sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A apreciação do texto literário

 

Quando se usa a expressão  crítica literária  numa conversa em que filigranas conceituais podem ser deixadas de lado, qual é o entendimento desse termo? O que é, para que serve, como fazê-la?

Nessa conversa hipotética, pode-se dizer, sem rodeios, que crítica literária é a opinião de alguém, conhecedor(a) de literatura - assim se supõe -, sobre um (ou vários) texto(s) literário(s). 

Não acho uma definição das piores. É simples e compreensível. 

Prosseguindo o bate-papo, poder-se-ia acrescentar que essa opinião geralmente busca enfatizar o  valor  (isto é, supostas qualidades e méritos) do(s) texto(s) criticado(s) ou apontar seus supostos defeitos e falhas, se assim decidir a pessoa que assina/profere a crítica, pois, na maior parte das vezes, essa opinião é enunciada publicamente. Espera-se, portanto, que a crítica sirva como orientação, incentivo ou advertência para outros leitores.

Vamos complicar um pouquinho mais as coisas.

Por que deveríamos aceitar a legitimidade do indivíduo que faz a crítica? Por que a sua opinião deveria ser levada mais em conta do que outras? 

Como foi dito acima, presumem-se um conhecimento especializado ou um olhar de estudioso por parte da pessoa que faz a crítica. Atualmente, é muito provável que esse conhecimento ou esse olhar advenham de formações e cursos no âmbito universitário/acadêmico. Mas podem ser também o resultado da experiência acumulada em muitos e muitos anos de leituras particulares - um fecundo diletantismo, nesse caso. Bastante frequente, há ainda os escritores e as escritoras que, paralelamente a seu trabalho de criação artística, dedicam uma parte de seu tempo à análise de outras produções literárias (recentemente, para exemplificação, li um ensaio sensacional de Thomas Pynchon, publicado há cerca de 20 anos sobre o  1984,  de Orwell). De uma maneira ou de outra, não teríamos motivo para não atestar a competência da pessoa que faz a crítica nessas situações.

Por aí se percebe que há opiniões e opiniões, isto é, algumas delas seriam mais fundamentadas, teriam mais tutano, mais "sustança", do que outras.

Não faz muito tempo, estava lendo os textos de Umberto Eco reunidos em  A definição de arte.  Escritas entre o final dos anos 1950 e início da década ulterior, as reflexões, apesar do título do volume, voltam-se mais para a discussão de concepções estéticas do que para a formulação de um conceito cabal de arte (a noção de  obra aberta , fundamental dentro do pensamento do filósofo e escritor italiano, é uma dessas concepções). No ensaio  Notas sobre os limites da estética ¹, ele observa: 

[...] a ação do crítico (entendido aqui como intérprete qualificado, como fruidor por excelência) consiste precisa e substancialmente em narrar uma experiência de compreensão, a experiência de um encontro em que jogam as tendências pessoais e a realidade objetiva da obra compostos num ato vital de interrogativas e confrontos, de adesões instintivas e carregadas de valor heurístico e de repulsas que devem ser avaliadas e revistas à luz dos passos já dados e dos elementos objetivos que temos diante de nós".

A pessoa que faz a crítica, por mais intelectualmente equipada que esteja, não deixará (na verdade, não pode deixar) de lado sua subjetividade ( tendências pessoais ) durante o "diagnóstico": sua apreciação ampla, seu esforço de entendimento a partir do objeto examinado (poema, conto, romance, etc., pois estamos falando de crítica literária nesse caso) dependem tanto daquilo que está de fato contido nos textos (os elementos objetivos ) quanto de seu repertório cultural e de suas inclinações particulares (em grande parte das vezes, são essas últimas que impulsionam a análise).

Para Eco, "a obra de arte constitui um fato comunicativo que pede que seja  interpretado  e, portanto, integrado, completado por um aporte do fruidor, aporte este que varia conforme os indivíduos e as situações históricas e que é constantemente medido em referência àquele parâmetro imutável que é a obra enquanto objeto físico".  Cabe dizer aqui (como fora enfatizado pelo autor italiano noutras oportunidades, em escritos posteriores) que existem limites para o alcance do olhar do fruidor. Por vezes, alguns intérpretes atribuem certos significados e traços a uma obra que não encontram sustentação em sua base material (no caso da literatura, essa base é o texto em si) e elementos paratextuais (como a biografia do/a escritor/a ou a observação do período histórico em que a obra foi gestada, por exemplo), que poderiam ser invocados em apoio, não dão conta de corroborar aquilo que está a ser a atribuído. Nem toda interpretação é válida: leituras muito afastadas (às vezes inteiramente desvinculadas) do objeto examinado em nada auxiliam na melhor compreensão deste, obviamente.

Assentindo com o filósofo Enzo Paci, Umberto Eco vai afirmar que "um crítico não diz dogmaticamente 'isto é belo - isto é feio', mas conta (com rigor e acuidade) a sua experiência de interpretação, pedindo a concordância de todos, fruidores mais ou menos qualificados, que enfrentam o mesmo esforço de compreensão". Antes, ele já havia escrito que "diante de uma obra de arte, o mais importante é um processo de interpretação: aquilo que importa é uma compreensão crítica, não um juízo de valor expresso em termos dogmáticos e simplistas".

É de se notar que o próprio Eco não foi exatamente um crítico literário. No texto que fecha o livro -  Um balanço metodológico ² -, ele declara : "Antes de definir minha dívida para com a crítica anglo-saxônica, devo precisar alguns pontos. Antes de tudo, não desenvolvo uma atividade crítica no sentido corrente do termo: burocraticamente falando, pertenço ao  genus  dos filósofos e dedico-me à estética". Sendo um estudioso dos modelos estruturais das várias poéticas, reconhece, contudo, que os resultados de parte de seu trabalho "podem ser utilizados como contribuição à compreensão crítica de uma obra ou de um autor". Ao final desse ensaio, o autor registra uma importante argumentação a respeito da necessidade de evitar as apreciações de caráter taxativo sem deixar, contudo, de se estabelecer um posicionamento diante da obra: 

"Minha definição da arte, como forma na qual os valores (o  antes  que está na origem da obra e o  depois  ao qual se dirige a obra) só se resolvem em estrutura e se tornam importantes na medida em que essa estrutura tenha valores próprios, prevê também que uma obra de arte pode transmitir um universo de valores que julgo negativos. Mas essa ordem que assumiram na forma artística poderá, por um lado, ajudar-me a estabelecer relação com eles na base de uma simpatia e de uma compreensão mais profundas. Por outro lado, é possível que diante da obra eu compreenda os valores que ela comunica e que, ainda assim, não aceite. Nesse caso, posso discutir uma obra no plano político e moral e posso rejeitá-la, contestá-la, justamente porque é uma obra de arte. Isso significa que a Arte não é o Absoluto, mas uma forma de atividade que estabelece uma relação dialética com as outras atividades, outros interesses, outros valores. Diante dela, na medida em que reconheço a obra como válida, posso operar minhas escolhas, eleger meus mestres. A tarefa do crítico pode ser também e especialmente esta: um convite a escolher e a discernir. Cada um de nós, lendo uma obra literária, ainda que professe os critérios técnico-estruturais aqui expostos, deve e pode encontrar uma relação emocional e intelectual, descobrir uma visão do mundo e do homem. É justo que existam pessoas com a sensibilidade mais apurada que nos comuniquem as suas experiências de leitura que possam se tornar nossas também".

Começamos por uma definição simples do que seria a crítica literária ( a emissão de opiniões sobre obras literárias por parte de um conhededor ). Nessa altura da postagem, contudo, a partir das observações de Umberto Eco,  verificamos que o ofício consiste (ou pelo menos deveria consistir) em realizar, com o maior zelo possível, uma  interpretação  da criação artística que se está a observar, ultrapassando os comentários superficiais derivados de uma avaliação por demais terminante.

O tópico  literatura  sempre foi preponderante neste blog e nos outros dois que o antecederam. Mas nunca me dispus a escrever resenhas de livros, muito menos me atrevi a fazer crítica literária em nenhum deles. Assim sendo, que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance?

Antes de responder, gostaria de trazer para essa conversa um pequeno artigo de José Castello, publicado no jornal  Rascunho,  em agosto de 2011 ³ , cujo título é a indagação  A crítica literária existe?

Em seu texto, procurando designar a quem poderia caber a tarefa da crítica, Castello aponta uma distinção entre os teóricos da universidade, "que fazem percursos rigorosos, se submetem a leituras metódicas e se filiam a essa ou àquela nobre corrente de pensamento", e os resenhistas da imprensa (em sua maioria jornalistas de profissão), "igualmente respeitáveis, escrevendo desde a perspectiva da 'não-especialização'. Mais ensaístas do que teóricos", oferecendo textos mais informativos do que reflexivos. Ele não deixa de assinalar que alguns integrantes dos quadros acadêmicos por vezes escrevem na imprensa, em páginas eventualmente reservadas para tratar das produções literárias, mas os jornalistas, naturalmente, são a imensa maioria no setor. Diferentemente dos professores e pesquisadores universitários, os jornalistas (e ele faz parte desse segmento) "não temos compromisso algum com tradições teóricas, com sistemas, com conceitos. Escolhemos nossos livros estimulados pelas ofertas do mercado, pelas modas e ainda pelo apreço à surpresa; e não empurrados por esse ou aquele percurso intelectual".

O articulista se pergunta: no Brasil atual, teóricos da universidade e resenhistas da imprensa estão fazendo crítica literária? 

Sua resposta é não, pois, segundo ele (reconhecendo a vulnerabilidade de seu posicionamento), esse exercício deixou de existir.

Anteriormente em seu artigo, José Castello mencionara críticos importantes do passado (Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Milliet, Wilson Martins) e desfecha: "Homens do século 20. Posso concluir: crítica literária, atividade do século 20 também". O trabalho de Antonio Candido também fora lembrado, como sendo o pioneiro no Brasil a levar a crítica literária, que era feita somente nos jornais (e, devido à ótica não-especializada do colunista de jornal, muitas vezes incorria num julgamento excessivamente apaixonado),  para dentro das salas das universidades. A partir da criação dos cursos específicos de Letras no país (aqui em Belo Horizonte, no ano de 1940, ainda dentro da Escola Livre de Filosofia e Ciências, mais tarde incorporada à instituição que se tornaria a UFMG), abre-se espaço para o surgimento de disciplinas afeitas à atuação do crítico.  Silviano Santiago, Leyla Perrone-Moisés, Antonio Carlos Secchin são alguns dos exemplos de grandes teóricos e críticos literários egressos das faculdades de Letras citados no artigo, o que não é suficiente para Castello  consentir  com a adequação da expressão  crítica literária  como um termo pertinente para se referir "ao trabalho severo"   desenvolvido dentro do meio universitário relacionado à literatura.

E quanto à atuação de jornalistas, como ele, que escrevem sobre o assunto? No seu caso, o articulista diz narrar suas "impressões, [falar] dos pensamentos que a leitura despertou, das associações que [esta] motivou, dos livros que [esta o] levou a reler",  dentro das colunas que publica (na época desse artigo, ele escrevia no hoje extinto caderno Prosa & Verso, do Globo ). O trabalho resultante seria um gênero textual "híbrido - que nem é resenha, nem é teoria, tampouco é crítica literária também"  (Castello se descreve como um cronista).

Ele especula que a expressão  crítica literária  é atualmente empregada mais para intimidar do que propiciar acolhimento. E que isso talvez "desperte mais suspeitas do que confiança".  Seu texto termina assim:

"Declarar-se crítico literário é, quem sabe, pretender uma autoridade que, hoje, ninguém mais tem. Se o crítico não é um juiz que aprova ou desaprova, se ele não é um especialista em aferição de qualidades, se não é um severo inspetor de 'boa escrita', como eu penso que ele não é, o que sobra para o crítico? Sobra ser um leitor. Um leitor comum, para quem a paixão dá sempre a última palavra".

Levanta-se uma boa questão nesse artigo, mas não consigo concordar com ele. 

Admito não me lembrar agora de ninguém, na grande imprensa empresarial atual, que se destaque como crítico ou como resenhista (deve-se mencionar também que suplementos, seções especiais ou áreas destacadas nos sites abordando produções literárias são uma raridade hoje em dia nos grandes jornais brasileiros). Por seu turno, o "trabalho severo" dos teóricos universitários não costuma alcançar grande receptividade fora do ambiente acadêmico (por uma série de fatores, sobre os quais talvez valha a pena discutirmos noutra oportunidade). E acho que José Castelo está correto ao recusar a figura do crítico como um avaliador implacável, cravando etiquetas a torto e a direito.

Entretanto, a meu ver, a crítica literária não deixou de existir. Além disso, não sei se dá para denominar uma parcela importante das pessoas que se dedicam a esta atividade como  leitores comuns.

Preciso também fazer agora uma distinção (parecida com a de Castello) entre o que vou chamar de  comentários genéricos (sobre literatura) e  abordagem universitária (da literatura)  :  a diferenciação é apenas para facilitar aquilo que pretendo expor na sequência. 

Por comentários genéricos, entendo as (poucas) notas ou matérias publicadas na imprensa hegemônica  (no formato impresso ou na internet), em sua maioria assinadas por jornalistas, tratando de livros lançados recentemente ou recuperando escritos publicados há mais tempo (incluindo obras canônicas), geralmente com o objetivo de enaltecer ou (com menor ocorrência) detratar o(s) volume(s) em questão ou seus(suas) autores(as). Importante dizer que a internet, como não poderia deixar de ser, facilita muito a disseminação desse tipo de avaliação, sem que esta necessite estar atrelada a um veículo jornalístico: muitos dos vídeos feitos pelos chamados  booktubers  e  booktokers  (sendo estes e estas jornalistas ou não) também são exemplos desses comentários genéricos. O público-alvo de opiniões assim está buscando um ponto de vista mais direto para orientar suas escolhas (às vezes, querendo saber simplesmente se um tal ou qual livro seria  bom  ou  ruim  de acordo com o comentarista) ou apenas manter-se informado. Parte significativa do público considera e se refere a esses comentários como um tipo de crítica literária (e gosta de saber qual a nota ou a quantidade de estrelas que determinado livro recebeu).

abordagem acadêmica, como não poderia deixar de ser, segue os ritos da produção textual universitária, com a terminologia e o rigor próprios dos especialistas. Nesse enfoque, as obras literárias costumam suscitar  pesquisas : por essa e por outras razões, espera-se maior profundidade neste tipo de análise. Esses estudos aparecem em artigos publicados em periódicos vinculados a universidades e outras instituições de ensino superior (naturalmente, a depender do fôlego da investigação, aparecem também na forma de dissertações extensas ou teses). Não estou certo se o público em geral entende os textos da abordagem acadêmica como uma forma de crítica literária, uma vez que os critérios qualitativos nesse enfoque são expressos de forma diversa dos comentários genéricos e são pouco familiares para a maioria das pessoas.

É claro que essa divisão não dá conta de todas as iniciativas circulantes por aí cujo assunto seja a literatura. Há, entre outras, as crônicas, como as do próprio José Castello; dicas sucintas, como as que aparecem na sessão Favoritos, do jornal  Nexo ; coletâneas de ensaios (muitos deles tendo como autores professores e pesquisadores universitários); além de matérias, resenhas e  avaliações publicadas em veículos inteiramente dedicados à produção literária ou ao mundo livresco, como o já citado  Rascunho  e a revista  Quatro Cinco Um.

Recuperando a definição lá do início da postagem, a noção de crítica literária como apenas a emissão de uma opinião/avaliação sobre obras de literatura com o objetivo de apontar o que seria  bom  e o que seria  ruim, a meu ver, ainda está disseminada entre muitas pessoas. Em complemento, diversos indivíduos - alguns mais habilitados e treinados do que outros - continuam a se dispor a emitir essas opiniões, enquanto outros dedicam-se à tarefa da interpretação de obras literárias, sem pretender serem taxativos na avaliação, mas ainda assim emitindo um ponto de vista a respeito delas. A meu ver, sobretudo no caso dos que se empenham em realizar a melhor interpretação de que sejam capazes, existem pessoas produzindo crítica literária, em especial por meio da abordagem acadêmica.

A professora da UnB Regina Dalgastagnè, pesquisadora inserida no meio acadêmico e que, até onde sei, não rejeita ser identificada também como crítica literária, publicou um artigo em 2018 que acrescentará muito à nossa discussão. Na introdução de  A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial   (disponível aqui), a autora vale-se da noção de  campo,  tal como definida por Pierre Bourdieu ( "um espaço estruturado e hierarquizado de disputas entre agentes que interiorizam um conjunto de práticas e interesses" ), para aplicá-la na literatura. Se assim for, 

"então é preciso reconhecer que o que está em jogo nesse campo é a possibilidade de consagração, que assume a forma do reconhecimento pelos pares. Escritores ou editores podem ser sensíveis a incentivos de mercado ou a outras vantagens materiais, mas, enquanto integrantes do campo literário, o que os move é a busca desse reconhecimento, que não é necessariamente o do grande público de leitores comuns. É o reconhecimento oferecido pelos demais integrantes do campo literário".

Os professores e pesquisadores universitários da área da literatura ocupariam, dentro desse campo, uma  "posição singular",  segundo Dalcastagnè. Escreve ela: "Envolvidos também em disputas por reconhecimento entre si, nós somos agentes importantes na legitimação de autores/as e obras, o que fazemos ao incluí-los no corpus de nossas disciplinas, ao orientar dissertações e teses e também ao dedicar a eles nosso esforço de pesquisa, que resulta em trabalhos apresentados em eventos acadêmicos, em livros e, especialmente, em artigos publicados em periódicos científicos".

Se a intervenção dos professores e pesquisadores consegue alterar o modo como olhamos para o cânone vigente (resgatando ou rejeitando autores/as e obras do passado), a análise da academia tem ainda mais impacto em relação ao que se publica contemporaneamente. "Para obras que ainda não possuem um lastro de crítica e camadas de interpretação acumuladas, a atenção oferecida pelos acadêmicos representa um capital importante",  afirma a autora.

O levantamento apresentado no artigo extraiu seus dados e informações de textos críticos/analíticos, abordando especialmente criações literárias brasileiras contemporâneas (dos anos 1970 em diante), que constam em nove periódicos acadêmicos nacionais classificados entre os de maior qualidade. 

Destacando alguns dos resultados: 

  • Constatou-se que a maioria dos textos críticos foram elaborados por mulheres, embora o número de escritoras analisadas seja bem menor que o dos escritores (nas referências bibliográficas para fundamentação teórica desses mesmos textos críticos, mulheres também são menos citadas do que homens).
  • Em termos de gênero textual, o romance é muito mais discutido do que o conto, poemas ou a crônica. A pesquisadora observa que  "no campo literário e mesmo no mercado editorial brasileiro das últimas décadas, o romance é considerado o gênero literário por excelência, quase que exigindo dos autores/as sua adesão para que possam ser, efetivamente, chamados de escritores/as". Não se deixou de notar a escassez de estudos críticos sobre literatura infantojuvenil entre pesquisadores da área de Letras, lacuna essa talvez resultante de um certo desprezo/preconceito, por parte dos estudiosos e também dos editores dos periódicos, em relação aos livros destinados a crianças e adolescentes.
  •  A grande maioria dos trabalhos foca em um(a) único(a) autor(a) ou em um único livro, ou seja, há bem menos estudos comparativos (que se valem de pelo menos dois autores ou de dois livros diferentes) e panorâmicos (que cobrem vários autores e livros na mesma empreitada).
  •  Os estudos enfocando somente o objeto (somente o texto da obra literária abordada), sem a incorporação de perspectivas sociológicas, antropológicas, históricas, filosóficas, psicanalíticas, etc. são minoritários.

Em sua conclusão, Regina Dalcastagnè lembra que o levantamento pede a complementação de outros e observa que muitos pesquisadores iniciantes, ingressando agora na etapa da pós-graduação e egressos de esferas sociais diversas, podem estar apontando outros rumos para a abordagem acadêmica, algo que o levantamento não conseguiu captar, pois os periódicos quase nunca publicam quem ainda não atingiu o pico da carreira universitária. Ela ainda acrescenta: "Também o catálogo de livros acadêmicos da área deveria ser observado. No Brasil, embora a avaliação de cursos  e currículos supervalorize a publicação de artigos em revistas mais bem conceituadas, é comum que estudantes e pesquisadores busquem suas referências principais nos livros, entendidos como espaço de consolidação de ideias"

O que não falta, portanto, é gente séria e perita na matéria, principalmente mulheres, fazendo crítica literária. E posso dizer agora, sem qualquer receio, que ela não é realizada por leitoras e leitores comuns.

Não estou, veja bem, alegando que os(as) críticos(as) literários(as)  - entenda-se, aqueles(as) vinculados(as) ao mundo universitário - são seres dotados de uma sabedoria inquestionável, acessível e destinada exclusivamente a eles/elas, restando a nós, os leitores incultos e apalermados, o silêncio somente. Estou dizendo é que as pessoas dedicadas à crítica adquiriram uma capacidade de observação e interpelação dos textos (graças a seu empenho e prática como estudiosos especializados, ressalte-se) que a maioria dos outros apreciadores de literatura (este blogueiro incluso) não conseguiu alcançar, pelos mais variados motivos.

Voltando à pergunta não respondida parágrafos acima: se não sou crítico literário, nem resenhista,  que diabos acontece aqui no  Besta Quadrada  quando o assunto é um poema, um conto, um romance 

Tento comunicar impressões de leitura.  É isso o que acontece apenas. Nesse ponto, creio (guardadas as devidas proporções) não diferir muito de José Castello e outros (não me incomodaria, vale dizer, ser visto também como um comentarista genérico de literatura ) . Seria um atrevimento sem tamanho pretender que essas comunicações inconsistentes e erráticas publicadas aqui (mesmo pondo sinceridade e entusiasmo em boa parte delas) possam equiparar-se a elaborados pareceres críticos.

Ao comunicar essas impressões, não recebo qualquer retorno. É bem desanimador, para ser franco. Mas, apesar de tudo, me sinto melhor quando escrevo uma postagem sobre um texto literário que me afeta de alguma forma. Se leio algo, quero falar sobre isso. E como é dificílimo para mim encontrar interlocutores, lanço aqui no blog. 

Tem valido a pena, apesar de tudo.

____________________ 

¹ ECO, Umberto. Notas sobre os limites da estética. In:___________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 49-62 [Tradução de Eliana Aguiar]

² ECO, Umberto. Um balanço metodológico. In: ____________. A definição de arte. Rio de Janeiro: Record, 2016. p. 266-272 [Tradução de Eliana Aguiar] 

³ CASTELLO, José. A crítica literária existe? Rascunho. Curitiba, ago. 2011. Disponível em <https://rascunho.com.br/colunistas/a-literatura-na-poltrona/a-critica-literaria-existe/>. Acesso em 11/08/2025. O artigo também fora publicado n'  O Globo,  jornal em que o autor era colunista.

DALCASTAGNÈ, Regina (2018). A crítica literária em periódicos brasileiros contemporâneos: uma aproximação inicial. Estudos De Literatura Brasileira Contemporânea, (54), 195–209. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/10.1590/2316-40185411>. Acesso em 15/08/2025

BG de Hoje

Não parece ser uma escolha das mais brilhantes pegar uma canção conhecidíssima e reapresentá-la. Para além das comparações com a original, talvez exista uma saturação junto ao público, sobretudo quando se trata de um dos hits de uma banda lendária (no caso, os BEATLES). Entretanto, quando ouvi essa performance  stripped-down  de Eleanor Rigby,  adorei. E o jeito de cantar de dodie casou muito bem com a canção.

domingo, 31 de agosto de 2025

Um grande escritor popular se foi: Luis Fernando Verissimo (1936 - 2025)


Ser um escritor profissional popular e, ao mesmo tempo, estimado por aquela parcela de leitores considerados mais exigentes (identificada como  crítica literária ) não é algo comum no Brasil. Mas Luis Fernando Verissimo foi capaz de atingir esse patamar.

Embora não tenha sido tema de muitas postagens aqui no  Besta Quadrada,  leio o escritor gaúcho frequentemente e há muitos anos - como o fazem e vem fazendo milhares e milhares de outras pessoas.

Ele produziu romances e contos, é verdade, mas Verissimo foi mesmo perito num formato de escrita que lhe era muito próprio: o texto bastante curto (que não é bem uma crônica, gênero no qual se notabilizou, obviamente) mais próximo de pequenos recortes cênicos ou esquetes, com variados graus de humor (do mais pastelão ao quase surrealista), ambientados num apartamento, numa praça ou, sei lá, dentro de uma nave espacial, a depender da imaginação do escritor.

Ontem li algumas homenagens publicadas e gostei muito do que escreveu Frei Betto, dizendo:

"Não pensem que Verissimo era apenas um comediante com o manual de erudição debaixo do braço. Ele tinha a melancolia elegante dos humoristas de verdade. Sabia, como poucos, que a ironia é irmã da tristeza e, às vezes, o riso é apenas uma forma de dizer que não vale a pena chorar. Seu segredo era rir e fazer rir com poesia, zombar com delicadeza, atirar pedras com a mão enluvada".

Abaixo, o texto completo.


LUIS FERNANDO VERISSIMO, O ARTISTA QUE RETRATOU O BRASIL *

Frei Betto



Conheci Luis Fernando Verissimo na casa de seus pais, Mafalda e Érico Veríssimo, no arborizado bairro Petrópolis, em Porto Alegre, em 1974, ao sair da prisão. Fui agradecer a Érico as várias caixas repletas de livros enviadas por ele, a meu pedido, à biblioteca da penitenciária de Presidente Venceslau (SP), onde a ditadura me isolou, entre presos comuns, por quase dois anos.

Interessado em reler  
O Tempo e o Vento,  que se encontrava em poder de Pedro, vizinho à minha cela, passei semanas insistindo que terminasse de lê-lo. Um dia me confessou que protelava o repasse do livro porque havia gostado tanto que comprara grossos cadernos para copiar à mão cada volume da trilogia. Fiquei tão impactado que narrei o fato em carta ao Érico. Semanas depois ele fez chegar à penitenciária caixas contendo livros seus e de outros autores.

Costumava encontrar Lúcia e Luis Fernando em eventos literários, na casa deles em Porto Alegre e também no Recife, no apartamento de Leda Alves e Hermilo Borba Filho, onde o casal e eu nos hospedávamos em visita à capital pernambucana. Parecia que as conversas naquela sala, com vista para a praia de Boa Viagem, já viessem com direitos autorais, prontas para virar peça, conto, crônica, anedota de botequim ou até mesmo discurso de formatura.

Um fim de tarde, ao ser provocado sobre a política da época, Veríssimo disse algo tão simples e devastador que, até hoje, me parece uma síntese do Brasil:  
“O problema não é que estamos mal-governados. O problema é que estamos bem governados por quem não devia governar.”  Disse isso ao mexer o café, como quem fala sobre o tempo. E pronto, se calou.

Em qualquer ambiente Verissimo tinha a peculiaridade de estar presente e, ao mesmo tempo, parecer um personagem de si mesmo, recolhido ao silêncio, entretido com a sua subjetividade como se fosse um monge budista. Era como se tivesse sido inventado por Henfil, escrito por Millôr e retratado pelo traço de Chico Caruso.

Em meus lançamentos de livros no Rio, no “Esch Café”, no Leblon, Veríssimo se fazia presente em companhia de Chico Caruso e Jaguar. Na roda de amigos, lembrava o passageiro clandestino de um navio que, ao ser descoberto, não era expulso, e sim convidado para reger a orquestra. Escutava mais do que falava, e quando se pronunciava, vinha a frase curta, seca, tão exata que parecia ensaiada por séculos de reflexão.

Convidado a fazer palestras, Verissimo não discorria sobre o tema, preferia que o público o inquirisse. Assim, o caráter dialógico imprimia vivacidade ao evento. Em especial quando cessava o palavrear, retirava da caixa o saxofone e improvisava um show de jazz.

Veríssimo escrevia como quem bebe café sem açúcar, em gole rápido, quente, às vezes amargo, mas sempre pertinente. Seu humor político fugia a todos os parâmetros proselitistas. Ácido, contundente, tanto nos textos quanto nas charges vinha banhado de inteligência.

Era um cronista que não escrevia apenas sobre o Brasil; radiografava a condição humana. Seus personagens, como Ed Mort, detetive particular trapalhão; o Analista de Bagé; a Velhinha de Taubaté; as Cobras; a Família Brasil; e Dora Avante, expressam e espelham nossas facetas mais abscônditas e, ao mesmo tempo, ridículas e verdadeiras. Veríssimo era o gênio da banalidade, elogio superlativo a um artista que tocava muito mais que sete instrumentos - escritor, humorista, cartunista, tradutor, roteirista, dramaturgo e romancista. Foi também publicitário e revisor de jornal.

Ele era o mais convincente dos disfarçados. Escrevia sobre um casal brigando pelo controle remoto e fazia parecer que narrava a Guerra de Troia. Descrevia um jantar insosso como quem pinta o teto da Capela Sistina. E fazia rir. Rir de verdade, rir de si mesmo, rir tanto a ponto de não sabermos por que estamos rindo. Em plena ditadura, no universo verissimiano rir não era uma opção estética, era uma forma de sobrevivência.

Veríssimo não precisava de grandes acontecimentos para escrever. Bastava-lhe um espirro, um engarrafamento, um pedaço de queijo esquecido na geladeira, e pronto, virava crônica. A genialidade estava em perceber que o cotidiano é um palco onde todos atuamos sem ensaio, e que o riso é o aplauso involuntário de quem reconhece a própria trapalhada.

Em seus lançamentos de livros, talvez os leitores tivessem vontade de, em vez de autógrafo, pedir a receita da felicidade em pílulas. Porque, no fundo, todos suspeitavam que ele escondia no bolso a fórmula simples de rir das desgraças antes que elas rissem de nós.

Não pensem que Verissimo era apenas um comediante com o manual de erudição debaixo do braço. Ele tinha a melancolia elegante dos humoristas de verdade. Sabia, como poucos, que a ironia é irmã da tristeza e, às vezes, o riso é apenas uma forma de dizer que não vale a pena chorar. Seu segredo era rir e fazer rir com poesia, zombar com delicadeza, atirar pedras com a mão enluvada.

E pensar que o encontrei tantas vezes e nunca lhe perguntei como conseguia manter tamanha leveza naquele corpanzil. Talvez a resposta fosse esta: aprenda a rir de si mesmo com a seriedade de quem sabe que a vida, se não for engraçada, não tem a menor graça.


* Este texto foi publicado na Folha de S. Paulo, em 30/08/2025, mas também está disponível no site de Frei Betto, no endereço: <https://www.freibetto.org/luis-fernando-verissimo-o-artista-que-retratou-o-brasil/>. Acesso em 31/08/2025

domingo, 24 de agosto de 2025

Falou e disse...


 "A ficção narrativa proporciona uma selva controlada, uma oportunidade de ser e de se tornar o Outro. O estrangeiro. Com empatia, clareza e o risco de uma autoinvestigação". *

 

 

* MORRISON, Toni. Narrar o outro. In: ________. A origem dos outros : seis ensaios sobre racismo e literatura. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. p. 121 [Tradução de Fernanda Abreu]


segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Ano 117 d. F (II)



Kidults

A primeira vez que vi essa palavra foi na capa de uma edição do (saudoso) caderno  Mais!  da Folha de S. Paulo, décadas atrás. Não cheguei a ler o texto principal, mas a perspectiva era crítica, acho eu, pelo que pude perceber no lead do artigo e nas ilustrações, demonstrando preocupação com o fenômeno dos  adultos-crianças.

Corta pra 2025. Entro no Google e a visão geral da IA do buscador me dá o seguinte resumo:
 

" 'Kidults' é um termo usado para descrever adultos cujos interesses ou atividades são frequentemente associados à infância, como colecionar brinquedos, jogar videogames ou assistir a desenhos animados. Esse fenômeno tem crescido e impactado diversos setores, como o mercado de brinquedos e jogos. 

O que são Kidults?

São adultos que mantêm interesses e atividades tradicionalmente consideradas infantis, como colecionar brinquedos, jogar videogames, assistir a desenhos animados ou filmes de super-heróis, e participar de eventos geek e de cultura pop.

A nostalgia desempenha um papel importante, com muitos kidults buscando reviver momentos felizes da infância através de itens colecionáveis ou atividades relacionadas.

O termo pode ser visto de duas formas: algumas fontes o usam para descrever adultos que agem de maneira infantil, evitando responsabilidades, enquanto outras o usam para descrever adultos que buscam ativamente manter a alegria e o lado lúdico da infância, usando esses interesses como forma de escapismo ou para trazer mais diversão para suas vidas".

Na sequência, menciona como esse comportamento influencia o consumo de determinados produtos.

Algum tempo atrás, assisti a esta esquete do Saturday Night Live  que me fez rir um bocado:

   

Tudo fica mais engraçado quando se lê os comentários do vídeo no Youtube, com um monte de perfis choramingando que a franquia Star Wars  agora é  woke  (e por isso ruim, na visão do comentarista), reclamando que a venda de brinquedos desse tipo caiu porque o verdadeiro fã está sendo desrespeitado pela Disney, etc., demonstrando que os adultos-crianças ficam nervosinhos com muita facilidade...

Fiquei sabendo que a empresa chinesa Pop Mart, fabricante dos bonecos Labubu, viu seus lucros subirem cerca de 200% de um ano para o outro. Tal como os bebês reborn (e assim foi anteriormente com os Funko Pops), uma porcentagem significativa do público interessado nos monstrinhos é de adultos. 

Sobre esse último ponto: Bebês reborn, Labubus, Funko Pops são (ou foram)  trends, usando a terminologia atual calcada nas mídias sociais. Quem não quer ficar de fora (e tem dinheiro pra gastar) segue. Um comportamento assim não seria possível sem o estabelecimento da sociedade de massa.  

Imersos na sociedade de massa (ou de massas) há tanto tempo, raramente tomamos real consciência das implicações psicossociais negativas desse tipo de existência transcorrida em meio a enormes agrupamentos de pessoas.

Nesta postagem, dando sequência à anterior, continuarei a tratar do livro  Admirável mundo novo, um texto que também buscou refletir sobre a sociedade de massa (entre outras coisas), concentrando-me numa das disfunções relacionadas a esse fenômeno: o consumismo.

. . . . . . .

No capítulo dezessete de Admirável mundo novo, Mustafá Mond, um dos poderosos Administradores do Estado Mundial (e meu personagem predileto na narrativa), diz o seguinte ¹: "Mas a civilização industrial somente é possível quando não há desprendimento. É necessário o gozo até os limites impostos pela higiene e pelas leis econômicas. Sem isso, as rodas cessariam de girar".

Convém dizer que os principais argumentos do livro (afinal, estamos falando de um romance com intento filosófico) estão mais claramente expostos no antepenúltimo e no penúltimo capítulos, por meio do sensacional diálogo entre John, o Selvagem, e Mustafá Mond. John repele um mundo que interdita as emoções autênticas, não deixa espaço para a liberdade individual, sufoca as expressões artísticas digamos "elevadas" (nesse caso, representadas pela obra de Shakespeare) e prescinde das religiões tais como as conhecemos. Mond, por sua vez, vai mostrar que não se precisa de nada disso para atingir os objetivos do Estado Mundial: a manutenção de um corpo social estável e feliz. Portanto, Deus, arte, indivíduos que pensam por si mesmos e emoções genuínas são coisas desnecessárias.

Pela maneira como o romance é construído, percebe-se que o narrador tenciona levar o leitor a endossar a exaltação do Selvagem e a se distanciar da fleuma utilitarista do Administrador. Aceitarei, por ora, esse arranjo. Voltemos, porém, à declaração de Mond: será mesmo que as engrenagens da civilização industrial deixariam de funcionar se a abnegação (uma outra palavra para  desprendimento) fosse amplamente disseminada?

Diversas foram as maneiras encontradas pelo Estado Mundial para assegurar que  todos amem a servidão. Uma delas é criar mecanismos para diminuir o intervalo de tempo entre "a consciência de um desejo e a sua satisfação", como diz o Administrador a um grupo de aprendizes no capítulo três. Ele está se referindo sobretudo às relações sexuais (com indisfarçável moralismo, as condutas sexuais chamadas de  promíscuas  no livro são a norma naquele futuro imaginado), mas o Estado Mundial também se ancora num modelo de vida orientado para o consumo permanente: em complementariedade, a divisão por castas e o condicionamento psicológico fazem com que cada indivíduo naquela sociedade aceite o seu quinhão sem reclamar. 

Pensemos agora no sistema econômico preponderante na atualidade. Não é difícil constatar o quanto nossa capacidade de gastar ou de adquirir produtos é uma das principais definidoras de nosso estar no mundo. Se há algo que irmana as pessoas no planeta é o fato de praticamente todos sermos consumidores, variando "apenas" o poder aquisitivo dos indivíduos. Muitos de nós valem-se do consumo como compensação emocional. Noutros casos, consumir torna-se uma meta em si mesma. Ter ou não acesso (pago) a determinados serviços, marcas, conteúdos, mercadorias e  lifestyles  determina nosso lugar social. Chegamos talvez a um ponto em que não sabemos mais como - ou se queremos - deixar de ser tais criaturinhas consumidoras. Estamos atolados nessa ordem socioeconômica (seria exagero dizer nessa  servidão?) e não se vê muitos esforços significativos para escaparmos dela. Como agravante, adultos infantilizados, por vezes resignada, noutras vezes prazerosamente engajados (como os colecionadores de brinquedo) nas ininterruptas cadeias de consumo são uma realidade já há bastante tempo. As rodas não param de girar. A diferença para o Estado Mundial é que não há castas e não sofremos o condicionamento psicológico mencionado no livro.

Hmm... Não falo das castas, mas há muito a se dizer sobre o condicionamento psicológico hoje em dia.

Huxley compôs seu texto no período entreguerras. A  propaganda  (em uma de suas acepções mais antigas, ou seja, o uso de técnicas de comunicação voltadas para a inculcar mensagens político-ideológicas) corria solta nessa época. Embora a hipnopedia não tenha se convertido em realidade e o poder do condicionamento pavloviano seja superdimensionado em Admirável mundo novo, o autor, contudo, não estava errado em indicar o quanto os seres humanos poderiam ser manipulados psicologicamente para agirem de acordo com propósitos determinados. Atualmente, sabe-se que cientistas e acadêmicos "emprestam" seus conhecimentos para grandes empresas, entre elas as chamadas Big Techs, com intuito de garantir que usuários/clientes destas ajam de tal ou qual modo, prevendo reações e estimulando atitudes específicas (o caso do Laboratório de Tecnologia Persuasiva de Stanford talvez seja o mais conhecido). Além disso, a ubíqua publicidade e o marketing contemporâneos são bastante sofisticados e eficientes quando se trata de gerar convencimento e aceitação do  status quo, sem falar que a propaganda passou a ser veiculada de diferentes maneiras, diluída noutras formas de narrativa, sendo uma delas o cinema (a poderosa indústria hollywoodiana faz o que sempre fez há quase  um século e não me deixa mentir). NOTA: Falei em  adultos infantilizados  e acaba de me ocorrer o seguinte: já reparou como as plataformas digitais e empresas de mídia - hoje, transnacionais - estão sempre tentando nos empurrar entretenimento goela abaixo?  Não menos importante, a educação formal e o trabalho, incapazes de promover real emancipação, também têm sua parte no "adestramento".

O panorama imaginado pelo escritor britânico, isto é, a consolidação de um gigantesco Estado dominador supranacional, olhando para o hoje, não se verifica. Pelo contrário, o imenso poder do capital financeiro em poucas mãos privadas e as megacorporações é que dão as cartas na maior parte do tempo. Entretanto, estamos apenas no ano 117 d. F (depois de Ford). O que poderá acontecer nos próximos 500 anos, uma vez que a história contada no romance se passa em 632 d. F (isto é, no ano 2540 do calendário gregoriano)?

. . . . . . .  

Gostaria de retomar um ponto mencionado, mas não desenvolvido acima. Afirmei que o leitor do Admirável mundo novo, graças à intercessão do narrador, inclina-se para o lado de John, o Selvagem, e não para o de Mustafá Mond. Em minhas últimas leituras, devo admitir, porém, que o ponto de vista do Administrador Mundial me parece cada vez menos estapafúrdio.

Vou reproduzir abaixo um trecho de que gosto muito:

"- [Diz John a Mustafá] Mas eu gosto dos inconvenientes.
- Nós, não. Preferimos fazer as coisas confortavelmente.
- Mas eu não quero conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado.
- Em suma - disse Mustafá Mond -, o senhor reclama o direito de ser infeliz.
- Pois bem, seja - retrucou o Selvagem em tom de desafio. - Eu reclamo o direito de ser infeliz.
- Sem falar no direito de ficar velho, feio e impotente; no direito de ter sífilis e câncer; no direito de não ter quase nada que comer; no direito de ter piolhos; no direito de viver com a apreensão constante do que poderá acontecer amanhã; no direito de contrair a febre tifoide; no direito de ser torturado por dores indizíveis de toda espécie.
Houve um longo silêncio.
- Eu os reclamo todos - disse finalmente o Selvagem.
Mustafá Mond deu de ombros.
- À vontade - respondeu"

Nesse trecho, sempre me lembro que o Selvagem, mesmo rejeitando a conformação do Estado Mundial, não foi preso ou executado. Simplesmente escolheu viver como uma espécie de eremita num lugar desabitado (não muito distante de Londres, aliás), o que lhe foi permitido. Mesmo Bernard Marx e Helmholtz Watson, tidos como heréticos dissidentes, foram apenas banidos para locais onde encontrariam pessoas que pensavam como eles. 

Admirável mundo novo  descreve uma comunidade global em que praticamente tudo é controlado. Sem dúvida, um regime totalitário. Brutal, contudo? Não estou certo.

Isso vai soar inadvertido, eu sei, mas, pessoalmente, acho que a tão propalada liberdade individual perde muito do seu valor quando as pessoas se encontram cercadas por insegurança, insalubridade e miséria. Quer dizer então que valeria a pena sacrificar a liberdade em troca da estabilidade social? Se for para que o maior número possível de pessoas tenha acesso a uma vida mais igualitária e com menos privações materiais, talvez sim. NOTA: Apesar de repetir que todos os seres humanos são física e quimicamente iguais e ter no seu lema a ideia de uma concentração harmônica de pessoas, o Estado Mundial não é igualitário, uma vez que necessita das castas para existir.  Lamento revelar-me menos humanista e mais antidemocrático do que costumo me mostrar em várias das postagens já publicadas aqui, mas creio que seria pior fugir do questionamento do que cair no conceito do(a) eventual leitor(a).

____________________

¹HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014. [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano]. Todas as passagens do livro citadas nesta postagem foram extraídas dessa tradução.

 

BG de Hoje

Billy Gorgan disse, bastante tempo depois do lançamento do álbum Siamese Dream (1993), que a canção  Soma  foi composta após o término de uma relação amorosa particularmente importante para ele. O musicista também confirmou que o miraculoso remédio do Admirável mundo novo  inspirou o título (embora isso não esteja tão evidente na letra). De todo modo, achei bacana colocar essa faixa dos SMASHING PUMPKINS no BG de hoje, extraída de um dos discos mais marcantes dos anos 1990.

domingo, 27 de julho de 2025

Ano 117 d. F (I)

[ Atualizado em 28/07/2025 ] 

Talvez este não seja o melhor momento para voltar ao Admirável mundo novo. Digo isso porque as ciências não parecem estar gozando de um apreço significativo e generalizado nos últimos tempos (ou esse montão de gente por aí dizendo que a Terra é plana, dando de ombros para a emergência climática, consultando astrólogos e duvidando da eficácia da vacinação retrata uma história de sucesso em termos de letramento científico?). Os alertas contidos no livro de Aldous Huxley são melhor apreciados, penso eu, quando as proposições das ciências estão com crédito em alta. Numa época, entretanto, em que pessoas dão atenção (e dinheiro) a  coaches  "quânticos" (que ofertam, entre outras coisas, "alteração de células corporais através do pensamento, sentimentos, emoções e comportamentos", segundo um instituto voltado para essa "terapia"), a narrativa literária pode já não ter muito a oferecer como crítica aos excessos do cientificismo. 

Se não estiver contando errado, essa deve ser a 11ª (ou 12ª?) vez que percorro esse texto. É um dos volumes basilares na minha formação de leitor, mas admito que a satisfação de décadas atrás foi deixando de se repetir nas últimas leituras. Há uma emanação moralista e reacionária naquelas páginas que, hoje, não consigo mais aceitar como um problema menor da composição. 

Sendo assim, além da crítica ao cientificismo (e não à ciência, bem entendido), por qual outro motivo valeria a pena retornar mais uma vez ao célebre romance distópico publicado pela primeira vez em 1932?

. . . . . . .  

Apesar de algumas marcas óbvias - por exemplo, nomes de personagens (Bernard Marx, Helmholtz Watson, etc.), determinados episódios, como a cerimônia do Orgião-Espadão (Orgy-Porgy, no original, um trocadilho com a cantiga infantil inglesa Georgie Porgie ), além do próprio título -, levei muito tempo para me dar conta do quão longe chegava o conteúdo satírico na escrita do Admirável mundo novo (não é à toa que este blog se chama Besta Quadrada...). Huxley quis, deliberadamente, fazer troça com H. G. Wells e o otimismo dele em relação ao futuro da humanidade, manifestado em alguns de seus livros, principalmente  Deuses Humanos (algo que só muito tempo depois das primeiras leituras vim a saber). Creio que seria proveitoso dispor de algumas informações biográficas para compreender melhor tudo isso (sobretudo porque acho que Huxley deve ter achado graça em alguns momentos durante o processo de elaboração da obra), mas infelizmente não há como obtê-las no momento. Estou querendo dizer que a intenção satírica me leva a especular sobre a possibilidade de o escritor estar apenas se divertindo em algumas passagens.  De qualquer forma, trata-se de um romance de ideias, em que o autor certamente quer conduzir seu leitor para determinadas conclusões e, no todo, não estava brincando em serviço.

A amplitude de uma obra de ficção científica depende, em grande parte, do quanto suas "previsões" se mostram corretas. No prefácio ao livro publicado anos depois do lançamento, impactado pelo uso de bombas atômicas na Segunda Guerra Mundial, o romancista admite que não deu atenção suficiente para o poder da fissão nuclear, embora essa não seja sua única falha em termos de imaginação do futuro. Por outro lado, com acerto, ele intuiu que o controle social conseguiria ser muito eficiente se empregasse técnicas e estratégias direcionadas para a pisque, valendo-se de tecnologia avançada, resultando em indivíduos que "amam a servidão". Mesmo assim, oportuno observar, o controle social em nossos dias ainda depende da violência e da coerção física em inúmeros casos, bem diferente do estável sistema de castas futurista (o Estado Mundial) apresentado no livro, no qual o descontentamento pode ser facilmente suprimido por meio de um fármaco. Nesse aspecto, a crítica que Huxley fez a George Orwell numa carta a respeito de  1984, afirmando que a política de  botina na cara  não parecia ter muito futuro no longo prazo, não se mostrou acertada, pelo menos até o presente momento histórico.

É fato que Huxley temia o totalitarismo. Por essa razão, muitos identificam no Admirável mundo novo tão somente uma condenação implacável direcionada ao fascismo (que, sabemos, desembocaria na monstruosidade de Hitler), bem como ao regime vigente no chamado  socialismo/comunismo real  de feitio soviético (o ficcionista britânico talvez preferisse o termo bolchevismo ), tendo Stálin no comando. Não digo que essa interpretação é equivocada. Uma análise um pouquinho mais atenta, contudo, permite-nos ver que não se trata apenas disso.

Observemos um excerto do capítulo três - uma das falas do Diretor do Centro de Incubação e Condicionamento de Londres ¹:

"- É estranho [...], é estranho pensar que, mesmo no tempo de Nosso Ford, a maioria dos jogos não tivesse mais acessórios que uma ou duas bolas, alguns bastões e talvez um pedaço de rede. Imaginem que tolice permitir que as pessoas se dedicassem a jogos complicados que não contribuíam em nada para aumentar o consumo. Atualmente, os Administradores não aprovam nenhum jogo novo, salvo se demonstrar que ele necessita, pelo menos, de tantos acessórios quanto o mais complicado dos jogos existentes".

Aumentar o consumo... Referências à necessidade de consumir aparecem noutros momentos da narrativa. No capítulo onze, por exemplo, Linda - uma pessoa criada no Estado Mundial, mas que foi deixada para trás numa reserva formada por uma população à parte desta organização social -, mesmo após tantos anos de fora, não se livrou do condicionamento para o consumo. Diz ela em determinado momento "Além disso, nunca foi direito remendar roupa. É atirar fora quando estiverem estragadas e comprar novas. 'Quanto mais se remenda, menos se aproveita' [um ensinamento incutido por meio de sucessivas repetições através de um processo chamado hipnopedia]. Não é verdade? Remendar é antissocial".

O fenômeno da  sociedade de massa  inquietava muitos intelectuais na primeira metade do século passado, atraindo pensadores politicamente tão diferentes quanto Ortega Y Gasset e Adorno e Horkheimer (posteriormente, a partir dos anos 1950, a questão apareceria também na obra de Hannah Arendt). O autor de  Admirável mundo novo  também estava, a seu modo, refletindo e se questionando a esse respeito. Num mundo cada vez mais populoso, os conflitos serão ainda mais destrutivos? Haverá ocupações e lugar para todos? Como fica a questão da ordem, do exercício da autoridade e do poder? E o risco da anulação do indivíduo, cada vez mais indistinto no mundaréu de gente? Nesse cenário, como atender a liberdade de cada um? Como fica a questão da autonomia de pensamento, da criatividade pessoal e da inspiração artística? 

De acordo com a ficção de Huxley, a humanidade do futuro (gigantesca massa de pessoas) reforçará a segurança e a estabilidade em detrimento da independência de pensamento e da liberdade individual. O "detalhe" é que, para sustentar essa segurança e essa estabilidade, uma das condições deve ser o consumo contínuo, praticado por seres humanos infantilizados. É esse ponto - seres humanos infantilizados impelidos ao consumo constante - um dos poucos tópicos que fazem o livro aqui debatido uma criação ainda dialogante com os nossos tempos.

Concluo a discussão na próxima postagem.

 _______________ 

¹ HUXLEY, Aldous. Admirável mundo novo. 22 ed. São Paulo: Globo, 2014 [Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano).

BG de Hoje

A frase "É pra isso que eu pago internet" não deve ser usada em vão. Dito isso, os Tiny Desk Concerts (da NPR norte-americana) estão entre aquele monte de iniciativas pelas quais agradecemos a existência da web. É tão bom poder ver artistas que se admira apresentando-se dentro do formato proposto ali, bastando uns poucos cliques e pressionar de teclas! Recentemente, a banda nova-iorquina LIVING COLOUR, uma das minhas prediletas em todos os tempos, apareceu por lá. Sensacional! Entre as canções tocadas, Love Rears Its Ugly Head  teve tudo a ver com o espaço, principalmente pela execução ainda mais  jazzy  do que a gravação original (a partir de 12m5s). 

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Felicidade, afinal, para quê?


Felicidade, afinal, para quê? Essa pergunta ficou na minha cabeça por muitas horas após terminar a leitura de A trégua.  A história do amor tardio ali contada (tardio pelo menos para uma das personagens) me chacoalhou um pouco, forçoso admitir, embora seu desfecho não fosse difícil de antecipar. Falaria sobre outra obra hoje, mas sinto que preciso me acertar com este livro de Mario Benedetti e com a emoção que senti. 

Publicado originalmente em 1960, o romance é construído a partir do diário de Martín Santomé, ser ficcional que enfeixa as características de um tipo de protagonista bastante frequente na literatura moderna, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX, ligado à progressiva urbanização dos espaços: o sujeito sem qualquer excepcionalidade, um funcionário sem destaque, a mediania personificada, apenas mais um na multidão.

De olho na aposentadoria que se aproxima, Santomé, viúvo há bastante tempo, pai de três filhos já adultos, acaba se apaixonando por uma mulher muito mais jovem, Laura Avellaneda, empregada recém-contratada e subordinada a ele no escritório comercial onde ambos trabalham em Montevidéu.

Antes de abrir o livro, eu tinha dois motivos para me indispor com ele. Como já escrevi aqui e noutras postagens, não costumo apreciar histórias de amor. Além disso, acho a forma  diário  um expediente meio preguiçoso dos escritores ao construir uma narrativa literária (sou obrigado a aceitar,  contudo, que um de meus livros mais diletos - A náusea, de Sartre - foi feito nesse formato). A ficção apresentada como  diário,  porém, tem a vantagem de ser conduzida por uma voz narrativa em primeira pessoa propensa à sinceridade (aquela possível dentro uma história inventada, claro) e, em  A trégua,  assim como noutras composições similares, o mecanismo de identificação/afinidade entre narrador e leitor acaba se estabelecendo muito facilmente.

O protagonista é mordaz, mas nunca cruel ou isento de compaixão. Nem por isso deixa de mostrar-se um homem de seu tempo (chegando à meia-idade no intermédio do século passado), incapaz de emergir do machismo e da homofobia - a ironia é que tem um filho gay e, pela primeira vez, está aprendendo o valor do âmbito afetivo e sentimental de uma relação para além da crua atração física pela mulher amada.

Como seria de se esperar, é uma pessoa solitária, com uma vida desinteressante e banal, tendo como única atividade o trabalho - "essa espécie de constante martelar, ou de morfina, ou de gás tóxico" ¹. Antes de Avellaneda e ele começarem seu envolvimento (que o casal passa a chamar de  Assunto ), lê-se no diário a certa altura:

"Quase todos os domingos, almoço e janto sozinho, e inevitavelmente fico melancólico, 'O que fiz da minha vida?' é uma pergunta que soa a Gardel ou a Suplemento Feminino ou a artigo do  Reader's Digest. Hoje, domingo, sinto-me além do irrisório e posso me fazer perguntas desse tipo. Em minha história particular não se operaram mudanças irracionais, guinadas insólitas e repentinas".

Santomé sempre tivera "um leve mal-estar diante do pieguismo", mas não consegue deixar de se perguntar em determinado momento: "Por que será que o verdadeiro é sempre um pouco piegas?". Esse questionamento não é respondido: ele, entretanto, a cada dia, passa a compreender que não há como (e nem há necessidade de) fugir do sentimentalismo frente a essa paixão temporã, cuja verdade aceita: "Estou numa idade em que o tempo parece e é irrecuperável. Tenho  de me agarrar desesperadamente a esta razoável ventura que veio me buscar e me encontrou".

Trata-se, como se vê, de uma época crucial na vida do personagem (e o leitor, quem sabe, pode estar também no mesmo barco):  

"Hoje, em vários momentos do dia, pensei: 'Cinquenta anos', e minha alma despencou até o chão. Fiquei diante do espelho e não pude evitar um pouco de piedade, um pouco de comiseração por este tipo enrugado, de olhos fatigados, que nunca chegou nem chegará a nada. O mais trágico não é ser medíocre, mas inconsciente dessa mediocridade; o mais trágico é ser medíocre e saber que se é assim e não se conformar com esse destino que, por outro lado (isso é o pior), é de rigorosa justiça".

A esse sujeito "meio apagado mas inteligente", sem mais expectativas do que o desencargo da pós-aposentadoria, foi dada nova chance de experimentar a felicidade: 

"Quando um indivíduo permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que o diálogo vivificante e investigativo o estimule a levar essa modesta civilização da alma, que se chama lucidez, até as zonas mais intrincadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se transforma em rotina, ele vai perdendo inexoravelmente a capacidade de sentir-se sacudido, de sentir-se viver. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e, sobre as perguntas que ela me faz, eu me faço muitas mais, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido".
Nós, os desgostosos desse mundo, porém, estamos fartos de saber que a felicidade é um colossal engodo, quaisquer que sejam os modos como se queira enxergá-la ou defini-la. Não se tem muitas oportunidades de prová-la (no sentido de experenciá-la). A plenitude desse estado emocional, então, é algo ainda mais fortuito. Isso fica bem ilustrado num dos trechos memoráveis do romance:

"Fui até a cozinha, acendi o fogareiro e coloquei água para esquentar. Lá do quarto, ela me chamou. Levantara-se assim mesmo, embrulhada na manta, e estava junto à janela, vendo chover. Eu me aproximei, também olhei como chovia, e por alguns minutos não dissemos nada. De repente, tive consciência de que aquele momento, aquela fatia da cotidianidade, era o grau máximo de bem-estar, era a Ventura. Eu nunca havia sido tão plenamente feliz como naquele momento, mas tinha a aguda sensação de que nunca mais voltaria a sê-lo, pelo menos naquele grau, com aquela intensidade. O ápice é assim, claro que é assim. Além disso, tenho certeza de que o ápice é só um segundo, um breve segundo, um clarão instantâneo, e não há direito a prorrogações".

Aprendemos rapidamente (nós, os desgostosos) a dispensar a felicidade, a não contar com a felicidade. Não é só pelo fato de que ela tende a durar pouquíssimo. É principalmente por que ela pode nos ser tomada a qualquer momento, sem alertas ou avisos prévios. 

Devemos continuar sem mais nada além de nossas rotinas incolores e vazias, às quais estamos tão acostumados. 

_________________ 

¹ Todas as citações de A trégua aqui reproduzidas foram extraídas da edição publicada em 2007 pela Objetiva, com tradução de Joana Angelica D'Avila Melo.

 

BG de Hoje

Repito: histórias de amor não costumam me atrair. Ano retrasado, no entanto, numa das minhas (muitas) noites de insônia, decidi assistir à série Wolf Like Me (disponível no Amazon Prime). Não estava muito interessado, a princípio, mas fui sendo fisgado progressivamente. Resultado: adorei a primeira temporada (não tenho como avaliar a segunda porque ainda estou na metade). Embora o sobrenatural exerça papel essencial na trama, a série trata sobretudo dos laços que podem surgir entre um casal formado por indivíduos angustiados, após sofrerem perdas amorosas pesadas. É um tanto sentimentaloide? Sim. Mas deu certo como entretenimento. Além disso, a produção fez um ótimo trabalho na trilha sonora. O maior exemplo foi o uso de Fortress, uma das melhores canções do QUEENS OF THE STONE AGE em momentos significativos.

sábado, 7 de junho de 2025

Falou e disse...

"Ficar sozinha na corda bamba do desconhecimento da juventude é vivenciar a beleza excruciante da liberdade total e a ameaça de eterna indecisão. Poucos - se é que alguém - sobrevivem à adolescência. A maioria se rende à pressão vaga e assassina da conformidade adulta. Fica mais fácil morrer e evitar conflitos do que travar uma batalha constante com as forças superiores da maturidade.

Até recentemente, cada geração achava mais conveniente alegar culpa da acusação de ser jovem e ignorante, mais fácil aceitar a punição imposta pela geração mais velha (que tinha confessado o mesmo crime poucos anos antes). A ordem para crescer imediatamente era mais suportável do que o horror sem face do propósito oscilante que era a juventude.

As horas alegres em que os jovens se rebelavam contra o sol poente tinham que abrir caminho para os períodos de vinte e quatro horas chamados 'dias', que tinham nome e número.

A mulher negra é agredida nos anos jovens por todas essas forças comuns da natureza ao mesmo tempo em que fica presa no fogo cruzado triplo do preconceito masculino, do ódio branco ilógico e da falta de poder negro.

O fato de que a mulher negra americana adulta surge como uma personagem formidável costuma ser visto com surpresa, aversão e até beligerância. Raramente é aceito como resultado inevitável da luta vencida por sobreviventes que merece respeito, se não aceitação entusiasmada"  *

* ANGELOU, Maya. Eu sei por que o pássaro canta na gaiola. Bauru: Astral Cultural, 2018. p. 311-312 [Tradução de Regiane Winarski]

domingo, 1 de junho de 2025

O alçapão do empreendedorismo (II)

"Essa oposição [entre 'menos direito e mais emprego ou todos os direitos e o desemprego', frase dita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro] só existe no ideário selvagem daqueles que querem um mercado de trabalho selvagem. Não é o direito que garante mais ou menos emprego. O emprego maior ou menor depende do movimento da economia. É uma falácia e é uma mentira vergonhosa dizer que, se há menos direito, há emprego. 

O que nós temos que discutir no Brasil hoje é se nós queremos o caminho da dignidade mínima para a população trabalhadora, ou nós queremos o caminho do que eu chamo de privilégio da servidão, da lei da selva, da corrosão completa. Portanto, essa tese que relaciona uma coisa à outra é falaciosa, mentirosa e manipuladora."

Ricardo Antunes, sociólogo e professor da Unicamp, em entrevista para o UOL (14/09/2019)

O presidente Bolsonaro já declarou que é preciso escolher entre "menos direito e mais emprego ou todos os direitos e o desemprego". Existe essa oposição? Essa oposição só existe no ideário selvagem daqueles que querem um mercado de trabalho selvagem. Não é o direito que garante mais ou menos emprego. O emprego maior ou menor depende do movimento da economia. É uma falácia e é uma mentira vergonhosa dizer que, se há menos direito, há emprego. O que nós temos que discutir no Brasil hoje é se nós queremos o caminho da dignidade mínima para a população trabalhadora, ou nós queremos o caminho do que eu chamo do privilégio da servidão, da lei da selva, da corrosão completa. Portant... - Veja mais em https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2019/09/14/entrevista-sociologo-ricardo-antunes-trabalho-emprego-empreendedorismo.htm?cmpid=copiaecola
O presidente Bolsonaro já declarou que é preciso escolher entre "menos direito e mais emprego ou todos os direitos e o desemprego". Existe essa oposição? Essa oposição só existe no ideário selvagem daqueles que querem um mercado de trabalho selvagem. Não é o direito que garante mais ou menos emprego. O emprego maior ou menor depende do movimento da economia. É uma falácia e é uma mentira vergonhosa dizer que, se há menos direito, há emprego. O que nós temos que discutir no Brasil hoje é se nós queremos o caminho da dignidade mínima para a população trabalhadora, ou nós queremos o caminho do que eu chamo do privilégio da servidão, da lei da selva, da corrosão completa. Portant... - Veja mais em https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2019/09/14/entrevista-sociologo-ricardo-antunes-trabalho-emprego-empreendedorismo.htm?cmpid=copiaecola
O presidente Bolsonaro já declarou que é preciso escolher entre "menos direito e mais emprego ou todos os direitos e o desemprego". Existe essa oposição? Essa oposição só existe no ideário selvagem daqueles que querem um mercado de trabalho selvagem. Não é o direito que garante mais ou menos emprego. O emprego maior ou menor depende do movimento da economia. É uma falácia e é uma mentira vergonhosa dizer que, se há menos direito, há emprego. O que nós temos que discutir no Brasil hoje é se nós queremos o caminho da dignidade mínima para a população trabalhadora, ou nós queremos o caminho do que eu chamo do privilégio da servidão, da lei da selva, da corrosão completa. Portant... - Veja mais em https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2019/09/14/entrevista-sociologo-ricardo-antunes-trabalho-emprego-empreendedorismo.htm?cmpid=copiaecola

 

AVISO: O texto a seguir, para ser melhor compreendido, pressupõe a leitura da primeira postagem anteriormente publicada desta série, disponível aqui.

 

Tenho visto por aí que muitos jovens execram a carteira assinada, uma representação da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), também desdenhada por eles e elas. Para essas pessoas, ser CLT  é um atestado de fracasso. É preciso admitir que as condições de trabalho e os salários ofertados em muitas ocupações no país, em geral, são mesmo ruins, sem falar na péssima mobilidade urbana, com transporte público de massa negligenciado e mal planejado (o que torna o deslocamento  domicílio-trabalho-domicilio  um inferno diário). Mas os empregos/ocupações de merda não são culpa da CLT, muito menos dos direitos trabalhistas (não canso de ficar espantado ao verificar que isso não é óbvio para todos). Muitos desses jovens não se dão conta da exploração inerente ao capitalismo, particularmente num pais muito desigual. Pior: acreditam que vão escapar dela e se dar bem financeiramente através do Tik Tok ou do Instagram, monetizando o "conteúdo" que estiverem expondo, uma expectativa irrealista, penso eu, pois embora o Brasil seja um dos países em que os usuários mais passam tempo nas mídias sociais, os indivíduos que conseguem obter uma renda regular e suficiente através destas não são tantos assim.

O desapreço pela carteira assinada - e aquilo que ela em grande parte simboliza: afazeres rotineiros, com horários e remuneração fixos, além da garantia de direitos frente ao poder do capital - nos ajuda a realçar um dos aspectos do empreendedorismo enquanto discurso ideológico.

Desde a postagem anterior, quero suscitar a seguinte reflexão: hoje em dia, o uso do termo empreendedorismo  não se refere apenas a determinadas iniciativas pessoais ou a processos voltados para a inovação: tornou-se uma panaceia para os problemas socioeconômicos. Além disso, para empreender de verdade, dentro do modo de produção vigente, é preciso inicialmente dispor de recursos (isto é, dinheiro), inclusive para se resguardar caso as coisas não saiam como o planejado (essa história de  aceitar os riscos do negócio  só vale mesmo para quem já tem as costas quentes). Assim sendo, tornar-se um empreendedor não está ao alcance de qualquer um, como se quer fazer acreditar.

Antes de prosseguir, percebo que terei necessidade de novamente afirmar algo óbvio para evitar ser mal interpretado: o ímpeto de empreender não é, em si, um ato satânico, não é bater em mãe ou negar água a quem tem sede, nada disso. Várias pessoas são bastante inventivas, têm sonhos ousados; outras desejam criar uma coisa só delas ou ter um equilíbrio saudável entre o tempo do trabalho e o tempo para a vida pessoal. Nada contra, pelo contrário. Se puderem, corram atrás de suas invenções, sonhos, criações e desejos. Empreendam, se tiverem condição! . 

O problema é que, quando penso nos atuais trabalhadores da chamada  Gig Economy,  por exemplo, não consigo deixar de me perguntar se a maioria deles está nessa pelos motivos mencionados acima. Quantos desses motoristas de Uber ou entregadores de iFood estão realizando um desejo, inventando algo original, perseguindo um sonho? Falo deles porque é comum encontrarmos referências a esse segmento como  patrões de si mesmos  e (isso é importante) até como  empreendedores.

Em 2024, a renda média mensal de um entregador do iFood, de acordo com o Cebrap, variou de R$ 807 a R$ 3.309 (esses números foram estabelecidos a partir de duas jornadas de trabalho semanais, 20 ou 40 horas, sendo R$ 23 o valor médio pago pela hora trabalhada). Não se trata de uma remuneração polpuda (naturalmente, esse ganho pode aumentar se o entregador ficar mais tempo rodando na sua moto/bicicleta, incluindo os fins de semana, prática comum entre esses trabalhadores). Não tenho ideia de quanto se recebe na Uber, mas arrisco dizer que não deve ser nada muito espetacular. Eles alegam então que nem tudo é dinheiro. Fala-se da liberdade. "Faço meus próprios horários" , "Não sou controlado pelo governo", muitos dizem. 

Mudando um pouco de assunto, quem também adora falar de liberdade são os partidários da extrema direita (por favor, não estou afirmando que os prestadores de serviço via aplicativo estão necessariamente posicionados nesse campo do espectro político). E a extrema direita, a despeito de propagar aos quatro ventos que o socialismo não passa de uma utopia delirante (e contrário à liberdade, diga-se de passagem), mantém a sua própria utopia, uma utopia capitalista liberal (ou neoliberal). Refiro-me à crença de que a sociedade entrará em harmonia e equilíbrio bastando conceder cada vez mais liberdade ao mercado (afinal, o mercado se autorregula perfeitamente, não?) e assegurando que apenas uns poucos bilionários (esses iluminados semideuses) ditem os rumos da economia, sem restrições ou interferências. Nesse mercado livre até não poder mais, com o Estado totalmente a serviço dos ricaços, vale perguntar : todos poderão ter suas demandas atendidas na hora de fazer um acordo ou a parte com mais grana, patrimônio - enfim, poder econômico - é a que vai impor seu apetite às outras partes, obrigando-as a se sujeitar? Nesse domínio da liberdade plena (para quem tem muito dinheiro, bem entendido), os vencedores mereceram vencer, não importa como o fizeram, e os perdedores... bem, os perdedores que se lasquem.

Dias atrás, assisti a duas entrevistas exibidas no Youtube e trechos das falas dos entrevistados têm muito a ver com a reflexão que venho fazendo. O filósofo Vladimir Safatle, falando com Breno Altman, no Opera Mundi, afirmou (a partir de 29m19s de vídeo), que o fascismo tem sido bem sucedido em sua nova ascensão porque "dá uma resposta racional" aos problemas socioeconômicos. Safatle tem se mostrado contrário às análises que tentam explicar o crescimento do fascismo ancorando-se em termos psicológicos como  regressão  ou  ressentimento.  Segundo ele, "você pode ser racional e fascista ao mesmo tempo". E complementa: "O fascismo traz uma perspectiva brutalmente realista que consiste basicamente em dizer : de fato, não há sociedade para todos e não há espaço para todos dentro dessa sociedade e é necessário lidar com isso, com esse princípio de realidade, e qualquer outra pessoa que vai te dizer o contrário vai mentir pra você". Para corroborar essas afirmações, quem fala a partir de uma perspectiva fascista pode acrescentar e dizer que "a sociedade inclusiva, a sociedade de profunda solidariedade nunca aconteceu, ninguém nunca viu". Noutra conversa, com Chico Pinheiro, no canal do ICL , o historiador e professor de literatura João Cézar de Castro Rocha adverte (a partir de 41m38s de vídeo): é preciso reconhecer que "a extrema direta aprendeu a conquistar corações e mentes, especialmente nas gerações mais jovens."

A que conclusões podemos chegar, diante do que foi exposto (de forma bem desarranjada) nessas duas postagens?

Empreender não é a receitinha, o passe de mágica que vai resolver mais uma das infinitas crises do capitalismo. Muitos (provavelmente a maioria) dos motoristas de Uber, entregadores de iFood, vendedores ambulantes de sol a sol, gente que faz bolo de pote ou quem tem uma banquinha num centro comercial popular, entre outros, não são empreendedores, embora o discurso empreendedorista atual queira nos empurrar essa percepção - essas pessoas partiram para essas atividades porque foram forçadas pela necessidade, tinham que se virar para pagar as contas e não havia vagas no mercado formal de trabalho. Insistir no empreendedorismo como a salvação para a questão da falta de empregos decentes num contexto de supressão de direitos ou como a solução para uma economia cada vez mais concentradora de renda e produtora de desigualdade é um discurso atrelado a ideologias contra as quais me coloco. Ideologias que, quando olhadas bem de perto, defendem nada menos que a lei da selva, o cada um por si. Ideologias que desvalorizam e inviabilizam o exercício da solidariedade e atribuem o fracasso exclusivamente ao indivíduo, livrando de culpa o sistema que se mantém de pé pela exploração. 

Muitos jovens estão sendo seduzidos justamente por esse conjunto de discursos ideológicos aos quais me oponho e que, creio, estão nos levando para um buraco ainda mais fundo. O que fazer?

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Como registrei acima, as duas postagens sobre essa temática ficaram desarranjadas, confusas. Mas não queria deixar de abordar esse assunto. Caso o(a) eventual leitor(a) procure um texto de qualidade incomparavelmente melhor, abordando a temática do empreendedorismo de forma crítica, sugiro Crise de identidade ideológica da classe média, de Fernando Nogueira da Costa, professor de economia da Unicamp. Geralmente, não aprecio os artigos escritos por ele, mas achei pontos de concordância neste. Um excerto:

"As barreiras à massificação do empreendedorismo autêntico têm fatores estruturais, mas enfrenta obstáculos. A concentração de capital leva ao acesso desigual a crédito, tecnologia e redes. A baixa mobilidade social conduz ao empreendedorismo de necessidade, não de vocação. O domínio de plataformas monopolistas resulta em uma intermediação assimétrica, onde se captura o valor do trabalho.

Na regulação fiscal e urbana, percebe-se a falta de políticas públicas de apoio ao microempreendedor real, portanto, é uma cultura do risco com individualização da falha e ausência de seguridade social.

A massificação do empreendedorismo individual via plataformas não constitui superação da exploração assalariada por emancipação, mas sim reciclagem da exploração. É uma reorganização pós-fordista da precariedade e uma nova forma de disciplinamento neoliberal pela via do sonho de ascensão individual".

BG de Hoje

Anteontem me peguei cantarolando essa canção enquanto voltava pra casa, depois de mais um dia desagradável de trabalho. Há um tempão que não a escutava: Relampiano,  interpretada pelo Paulinho MOSKA e feita em parceria com LENINE, que também gravou-a (no álbum Na pressão ).