos perigos de pretender responder a isso com concessões ao autoritarismo, à erosão das instituições democráticas ou à desconstrução da nossa herança humanista primordial.

Podemos divergir intensamente sobre os rumos das políticas econômicas, sociais ou ambientais, a qualidade deste ou daquele ator político, o acerto do nosso sistema legal nos mais variados temas e dos processos e decisões judiciais para sua aplicação. Nisso, estamos no terreno da democracia, da disputa legítima de ideias e projetos no debate público.

Quando, no entanto, nos deparamos com projetos que negam a existência de um passado autoritário no Brasil, flertam explicitamente com conceitos como a produção de nova Constituição sem delegação popular, a manipulação do número de juízes nas cortes superiores ou recurso a autogolpes presidenciais, acumulam declarações francamente xenofóbicas e discriminatórias contra setores diversos da sociedade, refutam textualmente o princípio da proteção de minorias contra o arbítrio e lamentam o fato das forças do Estado terem historicamente matado menos dissidentes do que deveriam, temos a consciência inequívoca de estarmos lidando com algo maior, e anterior a todo dissenso democrático.

Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio e Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre. Conhecemos 20 anos de sombras sob a ditadura, iniciados com o respaldo de não poucos atores na sociedade. Testemunhamos os ecos de experiências autoritárias pelo mundo, deflagradas pela expectativa de responder a crises ou superar impasses políticos, afundando seus países no isolamento, na violência e na ruína econômica. Nunca é demais lembrar, líderes fascistas, nazistas e diversos outros regimes autocráticos na história e no presente foram originalmente eleitos, com a promessa de resgatar a autoestima e a credibilidade de suas nações, antes de subordiná-las aos mais variados desmandos autoritários.

Em momento de crise, é preciso ter a clareza máxima da responsabilidade histórica das escolhas que fazemos.

Esta clareza nos move a esta manifestação conjunta, nesse momento do país. Para além de todas as diferenças, estivemos juntos na construção democrática no Brasil. E é preciso saber defendê-la assim agora.

É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós.

Prezamos a democracia. A democracia que provê abertura, inclusão e prosperidade aos povos que a cultivam com solidez no mundo. Que nos trouxe nos últimos 30 anos a estabilidade econômica, o início da superação de desigualdades históricas e a expansão sem precedentes da cidadania entre nós. Não são, certamente, poucos os desafios para avançar por dentro dela, mas sabemos ser sempre o único e mais promissor caminho, sem ovos de serpente ou ilusões armadas.

Por isso, estamos preparados para estar juntos na sua defesa em qualquer situação, e nos reunimos aqui no chamado para que novas vozes possam convergir nisso. E para que possamos, na soma da nossa pluralidade e diversidade, refazer as bases da política e cidadania compartilhadas e retomar o curso da sociedade vibrante, plena e exitosa que precisamos e podemos ser.


Assinam este manifesto

Adriana Lisboa
Alê Youssef
Alessandra Negrini
Alessandra Orofino
Alexandre Brasil Fonseca
Alexandre Nero
Alexandre Schneider
Alice Braga
Amon Barros
Ana Carolina Evangelista
Ana Helena Altenfelder
Ana Moser
Ana Toni
André Corradi Moreira Luthier
Andre Degenszajn
André Fischer
André Pereira de Carvalho
Andre Perosa
André Vallias
Andrea Alvarez
Andrea Barata Ribeiro
Andrea Calabi
Andrea Magri
Andreia Horta
Anete Abramowicz
Anna Penido
Antonia Pelegrino
Antonio Grassi
Antônio Nóbrega
Antônio Prata
Ariovaldo Ramos
Arnaldo Antunes
Aron Zylberman
Ary Oswaldo Mattos Filho
Astrid Fontenelle de Brito
Aurea Vieira
Bárbara Musumeci Mourão
Beatriz Bracher
Bel Coelho
Bel Melo
Bela Gil
Belisario dos Santos Junior
Bernard Appy
Beto Vasconcelos
Beto Verissimo
Bia Barbosa
Binho Marques
Braulio Mantovani
Bruno Carazza dos Santos
Bruno Torturra
Cadão Volpato
Caetano Veloso
Caio Magri
Camila Pitanga
Carlos Mello
Carlos Nobre
Carlos Pitchu
Carolina Bueno
Carolina Kotscho
Cazé Pecini
Celia Cruz
Celso Athayde
Celso Lafer
Cesar Callegari
Chico Buarque
Cicero Araujo
Ciro Biderman
Claudia Abreu
Claudia Costin
Cláudio Couto
Clemente Ganz Lucio
Clemir Fernandes
Cléo Regina Todaro Santos de Miranda
Daniel Augusto
Daniel Cerqueira
Daniel De Bonis
Daniel Ganjaman
Daniela Bianchi
Daniela Di Bonito Mônaco de Moraes
Daniela Frozi
Daniela Gleiser
Danilo Miranda
Danilo Santos de Miranda
Dario Guarita Neto
Dario Menezes
Débora Lamm
Denis Mizne
Dira Paes
Doriam Borges
Drauzio Varella
Edson Fernando de Almeida
Eduardo Calil Ohana
Eduardo Marques
Eliane Dias
Eliane Giardini
Elisandro Lotin de Souza
Enrique Diaz
Estevão Ciavatta
Esther Solano
Eugenia Moreyra
Eugenio Bucci
Fabiana Luci de Oliveira
Fabiana Pereira
Fabio Feldman
Felipe Roseno
Fernand Alphen
Fernanda Abreu
Fernanda Thompson
Fernanda Torres
Fernando Abrucio
Fernando Burgos
Fernando Grostein Andrade
Fernando Meirelles
Fernando Morais
Flávia Gusmão Eid
Flávia Lacerda
Flávio Conrado
Flavio Tavares de Lyra
Floriano de Azevedo Marques Neto
Francisco Sandro Rodrigues Holanda
Franklin Feder
Gabriel Feltran
Galeno Amorim
George Avelino Filho
Gerorgiana Goes
Gilberto Dimenstein
Gisele Froes
Glória Kalil
Gregorio Duvivier
Gui Amabis
Guilherme Casarões
Guilherme Leal
Guilherme Werneck
Haroldo Torres
Heitor Dhalia
Helder Vasconcelos
Helio Santos
Helivete Ribeiro
Heloisa Buarque de Holanda
Heloísa Perisse
Henri Philippe Reichstul
Henrique Silveira
Hugo Possolo
Humberto Dantas
Ilona Szábo
Ilza Jorge
Inês Lafer
Ivam Cabral
Ivanir dos Santos
Jailson Silva
Joana Jabace
João Biehl
Joaquim Falcao
Joel Zeferino
Jorge Abrahao
Jorge Hage
Jorge Romano
Jorge Schwartz
José Marcelo Zacchi
Juana Kweitel
Juca Kfouri
Julia Michaels
Juliana Braga de Mattos
Juliana Sakai
Jurandir Freire Costa
Jussara Silveira
Karina Buhr
Karine Carvalho
Katia Maia
Laerte
Lauro Gonzales
Leandra Leal
Leonardo Letelier
Leticia Colin
Lilia Schwarcz
Luana Lobo
Luciana Guimarães
Lucio Maia
Luedji Luna
Luis Bolognesi
Luiz Armando Badin
Luiz Camillo Osorio
Luiz Eduardo Soares
Luiz Felipe de Alencastro
Luiz Nascimento
Luiz Ruffato
Luiza Lima
Lusmarina Campos Garcia
Malak Poppovic
Mano Brown
Manoela Miklos
Marcelo Behar
Marcelo Burgos Santos
Marcelo Furtado
Marcelo Issa
Marcelo Masagão
Marcelo Rubens Paiva
Marcia Pereira das Neves
Márcio Tavares Amaral
Marco Antônio Carvalho Teixeira
Marcos Cavalcanti
Marcos Fernandes
Marcos Flaksman
Marcos Fuchs
Marcos Joaquim Alves
Marcos Rolin
Marcus Vinícius Faustini
Maria Alice Setubal
Maria Arminda do Nascimento Arruda
Maria da Glória Bonelli
Maria de Medicis
Maria Filomena Gregori
Maria Gadu
Maria Ignez Barbosa
Maria Martha Cassiolato
Maria Stella Gregori
Maria Victoria Benevides
Mariana Lacorte Camponez do Brasil
Mariana Pamplona
Marília Librandi
Marina Dias Werneck
Marina Person
Mário Aquino Alves
Mário Monzoni
Marisa Moreira Salles
Mariza Abreu
Marta de Senna
Mary Camargo Neves Lafer
Mel Lisboa
Melina Risso
Michael Haradon
Miguel Lago
Miguel Reale Jr.
Milton Hatoum
Miriam Krenzinger
Monica Almeida
Monica Franco
Monique evelle
Myrian Porto
Naercio Menezes Filho
Natacha Costa
Numa Ciro
Oded Grajew
Oscar Vilhena
Otávio Dias
Pablo Nunes
Pally Siqueira
Paloma Duarte
Patrícia Pilar
Paula Lavigne
Paulinho Moska
Paulo André
Paulo Barreto
Paulo Borges
Paulo Furquim
Paulo Miklos
Pedro Abramovay
Pedro Meira Monteiro
Pedro Mendes da Rocha
Pedro Paulo Poppovic
Pedro Strozenberg
Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva
Philip Yang
Pierpaolo Bottini
Pilar Lacerda
Priscila Cruz
Rafael Alcadipani
Rafael Parente
Raul Santiago
Regina Braga
Renata Motta
Renato Janine Ribeiro
Renato Sergio de Lima
Rica Amabis
Ricardo Abramovay
Ricardo Borges Martins
Ricardo Chaves
Ricardo Henriques
Ricardo Lisias
Ricardo Sennes
Ricardo Teperman
Ricardo Young
Roberta Maiorana
Roberta Martinelli
Roberto Andres
Roberto Amorim
Roberto Waack
Rodrigo Martins Constante
Ronaldo Lemos
Rubens Barbosa
Rubens Naves
Rudi Rocha
Ruth Goldberg
Samira Bueno
Sarah Oliveira
Sergio Abranches
Sergio Leitão
Sergio Miletto
Silvia Noronha dos Santos
Silvia Ramos
Silvia Taques Bittencourt
Silvio Eid
Sueli Carneiro
Tadeu Jungle
Tadeu Valadares
Tainá Müller
Talita Todaro Santos de Miranda
Tasso Azevedo
Tati Bernardi
Theo Dias
Thiago Amparo
Thiago Lacerda
To Brandileone
Tulipa Ruiz
Valeria Macedo
Valerie Tomsic
Valmir Ortega
Valter Roberto Silverio
Valter Silvério
Vanessa Elias de Oliveira
Vera Iaconelli
Vítor Marchetti
Vítor Oliveira
Wagner Moura
Walter Casagrande Jr
Walter Salles
Washington Olivetto
Wilson Simoninha
Xis
Xixo Mauricio Piragino
Zeca Camargo
Zuza Homem de Mello


Você pode assinar o manifesto aqui.