quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Após uma leitura de 1984, matutando sobre memória, linguagem e (in)compreensão da realidade

Atualizado às 20h05 do dia 25/02/2026 ]


Todos que já leram (e muitos dos que apenas ouviram falar de)  1984  conhecem o termo  duplipensamento

Na criação literária de George Orwell, o Partido que tudo rege precisa forjar um passado conveniente ao seu sistema de dominação - "quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado"  ¹ : eis o lema a ser seguido. Afirma-se que os fatos antigos  "não têm existência objetiva e que sobrevivem apenas em registros escritos e nas memórias humanas. O passado é tudo aquilo a respeito do que há coincidência entre registros e memórias". Cria-se, então, um corpo de funcionários, pertencentes ao Ministério da Verdade (onde, a propósito, trabalha Winston Smith, o protagonista do romance), cuja função é reescrever e falsificar a história.

Um dos objetivos dessas ações é preparar terreno para o duplipensamento :  

"Garantir que todos os registros escritos estão de acordo com a ortodoxia do momento é um mero ato mecânico. Mas é necessário  lembrar-se  que os fatos se passaram da maneira desejada. E caso seja necessário reorganizar nossas memórias ou alterar os registros escritos, também será necessário  esquecer  que o fizemos. O modo como se produz isso pode ser aprendido, como qualquer outra técnica mental. E ele  é  aprendido pela maioria dos membros do Partido: certamente por todos os que são ao mesmo tempo inteligentes e ortodoxos. Em Velhafala isso recebe o nome muito direto de 'controle da realidade'. Em Novafala é o  duplipensamento,  embora o termo  duplipensamento  também abranja muitas outras coisas.

Duplipensamento  significa a capacidade de abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias e acreditar em ambas".

Tem-se visto que é muito mais difícil manter grandes magotes de pessoas na rédea se apenas a violência física for empregada (isso não quer dizer, obviamente, que o chicote deixará de estalar, como demonstra o notável personagem O'Brein, no livro de Orwell, e como podemos perceber facilmente no mundo à nossa volta). Para alcançar uma submissão mais ampla, o opressor, além da força bruta, precisa agir também sobre a mente e a psique dos indivíduos, fazendo com que o jugo se dê cada vez mais "naturalmente", para que haja uma "aceitação" da parte do subjugado (a persuasão coercitiva - "lavagem cerebral", em termos mais toscos - pode ser um dos recursos utilizados, bem como estratégias de condicionamento). Em  1984,  o romancista enfatiza as ações da tirania sobre as  memórias, tanto as particulares, que dizem respeito a cada sujeito, quanto a supraindividual, ou seja, aquela memória resultante de uma construção social e coletiva do passado. O regime totalitário representado pelo Grande Irmão compreende perfeitamente a imperativa necessidade de agir sobre as produções que poderíamos chamar de receptáculos dessa memória:

"Esse processo de alteração contínua  [do que está registrado]  valia não apenas para jornais como também para livros, periódicos, panfletos, cartazes, folhetos, filmes, trilhas sonoras, desenhos animados, fotos - enfim, para todo tipo de literatura ou documentação que pudesse vir a ter algum significado político ou ideológico. Dia a dia e quase minuto a minuto o passado era atualizado. Desse modo era possível comprovar com evidências documentais que todas as previsões feitas pelo Partido haviam sido acertadas; sendo que, simultaneamente, todo vestígio de notícia ou manifestação de opinião conflitante com as necessidades do momento eram eliminados. A história não passava de um palimpsesto, raspado e reescrito tantas vezes quantas fosse necessário. Uma vez executado o serviço, era absolutamente impossível provar a ocorrência de qualquer tipo de falsificação".

O exercício contínuo e metódico para fraudar documentos e remodelar obras de arte visava corroer um dos principais meios para discernir a realidade. Embora, em  1984,  os membros do Partido fossem os mais diretamente afetados por essa contrafação, os assim chamados  proletas (no original, proles, redução de proletariat ) não experimentavam melhor sorte, atados à esfera de ignorância e distração destinada para estes, mesmo que parcialmente fora da implacável vigilância projetada para aqueles.

A tarefa de destruir a capacidade das pessoas de reconhecer e descrever o mundo real (e, portanto, também a destruição de sua capacidade para intervir nesse mesmo mundo) se completará com o embotamento da linguagem, convertendo-a numa funcionalidade comunicacional estreita e reducionista . 

Valorizo especialmente esse aspecto do romance de Orwell ²

No capítulo 5 da Parte 1, somos apresentados a um personagem que ilustra bem as intenções do Partido com a criação da Novafala  (ou  Novilíngua,  como se encontra em outras traduções) : um inteligente filólogo chamado Syme, que trabalhava no Departamento de Pesquisas.

"Que coisa bonita, a destruição de palavras!",  exclama ele, conversando com Winston durante o almoço no refeitório coletivo. Em sua explicação,   "Todo conceito de que pudermos necessitar será expresso por apenas  uma  palavra, com significado rigidamente definido, e todos os seus significados subsidiários serão eliminados e esquecidos", completando:  "Menos e menos palavras a cada ano que passa, e a consciência com um alcance cada vez menor"

Membro ortodoxo e dedicado do Partido, o estudioso da linguagem só consegue ver vantagem em tudo isso:

"Toda a literatura do passado terá sido destruída. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron existirão somente em suas versões em Novafala, em que, além de transformados em algo diferente, estarão transformados em algo contraditório com o que eram antes. A literatura do Partido será outra. Os slogans serão outros. [...]  Todo o clima de pensamento será diferente. Na realidade não haverá pensamento tal como entendemos hoje".

No refeitório, os dois acabam reparando num sujeito sentado na mesa ao lado, "falando sem dar trégua aos companheiros". Era "praticamente impossível distinguir uma só palavra na torrente de ruídos que jorrava da boca daquele homem". Ainda assim, dava para saber, por alto, o teor do que ele dizia: repetições de lugares-comuns do discurso habitual do Partido. Olhando para o sujeito, 

"Winston teve a estranha sensação de que aquele não era um ser humano de verdade, mas alguma espécie de simulacro. O que falava não era o cérebro do homem, era sua laringe. O material que ele produzia era formado por palavras, contudo não era fala no sentido lato: era um ruído emitido sem a participação da consciência, como o grasnado de um pato".

(Não é raro, no botequim que costumo frequentar, próximo à minha residência, deparar-me com alguns fregueses que agem da mesma maneira, ecoando ininterruptamente frases prontas a que foram submetidos diuturnamente, pelo '"Zap", como forma de reforçar suas visões de mundo...).

Dentro da Linguística contemporânea existe o entendimento de que a linguagem não tem apenas a função de descrever e espelhar o mundo: ela também constrói e confere sentido à realidade, ultrapassando o papel de mero instrumento de comunicação. Além disso, é possível perceber como a linguagem  molda  o pensamento humano (ainda que não o determine exclusivamente), bastando observar os diversos usos que fazemos dela. As reflexões de George Orwell estão em sintonia com essa convicção, sobretudo quando, no Apêndice de  1984,  ele deixa bem claro que "A Novafala foi concebida não para ampliar, e sim restringir os limites do pensamento  [...] "

Nesta terceira década do século XXI, olhamos ao nosso redor e constatamos que não é um grande regime totalitário de alcance internacional erigido em torno de uma única organização partidária que está colocando fatos históricos já consolidados em dúvida ou desbaratando a linguagem e, consequentemente, enfraquecendo, a cultura (aqui, como sinônimo de conhecimento). O duplipensamento e a novafala hoje são propagados de maneira difusa, recebendo um tremendo impulso graças às ações dos  "anjos tronchos do Vale do Silício",  como cantou o Caetano Veloso.  

O escritor norte-americano Thomas Pynchon escreveu um prefácio para uma edição especial de  1984,  que saiu em 2003 (esse texto foi incluído, agora como um dos posfácios, na edição brasileira de que me vali nesta postagem). Das análises da distopia orwelliana que já pude ler (não foram tantas assim), o texto de Pynchon é a melhor (a  Folha de S. Paulo publicou-a no extinto caderno  Mais!,  disponível aqui). Observemos o seguinte excerto:

"O que talvez seja mais importante - mais ainda, necessário - para um profeta é a capacidade de enxergar mais fundo na alma humana do que a maioria dos mortais. Em 1948  [ano de finalização do livro],  Orwell compreendeu que apesar da derrota do Eixo, a vontade fascista não havia desaparecido; que, longe de ter sido extinta, ela talvez estivesse apenas começando a se afirmar; que a corrupção do espírito e o irresistível vício do poder já estavam havia muito estabelecidos, constituindo aspectos bem conhecidos do Terceiro Reich e da União Soviética stalinista, até mesmo do Partido Trabalhista britânico  [da época de Orwell] - apenas rascunhos de um futuro terrível. O que poderia impedir que a mesma coisa acontecesse na Grã-Bretanha e nos EUA? A superioridade moral? As boas intenções? Uma vida pura?

O que foi melhorando progressiva e insidiosamente de lá para cá, tornando quase irrelevantes os argumentos humanistas, foi, é claro, a tecnologia. Pouco importa que sejam rudimentares os métodos de vigilância utilizados na era de Winston Smith. No nosso 1984, afinal, o circuito integrado ainda não tinha dez anos de idade e era de um primitivismo quase constrangedor se comparado com as maravilhas da tecnologia de informática de 2003, principalmente a internet, uma invenção que promete controle social numa escala que aqueles antiquados tiranos do século XX, com seus bigodes ridículos, nem sequer poderiam imaginar".

Presenciamos na atualidade, dentro da web, além do incessante vasculhamento por informações privadas e captação de dados pessoais, a perigosa equivalência dos discursos: dentro da lógica algorítmica orientada pelo lucro, a fala responsável de um especialista ou pesquisador ganha menos projeção que a estridência leviana de um bufão extremamente popular. É cada vez mais difícil construir consensos: afinal, para um contingente significativo de pessoas, só existem "narrativas", criadas para favorecer este ou aquele segmento e, portanto, vale tudo para fazer predominar os interesses particulares de ocasião. Num contexto de empobrecimento da linguagem, quem detém poder - sobretudo econômico - conseguirá manipular milhões de indivíduos e torná-los semelhantes àquele verborrágico sujeito que chamou a atenção de Winston e Syme no refeitório. Isso sem falar nos milhares de O'Breins treinados para manter essa disparidade (mas isso é assunto para uma outra postagem futura).

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¹ Todas as citações de  1984  reproduzidas nesta postagem foram retiradas da tradução de Alexandre Hubner e Heloisa Jahn, publicada pela Editora Claro Enigma (um selo da Companhia das Letras) em 2010.

² Além desses dois aspectos - a adulteração das memórias e a formulação de uma linguagem regulamentada primária e estéril  -, o livro evidencia ainda a disposição daquele regime totalitário de exaurir o desejo sexual, mas discutirei esse aspecto noutra ocasião, ao incluir outros textos literários. 

BG de Hoje

Das grandes maravilhas possibilitadas pela internet, agrada-me, particularmente, o acesso quase ilimitado à produção musical pregressa. Quando eu era jovem, não havia chance de ouvir, satisfatoriamente e em número suficiente, os(as) cantores(as)/compositores(as)/bandas que aguçavam minha curiosidade ou aqueles(as) que eram reputados(as) como importantes influências para outros artistas: naquela época, era inimaginável comprar a quantidade de álbuns desejada e os meios difusores então disponíveis - rádio e TV, praticamente - concentravam-se naquilo que representava sucesso comercial garantido, com raras exceções (bem, para ser franco, as empresas voltadas para a comunicação de massa nunca deixaram de impingir a homogeneização do gosto, seja antes ou depois do advento da web). Atualmente, porém, consigo mergulhar com facilidade (e baixíssimo custo) na discografia de cantores(as)/compositores(as)/bandas cujo prestígio era a única coisa que havia chegado até mim, pois nunca tivera a oportunidade de escutá-los(as) pra valer. E há também o prazer de ouvir, como numa descoberta, artistas que apareceram décadas atrás, dos quais eu não tinha a menor noção de que existiam. Nos últimos dias, "descobri" o som do FANNY, um pioneiro grupo de hard rock integrado por quatro mulheres na cidade de Los Angeles, nos anos 1970. Abaixo,  Seven Roads, faixa de encerramento do primeiro disco da banda.