sexta-feira, 10 de abril de 2026

Como se fosse, mas não é.

Se tem uma coisa que pessoas bem de vida, isto é, pessoas sem aflições relacionadas à falta de recursos financeiros, evitam fazer ao máximo é se misturar com a gentalha, como sempre preconizou Dona Florinda (uma pobretona que não se enxerga, é bem verdade, mas isso não invalida minha proposição). As infames DCEs (dependências completas de empregada), existentes em milhares de residências consideradas de luxo, não me deixam mentir, bem como os elevadores de serviço, que, a despeito de algumas iniciativas legislativas para coibir atos discriminatórios, ainda são usados para separar a "ralé" dos patrões nalguns edifícios por aí, em áreas ditas nobres.

Talvez o(a) eventual leitor(a) se lembre. Em agosto de 2010, a  Folha de S. Paulo  reproduziu a fala de uma moradora de Higienópolis, bairro da capital paulista, a respeito da (então) possibilidade da construção de uma estação de metrô na avenida Angélica, uma das mais importantes naquela área. Segundo a reportagem, a cidadã dissera o seguinte:  "Eu não uso metrô e não usaria. Isso vai acabar com a tradição do bairro. Você já viu o tipo de gente que fica ao redor das estações do metrô? Drogados, mendigos, uma gente diferenciada...".  A declaração fez um certo rebuliço, inspirando até o nome de um protesto/evento marcado no Facebook, chamado "Churrascão da gente diferenciada", cujo objetivo era reclamar do cancelamento da obra na avenida Angélica, que havia sido anunciado pelo governo estadual na época. Procurada algum tempo depois, a moradora em questão alegou que o jornalista com quem conversara teria se enganado ao atribuir a ela a expressão  "gente diferenciada".

Em minha percepção, usa-se o adjetivo  diferenciado,  na maioria das vezes, como forma de elogiar algo ou alguém. No bate-papo futebolesco, por exemplo, ouve-se muito a expressão  jogador diferenciado,  querendo dizer com isso que se trata de um desportista acima da média, com características que o tornariam superior aos demais em certos aspectos. A moradora de Higienópolis, contudo, tinha em mente outros sentidos - também vigentes, mas não tão favoráveis - do adjetivo:  diferente, desigual, destoante

Destaquemos o último: destoante do quê?  

Ora, os indivíduos que, de acordo com a distinta senhora, ficam ao redor das estações de metrô ( drogados, mendigos  e outros) não estariam afinados com Higienópolis, bairro de casas e apartamentos caros, onde reside uma turminha com um bocado de grana, formada por indivíduos  não-diferenciados,  portanto, indivíduos que não destoam, não são diferentes, não são desiguais  em relação à  nobreza  do lugar (segundo deve pensar a moradora, especulo).  "Eu não uso metrô e não usaria" , enfatiza ela, de início, marcando a distância do populacho. Não importa o quanto a obra possa favorecer o deslocamento dos funcionários, prestadores de serviço, babás e diaristas que trabalham na região mas vivem noutros bairros da imensa metrópole que é São Paulo (incluindo os municípios adjacentes):  se eu e outros iguais a mim aqui em Higienópolis não fazemos uso,  consigo imaginar a sua lógica,  uma estação de metrô para quê?  Ah, o velho desprezo da burguesia (e suas classes-satélites) por tudo o que diz respeito à vida coletiva... 

Ao ler  Joias de família,  novela/romance ¹ de Zulmira Ribeiro Tavares (Editora Companhia das Letras, 2007), não pude deixar de recordar esse episódio da  gente diferenciada.

Graças à hábil construção dos dois parágrafos de abertura, o leitor consegue obter de imediato o delineamento da figura central da narrativa e do ambiente no qual esta se encontra instalada:

"Maria Bráulia Munhoz, no nono andar de seu apartamento no Itaim Bibi, prepara-se para o almoço. A mesa está posta para duas pessoas: ela e o sobrinho. A toalha sobre a mesa redonda, pequena, é de linho branco adamascado e no centro há um lago também redondo e pequeno, de espelho. Sobre a superfície do espelho pousa um cisne de Murano.

Maria Bráulia - de velhice definida mas idade não declarada, com movimentos seguros e rápidos, acompanhados de tapinhas, faz aderir ao rosto o seu segundo rosto, o 'social', de pele entre o rosa e o marfim, boca e face rosadas. Os cílios com rímel espevitam o azul dos olhos e atiçam o amarelo pintado dos cabelos. Com o rosto social mais uma vez encenado, o outro, o estritamente particular, recua, como acontece todas as manhãs, e é esquecido imediatamente por sua dona. Um rosto que de tão pouco visto por terceiros adquire a mesma modéstia do corpo murcho; e assim, trazê-lo à luz do dia, sustentá-lo sobre o pescoço como se fosse a coisa mais natural do mundo (o que vem aliás exatamente a ser), exibi-lo para  algum outro, ainda que muito íntimo, como o sobrinho, lhe pareceria um ato da mais absoluta e indesculpável falta de pudor".

Prenome (em geral, composto) imediatamente seguido de sobrenome: é assim que os  bem-de-vida  costumam se dar a conhecer - atestando a origem, a estirpe (embora, no caso de Maria Bráulia, seja possível  interpretar o sobrenome Munhoz  como uma espécie de downgrade, já que proveio do falecido marido, um "simples" juiz, nem de longe tão endinheirado quanto a família de nascimento dela). A residência é no Itaim Bibi: de acordo com matéria publicada pela  Forbes  no início deste ano, o terceiro m² mais valorizado do país (R$ 19.468, preço médio). Mencionar a pequena escultura do cisne de Murano não é fortuito: para além de ser mais um símbolo de status, a peça artesanal veneziana terá importante valor de representação no decorrer da trama.

A necessidade de se maquiar, o apego ao  rosto "social",  mesmo dentro de sua residência e diante de um parente, são a primeira expressão de alguns dos temas centrais do livro: a falsidade, a impostura.

Certamente há muito a se dizer a respeito da protagonista, mas gostaria de destacar nesta postagem uma personagem secundária: uma outra Maria, a empregada doméstica.

Maria Firmina trabalha há anos para a família de Maria Bráulia, a Dona Brau, desde o tempo em que a proprietária do apartamento no Itaim Bibi morava com a mãe e a irmã noutro endereço. Um costume, resquício escravocrata - hoje menos disseminado, ainda bem - entre os ricos brasileiros: arranjar uma moça pobre, muitas vezes ainda na adolescência e quase sempre negra, para limpar, lavar e cozinhar em suas residências. Entre tantas  Marias  (contando as patroas e outras empregadas), Firmina acabou virando a  Maria Preta, uma forma de diferenciação. É a própria doméstica que dá essa explicação (sem fazer conta do quão racista é a alcunha), em conversa com a sobrinha-neta e afilhada, que veio visitá-la, vindo de Santos: Benedita se prepara para fazer o vestibular e também trabalhar na casa de Maria Altina, a irmã de Dona Brau.

Reparemos este diálogo, após a visitante cumprimentar a patroa da tia-avó:

"- Meu Deus, Dita! Bene [Maria Preta havia contado à Maria Bráulia que a afilhada agora preferia o apelido Bene ]... o que houve com você? Mudou de cor?
- Deixei de tomar sol, dona Brau. Só isso.
- Quer ficar branca?
- Não tenho mais tempo de ir à praia, dona Brau. 
Maria Preta parece um pouco aflita. Fala um tanto apressadamente, de novo, engolindo as palavras, os olhos espertos, por trás dos óculos de aros dourados, de lá para cá:
- Não é mais aquela negrinha magricela que a senhora conheceu pequetita assim não é mesmo, dona Brau?
Maria Bráulia balança a cabeça divertida, muito, muito divertida:
- Não é mais magricela, não é mais negrinha, estou vendo. Você arrumou uma linda cor de caramelo Dita, Bene, Benedita. Tenha juízo heim? Vai fazer estragos em muitos corações.
Benedita permanece muda.
Quando Benedita de despede e lhe dá as costas de volta para a cozinha Maria Bráulia repara no seu traseiro duro e empinado, nas duas bolas que sobem e descem quando ela anda. 'Maria Altina vai ter que dar um jeito nisso', pensa. Isso é lá derrière que se apresente numa sala? Vai ter de lhe enfiar uma cinta, ou então um uniforme com saia larga, ou uma batinha sobre... O pensamento na sequência de operações necessárias para modificar a parte mais orgulhosa e independente de Benedita a reconforta muito".

Como as três personagens se colocam na situação? Benedita entra no modo  "poucas ideia" ; Maria Preta mal consegue disfarçar a intranquilidade; Maria Bráulia, aceitando a palavra da voz que narra, diverte-se. Por quê? Talvez esteja segura de que, mesmo com as mudanças vistas na jovem sobrinha-neta da empregada, cada uma vai continuar no seu quadrado: o lugar de cada uma dentro da estratificação social não mudará  (o de Maria Bráulia, uma pessoa branca ainda por cima, certamente não, no tempo que lhe restar de vida).

O humor e a ironia são um ponto a se destacar na prosa de Zulmira Ribeiro Tavares. Não se trata, é bom que se diga, de comicidade rasgada, piadista. A graça é sutil, mas nos pega de imediato, como, por exemplo, no ridículo ritual, mantido pela protagonista, de molhar as pontas dos dedos numa vasilha com água perfumada, coberta com uma pétala de rosa, ou no episódio em que nos é revelada a homossexualidade do juiz Munhoz. Na primeira parte da novela, encontramos outra dessas pinceladas sagazes:

"Maria Preta é discreta mas não é surda; e o apartamento é pequeno. Maria Preta é como se fosse da família. Em algumas circunstâncias isso quer dizer exatamente o que enuncia: que Maria Preta é como se fosse da família. Em outras, que Maria Preta não é como se fosse da família, uma vez que não é da família, é apenas 'como se fosse' ".

Mais uma vez, conto com a rememoração do(a) eventual leitor(a). Em 2023, veio a público um caso emblemático das barbaridades que ainda caracterizam parte do serviço doméstico no Brasil. Sônia Maria de Jesus foi resgatada após mais de 40 anos de trabalho análogo à escravidão - sem qualquer remuneração, recolhimento de contribuição previdenciária ou direito legal ao descanso (o STJ, contudo, acabou determinando que ela retornasse ao convívio de quem a explorou). Sônia saiu de casa aos nove anos de idade, indo viver, na época, com a mãe da atual patroa, que é casada com um desembargador (!) de Santa Catarina. A defesa deles alegou que havia um vínculo especial e era como se Sônia  "fosse da família"  (após a repercussão do caso, eles entraram com um pedido de paternidade socioafetiva). Os filhos biológicos do desembargador e sua esposa cursaram a escola regularmente, mas Sônia é analfabeta. Em vários períodos dormia e comia isolada numa instalação fora da residência principal. Não aparece nas comemorações nem nas fotos de eventos sociais com a família da qual supostamente é parte. Nunca lhe foi oferecida qualquer assistência pelo fato de ser surda (nunca aprendeu LIBRAS). Situações como a dessa mulher negra demonstram  "uma forma de exploração profundamente marcada pela herança escravista que desenhou o espaço doméstico brasileiro, e pela confusão entre afeto, favor e relação de trabalho", como observou a pesquisadora e professora de Direito do Trabalho Maria Carolina Fernandes de Oliveira (confira aqui).

Até onde onde o leitor pode chegar através do texto, seria falso dizer que a Maria Preta de  Joias de família  e Sônia Maria de Jesus têm a mesma trajetória. Mas há pontos em comum. Tanto no caso real quanto na construção ficcional, ninguém pode fugir do script. Maria Preta e Sônia nunca foram da família. É sempre  como se fosse. Dentro desta hierarquia social, para que tudo permaneça em "ordem", cada um precisa saber o seu lugar, tanto os privilegiados quanto os desfavorecidos. Aproveito a ocasião para sugerir ao(à) eventual leitor(a) revisitar aquela fantástica sequência da piscina envolvendo Jéssica, Val, Bárbara (a patroa) e o filho desta, Fabinho, no filme  Que horas ela volta?.

Claro que o componente racial não podia ficar de fora nessa necessidade de hierarquização e diferenciação. Em certo ponto da novela de Tavares, Maria Bráulia ouve um barulho de água caindo no piso de um dos cômodos próximos:

"Logo se dá conta: é aquela negrinha sonsa  [Benedita]  que só porque desbotou um pouco pensa que já é branca. Sempre que chega é o mesmo aguaceiro. Vai gastar toda a minha água da caixa com o tamanho desse banho".

Estou ciente que aspectos fundamentais de  Joias de família  ficaram de fora dessa minha abordagem (não fiz sequer uma alusão ao rubi sangue-de-pombo ou ao cabochão). A intenção, porém, era refletir sobre uma das formas como a hipocrisia é tratada no livro. E o enfoque na relação patroa-empregada me pareceu atrativo.

Talvez, noutra oportunidade, volte a essa narrativa.

Na próxima postagem, tratarei de  Sargento Getúlio,  de João Ubaldo Ribeiro. 

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¹ Muitas vezes não é tão fácil, como pode parecer a princípio, classificar um texto como  novela  em vez de  romance  e vice-versa (a mesma dificuldade pode acontecer na hora de estabelecer se determinado trabalho seria um  conto  ou uma  novela ). Joias de família, lançado originalmente em 1990 pela Editora Brasiliense e republicado em 2007 pela Companhia das Letras, em geral, é classificado como romance. Pessoalmente - e peço perdão pela petulância -, entendo-o mais como uma novela. E não é pelos discutíveis critérios da extensão do texto ou do número de páginas do volume. A meu ver, o livro de Zulmira Ribeiro Tavares (autora falecida em 2018) não apresenta as ramificações narrativas que costumam caracterizar os romances. Nem preciso dizer que ser uma novela não significa, em termos de qualidade artística, ser menos que um romance (só para constar,  Joias de família  venceu o Prêmio Jabuti em sua categoria em 1991): estou aqui apenas conjecturando em relação às distinções de um gênero literário/narrativo em relação ao outro.


BG de Hoje 

Não costumo me orgulhar do Brasil ou de ser brasileiro (OK, podem me chamar de vira-lata; sem embaraço, visto a carapuça). Mas sinto uma pequena alegria, digamos, ufanista, toda vez que escuto uma das composições da dupla JOÃO BOSCO e ALDIR BLANC. A obra desses caras, tantas vezes, resume a cultura, a língua e a musicalidade brasileiras, de um jeito que outros artistas, igualmente talentosos, não conseguiriam fazer se tentassem. Constate-se, ouvindo  Boca do sapo.  Isso, sim, dá orgulho. OBS: A canção já foi interpretada por Clementina de Jesus e Zeca Pagodinho, boas versões, mas nenhuma, em minha opinião, é melhor do que a faixa cantada unicamente pelo próprio João Bosco, gravada no álbum  Linha de Passe  (1979).