terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Sobre A montanha mágica ou A importância das notas de rodapé (I)





Durante o feriado do Carnaval, estava relendo um livro de que gosto muito - Texturas: sobre leituras e escritos, da grande Ana Maria Machado (Editora Nova Fronteira, 2001). E um dos textos que o compõem (Clássicos de todas as classes*) tem muito a ver com a experiência resultante de minha primeira (recente e única) leitura da volumosa obra  A montanha mágica**, de Thomas Mann.

"O crítico e ensaísta inglês George Steiner" - escreve Ana Maria Machado - "assinala que até meados do século XX, no pós-guerra, os leitores dos livros compartiam um acervo comum de referências, a partir da Bíblia, da literatura greco-romana, de obras orientais como as Mil e uma noites, dos grandes clássicos medievais, renascentistas e modernos [...]. Qualquer escritor podia ter certeza de que, se por acaso se referisse a Catilina [o conspirador romano invectivado por Cícero] ou Adamastor [um dos titãs mitológicos, que aparece também como personagem n' Os Lusíadas], seus leitores saberiam do que se tratava. Havia um repertório clássico comum que permitia esse entendimento cúmplice".

O público leitor atual, entretanto, formou-se de maneira bem distinta. A escritora, relatando a experiência de apresentar Reinações de Narizinho para o neto, observa que muitas vezes foi preciso "fazer uma longa digressão e contar uma outra história, a cada momento do enredo, interrompendo as peripécias e cortando o ritmo do autor" para esclarecer determinadas passagens do texto de Monteiro Lobato.

Ana Maria Machado, constata, então que

"Hoje em dia, portanto, está desaparecendo essa certeza de que o leitor partilha com o autor um acervo básico de conhecimento dos clássicos. Assim, como Steiner observa, foram começando a aparecer notas aos pés de página nos livros, para explicar certas alusões e referências. A tal ponto que atualmente, diz ele, para ler a maioria das obras não-contemporâneas, em muitos casos seriam necessárias tantas notinhas explicativas que mais da metade da página ficaria comprometida tornando a leitura uma atividade penosa e arrastada, uma verdadeira corrida de obstáculos em câmara lenta".

E o que essas reflexões têm a ver com A montanha mágica? Observemos o excerto abaixo, uma fala do personagem Lodovico Settembrini, um dos pacientes do sanatório para tuberculosos Berghof e "guia" intelectual do jovem Hans Castorp, protagonista do livro:

" - Insisto com o senhor: vele pela sua dignidade! Seja orgulhoso e não se perca no ambiente estranho! Evite este atoleiro, esta ilha de Circe. O senhor não é bastante Ulisses para habitá-la impunemente. Acabará andando de quatro patas. Já está a ponto de se apoiar nas extremidades dianteiras. Daqui a pouco começará a grunhir. Cuidado!"

O personagem d'A montanha mágica faz aqui uma série de alusões à Odisseia, sobretudo ao canto X, cujo "tema" central são as desventuras de Ulisses e seus companheiros em sua primeira passagem pela ilha de Eeia, dominada pela feiticeira Circe, onde parte do grupo é transformada numa vara de porcos. Claro que, provavelmente, essas referências de Settembrini não complicarão muito a vida de um leitor razoavelmente informado, mesmo que este nunca tenha sequer corrido os olhos alguma vez pelo célebre poema de Homero. Entretanto, não se pode dizer o mesmo a respeito de diversas outras passagens do romance de Thomas Mann (inclusive um sem-número de falas do próprio Settembrini). Sente-se, durante a leitura, a necessidade de um certo apoio explicativo para atingir a melhor compreensão possível da obra - e não só em relação às citações literárias clássicas ou aos jogos intertextuais. Uma coisa resta óbvia: o leitor mediano contemporâneo (este blogueiro é um exemplo) definitivamente não está no mesmo nível de erudição do autor (a distância entre o primeiro e o segundo, sendo sincero, deve ser medida em anos-luz). Nesse caso, então, algumas notas de rodapé viriam a calhar. Mas - e a pergunta é crucial - como acrescentar tal recurso de edição/tradução numa obra notadamente robusta, com suas quase mil páginas de escrita meticulosa?

Prossigo com o assunto na próxima postagem.

* MACHADO, Ana Maria. Clássicos de todas as classes. In: __________. Texturas: sobre leituras e escritos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 138-148

** MANN, Thomas. A montanha mágica. 2 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000 [Tradução de Herbert Caro]

BG de Hoje

Outra morte recente bastante sentida no mundo do rock (mais até do que a de outro britânico, Lemmy Kilmister, citada no último BG) foi a de DAVID BOWIE, um verdadeiro gênio da música pop. Confesso, entretanto, que nunca fui um de seus ouvintes mais fiéis. O único disco que tive do artista até hoje foi o ... Ziggy Stardust... . Desse álbum extraio a canção de hoje, Moonage Daydream, com sua arrebatadora levada de guitarra, culminando com o solo monstruoso de Mick Ronson (o músico parecia possuído pelo capeta).


domingo, 14 de fevereiro de 2016

Falou e disse...

"Sei muito bem que não quero fazer nada: fazer alguma coisa é criar existência - e já há existência suficiente sem isso"*.

* SARTRE, Jean-Paul. A náusea. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p. 251 [Tradução de Rita Braga]


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Falou e disse...



"Muitos confundem habilidade, técnica, criatividade e talento. A habilidade é a capacidade de dominar, driblar e criar efeitos especiais em pequenos espaços sem perder a bola. A técnica é a lucidez na decisão do lance e a execução bem feita dos fundamentos da posição. A criatividade é a antevisão do lance, a imaginação para inventar e surpreender. O talento é a união, a síntese de tudo isso, além das boas condições físicas e emocionais. Os craques possuem, em proporções variáveis para cada um, todas essa virtudes"*.


* TOSTÃO. Vencedores medíocres. Folha de S. Paulo. 29 de novembro de 2015, p. B4 (Caderno Esporte)


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sobre Morte em Veneza ou A condição do artista



"Quem consegue decifrar a essência e a peculiaridade de uma alma de artista! Quem pode entender a profunda fusão dos instintos de disciplina e devassidão que lhe serve de fundamento!"


Thomas Mann - Morte em Veneza


E o blog Besta Quadrada retorna ao trabalho, prezado(a) eventual leitor(a)

Na última postagem, ano passado, havia feito a observação de que o livro então abordado - A gaivota - tinha como uma de suas "funções" apresentar as concepções de seu autor, Anton Tchekhov, sobre o fazer artístico; mais especificamente, sobre o ofício do escritor. Empreendimento semelhante, podemos dizer, dá-se na novela Morte em Veneza*, do romancista alemão Thomas Mann, publicada pela primeira vez em 1912.

Gustav Aschenbach, o personagem central de Morte em Veneza é, aos 50 anos de idade, um literato consagrado em seu país (para se ter ideia, "o Departamento de Ensino [passou] a incluir páginas de sua autoria nas antologias escolares oficialmente adotadas"). Apesar do prestígio junto à opinião pública, Aschenbach sente que "sua vida começara a declinar" e acometido por uma "estranha expansão de seu íntimo, uma espécie de inquietação errante, um anseio juvenil sedento de distância", decide "tirar férias" da cidade em que vivia, Munique, partindo em viagem para o sul do continente europeu. E "quando se deseja alcançar de um dia para o outro o incomparável, o excepcional, digno da magia dos contos de fada, para onde se vai?". De acordo com o narrador do livro, a resposta é uma só: Veneza.

Assim que chega à cidade italiana, Aschenbach toma uma das famosas gôndolas. E apesar do olhar simpático geralmente dirigido a esse tipo de embarcação, o narrador registra:

"Esse estranho veículo, herança intacta de tempos medievais e tão singularmente negro como, dentre tudo que existe, só um ataúde pode ser, lembra aventuras criminosas e mudas na noite de águas rumorejantes, lembra ainda mais a própria morte, esquifes e sepulturas lúgubres e a derradeira viagem silenciosa".

O condutor dessa gôndola, assim como o viajante visto quase ao acaso no primeiro capítulo, o "jovem postiço" do navio saído de Pula (capítulo 3) e o músico-mendigo, líder da trupe descrita na última seção da narrativa - todos eles partes da mesma alegoria - foram devidamente realçados na adaptação cinematográfica realizada por Luchino Visconti, em 1971. E esses personagens constituem o leitmotiv da obra (são os mensageiros da morte), prenunciando o evento inevitável presente no título do livro, como bem destacou a professora Claudia Sibylle Dornbusch no (ótimo) programa Literatura Fundamental, da Univesp TV (link para o vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=YACCGqpZZBQ).

Claudia Dornbusch também ressalta a influência do pensamento nietzschiano na obra de Thomas Mann. Tal influência fica evidenciada no modo como o autor expõe a "fratura" espiritual ocorrida no interior de Gustav Aschenbach. Profundamente racional e metódico ao longo da vida (o personagem "tinha extrema necessidade de disciplina" e "não era um amante do prazer"), Aschenbach, agora apaixonadamente modificado pela aparição do jovem Tadzio, percebe em si os traços da euforia proporcionada pelo desregramento do ato de criar. Thomas Mann corporifica no personagem central de Morte em Veneza o embate entre os dois princípios que governam o trabalho dos artistas - o apolíneo e o dionisíaco -, tratados por Friedrich Nietzsche n' O nascimento da tragédia no espírito da música (1871).

A despeito da influência assinalada, entretanto, o livro de Mann defronta-se, sobretudo, com o platonismo. As citações quase textuais do Fedro comprovam essa observação (inclusive o trecho daquele famoso diálogo em que se condena a arte, com Platão mais uma vez falando pela boca de Sócrates), assim como as elaboradas reflexões metafísicas do narrador (e do personagem) sobre os conceitos/ideias de Beleza e de Amor. É possível, diria ainda, estabelecer paralelos entre o homoerotismo da convivência "distanciada" de Aschenbach e Tadzio e o homoerotismo da relação mestre-discípulo percebida no texto platônico.

Apesar do seu pequeno número de páginas - não chegam a uma centena - Morte em Veneza, como já dissemos, é, antes de tudo, uma concentrada (e profunda) meditação sobre o fazer artístico: aí reside seu valor. A esse respeito, o capítulo 4 é de especial interesse. De lá, retiro esta passagem belíssima:

"Certamente é bom que o mundo conheça apenas a obra-prima, sem conhecer suas origens e as condições de sua gênese, pois o conhecimento das fontes de onde flui a inspiração do artista muitas vezes confundiria o público, o intimidaria, anulando assim os efeitos da perfeição".

É um livro a nos lembrar todo o tempo (e o excerto acima o confirma) que grandes obras de arte costumam resultar de um espírito dividido, em luta consigo mesmo.

Na próxima postagem, começo a escrever sobre aquele que é considerado por alguns o trabalho mais importante de Thomas Mann: A montanha mágica.
__________
* MANN, Thomas. Morte em Veneza. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003 [Tradução de Eloísa Ferreira Araújo Silva]

BG de Hoje

No ano passado, o universo do rock perdeu o incomparável Ian Frasier Kilmister - mais conhecido como Lemmy -, a alma e o coração do MOTÖRHEAD, Não posso deixar de mencionar também a morte do baterista Phil "Philthy Animal" Taylor, semanas antes do falecimento de Lemmy. Ambos fizeram parte da formação original do Motörhead e, junto com "Fast" Eddie Clarke, gravaram um dos álbuns mais importantes na história da música pesada: Ace of spades (1980). Desse discaço, escolho The chase is better than the catch.


quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sufocar a loucura do escrever



No último fim de semana, lendo A gaivota, de Anton Tchekhov, fiquei um bom tempo matutando sobre o ofício da escrita literária, principalmente depois de topar com esta fala do personagem Trigórin:

"Se eu morasse numa propriedade como esta, à beira de um lago, vocês acham que eu teria vontade de escrever? Eu trataria de sufocar essa loucura e não faria outra coisa senão pescar no lago"

Convém, entretanto, ressaltar que pode não haver sinceridade no que foi dito - a vontade de escrever, qualquer um poderia objetar, em nada se assemelha à loucura. Além disso, segundo Trepliov (outro personagem da peça, também um escritor), "Trigórin desenvolveu algumas técnicas para uso próprio e assim ficou fácil para ele...". Falemos um pouco dessas duas figuras.

O jovem Trepliov é melancólico e inseguro. Acredita que a dramaturgia (e a literatura, por extensão) precisa de "formas novas" ("Formas novas são indispensáveis e, se não existirem, então é melhor que não haja nada"). Mas, no último ato de A gaivota, revê suas convicções iniciais:

"Cada vez mais me convenço de que a questão não consiste em formas novas e formas velhas, mas sim em que a pessoa escreva sem pensar em formas, sejam quais forem, que ela escreva porque isso flui livremente da sua alma".

Por sua vez, Trigórin, homem já de meia idade, é um autor renomado na Rússia (embora aqueles que passarem pelo seu túmulo, no futuro, talvez digam: " 'Aqui jaz Trigórin. Foi um bom escritor, mas não escrevia tão bem quanto Turguêniev' ").

E entre esses dois, existe Nina, uma ingênua moça do interior, aspirante a atriz. Após um período de desilusão e sofrimento em Moscou, ela afirma agora compreender que

"no nosso trabalho, representando no palco ou escrevendo, o que importa não é a glória, não é o esplendor, não é aquilo com que eu tanto sonhava, mas sim a capacidade de suportar. Aprenda a carregar a sua cruz e acredite. Eu acredito e, assim, nem sofro tanto e, quando penso na minha vocação, não sinto medo da vida".

A narrativa de Tchekhov assume duas funções. A primária, obviamente, é ser uma peça de teatro na qual, vale notar, a ação é sofreada pelos devaneios e frustrações confessadas de seus personagens (sem qualquer prejuízo, é bom que se diga, para a qualidade do texto). E a função secundária é veicular algumas das reflexões do autor sobre o fazer literário.

O que se pode concluir a partir daí?

Tchekhov parece não estar disposto a conceber o trabalho do escritor como sendo apenas uma questão de escolher as palavras certas para compor uma história qualquer. Sobre as falas de alguns personagens de A gaivota paira a sensação de que produzir arte deve ser algo mais profundo do que isso: Trepliov alude à importância da "alma"; Nina fala em "carregar a sua cruz". Até mesmo o profissional e bem sucedido Trigórin, numa conversa com a garota interiorana que o admirava, declara:

"E é sempre assim, sempre, nunca dou sossego a mim mesmo e tenho a sensação de que estou devorando a minha própria vida, tenho a sensação de que, para fabricar o mel que entrego, num vazio, a pessoas que nem mesmo sei quem são, eu retiro o pólen das minhas melhores flores, arranco da terra essas mesmas flores e pisoteio suas raízes". 

Um pouco mais à frente, Trigórin revela a própria insegurança, mesmo sendo uma celebridade literária:

"Será que não estou louco? Será que meus conhecidos e amigos se dirigem a mim como a uma pessoa sã? 'O que o senhor anda escrevendo? Com que nos brindará a seguir?' Sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa, e fico com a impressão de que essa atenção de meus conhecidos, os elogios, a admiração, tudo isso é uma mentira, tenho a sensação de que estão me enganando, como fazem com uma pessoa doente, e às vezes tenho medo de que eles se aproximem sorrateiramente pelas minhas costas, me agarrem e me arrastem para o hospício, como ocorreu a Popríchin, o personagem de Gógol"

Por que diabos algumas pessoas se metem a fazer literatura/arte? - essa parece ser uma das questões a emergir nessa valiosa peça de Anton Tchekhov. Felizmente, para nós, apreciadores desse ofício, autores e autoras de talento (como o dramaturgo russo) preferiram não sufocar em si a loucura do escrever

* TCHEKHOV, Anton. A gaivota. São Paulo: Cosac & Naify, 2004 [Tradução de Rubens Figueiredo]
. . . . . . .

Este blog encerra seus trabalhos no ano de 2015 e retornará ao batente - espero - em 1º de fevereiro do próximo ano. Ao(à) eventual leitor(a), boas festas e um aprazível (ou pelo menos suportável) 2016!

BG de Hoje

Este foi um dos piores anos da minha vida. Para encerrá-lo, acho que seria bem adequado escutar uma canção de que sempre gostei, desde garoto: Nostradamus, de EDUARDO DUSEK


terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A crítica de Merleau-Ponty ao fascismo

 
"Ora, a crítica política não se ocupa somente com ideias mas também com as condutas que tais ideias mascaram em vez de exprimir"

Maurice Merleau-Ponty




Um dos três livros que pretendo comprar em breve e ler durante as benditas e intensamente desejadas férias é Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro, da filósofa e escritora Márcia Tiburi.

O Brasil atravessa, a meu ver, um período no qual declarações e posicionamentos reacionários e antidemocráticos são despejados na esfera pública sem o menor pejo, muitas vezes intimidando ou calando à força as vozes divergentes. Seus arautos estão por quase toda parte: lideranças religiosas das igrejas caça-níqueis, parlamentares filhotes-da-ditadura, "celebridades" televisivas de talento questionável, jornalistas paus-mandados dos chefões da nossa mídia oligopolizada... Isso sem falar nos milhões de "comentaristas de redes sociais", com sua truculência, grosseria e desinformação, infestando o Twitter, Facebook e Whatsapp, vinte e quatro horas por dia. O livro de Márcia Tiburi, espero, talvez possa me ajudar a respirar e pensar melhor nesse pântano de involução política em que estamos nos atolando.

Os reacionários com pretensões autoritárias de nossos dias são frequentemente chamados de fascistas. Essa denominação é válida?

Penso que sim.

Embora o fascismo, stricto sensu, esteja relacionado ao período entre 1922 (quando Benito Mussolini chega pela primeira vez ao poder na Itália) e 1945 (quando o ditador é fuzilado), seu ideário, obviamente, não ficou circunscrito a um único país, nem deixou de se propagar através do tempo. O fascismo, como um conjunto organizado de princípios, sobrevive em estado de latência em nosso tempo - algumas vezes sendo testado e revivido na prática, para nosso repúdio, horror e vergonha. Seus ideólogos contemporâneos dificilmente se assumirão como tal em público. Nada, porém, nos autoriza a considerá-lo uma etapa histórica já vencida.

Entretanto, é preciso notar que, durante uma certa época pelo menos, aqueles encarregados das tarefas mais intelectualizadas entre os defensores e entusiastas do fascismo não agiam dissimuladamente quando se tratava de afirmar sua ideologia com todas as letras. É a um desses indivíduos que o filósofo Maurice Merleau-Ponty se dirige, especificamente, no ensaio Em torno do marxismo*. Apesar de reconhecer que há "lucidez", bem como "honestidade e vigor", nas reflexões de um tal Thierry Maulnier (o autor de direita cujos textos critica), Merleau-Ponty procura demonstrar que essas mesmas reflexões são conformistas e retrógradas pois cessam "de fato de escolher a revolução".

É estranho, reconheço, escrever sobre um artigo (quase) de circunstância publicado há 70 anos. É estranho, sobretudo, quando, como gosta de dizer certa gente influente e "formadora de opinião", estaríamos vivenciando uma era "pós-ideológica". Tenho, entretanto, duas intenções: a primeira é lembrar que o debate político, ao longo da história, nem sempre ficou amesquinhado pelo disse-me-disse dos bastidores da administração estatal ou pelas torcidas organizadas de agremiações partidárias; e a segunda é reconhecer que contrapor-se ao fascismo, na primeira metade do século passado, tinha um outro sentido - mais profundo, talvez. Tentemos compreender isso um pouco melhor.

Se considerarmos o fascismo (mesmo que apenas) em seu sentido estrito, verificaremos que muitas atitudes e opiniões circulando atualmente na esfera pública nacional e internacional refletem concepções fascistas já presentes nos anos 1920, tais como racismo, xenofobia, apego ao militarismo, defesa do estabelecimento dos regimes de exceção a qualquer momento e desprezo pela noção de direitos humanos válidos para todos. Acrescentaria, ainda, o comportamento hostil em relação às minorias e o anti-intelectualismo. Mas deve-se lembrar que, em suas origens, o fascismo pretendia instaurar uma nova sociedade a partir, sobretudo, de ações "salvadoras" na economia. E é no campo econômico que se nota a diferença entre os fascismos contemporâneos e o fascismo "original", digamos assim.

Regimes políticos fascistas caracterizavam-se por um enorme intervencionismo estatal na atividade econômica, visando incrementar áreas consideradas estratégicas, sobretudo aquelas ligadas ao setor bélico. Sabemos, contudo, que muitos dos reacionários atuais têm verdadeiro horror a controles e regulamentações, de qualquer natureza (principalmente da parte do Estado), quando se trata de seu deus, o Mercado**.

Merleau-Ponty escreveu Em torno do marxismo num contexto em que o debate ideológico ainda era muito relevante, já que se tratava de apontar, de forma crucial, como a sociedade deveria conduzir-se (ou ser conduzida) economicamente. De uns tempos pra cá, lamentavelmente, esse debate não parece fazer mais sentido, pois somos levados a crer que o mundo como o conhecemos não pode ser mudado.

Como bom marxista, Merleau-Ponty acredita que "se conhecerá mais seguramente a essência de uma sociedade pela análise das relações inter-humanas cristalizadas e generalizadas na vida econômica do que pela análise de movimentos de ideias frágeis e fugazes, assim como se conhece melhor o homem por suas condutas do que por seus pensamentos" [grifos meus]

Por isso sua critica ao fascismo tenciona saber quais mudanças estruturais, de natureza econômica, esse ideário político poderia apresentar. Em termos marxistas: como ele resolveria a questão fundamental da luta de classes?
. . . . . . .

A democracia é um grande valor. Mas é apenas isso. Ela não é garantida por nenhuma lei universal presente na natureza. Atentemos para essa passagem de Em torno do marxismo:

"O otimismo democrático admite que, num Estado onde os direitos do homem são garantidos, nenhuma liberdade usurpa as outras liberdades e a coexistência dos homens como sujeitos autônomos e racionais encontra-se assegurada. Isto significa supor que a violência faz uma aparição episódica na história humana, que as relações econômicas, em particular, tendem por si mesmas a realizar a justiça e a harmonia e, enfim, que a estrutura do mundo natural e humano é racional. Hoje sabemos que a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprimi-las. E, assim, o problema político consiste em instituir estruturas sociais e relações reais entre os homens tais que a liberdade, a igualdade e o direito tornem-se efetivos. A fraqueza do pensamento democrático reside no fato de ser menos uma política e mais uma moral, visto que não coloca qualquer problema de estrutura social e considera as condições do exercício da liberdade como dadas com a humanidade. Contra tal moralismo, nós nos alinhamos do lado do realismo, desde que este seja entendido como uma política ocupada com a realização das condições de existência dos valores por ela escolhidos". [grifos meus]

"[...] a igualdade formal dos direitos e a liberdade política mascaram relações de força, em vez de suprimi-las"... Posso até participar de eleições periodicamente e imaginar que meu direito a um salário digno ou a igualdade perante a lei estão assegurados. Tudo isso, entretanto, é ilusório. Bilhões de indivíduos como eu (e outros tantos ainda mais pobres) somos manietados e arrastados diariamente pelas decisões tomadas por conglomerados empresariais globais e pelo setor bancário transnacional, para os quais o bem-estar das pessoas localizadas na base da pirâmide econômica é irrelevante. Diante dessa situação, como não reconhecer que a luta de classes - opondo os detentores do capital e plutocratas ao restante de nós - é um traço definidor da realidade? E que a grande batalha é  tentar "instituir estruturas sociais e relações reais" que possam tornar efetivas "a liberdade, a igualdade e o direito"?

Mas essas questões não são sequer cogitadas pelos fascistas. Aferrados a um conceito não igualitário de sociedade, a "solução" que poderiam apresentar para os problemas sociais passa, inevitavelmente, pelo que pensam as suas elites dirigentes. E estas são o núcleo-duro do conservadorismo econômico e político, posicionado no lado que está, há séculos, vencendo a luta de classes.
. . . . . . .

Para Merleau-Ponty - assim como para boa parte dos pensadores marxistas - as condições de existência só serão alteradas por meio da ação revolucionária. É preciso admitir, contudo, que um dos motivos pelos quais o marxismo é desprestigiado hoje em dia tem a ver com o fato de que a ideia de revolução foi perdida.

De todo modo, apesar de meu conformismo, procurarei sempre ter em mente estas palavras, com as quais encerro a postagem de hoje:

"Todavia, se a alternativa é: ou socialismo ou caos, então a imprudência estará do lado daqueles que contribuem para agravar o caos sob o pretexto de que a revolução é um risco. Reconduzido ao essencial, o marxismo não é uma filosofia otimista - é somente a ideia de que uma outra história é possível, que não há destino e que a existência do homem é aberta. É a tentativa resoluta por esse futuro que ninguém no mundo, nem fora do mundo, sabe se será ou não será".
____________
* MERLEAU-PONTY, Maurice. Em torno do marxismo. São Paulo: Abril Cultural, 1980. [Tradução de Marilena Chauí] (Coleção Os pensadores)

** Há ainda, para o fascismo "original" outra deusa - no caso, a Nação. O integralismo de Plínio Salgado, nos anos 1930, manteve essa tendência ultranacionalista aqui no Brasil. Porém, é curioso notar que muitos brasileiros de hoje, entusiastas de ideias e noções de cunho fascista, apesar de vestirem o verde e amarelo quando se manifestam, têm imenso desejo de se mudar para o estrangeiro, principalmente para os EUA.

BG de Hoje

Semana passada assisti a um programa de TV, no estilo documentário, sobre o Nirvana. Deu-me então uma grande vontade de rememorar a cena grunge (na minha opinião, o último grande momento criativo do velho rock). Passei um fim de semana todo ouvindo os discos de Kurt Cobain e cia., Alice In Chains (minha banda favorita), Pearl Jam e SOUNDGARDEN (este último, o mais subestimado dos grupos grunge de sucesso comercial) Reforcei minha convicção de que Chris Cornell é um cantor fenomenal, o melhor - disparado - entre todos os que fizeram parte daquela cena musical. Você pode perceber isso conferindo, por exemplo, Burden In My Hand.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Falou e disse...

LIMITE *

E quando a palavra
apodrece
num corredor
de sílabas ininteligíveis.

E quando a palavra
mofa
num canto-cárcere
do cansaço diário.

E quando a palavra
assume o fosco
ou o incolor da hipocrisia.

E quando a palavra
é fuga
em sua própria armadilha.

E quando a palavra
é furada
em sua própria efígie.

A palavra
sem vestimenta,
nua,
desincorporada.

* VENTURA, Adão. Costura de nuvens. Sabará: Dubolsinho, 2010. p. 37


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O mundo continua Caim: lendo a poesia de Adão Ventura


        

    "É hora
de sair do gueto/eito
    senzala
e vir para a sala
- nosso lugar é junto ao Sol."



Adão Ventura (do poema Agora)


 
 
Aprecio muito um site chamado I fucking love science (www.iflscience.com). O negócio por lá é vulgarização científica, se possível com um toque de bom humor. Mesmo tendo como objetivo tornar o universo das ciências um pouco mais compreensível para os leigos em geral (como este blogueiro), o site produz artigos bem elaborados - a despeito da pequena extensão deles - e tem o cuidado de sempre indicar as fontes originárias das informações divulgadas. Mas apesar de gostar bastante do I fucking love science, acabei tendo um ligeiro desagrado com algo que foi postado em sua página do Facebook.

Era um meme composto por uma foto de Bill Nye (conhecido nos EUA pelo programa de TV Bill Nye the Science Guy) e a seguinte declaração dele:

"Along with the evidence of common sense, researchers have proven scientifically that humans are all one people... The color of our ancestors skin and ultimately my skin and your skin is a consequence of ultraviolet light, of latitude and climate. Despite our recent sad conflicts here in the U. S., there really is no such thing as race. We are one species. Each of us much, much more alike than different. We all come from Africa. We all are of the same stardust. We are all going to live and die on the same planet, a pale blue dot in the vastness of space. We have to work together". [grifos do original]  *

Acho Bill Nye um cara inteligente e boa-praça. Suas palavras reproduzidas acima são inspiradoras, bem intencionadas e - sob um perspectiva estrita -, cientificamente corretas. Então por que fiquei incomodado com isso? Explicarei. E por ser um assunto complexo, tenho que estender este texto para além do tamanho habitual das minhas postagens aqui no blog. Peço compreensão e paciência do(a) eventual leitor(a).

Geneticamente falando - garantem-nos a biologia e a paleoantropologia -, não há realmente essa coisa de raça ("there really is no such thing as race"). Entretanto, como observou muito bem Ellis Cashmore**, o termo raça adquiriu ao longo dos séculos muitos sentidos, variando no decorrer do tempo:

"É importante ressaltar essas mudanças porque há uma suposição de que a palavra só pode ser usada de uma única maneira cientificamente válida. As diversidades físicas atraem a atenção das pessoas tão prontamente que elas não percebem que a validade da raça como conceito depende do seu emprego numa explicação. De acordo com esse ponto de vista, a questão principal não é o que vem a ser 'raça', mas o modo como o termo é empregado. As pessoas elaboram crenças a respeito de raça, assim como a respeito de nacionalidade, etnia e classe, numa tentativa de cultivar identidades grupais".

Desse modo, o termo raça indica também uma construção sociocultural, tal como brasileiro, judeu ou classe média. É por causa de sua polissemia que o termo " 'raça' é um significante mutável que significa diferentes coisas para diferentes pessoas em diferentes lugares na história e desafia as explicações definitivas fora de contextos específicos", diz Cashmore. Ainda segundo o autor, há quatro sentidos principais para essa palavra. O último deles - "um grupo de pessoas socialmente unificadas numa determinada sociedade em virtude de marcadores físicos como a pigmentação da pele, a textura do cabelo, os traços faciais, a estatura e coisas do gênero" - é o que este blogueiro tem em mente todas as vezes em que usa a palavra raça aplicada a grupos humanos. E é importante dizer que "quase todos os cientistas sociais usam o termo somente neste quarto sentido de grupo social definido pela visibilidade somática".

Ou seja: se por um lado não faz sentido falar em raças humanas no contexto da biologia (ou melhor dizendo, no contexto da genética), faz todo sentido falar em diferenças e pertencimento raciais no contexto sociológico e político.

Se é verdade, como assinalou Ellis Cashmore, que a maioria das sociedades não fizeram distinções internas em relação aos grupos humanos que as compunham, fica difícil, por sua vez, não constatar que a civilização ocidental moderna o fez (e continua fazendo):

"As sociedades que reconhecem as raças sociais são invariavelmente racistas, no sentido de que as pessoas, em especial os membros do grupo racial dominante, acreditam que os fenótipos físicos estão ligados a características intelectuais, morais e comportamentais. Raça e racismo, portanto, andam de mãos dadas".

Estamos acostumados com declarações do tipo "raça não existe, somos todos iguais", "eu não olho a cor das pessoas, só aquilo que elas tem por dentro", "devemos comemorar o dia da consciência humana, e não negra", às quais poderíamos adicionar uma que ficou bem na moda ultimamente: "#SomosTodosBláBláBlá". É bastante sintomático que essas frases partam, na maioria das vezes, de indivíduos para os quais não há interdições, obstáculos ou constrangimentos ocasionados por seu fenótipo. Noutras palavras: quem lança esses lugares-comuns vazios (mas aparentemente bem intencionados) é geralmente branco, do mesmo modo que são brancos a maioria esmagadora dos astros de cinema, os modelos da publicidade, os executivos mais poderosos e os donos dos grandes conglomerados. E, se considerarmos o caso brasileiro, também os ocupantes dos postos de poder dentro da administração pública.

Todas essas pessoas brancas têm alguma vivência como objetos de ações racistas? Por que diabos estariam essas pessoas mais capacitadas do que as outras, não-brancas, para dizer o que é ou não racismo, sendo que o segundo grupo de indivíduos é geralmente o alvo preferencial da discriminação, do preconceito e da intolerância?

Sei que o tema pede maior aprofundamento e uma discussão mais detida; receio, contudo, estar me demorando. E ainda nem sequer comecei a tratar do assunto central dessa postagem, para o qual o texto até então elaborado está servindo apenas como preâmbulo. Avancemos, então. Espero que o(a) eventual leitor(a) tenha me acompanhado até aqui e permaneça até o final.

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E já que se falou tanto em raça, é necessário reconhecer que nunca faltou ao poeta mineiro Adão Ventura a consciência de seu pertencimento racial. Essa consciência evidencia-se em vários de seus textos***:

"Faça sol ou faça tempestade
meu corpo é fechado 
por esta pele negra"
                                  (Do poema Faça sol ou faça tempestade)

"Em negro
teceram-me a pele
Enormes correntes
amarram-me ao tronco
de uma nova África"
                                 (Do poema Um)

É preciso dizer, sem véus retóricos, as muitas implicações da negritude:

"Para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco"
                                 (Do poema Para um negro)

Não falta ao poeta, obviamente, o conhecimento de nossa história. E, numa estrofe apenas, desmonta-se a farsa de nossa propalada "democracia racial":

"Minha carta de alforria
não me deu fazendas
nem dinheiro no banco
nem bigodes retorcidos"
                                (Do poema Negro forro)

Tem razão Sebastião Nunes**** ao dizer que a poesia de Ventura "vai direto na veia, ataca no ponto certo, expondo as feridas da raça, abertas por séculos de humilhação, nas senzalas e nas casas-grandes, nas vilas e nas cidades, nos salões e nas ruas, no passado e no presente".

Essa poesia amarga e autêntica olha a realidade sem ilusões. Daí qualificar esse nosso mundo torpe como um "mundo Caim", aludindo ao nefando personagem bíblico:

"O mundo continua Caim
Uma bomba comprime meu coração
reduzindo-o a chumbo e pólvora.
Restam-me os sonhos,
também já quase plastificados".

Para que as palavras não assumissem "o fosco/ou o incolor da hipocrisia" (como se lê no belíssimo poema Limite), Adão Ventura lutou em cada um de seus escritos.

* tradução aproximada: "Ao lado da evidência de senso comum, pesquisadores provaram, cientificamente, que os humanos são todos um único povo... A cor da pele de nosso ancestral e, finalmente, da minha pele e da sua pele é a consequência da luz ultravioleta, da latitude e do clima. Apesar dos recentes e tristes conflitos aqui nos EUA, não há realmente essa coisa de raça. Nós somos uma única espécie. Cada um de nós é muito mais parecido do que diferente. Nós todos viemos da África. Nós todos somos o mesmo pó estelar. Nós todos vamos viver e morrer no mesmo planeta, um pálido ponto azul na vastidão dos espaço. Nós temos que trabalhar juntos". [grifos do original]

**  CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Summus, 2000.[Tradução de Dinah Klevel] 

* * * VENTURA, Adão. Costura de nuvens: antologia poética. Sábara: Dubolsinho, 2010.

**** Essas considerações fazem parte do prefácio da antologia Costura de nuvens acima referida. E aproveito para reconhecer aqui o trabalho heróico de Sebastião Nunes através da Edições Dubolsinho, enfrentando as adversidades desse mercado editorial tão cruel com a poesia e as pequenas editoras.

BG de Hoje

Assim como JAMES BROWN, hoje eu canto:  Say it loud (I'm black and I'm proud)

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Negritude, um retrato da juventude africana e a mitologia iouruba em quadrinhos

Nesta semana, as postagens do blog serão alusivas ao Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). Como faz tempo que não escrevo sobre quadrinhos, aproveito logo para destacar hoje três obras do gênero.
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Muita gente já disse que os estrangeiros em geral conseguem perceber os problemas raciais do Brasil de forma mais realista, sem o "filtro rosa" com o qual diversos brasileiros - por má fé, ignorância ou mesmo ingenuidade - preferem olhar para a questão*. É algo a se verificar. Mas posso dizer, sem dúvida, que no caso de Negrinha (Editora Desiderata, 2009), elaborado pelos franceses Jean-Christophe Camus e Olivier Tallec, os artistas conseguiram dar ao tema o tratamento apropriado, sem falsas amenidades.

A história se passa em 1953, no Rio de Janeiro. Maria é uma adolescente negra, de pela mais clara e cabelos lisos (dentro do peculiar colorismo da sociedade brasileira, talvez até poderia ser vista como branca). Dona Olinda, sua mãe, é negra de pele escura e trabalha como empregada doméstica. Dona Olinda saiu do morro do Cantagalo para que a filha vivesse no "asfalto" e, segundo Carmen, tia da menina,

"fez de tudo pra não faltar nada pra você [Maria], pra você ser criada em um bairro de rico, estudar em um bom colégio. Tudo o que ela fez foi pra você ter uma vida melhor do que a dela... Melhor do que a nossa... Você é descendente de escravos, meu amor, e apesar de a escravidão ter sido abolida 65 anos atrás [em relação à epoca em que a história em quadrinhos se desenrola], pode acreditar, é melhor ser branco do que ser preto... A menos que você seja músico ou jogador de futebol..."

Negrinha expõe muitas das facetas do racismo que caracteriza nosso país, como a subalternidade dos postos de trabalho aos quais a maioria das pessoas negras é confinada, ou a brutalidade policial e a violência oriunda do crime, cujas vítimas, em seu maior número, são pessoas negras. A escrita de Jean-Christophe Camus flui com simplicidade, sem, no entanto, render-se às simplificações. E os desenhos de Olivier Tallec, aquarelados, fornecem a delicadeza necessária à matéria narrada.

Enfim, um trabalho de primeira.

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Aya de Yopougon (Editora L & PM, 2012) tem como protagonista uma jovem de 19 anos, cujo principal objetivo é ser médica. Vive com as amigas num bairro popular de Abidjan, a maior cidade da Costa do Marfim (e que foi capital do país na época em que a história se passa - finalzinho dos anos 1970).

Escrita por Marguerite Abouet e ilustrada por Clément Oubrerie, Aya de Yopougon tem bom ritmo e diversos momentos cômicos, o que não impede a narrativa de incorporar tópicos tais como o machismo, a gravidez não planejada e a desigualdade social.

É pena que somente as duas primeiras partes dessa obra foram publicadas no Brasil (originalmente, são seis). Ah, e vale também dizer que a história foi adaptada, com sucesso, para o cinema de animação, num desenho de longa-metragem lançado em 2013.

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Já Orixás: do Orum ao Ayê (Editora Marco Zero, 2011), ainda que tenha seus méritos, infelizmente não é tão boa quanto as duas obras já destacadas. Sua proposta gráfica é a das publicações standard norte-americanas sobre super-heróis. Tudo é muito bem desenhado, com acabamento bem feito, mas carece um pouco de originalidade. Faltou também um pouco de ação (falha que já havia detectado noutra adaptação de narrativas mitológicas - naquele caso, judaico-cristãs - e que discuti noutra ocasião anterior).

De todo modo, trata-se de um bom título para servir de introdução (sobretudo para as crianças e para os adolescentes) a uma parte integrante essencial do patrimônio cultural ioruba (ou yorubá, como queiram), tão relacionado com a cultura afro-brasileira. A esse respeito, a propósito, também vale a pena conhecer Os príncipes do destino: histórias da mitologia afro-brasileira, de Reginaldo Prandi, e o ótimo Ogum, o rei de muitas faces e outras histórias dos orixás, escrito por Lídia Chaib e Elizabeth Rodrigues. NOTA: Estes dois últimos títulos citados não são HQs.

Na próxima postagem, falo do poeta Adão Ventura.

* Gilberto Gil - que assina o prefácio de Negrinha - prefere dizer que a história ilustra à miscigenação brasileira e não menciona em nenhum momento o termo racismo (que é, como já disse, brilhantemente tematizado pelos autores franceses nessa obra). Claro que Gil não se esquivou da questão da desigualdade racial ao longo de sua carreira (e seu extraordinário cancioneiro comprova isso), mas é perceptível que até mesmo ele - e desconheço os motivos - não se sentiu à vontade para trazer esse tópico à baila ao apresentar o livro ao público brasileiro.

BG de Hoje

Acho que já disse, noutra oportunidade, que considero CHICO CÉSAR um letrista sensacional. Isso fica comprovado, por exemplo, desde o título desta canção: Respeitem meus cabelos, brancos. Com apenas uma vírgula, transforma o que era um simples adjetivo da conhecida expressão popular em um vocativo que define claramente para quem vai o recado dado na canção. Ah, e é claro, tenho que mencionar o ritmo contagiante dessa faixa.


sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Livro: entre o poder simbólico e a obsolescência (III)


[Atenção: o texto abaixo é o terceiro de uma discussão 
iniciada aqui (1ª parte) e que teve prosseguimento aqui (2ª parte)]

Na primeira postagem desta série, deixei no ar algumas perguntas. E uma delas foi: o fim do livro - se é que isto vai acontecer num futuro imediato - deixará um certo tipo de leitor (como este blogueiro) desamparado? 

Eu pensava, ao formular esse questionamento, no livro como suporte material (possivelmente o mais tradicional deles) para os textos elaborados pelas mentes humanas. Leitores inteligentes, entretanto, sabem que o mais importante numa obra é o seu conteúdo (suas ideias e formulações conceituais e, no caso da Literatura, também sua estilística). Buscamos num texto, antes de tudo, o seu lado, digamos, "espiritual" e não nos importa que a sua - ainda me valendo da mesma representação - forma "corpórea" esteja materializada num rolo de papiro, num codex de pergaminho, numa brochura de papel ou na tela de um notebook. Noutras palavras, o livro é só um objeto, um instrumento.

Mas lá do fundo da minha cabeça vem uma voz rouquenha, com um sotaque fora de moda (se percebe no seu tom) que me diz: "Absolutamente! Não é SÓ um objeto!". O livro impresso - o nosso tão familiar livro de papel - deveria erigir-se do terreno mundano das mercadorias (ele próprio uma mercadoria obsoleta, diriam muitos por aí) e atingir as alturas do sublime, digno de veneração.

Pronto: eis a armadilha do fetichismo:

É então que me lembro do conceito marxista. Num arguto ensaio* (ao qual retornarei mais adiante) o antropólogo Igor Kopytoff considera que:

"Para Marx, o valor das mercadorias é determinado pelas relações sociais ocorridas na sua produção; mas a existência do sistema de troca faz com que o processo produtivo se transforme em algo remoto e mal entendido, e ele 'mascara' o valor real da mercadoria [...] Isso permite que a mercadoria seja socialmente dotada de um 'poder' de fetiche que não se liga ao seu valor real".

E esse "poder" acaba conferindo a determinadas coisas - neste caso, livros - um verniz de prestígio ainda bastante reluzente nos dias atuais, quando todos admitem a trivial condição delas como produtos comercializáveis.

O fetichismo em torno desse objeto remete-me ao ensaio Do fim da cultura ao fim do livro, de Sérgio Paulo Rouanet** (já mencionado aqui). Segundo o ensaísta, "todos nós, intelectuais, vivemos dos livros e para os livros" e "como se isso não bastasse, somos incorrigíveis fetichistas, fascinados pelos livros enquanto objetos, e não somente enquanto depositários de ideias e informações". Sendo "filhos da 'galáxia de Gutenberg' ", teríamos restrições em "aceitar facilmente a passagem para outra galáxia". Nossa inadaptação às mudanças provocadas pelo atual cenário tecnológico pode explicar muitas das alegações a respeito do fim do livro. E, se "levado às últimas consequências, esse comportamento é, certamente, irracional", adverte Rouanet. Os novos suportes e recursos informacionais são uma realidade incontestável e, à sua maneira, disseminam conhecimento como nenhum outro instrumento o fez até hoje.

O que estamos vivenciando hoje, talvez, seja "uma crise da cultura da qual a crise do livro seria, senão um epifenômeno, pelo menos um sintoma", pensa Sérgio Paulo Rouanet. O autor considera que

"As pessoas não leem, não por serem analfabetas, mas por serem vítimas do fenômeno social do 'iletrismo', ou seja, a recusa de ler, mesmo quando elas dominam a técnica da leitura. É nisso, fundamentalmente, que a globalização é trágica, não por dissolver identidades, mas por 'planetarizar' a massificação, carregando os detritos culturais até os confins do universo e, assim, destruindo a curiosidade intelectual sem a qual deixa de existir o prazer da leitura".

Para o ensaísta, o ser humano contemporâneo, globalizado,

"foi condicionado para deixar de ler, passando por uma pedagogia da não-leitura; não lê porque a leitura exige esforço, enquanto a mídia lhe oferece uma satisfação instantânea [...] não lê porque passa por uma aprendizagem regressiva que faz com que regrida do estágio do pensamento conceitual, sem o qual nenhuma leitura é possível, para o estágio do pensamento por imagens, efêmeras por natureza, sem vínculos entre si, e que nada podem fazer além de refletir um mundo igualmente desconexo - por essa razão, ininteligível - e, por consequência, não transformável. É evidente que o contrário é, igualmente, verdadeiro: por não ler, o homem não aprende a pensar segundo os princípios da causalidade, do ponto de vista histórico e político".

O livro, símbolo do pensamento conceitual e da capacidade de olhar o mundo de uma perspectiva histórica e política, é considerado obsoleto na atualidade, possivelmente não pela materialidade de que é feito, mas pela função sociocultural que exerce.

Continuo na próxima postagem.
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* KOPYTOFF, Igor. A biografia cultural das coisas: a mercantilização como processo. In: APPADURAI, Arjun. A vida social das coisas: as mercadorias sob uma perspectiva cultural. Niterói: Editora da UFF, 2010. p. 89-121 [Tradução de José Augusto Drummond]

** ROUANET, Sérgio Paulo. Do fim da cultura ao fim do livro. In: PORTELLA, Eduardo (Org.). Reflexões sobre os caminhos do livro. São Paulo: Moderna, 2003. p. 57-77

BG de Hoje

Cada vez que noto alguém ouvindo música-porcaria, me pergunto: porque fechar a sua mente com tanta má qualidade? É tão mais fácil hoje encontrar bons artistas espalhados por esse mundão... Como, por exemplo, a cantora e compositora franco-nigeriana ASA (pronuncia-se 'ASHA'). A canção chama-se Jailer.